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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Concentração: preenchendo a mente com conteúdos superiores


Vamos voltar um pouco ao assunto dos conteúdos mentais.

A mente pensa com facilidade no aspecto negativo e sinistro da vida, nele se concentrando com extrema facilidade. Qualquer pessoa que tenha um problema grave sabe do que estou falando. A concentração da mente nos problemas e desgraças faz com eles aumentem de forma espantosa, o que leva pensamentos e emoções ruins a tomarem conta do cérebro, do sistema nervoso e do corpo. Ocupar-se com os maus pensamentos para tentar erradicá-los não é um bom negócio. Melhor é ocupar-se com pensamentos elevados.

Um motivo pelo qual a mente se ocupa facilmente com o mal é a crença inconsciente de que se pode atenuá-lo através de tal procedimento.  A mente realmente acredita que é necessário pensar nas coisas ruins para melhorá-las. Quanto mais pensarmos no mal, mais afundaremos em pensamentos negativos.

Sintonizar-se com os aspectos superiores da vida e do universo é possível quando pensamos no que é superior ao invés de pensar no que é inferior e terrível.


A mente humana pode ser considerada como a substância ou matéria (manas) que compõe os pensamentos e imaginações. Os conteúdos dos pensamentos são adquiridos ao longo da vida, desde a infância. Isso significa que aquilo que se passa em nossa cabeça é resultado de múltiplas e infinitas combinações de elementos capturados sensorialmente e retidos na cabeça, sob a forma de representações.

Quem prestar atenção em seus próprios pensamentos perceberá que são constituídos principalmente por imagens de tipo visual e por representações de tipo sonoro. "Vemos" e "ouvimos" cenas e acontecimentos na tela da mente.

Se ficarmos um dia inteiro passeando em uma praia, à noite perceberemos imagens mentais da areia, das ondas. Se passarmos o dia em uma floresta, as imagens serão de árvores, de folhas e coisas assim. Quando algo nos impressiona muito, seja positivamente ou negativamente, imagens correspondentes ficarão em nossa mente. Basta fecharmos os olhos e as veremos, pois tais imagens podem ser vistas pela clarividência incipiente que todas as pessoas comuns possuem.

Algo similar acontece com os sons. Os sons que ouvimos na vida formarão pensamentos "sonoros", sendo sua principal forma a tagarelice interior. Nas cenas mentais, nós falamos e outras pessoas falam. A mente imagina milhares de situações em que discursamos, discutimos, conversamos, perguntamos, brigamos etc. Tais pensamentos usam o recurso do idioma (português, inglês, francês etc.) para se processarem. Um latino-americano pensará em espanhol ou português. Um oriental pensará em árabe, japonês, chinês ou sânscrito. O idioma aprendido desde a infância serve como base para a tagarelice inútil da mente.

Além das tagarelices internas, merecem destaque as músicas insistentes que invadem a mente e "ficam na cabeça". Às vezes tais músicas se repetem por dias a fio, sem dar descanso. Tais músicas entraram na mente no momento em que as ouvimos e nos identificamos. Em geral, são músicas que detestamos ou das quais gostamos muito. Uma música pela qual nutrimos indiferença dificilmente se fixará na cabeça. Um bom antídoto para o problema é ouvirmos os sons da natureza por um longo tempo, deixando que impregnem a mente. Mantrans vocalizados por longo período também costumam ajudar. O que importa é substituir os sons indesejáveis pelos desejáveis.

Os sons mentais são recordações de sons ouvidos ao longo da vida, sob múltiplas combinações. O silêncio mental é a ausência de sons mentais. Um surdo de nascimento não terá tagarelices interiores e nem ouvirá sons mentais, embora tenha muitas representações mentais de conteúdos visuais.

O silêncio absoluto da mente somente é alcançado no samadhi. Na concentração existe um silêncio relativo. Os sons mentais não são os autênticos sons dos mundos internos, são projeções. Os verdadeiros sons dos mundos internos estão além dos sons mentais e da tagarelice mental. No entanto, os sons e as imagens percebidos durante a fase da concentração servem como guia, como barco para atravessarmos o oceano da mente e depois descartá-lo. As imagens internas com sons não-verbais se convertem, após a fase da concentração, em visões.

Portanto, aquilo que nos impressiona se transforma em conteúdo mental e imaginativo. Convém prestarmos atenção e tomarmos cuidado com o que presenciamos, vemos e vivenciamos. Se queremos aprender a nos concentrar e a meditar, não podemos encher nossa mente com lixo.

Se eu passar um dia inteiro presenciando cenas inferiores e negativas, sejam ao vivo, no computador ou na televisão, à noite não poderei me concentrar em outras coisas. As cenas com que preenchi minha mente irão atormentar durante a prática. No entanto, se eu passar o dia andando em uma praia, à noite poderei me concentrar com certa facilidade em praias e até ter alguns sonhos relacionados. Tudo terá sido voltado para a mesma direção. Temos que aprender a direcionar a mente e parte deste trabalho consiste em cultivar nela aquilo que nos interessa espiritualmente.

Uma das chaves para a concentração é o esquecimento de tudo. Não poderemos esquecer algo se o ficamos cultivando durante a vida.

Sempre que alguém pensar muito em algo, sentirá emoções correspondentes. Se pensar em algo ruim, sentirá emoções e desejos ruins e baixos. Se pensar em algo bom e superior, sentirá emoções elevadas e superiores.

Quando aprendemos a pensar em uma só coisa por um tempo prolongado, o pensamento único toma conta da mente. Emoções correspondentes ao tema pensado são sentidas e, em etapas profundas, nos unimos ao objeto.

O tema da concentração pode e deve ser algo bom que nos interesse: o Senhor Jesus, o Senhor Buda, o Senhor Krishna, o sol, o céu. Podem também ser temas abstratos, como a nossa origem e destino.

Em uma primeira etapa, somente pensamos no tema. Posteriormente, percebemos imaginativamente o objeto de forma nítida e sentimos vivamente as emoções correspondentes. Por último, ultrapassamos a distinção que nos separa do objeto. Tudo é questão de aprender a deixar que um pensamento único tome conta da mente, a impregne. O pensamento único é como uma porta que é atravessada quando é alcançada.

A capacidade de concentrar o pensamento, uma vez desenvolvida, pode ser direcionada a qualquer objeto sensível ou lugar. Posteriormente, pode ser direcionada àquilo que nos parece abstrato: o Atman, Deus ou Espírito Divino no homem.

Enquanto estivermos presos à mente, haverá necessidade de algo em que pensar. Somente quando escapamos da mente é que tais conteúdos se tornam desnecessários. Escapamos da mente durante o samadhi.

Neste universo fenomênico e relativo no qual vivemos, temos que pensar em coisas boas ou então pensaremos em coisas ruins. No entanto, além dos bons pensamentos da concentração, está o não-pensamento do samadhi. O não-pensamento autêntico é a forma mais elevada de pensar que existe.

Concentração: a importância de escolher adequadamente o lakshya

Alguns temas são facilmente penetráveis pela mente, enquanto outros são de difícil penetração. Um tema facilmente penetrável é um tema no qual conseguimos pensar com facilidade durante um certo tempo, sem esforço. A mente flui com facilidade dentro do tema e seus vários aspectos vão se revelando progressivamente. Infelizmente, a maioria dos temas facilmente penetráveis são ruins, negativos e nos conduzem perigosamente a estados indesejáveis e prejudiciais.  As fantasias sexuais são um exemplo de tema facilmente penetrável porém destrutivo. 

Por que alguns temas são facilmente penetráveis? Porque neles pensamos há bastante tempo e deles gostamos. Quando estamos acostumados a pensar constantemente em um tema, a mente flui com facilidade devido aos sanskaras criados. A mente pensa com facilidade naquilo que está acostumada a pensar, mas empaca quando queremos que pense em algo fora dos seus trilhos. Além disso, é mais fácil pensar prolongadamente em um tema geral e amplo do que em um tema específico e singular. Por exemplo: é mais fácil pensar demoradamente em múltiplas técnicas de luta do que em uma certa luta específica de Yip Man. Quando pensamos em um tema geral e amplo, os diversos subtemas surgem por associação e a mente flui dentro do objeto com certa facilidade, por este não ser tão restrito. 

Por outro lado, há temas de difícil penetração: são, normalmente, os temas com os quais pouco nos ocupamos, que rejeitamos, que nos enfastiam, incomodam ou irritam. Podem também ser temas muito singulares e específicos. Quando tentamos nos concentrar, o fluxo de idéias rapidamente se esgota e experimentamos um fastio irritante. Se tentarmos forçar as coisas, obrigando a mente a pensar, podemos adquirir um pouco dor de cabeça. A dor de cabeça na concentração advém quando tentamos arrebentar violentamente os sanskaras (condicionamentos mentais). O ideal é descondicionar a mente gradativamente e não tentar fazê-lo com violência.

Os praticantes de concentração e meditação provavelmente estarão cientes do fato de que os pensamentos costumam se esgotar (sem que a mente esteja silenciada) quando tentamos concentrá-los em algo difícil. O fluxo dos pensamentos, que deveria fluir em torno do lakshya, deixa de correr e faltam-nos pensamentos sobre o assunto, apesar de sobrarem pensamentos a respeito do que não nos interessa no momento. 

