Translate

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O livre arbítrio na Morte do Ego

O livre arbítrio é a capacidade de decidirmos consciente e voluntariamente o que faremos e as situações pelas quais passaremos. Ter livre arbitrio é ter o poder de decidir e conduzir.
O livre arbítrio pode ser considerado do ponto de vista exterior ou interior. De um ponto de vista exterior, temos livre arbítrio para falar, andar e atuar. Porém, quando consideramos a questão do ponto de vista interior, nos damos conta de que não temos liberdade para comandar os processos interiores que resultam no comportamento exterior e visível.
Normalmente, temos apenas uma pequeníssima margem de livre arbítrio interior (comparável à mobilidade de um violino dentro do seu estojo). A grande maioria dos processos emocionais e mentais não obedecem ao comando consciente. Nossos processos interiores se sucedem sem que tenhamos o poder de decidir a respeito.
Schopenhauer esclarece bem esse aspecto em sua obra "O Livre Arbítrio". Não temos o poder de deixar de desejar algo simplesmente por um esforço de vontade. Como os psicólogos demonstraram muito bem, os impulsos volitivos não deixam de existir quando são recalcados. Os desejos, sentimentos, emoções, pensamentos e lembranças estão lá, em nosso interior, e se processam de forma autônoma, não nos obedecem. Desejamos ou sentimos o que não gostaríamos de desejar ou sentir. Quando tentamos silenciar a mente, os pensamentos prosseguem, independentes e por si mesmos. Conclusão: o psiquismo humano é rebelde, não se submete aos nossos ditames, não temos o livre arbítrio que imaginamos ter.
Se não temos o livre arbítrio de decidir ou não o que iremos sentir e pensar, não podemos ser culpados pelo que pensamos e sentimos, pois são processos involuntários. Entretanto, temos um princípio, uma pequena margem de livre arbítrio interior que pode ser aumentada pela morte dos tiranos interiores. Uma vez que compreendamos como se realiza a morte do Ego, passamos a ser capazes de decidir se aumentaremos ou não nossa margem de livre arbítrio interior. Aí começa nossa responsabilidade.
Nos campos em que não temos livre arbítrio, seria uma perda de tempo tentar reprimir, controlar, recalcar, bloquear, sufocar ou resistir aos impulsos, pois estes atravessam as barreiras cedo ou tarde. Porém, nos campos em que já possuímos ou conquistamos a liberdade interior, podemos e devemos exercê-la, controlando nossas atitudes e atividades mentais, deixando de dar abertura e estímulo aos nossos defeitos. Em suma, não devemos reprimir os defeitos, mas não devemos reforçá-los. É tão errado resistir a um desejo, quanto provocá-lo, estimulá-lo ou "dar-lhe corda" em situações já superadas, nas quais o mesmo já está enfraquecido ou não se manifesta.
Diz o V.M.R. que devemos permitir que os defeitos aflorem mas não que atuem. A observação sem identificação associada à oração impedem que o defeito atue e o enfraquecem. A remoção dos bloqueios permite que ele aflore.
Uma coisa é permitir que um defeito aflore livremente, para ser observado. Outra coisa é permitir que atue livremente, para ser alimentado e fortificado. Permitimos que o defeito atue quando nos identificamos. Então perdemos a (pouca) consciência, adormecemos fascinados e nosso inimigo interior se fortalece.
Por meio da identificação, o ego atua livremente. A pessoa se sente sendo o próprio ego (daí o termo "identificar-se"), sente que é o próprio desejo e vive as cenas dos pensamentos como se fossem reais. Esta é a via pela qual o Ego atua e se enraiza mais e mais.
Por outro lado, se bloqueamos os defeitos e impedimos que aflorem, eles continuarão atuando fora do campo de nossa consciência, em outros níveis, e permanecerão causando dano. Bloquear um defeito não o impede de atuar, pois sua atuação prossegue em níveis inconscientes. O Ego bloqueado não deixa de agir, atua sem que o percebamos, simplesmente se oculta aos nossos olhos e atua de forma invisível. Quem resiste aos desejos não está deixando de alimentá-los, os está alimentando por canais insuspeitados, sem dar-se conta. A resistência não é, portanto, o caminho para impedir a atuação dos egos. Quem imagina que está impedindo um desejo de se alimentar porque lhe resiste está cometendo um grande erro.
O livre arbítrio interior que temos que empregar em tais casos corresponde à aplicação prática das orientações que recebemos sobre a morte do ego, as quais são muitas e não caberiam todas aqui, mas poderiam ser sintetizadas no seguinte:

1. romper a identificação com o ego (recordar-nos de nós mesmos);
2. observar os detalhes do ego em ação sem reprimi-los;
3. tomar as providencias eliminatórias (oração à Mãe Divina) imediatamente após detectá-los.

Deste modo, aplicamos corretamente o incipiente e quase inexistente livre arbítrio interior que possuímos e o aumentamos gradativamente.
Provas de que não temos livre arbítrio interior existem aos montes. Não temos o poder de não nos enfurecermos diante do insultador, de não nos entristecermos nas desgraças, de não temermos frente a ameaças, de não desejarmos o objeto da tentação. Quem duvida do que afirmei, que se submeta ao teste.

7 comentários:

  1. Caro escritor deste blog. Tenho umas dúvidas. Sobre a oração à Mãe Divina, como devo proceder?? Devo apenas pedir internamente: "Mãe divina, elimine este eu psicológico" ? Ou devo rezar alguma oração específica? A respeito da não-identificação com o ego, faço isso tomando consciência de que o ego não faz parte de mim, correto? Como sendo algo distinto de mim?

    Excelente blog.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Não é necessária nenhuma fórmula de oração, basta ser uma oração espontânea, carregada de sinceridade. Quanto maior a emoção ao pedir, mais intensa é a força da oração. E emoção é algo que não se força, se desenvolve gradualmente.

    ResponderExcluir
  3. P. "A respeito da não-identificação com o ego, faço isso tomando consciência de que o ego não faz parte de mim, correto? Como sendo algo distinto de mim?"

    R. Perfeitamente. Para tanto, você deve dar o choque da recordação de si, pois a recordação de si é exatamente para isso: para nos diferenciarmos dos egos. A recordação de si rompe identificação da essência com o ego, o corpo físico, a mente e tudo o mais. Essa dissociação é necessária para que haja a auto-observação e para que os elementos psicológicos percam o poder sobre sobre nós. Do contrário, ficamos fascinados, sentindo que somos os defeitos, e não conseguimos fazer nada.

    ResponderExcluir
  4. Eu escrevi um importante texto sobre este pormenor da pergunta mas infelizmente não estou conseguindo arrancá-lo do meu palm top.

    ResponderExcluir
  5. No caso de eu ser católico, posso fazer alguma oração à Nossa Senhora, para eliminar o tal defeito??

    ResponderExcluir
  6. Com certeza sim. A Mãe Divina está em todas as religiões, inclusive na sua religião católica. Se vc pedir a Nossa Senhora para que te livre de tal pecado, e observar os resultados, verá que Ela o enfraquecerá para você e você não necessitará mais ficar se segurando.
    A Mãe Divina é universal e é anterior às religiões.

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.