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terça-feira, 31 de maio de 2011

Um erro dos estudantes gnósticos

No início da década de 90, ao receberem do V.M.R. o precioso ensinamento sobre a Morte em Marcha e os Detalhes, os estudantes gnósticos (nós todos) o adaptaram à sua lógica repressionista anterior, à qual haviam sido condicionados pela sociedade. Receberam o vinho novo em odres velhos. Passaram, então, a vigiar os detalhes para reprimi-los cada vez mais, pois a sociedade os havia ensinado que os desejos seriam eliminados se fizessem "esforço para não senti-los". Acreditavam que reprimir os detalhes era uma forma de eliminá-los e não de barrá-los e ocultá-los vivos. Disciplinaram-se arduamente nesse sentido, vigiando-se e reprimindo-se de forma cada vez mais rigorosa. O resultado não poderia ser outro senão a catástrofe.
A sociedade nos ensina que os "desejos maus" são eliminados quando fazemos esforços para sufocá-los, tentando não senti-los. Tal pressuposto equivocado permaneceu entre os estudantes gnósticos, que tentaram adaptar os ensinamentos sobre a Morte do Ego a esses mecanismos. Os estudantes se auto-vigiavam e auto-observavam com o único intuito de se auto-reprimirem. A lógica era: reprimir-se o quanto possível e observar-se em busca de detalhes que escapassem à repressão. Nem bem um estudante descobria direito um detalhe, não reprimido anté então por descuido, suplicava por sua morte e imediatamente voltava a reprimi-lo em seguida, para, no dizer da época, "não deixá-lo se manifestar". A Morte havia sido tomada como sinônimo de repressão. Ninguém havia atentado para o importante fato de que a repressão não é mais que uma forma de fingimento, que o fingido simula virtudes, que aqueles que simulam virtudes são fanáticos hipócritas. Não havia a compreensão de que a repressão não impede manifestação alguma, apenas a canaliza por outros caminhos, e de que o verdadeiro meio de enfraquecer as manifestações até que deixem nos molestar é observá-las conscientemente e orar pela morte dos detalhes correspondentes. Não se compreendia que quem deveria eliminar os detalhes era a Mãe Divina e não nós.
Esse equívoco causou muito estrago.
Agíamos todos como se fôssemos virtuosos. Fingíamos castidade, mansidão, equilíbrio. Não passávamos de sepulcros caiados mas não nos dávamos conta disso. Nossa hipocrisia não era intencional, era inconsciente. Acreditávamos que aquele era o verdadeiro caminho para libertar a alma. Na verdade, não diferíamos dos religiosos comuns, desses que pregam virtudes e não as possuem. Em segredo, dávamos vazão aos conteúdos reprimidos, ou então, quando possível, disfarçávamos e justificávamos suas manifestações, inventando desculpas para que se tornassem aceitáveis (as manifestações de ira e perseguições pessoais "em defesa da obra" eram um bom exemplo disso).

domingo, 29 de maio de 2011

A relatividade da distância

A distância é uma ilusão da mente e não existe no mundo real. Dois objetos que nos parecem separados por um espaço, em um nível profundo de realidade, estão unidos.

Se a distância entre dois objetos existisse objetivamente, não poderia ser encurtada com o aumento da velocidade e seria sempre a mesma. A distância entre dois pontos poderá ser maior ou menor, consoante a escala espaço-temporal em que se vive ou à velocidade com que se desloca de um a outro.

Uma pessoa poderá transformar dois pontos distantes em pontos muito próximos, caso se desloque a grandes velocidades. Caso dê um salto e passe a viver na escala do seu Espírito, os pontos distantes lhes serão vizinhos.

Consideramos que São Paulo e Tóquio estão distantes porque estamos quase divorciados do nosso Ser.

O Ser tem o poder de transitar por diversas escalas de espaço e de tempo, de acordo com sua vontade. No mundo do Espírito, o passado pode ainda estar acontecendo e o futuro já ter chegado, ambos irmanados em um agora contínuo.

Nossa pobre consciência sofre, aprisionada em uma pequeníssima fração da Grande Realidade. Vivemos e nos movemos em uma parcela relativa do Todo. As distâncias que consideramos longas somente possuem sentido dentro da relatividade em que estamos aprisionados. Se nos libertássemos, poderíamos vivenciar o distante no aqui e o futuro no agora.

O mundo das relatividades não é o mundo verdadeiro, é o mundo das ilusões, dos pontos de vista.

Se o espaço e o tempo fossem absolutos, não poderiam ser alterados pela velocidade. Mas a verdade é que podem ser alterados pela velocidade. Quando estamos atrasados, pedimos ao motorista para que aumente a velocidade. Um lugar será ou não distante de outro em dependência da velocidade de deslocamento de que dispusermos.