Após alguns poucos pensamentos, nada mais nos ocorre sobre o tema, mas muitos pensamentos intrusos aparecem e nos desviam. A mente não silenciou de forma geral, não esgotou o processo do pensar, simplesmente se recusou a pensar no que havíamos escolhido. O asno está teimando: não quer pensar no assunto, mas pensa em muitíssimas coisas inúteis que não interessam no momento. A mente deixa de pensar no lakshya para pensar em outros temas, desviando-nos do objetivo. A mente atira para todo lado e não se fixa em um alvo. Não será possível escapar da mente e atingir o silêncio mental se antes não direcionarmos o fluxo dos pensamentos em uma só direção.

Nesses casos, a pessoa nem sequer começa a se concentrar direito e logo já lhe faltam conteúdos para prosseguir com a prática. A pessoa procura e procura, mas não lhe ocorre nada mais além do que já é conhecido a respeito. De tanto repassar as mesmas informações, o praticante termina desistindo e deixando a prática para depois. O motivo: ele não tinha muito o que pensar a respeito do objeto escolhido e isso facilitou a invasão por pensamentos intrusos.

Essa interrupção do fluxo mental nada tem a ver com o silêncio da mente, muito pelo contrário, trata-se de uma teimosia do asno, que quer insistentemente pensar em outras coisas. A mente não está em silêncio, somente se recusou a pensar no lakshya para poder pensar em milhares de besteiras.

Para minimizar esta sabotagem específica do asno (de recusar-se a pensar no lakshya), podemos nos valer dos seguintes meios:

1. escolher um tema a respeito do qual tenhamos muita informação;

2. escolher um tema que nos agrade ou interesse muito;

3. escolher um tema concreto que seja amplo, como o oceano, o céu, uma floresta, os Andes ou os Himalayas.

Temas concretos, amplos, familiares e/ou que nos interessem muito reduzem as chances do asno recusar-se a neles pensar. São temas adequados para aqueles que estão começando, cuja mente ainda não está disciplinada e pensa em demasia sobre o que não interessa (a maioria de nós). O principiante deve começar com temas de fácil penetração e, aos poucos, ir entrando em outros temas conforme seu poder de concentração se desenvolva. É claro que o ideal é atingir um estado em que pensemos pelo tempo que quisermos e sem esforço algum no Íntimo, no Atman, no Buddha, em Cristo ou em Deus, mas não podemos chegar ao objetivo de uma vez. Enquanto isso, nos contentemos em prolongar o pensamento nEles pelo tempo e com a profundidade que conseguirmos. 

O problema da falta de conteúdos a serem pensados sobre o objeto da concentração atrapalha muito. Se não tivermos pensamentos sobre o lakshya, milhares de pensamentos desvinculados e desviantes surgirão imediatamente. A mente trabalhará de forma subjetiva, sem meta, e não pensará profundamente em nada.

A forma usual da mente pensar é subjetiva: ela pensa um pouco sobre cada coisa e vai mudando de tema constantemente. O pensar profundo e direcionado é algo incomum, ao qual a mente não está acostumada. A mente pensa superficialmente e mariposeia sem parar. Parar em um tema para aprofundá-lo é algo novo e incomum para a mente. Ao longo da vida, nos acostumamos com o pensar superficial e subjetivo.

Entenda-se que por "pensar", neste texto, estou me referindo principalmente ao ato de imaginar. 

De acordo com o tema escolhido, experimentaremos imagens, recordações, conclusões e também emoções correspondentes. Por tal motivo, convém evitar pensar em temas inferiores, em assuntos negativos que nos arrastem para a degeneração, a depravação e a perdição. Temas sublimes, espirituais e relacionados com a natureza são recomendáveis. Temas prejudiciais podem ser de fácil penetração e permanência, mas os resultados não compensam. Muitas pessoas que cometeram crimes focaram o pensamento de forma destrutiva e se acostumaram tanto com aquilo, que não foram mais capazes de reverter o processo.

Assim como existe o êxtase espiritual sublime da alma, existe o transe obsessivo infernal da mente. Se cultivarmos os maus pensamentos, eles nos conduzirão ao abismo. Se cultivarmos o pensamento elevado, seremos conduzidos a vários céus. A queda no mal é uma espécie de concentração, realizado ao contrário, para a escuridão. Os vícios e falhas de caráter que todos temos são o resultado do cultivo dos maus pensamentos. A mente é como um cavalo: pode nos conduzir em várias direções. O que importa é aprender a pensar corretamente.

Quando avançamos um pouco na prática, não necessitamos de palavras ou idiomas para pensar, a mente flui com imagens e sons internos e intrínsecos ao objeto. Quando estivermos bem dentro do tema, completamente esquecidos de tudo o mais, estaremos em plena concentração.

Quando, de todas as maneiras, o Ego nos confunde e nos impede de escolher um lakshya, deixando-nos perdidos e indecisos, podemos resolver o problema simplesmente entregando a decisão ao Íntimo e escolhendo aleatoriamente qualquer um dos temas entre os quais estamos indecisos, sem raciocinar a respeito, escolhendo "como um louco escolheria". 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Amar a Deus e não ao mundo


O ser humano normalmente tem dificuldade para amar a Deus, pois ama muito a matéria. Estamos enamorados por maya, o mundo da ilusão. 

Em maya está a nossa fé: cremos cegamente que o mundo sensorial da matéria é a verdadeira realidade. Vemos os mundos espirituais como vagas possibilidades ou, quando muito, como mundos meio "vaporosos" ou "abstratos". Para a maior parte da humanidade, espiritual é sinônimo de não-concreto.  Por não termos experiência direta com os outros mundos, duvidamos, no fundo, de que possam ser reais. 

Quando estamos doentes, confiamos mais em uma intervenção física (cirurgia) ou química (remédios) do que em uma intervenção energética (orações e rituais). E como poderiam as orações dar resultado se a porta para o Espírito está bloqueada? A falta de resultados com as orações reforçam nossas crenças e afundamos mais ainda no materialismo.

A idéia de que a energia seja matéria em outro estado é professada por muitos intelectualmente, mas poucos a sentem profundamente no coração ao ponto de realizarem prodígios. No fundo, desconfiamos que a energia seja menos real e menos concreta que a matéria.   

Portanto, amamos e temos mais fé na matéria do que no espírito. Essa é a trágica situação da humanidade. Para revertemos a situação, o caminho é a experiência direta e consciente com os mundos espirituais e com as forças que atuam na natureza e no universo. Orações, rituais, auto-conhecimento, meditação e viagens astrais romperão com o unilateral ceticismo materialista.

Não poderá amar a Deus quem está apaixonado pela matéria. Não deixará de estar apaixonado pela matéria quem a considerar a essência da realidade. 

Amar a Deus é amar Àquilo que temos de melhor dentro, de mais elevado, de sublime, nosso próprio Espírito. Se o Espírito Divino do Homem emana de Deus, então é óbvio que possui Sua mesma Natureza Divina. Os impulsos elevados provém de Deus. Quem quer ser capaz de amar o Deus Universal e Cósmico, deve começar aprendendo a amar o seu próprio Íntimo, que é o próprio Deus Cósmico dentro do ser humano.

Se Deus é onipresente, então está em todos os lugares. Se está em todos os lugares, está em toda matéria. Isso significa que Deus jaz no homem, no animal, na planta, na pedra, nos ventos, nos rios, no raio, no trovão, nas estrelas, nos planetas e em tudo. O Deus Universal é o Deus da Criação. Como podem aqueles que se dizem seus servos não reconhecê-lo na natureza e até lhe lançarem anátemas?

Há, no ser humano, assim como no resto da criação, um aspecto superior que é o próprio Deus em manifestação. Temos que fazer uma opção: ou amamos o Ego e a matéria ou amamos o Espírito. Do Ego provém os impulsos de satisfação sensorial e o amor pela matéria. Do Espírito provém os impulsos de auto-superação, de elevação, de crescimento espiritual, de unir-se à criação, de conhecer e viver nos céus, de libertar a alma dos desejos, de libertar a humanidade do sofrimento. O Espírito impele para cima e para s união com o Todo. O Ego impele para baixo e para a separação do Todo. Acreditamos que somos diferentes dos demais seres por causa da ilusão de separatividade projetada pelo Ego.

As frequências de energia existentes no universo e em nosso corpo são infinitas e nem de longe os cientistas as conhecem. Muito acima dos raios ultravioleta e dos raios gama, existem as frequências energéticas que compõem os universos divinos. Os universos divinos são concretos e materiais, porém vibram em frequências altíssimas. Talvez um dia essa humanidade tenha algum vislumbre grosseiro desses mundos.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Concentração: as emoções e o fluxo dos pensamentos


A mente flutua e se ocupa com vários assuntos de acordo com os desejos e emoções que os mesmos proporcionam. Os pensamentos são acompanhados por emoções: ao pensarmos em algo, sentiremos emoções correspondentes. 

Quanto mais prazer ou emoção sentirmos ao pensarmos em algo, por mais tempo pensaremos naquilo. Quando algo não nos dá prazer ou emoção alguma, torna-se impossível pensarmos naquilo por tempo prolongado. 

Um aluno não pensará profundamente e por longo tempo em uma matéria escolar detestável. Ainda que seja obrigado àquilo, o fará de forma forçada e superficial. Uma mulher não pensará em um homem que lhe pareça desinteressante ou sem graça e jamais se apaixonará pelo infeliz. 

Quando um tema não desperta nenhuma emoção ou interesse, a mente se recusa a nele pensar. Se tentarmos forçá-la, o fará por apenas alguns instantes. Um praticante que queira desenvolver a concentração não pode negligenciar esse fato.

Considerando o que foi acima exposto, vemos que a concentração não é algo frio e sem emoção. A prática da concentração não se restringe ao mero intelecto. O intelecto é somente o ponto de partida, o salto inicial. 

Em uma fase muito inicial, pensamos no lakshya usando a linguagem interna de forma analítica. Em seguida, dispensamos a "vozinha" e deixamos de usar o nosso idioma nativo para pensar, valendo-nos tão somente de imagens mentais. Após isso, deixamos o caráter analítico da prática e passamos a receber as características do objeto de forma puramente perceptual e instintiva. Nesta fase, estaremos nos valendo somente da percepção interna por via imaginativa e os sentidos já deverão estar desligados ou se desligando. A recepção perceptiva do lakshya exige certa atividade do chakra ajña (entrecenho) e começa a exercitá-lo. Quando estivermos "vendo" as cenas com os olhos fechados, como se estivéssemos com os olhos abertos, o chácara estará trabalhando. A concentração desenvolve a visão espiritual (vidência consciente ou clarividência).

Nesse ínterim, não podemos negligenciar as emoções. Ao pensarmos no tema, devemos nos abrir às emoções provocadas. Cada tema provoca emoções correspondentes e por isso convém escolher temas sublimes que nos encham de emoções superiores. 

Se nos concentrarmos no mar, os pensamentos e imagens relacionados provocarão emoções específicas, tais como a de estarmos na praia, mergulharmos, velejarmos, observarmos as criaturas marinhas ou sobrevoarmos os oceanos. As emoções "oceânicas" são o caminho ou princípio que nos conduzirá a emoções cada vez mais espirituais e profundas a respeito do assunto. Se as emoções nos preencherem, estaremos realmente sentindo o oceano. O chakra do coração (anahata) estará sendo exercitado, puxado a trabalhar. Quanto mais o chakra anahata trabalhar, mais desenvolvido ficará, maior será a intuição e mais intensas as emoções superiores.

O coração se desenvolve com o cultivo de emoções superiores. Quem cultiva emoções inferiores e negativas, desenvolverá o coração de forma negativa, seu chakra ficará parado ou irá girar cada vez mais ao contrário do que deveria. Seu pobre coração será uma porta aberta para egos cada vez mais pesados e perigosos. Em certos casos, egos de outras pessoas, vivas ou desencarnadas, obsessionam a pessoa, pois a mesma se tornou uma porta completamente aberta para os defeitos.

Se você tem a porta aberta para as emoções negativas, sugiro que comece a cultivar as emoções superiores de forma cada vez mais intensa e abandone as emoções inferiores.

As emoções são o segredo do avanço nas práticas de concentração e meditação. Por isso, segundo Sivananda, Patanjali recomenda que a pessoa se concentre naquilo que considera agradável e interessante. O V.M. Samael também afirma que a concentração é "atenção, plena natural e espontânea em algo que nos interessa, sem artifício de espécie alguma" (vide O Mistério do Áureo Florescer). De fato, a concentração em algo que nos interessa é a atenção naquilo que evoca emoções e prazer. Não há sentido em tentar concentrar-se em algo que não desperta interesse algum, o asno da mente não se atém àquilo.

Quando elegemos um tema como lakshya, de nada adianta tentarmos nos concentrar se não nos abrirmos para as emoções correspondentes. Quanto mais intensa for a emoção que liberarmos, mais a mente se prenderá ao tema e nele pensará longamente, esquecendo tudo o mais. Ao mesmo tempo, a visão espiritual e as emoções superiores estarão sendo postas em atividade e se desenvolverão.

Inicialmente pensamos. Depois o pensar se transforma em imaginar. Em seguida, o imaginar se transforma em perceber e sentir, os quais vão se aprofundando gradativamente.

Se você tiver alguns sonhos lúcidos com o seu lakshya, isto será perfeitamente normal e um sinal de avanço, mas não se contente com eles, prossiga.

Se quisermos nos concentrar no Senhor Jesus ou no Senhor Budha, não nos esqueçamos de buscar sentir as emoções que a prática irá evocar. Se quisermos nos concentrar na 9ª Sinfonia de Beethoven, não nos esqueçamos das emoções. As emoções nos prenderão àquilo que nos interessa. 

O desenvolvimento espiritual é o desenvolvimento do coração. E o desenvolvimento do coração é o desenvolvimento das emoções superiores. Sem as emoções, não existirão concentração, meditação e nem nada.

Nossa capacidade de sentir o superior está atrofiada. Passamos a vida gozando com o que é baixo, infernal, tenebroso e negativo. O caminho para reverter esse quadro nefasto é o cultivo do contrário. De nada adianta perder o tempo tentando reprimir as emoções negativas, melhor é substituí-las pelas emoções superiores.

Ao pensarmos nas características do objeto, convém tocar suas características levemente, sem esforços. Somente dar-se conta dos múltiplos e infinitos aspectos é suficiente. Fazer esforços para aprofundar a concentração é contra-indicado. Os pensamentos e imaginações devem fluir com a mesma leveza e naturalidade com fazem quando estamos distraidos com devaneios, com a diferença de que se dão conscientemente e não se desviam. A atenção será plena (sem desvios), natural e espontânea (sem esforços e sem conflitos com a mente). 

domingo, 20 de maio de 2012

Transmutação: quebrando o círculo vicioso da energia sexual

A fornicação é um círculo vicioso (orgasmo → enfraquecimento → recuperação → orgasmo).  Quem quer sair do círculo vicioso da fornicação deve dar um choque consciente em si mesmo. Do contrário, não pulará para uma nova oitava.

Os egos da luxúria não nos atacam logo após o orgasmo, porque o corpo está descarregado e não dispõe de energia para sustentar os processos fisiológicos sexuais, tais como excitação, ereção e outros. É algo similar ao que acontece com quem está extremamente cansado por muito esforço físico: ele não conseguirá brigar com ninguém. 

Há uma contradição no sexo: quanto mais forte nos sentimos sexualmente, mais assaltados somos pelo desejo e mais propensos a uma descarga energética estamos. Esse processo pode ser comparado a encher uma vasilha com água: quanto mais cheia, mais próxima de derramar. Quem transmuta sua energia evita que a vasilha se encha.

Quanto mais antecipadamente percebermos a aproximação de um desejo na mente, tanto mais facilmente podemos enfraquecê-lo mediante a Morte em Marcha. Se permitimos que um desejo se arraigue nos centros, ficará mais difícil enfraquecê-lo depois.

Ficar passivo, sem nada fazer, enquanto o desejo se manifesta e se arraiga, é o mesmo que auto-acorrentar-se para depois tentar se libertar.

Buscamos a Morte para não termos que satisfazer e nem reprimir. Não satisfaça e nem reprima: descubra, suplique e esqueça. Não fique procurando os defeitos, deixe que eles apareçam.

Transmutar a energia sexual é modificá-la, tornando-a mais leve, sutil e refinada. A energia que não é transmutada é inevitavelmente ejaculada ou sofre uma deterioração dentro do organismo.

O procedimento para transmutar a energia consiste em três coisas: purificação do erotismo, ato sexual sem orgasmo e condução da energia para dentro e para cima, por meio da imaginação.

A purificação do erotismo é conseguida por meio da morte da luxúria, o que substitui o desejo animal pelo impulso erótico espiritual. O redirecionamento da energia é conseguido por meio da prática do coitus reservatus ou magia sexual (maithuna). A energia é conduzida para dentro e para o alto por meio da imaginação e da respiração. A imaginação e a respiração a desviam dos canais ou caminhos orgásmicos.

A transmutação sexual é o choque que nos permite sair do círculo vicioso da fornicação. Quem não pode transmutar (solteiros, viúvos, doentes e demais impossibilitados) deve pelo menos sublimar seu erotismo com mantrans, respiração, concentração e meditação. A sublimação é o princípio da transmutação. Quando o(a) parceiro(a) for impossibilitado sexualmente, a pessoa pode praticar a carezza (carícias sem penetração), que é uma forma de transmutação mais superficial. Quem tem duas ou três mulheres, deve definir sua situação, escolher uma delas e desligar-se sexualmente das demais. Se o desligamento sexual não for possível sem o afastamento total, deve finalizar os relacionamentos.

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Todo homem sabe que, após uma ejaculação, o desejo arrefece. 

Antes do orgasmo, o homem desfruta de uma sensação de intenso vigor no órgão sexual. Após o orgasmo, o que se sente no órgão sexual é fraqueza, vazio e debilidade. Por mais que estejamos empolgados e excitados com a mulher, por mais louca que seja a fantasia sexual que estiver sendo satisfeita, o "morbo" desaparecerá completamente após um ato de fornicação. Não importa se a mulher é a mais linda do mundo, após a ejaculação o homem é um trapo.

Tal fato demonstra a relação intrínseca entre desejo e esperma: ao perder o esperma, esvai-se o desejo. Portanto, o desejo vincula-se estreitamente a presença do esperma dentro do organismo do homem. 

Sem o esperma, não há como acender o desejo. Uma mulher poderá lançar mão de todos os recursos existentes e disponíveis para excitar um homem após o esgotamento sexual, mas não terá sucesso. A excitação do homem não é possível ou é muito fraca após o orgasmo, o que indica que o aparelho fisiológico sexual necessita do combustível espermático para repetir suas façanhas.

Algum tempo após o orgasmo, o macho começa a sentir leves impulsos: começa a sentir algo ao olhar para as fêmeas. Isso indica que a energia está sendo aos poucos reposta. Tempos depois, estará novamente em ponto de bala: sentirá ereções e fortes excitações sexuais, pois sua energia terá sido reposta. Neste ponto crítico, o homem se deixa levar pelo desejo e repete o ciclo, caindo novamente na fornicação. Vivendo neste círculo vicioso, o homem passa os seus dias, até a impotência sexual total. 

Fica evidente, pelos fatos mencionados, que há alguma força especial no esperma, alguma energia, algo que se perde com ejaculação. Esse algo é a força sexual ou energia criadora. Quanto maior a quantidade de energia sexual, maior a intensidade do impulso de relacionar-se sexualmente. O homem vive no círculo vicioso da fornicação. A energia possui um caráter contraditório: quanto mais energia, maior o vigor para exauri-la e enfraquecê-la.

Para sair do círculo vicioso, é necessário aprender a transmutar (redirecionar) a energia sexual. A força sexual é altamente explosiva e de difícil condução, sendo impossível simplesmente armazená-la. Quando tentamos armazenar a energia sexual, ela simplesmente explode na forma de ejaculações involuntárias. Quem quer livrar-se do vício da fornicação deve aprender a redirecionar a energia para dentro e para cima, redistribuindo-a pelo corpo físico e pelos corpos internos. Isso se chama transmutar. 

A energia ascenderá somente se for transformada. Caso não seja, não será possível seu ascenso. Mediante a concentração e a meditação nas glândulas sexuais, a energia se tornará mais leve, mais refinada e mais sutil (o que equivale a dizer que ela se tornrá mais espiritual e menos animal). A energia em estado comum é bruta, densa e pesada demais para subir, se comparada à energia transmutada. Apenas a energia transmutada pode ascender pela coluna. A luxúria deixa a energia pesada e não permite seu redirecionamento. 

Os momentos em que estamos mais carregados com a energia bruta são os que estamos mais expostos à sua perda. Sendo assim, quanto mais carregados estivermos, mais intensamente deveremos trabalhar na Morte em Marcha.

Alguns dias após o orgasmo, o macho se sente forte, poderoso. Pilatos diz em sua mente: "Tenho bastante energia agora, não haverá problema em perder só um pouco..." e ele então lava suas mãos e não se sente culpado. Este é o momento crucial para pularmos a oitava, por meio de um choque consciente adicional. Se intensificamos a Morte e as práticas nesses momentos, damos um salto para outro nível.

É difícil ver o sexo de forma espiritual: a luxúria nos arrasta à animalidade. No entanto, a transmutação da energia é, entre outras coisas, a transformação da forma de encarar o ato sexual.

Em suma, quanto mais fortes sexualmente estivermos, mais excitáveis estaremos. Quanto mais excitáveis, mais propensos a sermos invadidos pelo desejo. Quanto mais invadidos, mais próximos da perda da energia. A saída do círculo vicioso está na intensificação das práticas sempre que percebermos que o desejo se aproxima para tomar o controle.    

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Concentração: destravando o passo do asno empacado


A interrupção do fluxo mental pelo esgotamento de idéias

Às vezes, durante a concentração, o fluxo do pensamento único chega até um ponto e fica interrompido pela falta de idéias sobre o lakshya. Isso não significa que tenhamos atingido o não-pensamento, significa tão somente que estamos presos ao nível intelectual e não estamos conseguindo ir além, aprofundando a prática.

Quando faltarem idéias para compor o pensamento único durante a concentração, procure características intrínsecas ao lakshya que ainda não foram consideradas. Elas darão continuidade ao curso do pensamento.

Convém iniciar o aprendizado da concentração pensando em algo sobre o qual tenhamos bastante informação. Quanto mais informação tenhamos sobre algo, menos propensos seremos de sermos atingidos pela interrupção súbita do fluxo mental.

O que interessa é aprender a ultrapassar as barreiras da concepção superficial, extraindo informações da mente com crescente profundidade, de forma a compreender e conhecer cada vez mais o lakshya, até o momento em que o pensamento único se esgote.

Há uma diferença entre o fluxo mental que se esgota espontaneamente, dando lugar à meditação, e o fluxo que é interrompido bruscamente sem ter sido esgotado.



O pensamento concentrado em um tema é imaginação consciente, os pensamentos dispersos são  imaginações mecânicas.

É comum, durante a concentração, que nos faltem pensamentos (imaginações conscientes) sobre o lakshya e que sobrem pensamentos inúteis sobre o que não nos interessa. O asno da mente tenta sabotar a prática porque quer seguir seus erráticos caminhos subjetivos e inúteis.

Quando o asno da mente se recusa a prosseguir pensando no lakshya, temos que empurrá-lo para frente com pensamentos propositais e voluntários. Se, ainda assim, nada novo nos ocorrer sobre o assunto, podemos tentar "abrir a imagem mental".

Suponhamos que eu queira meditar na planta do bambu. O bambu será, então, o meu lakshya. Começo a concentrar meus pensamentos no bambu e, dali há instantes, o pensamento deixa de fluir, nada mais sobre o bambu me ocorre, mas também não recebo nenhuma revelação e, para piorar, pensamentos alheios ao tema começam a aparecer. Como eu daria um empurrão adicional à mente para que ela continuasse a pensar no bambu?

Primeiramente, traria minha imaginação de volta ao bambu (pois imaginar é uma forma de pensar). Em seguida, começaria a extrair da imagem mental seus detalhes. Perguntaria para mim mesmo: Qual é a cor do bambu imaginado? Qual é o seu estado? Em que ambiente está o bambu? O bambu está limpo ou está sujo de terra? Está empoeirado? Está seco ou verde? É a imagem de um bambu recentemente cortado ou de um bambu seco e envelhecido? O estou visualizando sob a luz do dia? Infinitas outras perguntas poderiam ser feitas. As respostas sinceras a tais perguntas fariam com que a mente retomasse novamente o seu fluxo. 

Eu poderia também, imaginativamente, partir o bambu ao meio e esquadrinhá-lo por dentro. O que há ali dentro? Como é esse bambu interiormente? Em seguida, posso imaginar mil e uma maneiras do bambu ser usado pelas pessoas: para levantar varais de roupas, como alimento, para construção de casas, para surrar alguém malcriado (risos), como uma vara de pesca.  Talvez me ocorra descobrir qual é a função do bambu na natureza e então me dê conta de que ele serve de alimento para certos animais ou algo assim.

O que importa, quando o asno empaca, é encontrar aquilo que ainda não foi cogitado, aspectos do lakshya que ainda não foram imaginados, questionados ou pensados. O passo do asno irá destravar quando descobrirmos algo novo sobre o tema. Qualquer conteúdo ou aspecto que estiver intrinsecamente ligado ao bambu será válido e poderá ser acolhido.

Caso as imagens do bambu estejam sendo visualizadas com certa nitidez, podemos experimentar entrar em seus detalhes morfológicos como se o observássemos com um microscópio. Escolhemos uma parte qualquer do bambu e tentamos "vê-la mais de perto", isto é, ampliá-la, com o intuito de descobrirmos o que há ali, quando observado a uma escala microscópica. Se a concentração estiver profunda, poderemos ver pequenos canais por onde circula sua seiva, talves vejamos suas células, partículas ou algo assim. Tudo isso imaginativamente.

Deixemos de lado a preocupação com o fato dos conteúdos imaginados corresponderem ou não com a realidade. Nossa preocupação agora é somente disciplinar a mente e atingir níveis profundos de concentração. Depois, caso queiramos, podemos confrontar o que imaginamos com fatos reais do mundo físico (abrindo um bambu fisicamente para ver se corresponde com o que imaginamos ou olhando seus pedaços em um microscópio, por exemplo). Ainda que não exista grande correspondência entre o que imaginamos durante a prática e aquilo que constatamos posteriormente, por meio do microscópio, não haverá problema algum, pois nossa meta é chegar ao pensamento único para descartá-lo em seguida. O bambu é apenas um ponto de apoio.

Enquanto estivermos com a imaginação direcionada sobre o lakshya, tudo o mais deve ser esquecido: o corpo físico, as doenças, as tristezas, os problemas, as preocupações da vida, o lugar onde estamos, a época ou data em que estamos, o passado, o futuro etc. O desprendimento deve ser total. Somente deve existir o alvo da imaginação, aqui e agora.

Em fases mais profundas da concentração, pode ser que sintamos uma indefinível sensação de podermos ir além do bambu para capturarmos algo que não conseguimos definir o que é, mas que pressentimos estar "depois" ou "além" dele. Se não tivermos medo, podemos transpor essa passagem e já estaremos no começo da meditação propriamente dita. Estaremos então meditando de fato no bambu e muitas coisas interessantes serão reveladas. As pessoas experientes permanecem por certo tempo neste estado, mas os principiantes experimentam apenas "flashes" momentâneos, pois retornam quase imediatamente após entrarem.     

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Transmutação: a imaginação que conduz a energia para cima


A imaginação pode conduzir o fluxo da energia sexual em duas direções: para fora ou para cima. A imaginação determina o rumo da energia.

Se a imaginação seguir os trilhos dos desejos e fantasias eróticas, conduzirá a energia ao orgasmo. Se a imaginação seguir os trilhos da transmutação, conduzirá a energia para o êxtase e a cura do corpo. A imaginação segue o caminho da transmutação quando, em plena excitação sexual, não nos deixamos arrastar mentalmente pelas fantasias e, ao invés disso, mantemos a mente ocupada com a imagem do fogo sendo conduzido pela coluna até o cérebro e dali se espalhando pelo coração. 

Este é o segredo da não-ejaculação: manter a mente ocupada com a idéia da transmutação e não permitir que nenhuma fantasia erótica se processe. A mente comanda o processo, mas a consciência deve comandar a mente. 

Quando um pensamento se apossa completamente de uma pessoa, interfere em sua fisiologia. Se os pensamentos luxuriosos e fantasias sexuais se apossam da mente, conduzem a fisiologia ao orgasmo. Se o pensamento concentrado na transmutação se apossa da mente, irá conduzir o fogo para o cérebro.

A fornicação é uma espécie de concentração que resulta em desgaste energético, motivo pelo qual não nos interessa. A transmutação sexual por meio da vontade e da imaginação é outra forma de concentração contrária à fornicação. A transmutação sexual exige ato sexual real, com intensa concentração transmutatória, e posterior complemento imaginativo, igualmente transmutatório.


A imaginação é a responsável pela condução da energia sexual. A imaginação morbosa produzirá orgasmo, a imaginação espiritual transmutará e conduzirá a energia pela coluna.

Sem as imaginações morbosas e fantasias sexuais não existiria a fornicação e nem o orgasmo. Um ser humano desprovido de imaginação seria inorgásmico. Similarmente, sem a imaginação espiritualizada correta durante o ato sexual não se pode modificar a energia para torná-la mais leve e fazê-la subir. O êxtase erótico espiritual será impossível para quem não houver desenvolvido a imaginação pura e a concentração. Não há saída: ou desenvolvemos a imaginação positiva e pura ou seremos tragados pelas imaginações negativas e morbosas.

Concentração: aquele que fala e aquele que observa


Dentro de você há aquele que pensa, que fala sem parar, e aquele que observa. Aquele, dentro de você, que observa é sua essência. Aquele que tagarela é sua mente. 

Quando nos dissociamos daquele que fala, experimentamos o silêncio. O silêncio interior provém do afastamento do ego tagarelante.

A mente é múltipla, a mente é um conjunto de muitas mentes. Não há portanto, um único pensador, mas milhares de pensadores dentro de nós, todos tagarelantes. 

Concentrar-se é esquecer: deixar para trás tudo o que não seja o lakshya, abandonar. 

Na concentração, não perdemos o tempo correndo atrás dos pensamentos e nem procurando-os para aquietá-los, simplesmente os deixamos de lado e permanecemos em nossa essência, contemplando o objeto que nos interessa. A essência presta atenção, recebe e não pensa.

O pensamento único não resulta da imposição de um pensamento sobre todos os outros, com o intuito de forçá-los a se aquietarem. O pensamento único é resultado do abandono dos múltiplos e variáveis pensamentos e da ocupação com apenas um único pensamento escolhido. Abandonamos os milhares de pensamentos quando deixamos de nos ocupar com eles, de nos entretermos prestando-lhes atenção.

Concentre-se com leveza, sem fazer esforços para concentrar-se. Apenas toque levemente os vários aspectos do tema. Não faça esforços para aprofundar a concentração, deixe que o aprofundamento ocorra por si mesmo.

Se a concentração atrapalhar o sono, isso indica que o praticante está ansioso por concentrar-se. A ansiedade por concentrar-se trava a prática.

Uma associação subconsciente entre concentração e contração provocará tensionamento. Veja a concentração como algo que tem a mesma natureza descontraída do relaxamento.

Concentrar a atenção e concentrar o pensamento não são a mesma coisa, mas são indissociáveis e intimamente relacionados. Não é possível concentrar o pensamento se a atenção não estiver focada. 

O observador silencioso (nossa alma ou essência) contempla aquilo que lhe interessa. O observador silencioso recebe e compreende. Em silêncio, o observardor contemplará o desenvolvimento do pensamento único, percebendo inclusive os sons internos que possam acompanhá-lo.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Evitando situações sem retorno


Não devemos jamais entrar na frequência do Ego. Quem entra na frequência dos desejos se torna incapaz de livrar-se dos seus resultados. Nesse sentido, há necessidade de empenho e férrea determinação para resistir às identificações.

Há situações sem retorno, das quais não saímos sem que o ego tenha se alimentado, fortificado e satisfeito. São situações irresistíveis, em que perdemos completamente o controle de nós mesmos e nas quais o ego forçosamente se manifesta com todo o vigor. Um luxurioso não resistirá à tentação de fornicar se entrar em um prostíbulo, um viciado em jogos não resistirá à tentação de jogar se entrar em um cassino. Enfrentar tais situações é o mesmo que atirar-se contra uma parede: você inevitavelmente se arrebentará. 

É uma tolice enveredar por caminhos e situações que obrigatoriamente promoverão a manifestação livre e desenfreada dos egos. A desculpa de fazê-lo com o intuito de conhecer a si mesmo ou de aperfeiçoar-se não passa de uma estratégia de auto-engano. A Morte exige que abandonemos todas as formas de nutrição do ego. Situações irresistíveis, que forçam fatalmente a manifestação dos desejos contra todas as nossas tentativas de enfraquecê-los não devem fazer parte da nossa vida. A gama de situações fatalistas é imensa.

Todo ato que, de alguma forma, esteja relacionado a um defeito o fortifica. Temos que vigiar os atos e corrigi-los, retirá-los, mediante a Morte em Marcha. Através da fala, milhares de defeitos se fortificam; através dos movimentos (andar, gesticular, deslocar-se), outros tantos; através dos pensamentos, outros mais. Em muitos casos, somente o fato de percebermos determinados objetos acende o desejo. Se nos entretemos ali, com o defeito evocado, estamos lhe fornecendo energia. Embora não devamos reprimir e tenhamos que permitir que aflorem espontaneamente, não devemos ficar passivos diante da manifestação, alheios à mesma, sem nada fazer. Diante da mais tênue manifestação, temos que reagir imediatamente, não com repressão, mas com oração pela Morte.

É um erro comum percebermos o afloramento de um defeito e, ao invés de orarmos imediatamente pela Morte, nos entretermos prestando-lhe atenção, enquanto vamos enveredando pelo beco sem saída. Se me limito a prestar atenção a um desejo, enquanto ele toma força, terminarei simplesmente possesso. Entrarei em um beco sem saída, do qual somente poderei sair derrotado. A crença de que a simples atenção o enfraquecerá é falsa. 

Morrer é descobrir e retirar da vida os atos que nos levam às situações sem volta, nas quais o Ego fatalmente toma o inevitável controle. Deixar-se arrastar para tais situações é agir equivocadamente. Melhor é  aprender a agir bem antes e desviar o caminho mediante a Morte em Marcha.

Se não sou capaz de olhar para uma mulher bonita sem sentir desejo, então por que devo olhar? Melhor é não olhar e não percebê-la. E para não percebê-la, devo aplicar a Morte em Marcha no impulso motor de dirigir o olhar para as partes mais desejáveis do seu corpo.

Entre o Ego e o Ser temos que tomar uma posição definida. Temos obrigatoriamente que nos definir: de que lado queremos ficar? Quem não se define e, mesmo assim, tenta morrer, fica estancado por tempo indeterminado, talvez por toda a vida. Não é possível morrer quando não nos enraizamos no Ser.

Estar definido pelo Ser é ser radical com tudo o que seja Ego, não deixando que nada escape. O Ego é como uma praga: ressurge facilmente de qualque resíduo que seja deixado.

A auto-observação tem a a função de nos levar a descobrir os caminhos equivocados que trilhamos rumo às situações sem retorno. A reflexão nos permite fazer um levantamento de todas essas situações em que diariamente caímos. Quais são as situações sem retorno em que caímos diariamente? Por onde chegamos até elas? Quais foram os detalhes que nos levaram até as mesmas? O Ego nos prega muitas peças e monta armadilhas. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Alcançando e preservando os momentos de paz interior

Após a satisfação do desejo, ele nos dá uma trégua e muitas vezes nos arrependemos. Há, por assim dizer, um vácuo ou ruptura em sua manifestação. Uma vez alimentado, o desejo se afasta temporariamente, somente para retornar com mais poder sobre nós em seguida, pois colheu energia e se nutriu. A satisfação exige identificação e arraiga fortemente o desejo em nossa personalidade, reforçando e criando sanskaras (conjuntos de sinapses).

A trégua pós-satisfação nos permite conhecer, por um breve tempo, o que seria o estado de tranquilidade na ausência do desejo. O desejo é uma perturbação que insiste teimosamente e nos abandona após a satisfação, durante a meditação e também após a morte do "eu" correspondente. Na ausência do desejo há paz e felicidade, sem perturbação. Tal é o estado que buscamos alcançar e perpetuar. As pessoas buscam a satisfação do desejo para se livrar do desassossego, pois o desejo incomoda, perturba. A satisfação não é uma forma recomendável de nos livrarmos do problema, há outras muito melhores. Experimentamos de forma positiva tal estado através da meditação e o concretizamos definitivamente através da Morte Mística.

Observe-se nos momentos em que estiver temporariamente livre da perturbação de um desejo específico. Você estará tranquilo, livre em relação àquilo. No entanto, se você conquistou essa paz por meio da satisfação e não pelos meios corretos, saiba que o desejo voltará com muito mais força em breve. À medida que repetir o ato e o satisfazer mais e mais para se livrar do tormento, menores e menos intensos serão os momentos de satisfação, a insatisfação aumentará e mais escravizado você se tornará. Renuncie a esta via funesta e não tente conquistar a paz interior pelo equivocado caminho satisfação, busque-a através da Morte e da meditação.

Se você olhar para si mesmo após a satisfação, verá que se encontra tranquilo em relação ao desejo. Contudo, bastará um simples pensamento ou lembrança relacionados com o objeto desejado para que o elemento psíquico comece a colher força novamente. Sendo assim, o segredo para se manter em tal estado de liberdade espiritual consiste em:

1. Observar a si mesmo nas diversas situações ao invés de se deixar fascinar pelas mesmas (o foco central da consciência é você e as situações são percebidas pela consciência periférica);

2. Adotar tolerância zero com todas as formas de alimentação do desejo, incluindo, principalmente, as manifestações na mente (pensamentos, lembranças), na fala e nas atitudes;

3. Sempre orar à Mãe Divina pela morte de cada detalhe psíquico descoberto.

Preservar o estado de liberdade interior é a meta. Não permitir que os pensamentos criem força é imprescindível e também crucial. A queda do homem começou pelo pensamento e seu resgate também deve começar por aí.

Os egos, sejam detalhes ou não, são criaturas mentais viventes. Quem suprime a alimentação mas não pede a morte dos detalhes alimentadores, não irá longe, apenas adiará um pouco suas manifestações. Quando não oramos à Mãe Divina pela Morte, os detalhes continuam vivos e permanecem molestando.

Um simples pensamento poderá tirá-lo do estado de paz interior em que você talvez se encontra agora. Você está na palma da mão do Buda e daí cairá por uma simples lembrança, um simples pensamento.

A atuação do Ego pode ser comparada ao efeito borboleta: um simples bater de asas pode provocar uma tempestade. Não permita que o inseto bata as asas. A cada vez que o inseto bate as asas, uma tempestade de nutrição e criação de defeitos se forma. Impeça-os de nascer, aborte-os. Vá direto ao ponto inicial, "de onde dependem todas essas coisas" (V.M. Rabolú). Assim você preservará a paz interior.

Procedendo desta maneira, podemos nos firmar mais e mais no Ser, dimuindo progressivamente o domínio dos egos. O Ser é o verdadeiro e legítimo Senhor do corpo físico. O ser humano não foi feito para sofrer, mas sofre porque alimenta a dor dentro de si mesmo.

As quedas e fracassos no trabalho não devem nos perturbar, devem apenas ser usadas como indicadores do momento em que erramos. Os fracassos fazem parte do caminho do sucesso e devem ser tomados com naturalidade, porém sem conformismos e nem passividades.

Você prolongará o estado de paz interior e ausência de desejo se não permitir que os pensamentos comecem a exauri-la.

domingo, 8 de abril de 2012

Concentração: prolongar e desligar-se

Lakhsia é o tema ou objeto da concentração, aquilo em que focalizamos nossa atenção e a respeito do qual estaremos pensando. Se eu me concentrar em uma rocha, a rocha será o meu lakhsia.

Aqueles que querem desenvolver a concentração necessitam dedicar-se a dois aspectos importantíssimos desta prática:

1. a permanência do lakhsia no campo da consciência;

2. o desligamento e o esquecimento de tudo o que não seja o lakhsia, incluindo o corpo físico.

Existe uma consciência central e uma consciência periférica. Às vezes o lakhsia adentra a zona da consciência central, mas outros objetos ainda continuam sendo percebidos pela consciência periférica. Somente quando todos os objetos não incluídos no tema forem completamente esquecidos é que a concentração será plena. A consciência periférica e a consciência central devem perceber somente o lakhsia e tudo o que for intrínseco ao mesmo.

O segredo para aprofundar a concentração e trazer percentuais dispersos de atenção para o lakshia é manter e prolongar a percepção consciente sobre o mesmo. Pensamentos que dizem respeito diretamente ao tema devem ser aceitos, enquanto os pensamentos que não dizem respeito diretamente devem ser abandonados, ainda que possam apresentar alguma relação distante. Não devemos seguir as associações entre temas, o pensamento e a atenção devem fluir sobre um tema único, que é o objeto de nossa concentração.

Se estou pensando em uma coisa, estou concentrado naquilo. Se estou pensando em várias coisas, não estou concentrado em nada, estou disperso. A capacidade de concentração já existe em forma natural e não-desenvolvida em todas as pessoas, é um poder que está atrofiado. Se não existisse o gérmen da concentração nas pessoas, não seria possível desenvolvê-la.

Se quisermos esquecer tudo o que existe, menos o lakhsia, temos que começar por mantê-lo no campo da consciência e prolongar sua permanência. Uma pessoa comum, destreinada, é capaz de inseri-lo no campo de consciência por breves instantes, mas não é capaz de mantê-lo. O que queremos desenvolver é justamente a capacidade de prolongar a permanência no lakhsia.

Aqueles que, como eu, desejam desesperadamente o sucesso nas práticas de concentração e meditação, poderão ficar ansiosos para "segurar o objeto e não perdê-lo". Apesar da intenção louvável, essa ansiedade criará uma tensão que estancará o desenvolvimento, além de provocar algumas dores de cabeça. A permanência no lakshia não é uma questão de fazer força, é uma questão de "saber como". Uma chave: procurar sentir que o lakshia se estabelece na consciência à medida que você relaxa e se entrega cada vez mais à prática. Em outras palavras: você não "prende" o lakshia em seu campo de atenção, você simplesmente permite que ele fique lá. Não há nada adicional a fazer ou a não fazer. O ideal é não fazer esforço de espécie alguma para mantê-lo. Deixe que ele se mantenha por si mesmo. Se houver desvio de atenção, retome o objeto novamente e prossiga.

Manter a atenção focada prolongadamente sobre um objeto é como pegar um hamster com a mão, retirá-lo do chão e colocá-lo sobre uma mesa para observá-lo. Você o deixa lá, sobre a mesa, retira a sua mão e não interfere senão no momento em que ele ameaça descer da mesa. O que você quer é mantê-lo livre sobre a mesa e não segurá-lo ali com a mão.

O simples ato de focar a atenção e prolongá-la, fará com que, gradualmente, os demais objetos sejam esquecidos. No entanto, isso leva tempo e não ocorre imediatamente, como gostariam os ansiosos.

Temos que aprender a prolongar a atenção sem fazer força, o que requer a compreensão de um trabalho psicológico qualitativamente específico e que não sou capaz de descrever. Creio que não existem palavras para descrever o que seria manter a atenção contínua sem estar preocupado em mantê-la. O que importa é prolongar, prolongar e prolongar, de forma despreocupada.

Quanto mais prolongarmos, mais esqueceremos de todo o resto. Chegará um momento em que nada mais existirá para nós, somente o tema do nosso interesse. Tudo o mais terá sido esquecido, estaremos desligados.

Existe a concentração em objetos concretos e a concentração em objetos abstratos. Podemos começar treinando com um som contínuo concreto (físico) prestando atenção nesse som e prolongando sua permanência em nossa consciência. Depois podemos passar para sons alternantes, como os sons de uma música ou o canto dos pássaros. Quando a atenção estiver bem desenvolvida, podemos passar a nos concentrar em objetos abstratos.

Objetos abstratos são objetos puramente internos, psicológicos, e que não são percebidos fisicamente, com os cinco sentidos externos. Dito de outra maneira, são objetos imaginados ou pensamentos escolhidos. Escolhemos alguma coisa boa e dignificante, que nos interesse muito, e começamos a pensar somente naquilo e em mais nada. Deixamos que o pensamento se desenvolva sem se desviar e o prolongamos ao máximo. Conforme o pensamento se prolonga, surgem múltiplas imagens e cenas do objeto, em diversas situações e circunstâncias. Imagens e cenas sobre o lakhsia são aceitas, imagens e cenas sobre outros assuntos são abandonadas. Quando a mente se desvia, a focamos novamente. Assim, a concentração vai se prolongando. As atenções periféricas dispersas vão sendo recolhidas e tudo o mais vai sendo abandonado, esquecido. Concentrar-se é esquecer, abandonar, e é, ao mesmo tempo, acordar para aquilo com que nos ocupamos. É como abrir um aspecto da realidade com uma lupa, para conhecê-lo, estudá-lo e compreendê-lo mais e mais.

Quando andamos por uma cidade grande, ouvimos muitos sons altos e não notamos certos detalhes sonoros sutis. Se nos concentramos em um som fraco e sutil específico, começaremos a perceber detalhes antes não percebidos, nossa audição irá se apurar. A concentração funciona como uma lente, que "abre" ou amplia um aspecto qualquer da realidade para a consciência.

Se você ficar tenso para prolongar a atenção e mantê-la no objeto, irá logo desfocar-se porque sua tensão terá se tornado sua maior preocupação. Até mesmo a preocupação em não desviar-se deve ser abandonada. Quem se preocupa muito em se concentrar acaba transformando essa preocupação em prioridade, em detrimento do verdadeiro lakshia.

Se, em plena prática, ainda estivermos percebendo objetos e temas periféricos, isso indica que a concentração ainda não atingiu o nível máximo esperado. Quando tudo o mais for esquecido, então você estará plenamente concentrado. Estará insensível, surdo e cego para o mundo, mas plenamente consciente do objeto que lhe interessa. E poderá voltar a esta realidade a qualquer momento, bastando para isso querer. Se ficar com medo ou preocupado com o seu retorno, voltará imediatamente. É um estado no qual é difícil entrar mas do qual é muito fácil sair.

Você poderá sentir emoções intensas relacionadas com o lakhsia e isso é normal.

Portanto, prolongar e esquecer são dois pilares fundamentais da prática da concentração.


Somente com o ato de prestarmos atenção em algo já estamos nos concentrando naquilo. Se formos destreinados, a concentração irá durar apenas alguns segundos antes de ser desfocada, mas será uma concentração verdadeira, embora curta. Portanto, quem quiser compreender o que é uma concentração correta e verdadeira deve apenas prestar atenção em algo e saberá o que é concentrar-se. O importante é desligar-se de tudo o que não seja o lakshya.

Evite fazer esforços para aprofundar e prolongar a concentração, apenas receba o objeto com suavidade, perceba-o conscientemente. Deixe que a concentração se aprofunde por si mesma. Se a mente desviar-se do tema, traga-a de volta.

Concentração não é contração. Cuidado com a semelhança entre as duas palavras. A semelhança entre os termos pode nos influenciar subconscientemente e nos induzir a associar concentração com esforços mentais violentos. Um esforço mental violento produzirá tensão muscular e dores de cabeça. O conflito com a mente estanca a prática da meditação.

Aprofundar a concentração não é fazer força para concentrar-se mais, é esquecer o que ainda não foi esquecido.

E normal que surjam pensamentos de todos os tipos, inclusive pensamentos do arco da velha, relacionados com fatos da infância ou de anos deixados para trás. Eles surgem para que você os esqueça. Não lhes dê importância. Dissocie-se das lembranças e dos pensamentos, atenha-se somente ao tema.

Quando procuramos nos concentrar, pensamentos de todo tipo e os mais absurdos desejos e emoções (consequências de tais pensamentos ou recordações) podem atravessar o nosso caminho. Isso é absolutamente normal e não deve causar preocupação. O praticante não deve preocupar-se com tais pensamentos e lembranças e nem ocupar-se com os mesmos para combatê-los, por mais absurdos e inaceitáveis que sejam. Deixe que eles passem e desapareçam. Não tente reprimi-los e nem tampouco os reforce, fique indiferente, neutro, não seja contra e nem a favor, não reaja aos mesmos. Se cometer o erro de lhes prestar atenção, ficará identificado e os reforçará. O melhor é simplesmente dissociar-se, esquecê-los e continuar mantendo a atenção e a mente sobre o lakshya. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Sobre os referenciais teóricos que adotamos

As obras dos mestres Samael e Rabolú são o nosso principal referencial teórico. No entanto, convém fazer algumas aclarações.

Àqueles que apreciam os livros do V.M. Samael Aun Weor, alerto que há adulterações e falsificações impiedosas em algumas de suas obras, feitas por pessoas mal-intencionadas. 

O livro "Tratado de Medicina Oculta e Magia Prática" possui duas versões, sendo que as modificações da segunda versão, segundo o V.M. Rabolú, não foram introduzidas pelo Mestre, como as editoras alegam. A segunda versão deste livro está repleta de práticas de feitiçaria introduzidas por inimigos. A primeira versão, portanto, é a correta.

Há também alguns livros nos quais o yagué (ayahuasca ou ayawasca) e o peyote são citados em certas versões e excluídos em outras, conforme o gosto fanático do editor. O livro "A Montanha de Juratena" é um exemplo. Muita atenção nesse aspecto.

Além das adulterações descaradas, há ainda o caso de obras compiladas cujas fontes originais dos textos e os nomes dos organizadores não são citados, dando a entender ao leitor que se trata de uma nova obra do Mestre. Na verdade, são simplesmente textos retirados de outros livros de Samael e reunidos a gosto dos editores. O exemplo mais gritante é o livro "As Partes do Ser" que contém retalhos de "A Pistis Sophia Desvelada", " O Matrimônio Perfeito", "Sim há Inferno, Diabo e Karma" entre outros livros. Os editores simplesmente recortam alguns trechos de outros livros, juntam tudo e formam uma obra frankeinstein, enganando todo mundo. É claro que eles não dizem isso pra ninguém, mas basta você ler vários livros para perceber que os textos foram roubados.

Toda a obra do V.M. Samael Aun Weor é recomendada, desde que seja verdadeira. Outros livros que podem ajudar são:

Sivananda, "The Pratice of Brahmacharya":



Sivananda, outros livros:

http://www.dlshq.org/download/download.htm

Alice B. Stockham, "Karezza, Ethics of Marriage":


JOHN HUMPHREY NOYES, "MALE CONTINENCE", PUBLISHED BY THE ONEIDA COMMUNITY OFFICE OF ONEIDA CIRCULAR ONEIDA N. Y. 1872:

http://www.findthatfile.com/search-2712753-hPDF/download-documents-malecontinencefv.pdf.htm

Além das obras citadas acima, há ainda muito mais, porém não tenho tempo agora de citar todas. Citarei somente alguns autores e posteriormente acrescentarei mais:


  • Sócrates/Platão
  • Lobsang Rampa
  • Helena Blavatsky
  • Ane Besant
  • Rudolf Steiner
  • Charles Leadbeater
  • Eliphas Lévi
  • Arnold Krum Heller
  • Ouspensky
  • Gurdjieff
  • Milarepa (canções)
  • Tsong Kappa
  • Paracelso
  • Pitágoras




sábado, 24 de março de 2012

O estresse e o trabalho interior

À medida que o tempo passa, a humanidade robustece o Ego, seu desequilíbrio psico-físico aumenta e os seres humanos vão sendo cada vez mais afetados pelo estresse. Enfrentamos hoje uma epidemia mundial de estresse, motivo pelo qual é importante abordarmos esse assunto, que se relaciona diretamente com o nosso trabalho espiritual de meditação, morte do ego e equilíbrio dos centros da máquina (o corpo físico).

Ao contrário do que comumente se imagina, o estresse não resulta somente do trabalho e sim de tudo o que nos agride fisica emocionalmente.

Tipos de estresse

Há estresses agudos e crônicos, em graus variáveis. O estresse crônico costuma ser imperceptível e se apodera silenciosamente da pessoa. Pessoas alegres, calmas e aparentemente equilibradas podem estar sofrendo de estresse crônico e silencioso sem que ninguém perceba, nem mesmo elas. Nos casos de estresse crônico e sutil, a pessoa se dará conta somente quando aflorarem as somatizações (manifestações físicas do estresse), o que pode ocorrer em qualquer fase de sua vida. Alguém que nunca teve sinais de estresse pode apresentá-las de repente, em qualquer idade.

Existem também o estresse físico e o estresse emocional. O estresse físico resulta de agressões diretas ao corpo físico, por meio de excesso de esforço muscular, exposição a rigores climáticos, à alimentação deficiente, a inflamações e infecções, traumas mecânicos, falta de sono etc. O estresse emocional, por sua vez, é o resultado da somatória de todas as emoções negativas, presentes e passadas, acumuladas em nossa vida, incluindo emoções provenientes de traumas, decepções amorosas, traições etc. Tanto o estresse físico como o estresse emocional nos desequilibram quimica e energeticamente, fazendo com que o corpo trabalhe de forma desorganizada, e expressam-se através de diversos mecanismos físicos, tais como dores, arritmias cardíacas, queda na resistência imunológica, alergias etc. Toda doença existente possui alguma relação direta ou indireta com o estresse.

O estresse e os centros

O estresse emocional desequilibra o centro emocional. Este, desequilibrado, roubará energia dos demais centros. O mesmo processo acontece com os centros motor, intelectual, instintivo e sexual.

Podemos nos estressar de várias maneiras. Uma pessoa poderá se estressar sexualmente, por meio de excessos, e ficará impotente ou frígida. Outra poderá se estressar intelectualmente, estudando, discutindo e lendo em excesso, e se tornará confuso. Alguém que dorme pouco ou come em exagero, está estressando o centro instintivo. Em todos os casos, estará provocando desequilíbrio e doenças.

Estresse é sinônimo de desequilibrio dos centros.

O estresse das emoções negativas

Todas as emoções negativas provocam estresse emocional, mas há algumas que podem ser consideradas principais: medo, raiva, ódio, tristeza, irritação, inveja, impaciência. Emoções que nos fazem sofrer e desejos insatisfeitos elevam o nível do estresse.

Os egos, com suas emoções inferiores, vão destruindo o corpo físico aos poucos, desequilibrando os centros. A Morte do Ego é um meio de prolongarmos um pouco mais nossa estadia na Terra. Quem vai corrigindo as emoções inferiores e retirando os estressores emocionais de sua vida vai dando um alívio ao seu coração, o qual pode trabalhar de forma cada vez mais leve. Isso é o que interessa: estar com o coração leve.

Libertando-se do estresse

De nada adianta remediarmos os sintomas físicos de qualquer tipo de estresse se não removemos suas causas. O remediamento dos sintomas é útil em casos emergenciais mas não resolve o problema de forma definitiva. Enquanto as causas não forem removidas, o estresse estará sendo alimentado. Quem quer curar-se do estresse, deve remover as causas. Quem quer remover as causas do estresse, deve primeiro identificá-las, descobri-las em sua vida. Identificamos as causas por meio da reflexão. É muito útil termos um caderno para anotar as causas do nosso estresse. O que nos deixa nervosos, ansiosos, irritados ou com medo? Quais são os excessos que estamos cometendo?

Se você quer se livrar do estresse, o primeiro a fazer é identificar os agentes estressores. Separe um caderno e comece a listar todos os acontecimentos que provocam ira, raiva, medo, tristeza, ódio, inveja, preocupação etc. Tudo aquilo que provocar agitação ou mal estar deve ser incluído na lista, inclusive desejos compulsivos não satisfeitos. Inclua também os estressores físicos: trabalho, exercícios, fome, sede, falta de sono e outros similares. A lista pode ser aumentada diariamente, conforme você vai progredindo.

Há alguns agentes estressores dos quais estamos conscientes e outros dos quais não temos consciência alguma. Esses últimos ocasionam grandes prejuízos porque exercem seus efeitos na sombra, sorrateiramente, e não podem ser removidos porque não sabemos que estão lá. A lista tem a função de trazer à consciência os agentes estressores inconscientes, para que possamos operar sobre eles.

Alguns elementos da lista podem ser removidos de nossa vida imediatamente, outros podem ser diminuídos e outros necessitam ser interiormente resolvidos pela compreensão e morte dos egos relacionados.

Resignificando os acontecimentos estressantes

O estresse emocional é algo psicológico, interior. Um mesmo fato pode ser altamente estressante para uma pessoa e altamente relaxante para outra (ex. andar na floresta, entrar em um rio). Tudo depende do significado atribuído ao fato pela mente. Não podemos alterar o significado das coisas à força, pela mera repressão ou esforço para não sentirmos as emoções negativas.

Temos que afastar de nossa vida aquilo que causa estresse emocional. Estando atentos em nós mesmos, podemos prever muitas situações de intenso estresse emocional antes que aconteçam e evitá-las.

O equilíbrio dos centros requer que se tenha uma vida calma, desprovida de grandes emoções e agitações.

Certos agentes estressores não podem ser evitados mas podem ser resignificados. A resignificação de fato estressor é uma transformação psicológica, cujo primeiro passo é a observação de si mesmo, com o intuito de identificar os elementos psíquicos que se irritam, temem e sofrem. A morte dos “eus” que reagem diante das situações estressantes é imprescindível. Paralelamente, temos que aprender a não nos ocuparmos mentalmente com os problemas. Enquanto pensarmos em um problema, estaremos aprisionados ao mesmo. O que importa é nos libertarmos dos problemas interiormente. Quem está profundamente morto em si mesmo pode atravessar furacões e tempestades sem ser perturbado porque não permite que sua mente pense nas ameaças que o cercam, está interiormente livre do perigo.

A todo instante estamos nutrindo as emoções e pensamentos prejudiciais sem nos darmos conta. Quando deixamos de alimentá-los por meio de comportamentos sutis, os enfraquecemos. Enfraquecer e eliminar os egos que sofrem e desejam é resignificar os acontecimentos estressantes. Não devemos entrar em conflito com os egos e sim nos libertar, o que é diferente. Para tanto, é indispensável deixar de alimentá-los.

Aproveitando o tempo inteligentemente

Os compromissos, apesar de parecerem algo louvável, são poderosos agentes estressores. Quanto mais compromissos tenhamos, mais estressados ficaremos. O ideal é vivermos livres de compromissos, não assumi-los senão em alguns poucos casos realmente necessários. Os amigos, embora sejam importantes, podem nos lançar às costas muitos compromissos, tais como encontros, festas, passeios etc. Os compromissos são estressantes porque geram preocupações e roubam o tempo, encurtando-o.

Nosso tempo necessita ser bem aproveitado. Em nossa agenda, devem ter prioridade a meditação, o descanso e o sono. Em segundo plano devem vir as obrigações materiais fundamentais e indispensáveis, tais como o trabalho remunerado e outros indispensáveis. Necessitamos, ainda, de tempo para o trabalho voluntário pela humanidade e para o lazer. Logo, não nos sobra tempo para compromissos caprichosos.

Organizando os compromissos

Uma agenda de compromissos é indispensável. Alguns compromissos requerem vários dias para serem concluídos, outros requerem algumas horas. Em alguns casos, temos que separar um dia para várias tarefas menores, em outros, temos que separar vários dias ou até semanas para um única tarefa. É importante que os compromissos estejam agrupados de forma inteligente para facilitar sua realização e um melhor aproveitamento do tempo. Evitemos dividir uma grande tarefa de modo a realizá-la de forma “picada”, pois isso aumenta o estresse. Um trabalho que requer vários dias será altamente estressante se o realizarmos de forma picada, realizando um pouquinho hoje e mais um pouquinho na semana que vem. O agrupamente geográfico de tarefas curtas também ajuda a realizá-las de forma mais eficiente. Não agrupemos as tarefas de forma aleatória e sim de um modo racional.

O estresse no desejo

Por incrível que pareça, o desejo extremo também provoca estresse. Quando estamos prestes a satisfazer um desejo exageradamente intenso e brutal, o corpo manifesta sinais de estresse. Um desejo ou uma alegria extremos nos deixa agitados. O ideal é o equilibrio e a moderação.

Estresse e doenças psiquiátricas

O estresse pode se manifestar sob a forma de doenças emocionais e mentais. Ansiedade e depressão são formas de manifestação do estresse. Quando estamos com medo, tristes, apreensivos ou preocupados de forma incomum e exagerada, estamos sob intenso estresse.

Situações traumatizantes não resolvidas, ainda que esquecidas, continuam ativas como agentes estressores.

Corrigir as causas exteriores e interiores do estresse é de grande valia.

Estresse e pensamento

Os pensamentos provocam alterações somáticas, influenciam e modificam os funcionamento dos complexos sistemas bioquímicos e energéticos do corpo físico. Alterações corporais ocorrem quando pensamos em algo que nos atemoriza, nos enfurece ou nos excita sexualmente.

As alterações corporais provocadas pelos pensamentos são algumas vezes visíveis e outras vezes invisíveis. Existem muitas alterações imperceptíveis, mas nem por isso menos reais. Que alterações ocorrem no corpo físico quando pensamos em algo que nos dá medo, ira ou luxúria?

O conteúdo das imagens mentais relaciona-se diretamente com o par de opostos saúde/doença. Que alterações não estará provocando em seu corpo físico aquele que pensa constantemente no mal? E que alterações ou perturbações não estão sendo ocasionadas pelos pensamentos dos quais não temos consciência alguma?

Pelas razões expostas, é conveniente praticar a meditação todos os dias, várias vezes por dia.

Conclusão

Se queremos nos libertar do estresse para equilibrar os centros, temos que praticar o esquecimento, o despojamento, simplificar a vida ao máximo e limpá-la de emoções inferiores e de pensamentos negativos.