Aprofundando a concentração

Quando tentamos praticar o relaxamento, a concentração e a meditação e não obtemos nenhum resultado transcendental, a causa do fracasso pode estar na falta de sono.

Em vigília, podemos penetrar nas regiões do inconsciente somente até um determinado nível, além do qual se requer o sono, que é a desaceleração das funções biológicas e cerebrais. O sono abre as portas ao Além.

Após o relaxamento ter avançado razoavelmente, iniciamos a concentração, mas isso não significa que, ao aprofundarmos esta última, aquele não prosseguirá se aprofundando ainda mais. O início da concentração marca um aprofundamento maior do relaxamento e da desaceleração das funções biológicas. Tudo isso é sono cada vez mais profundo, porém consciente.

O aprofundamento da concentração, por sua vez, requer o aprofundamento do sono e o desligamento dos sentidos físicos. A percepção do corpo físico cessa progressivamente, ao passo que a percepção interior consciente daquilo em que nos concentramos aumenta, na mesma proporção.

Se nos concentramos em um elemento exterior, o som de um grilo, por exemplo, deixaremos de percebê-lo fisicamente e passaremos a percebê-lo interiormente, cada vez com mais clareza. Aquilo que nos atinge sensorialmente também nos atinge supra-sensorialmente, ao mesmo tempo.

Deste modo, aprofundar a concentração, durante a prática da meditação, é clarificar a percepção do objeto interior ou exterior que nos interessou.
Se o objeto de nossa concentração for um mantram, inicialmente o perceberemos sensorialmente (o pronunciaremos fisicamente, verbalmente)e posteriormente o perceberemos supra-sensorialmente, pois o pronunciaremos mentalmente. Existem as percepções exteriores e interiores.

Podemos começar a concentração a partir de um elemento percebido sensorialmente (exteriormente) ou supra-sensorialmente (interiormente). Quando percebemos algo interiormente, diz-se que estamos no pensamento único ou na imaginação consciente, o que é a mesma coisa. O pensamento único ao qual os mestres se referem é a percepção interior do objeto de nossa concentração, a qual requer o abandono da correspondente e limitada percepção exterior, a qual nos restringe à uma percepção tridimensional do objeto. Se ficássemos presos à percepção exterior ou sensorial, não penetraríamos na realidade do alvo de nossa concentração, pois a mesma transcende o tridimensional. Portanto, a percepção tridimensional do objeto é parcial e temos que ir além dela, transcendendo-a, o que se consegue quando a alma vai se desligando do corpo físico.

Ao longo do processo, podem surgir pensamentos que nos distraiam e atrapalhem, desviando-nos. Como almejamos o pensamento único, pensamentos que não tenham nada a ver com o objeto de nossa concentração nos afastam da meta. A recomendação dos mestres para esses casos é que não entremos em confito com tais pensamentos e sim nos detenhamos por um momento para assimilar seus conteúdos, isto é, para nos tornarmos conscientes do que contém. Se entrarmos em conflito, nos prendemos em uma luta e a prática estanca, não avança, pois ficaremos envolvidos em um combate sem fim. O conlito com os pensamentos é uma forma de identificar-se com a mente.

Se dissecamos o conteúdo do pensamento intruso, sem conflitar, o aquietamos e podemos então prosseguir rumo ao silêcio, aprofundando a concentração. Se um pensamento invasor surgir novamente, seja o mesmo ou outro, temos que interromper novamente a concentração para nos fazermos conscientes do seu conteúdo, seu assunto e sua meta. Todo pensamento possui um conteúdo, traz algo dentro de sim: temas, cargas de libido e metas. O pensamento provém de um "eu" que quer algo. Quando o pensamento é assimilado, deixa-nos em paz e podemos prosseguir, aprofundando ainda mais a concentração.

Assim vamos caminhando rumo às profundidades da psique.

O trabalho aqui descrito poderia ser comparado a dirigir por uma estrada. Você está dirigindo, rumo ao que está além do horizonte. De repente, um problema acontece com o seu carro. Você para, verifica qual é o problema, conserta-o e prossegue. Posteriormente surge outro e você faz o mesmo. E assim prossegue.

Diz o mestre que chega um momento em que todos os pensamentos se esgotam, então vislumbramos o mundo que estava além das montanhas mais distantes. É quando então podemos abandonar o pensamento único, que é o último que restou, para cairmos no vazio e experimentarmos o indescritível.

O V.M.S. diz que "a procissão dos pensamentos cessa". Essa procissão é composta pelos pensamentos que vão esporadicamente interferindo na concentração. Não se trata de um conjunto de pensamentos encadeados, que devem ser observados enquanto passam para, somente depois, nos preocuparmos com a concentração. Se nos detivermos somente contemplando os pensamentos, deixando definitivamente a concentração de lado, simplesmente dormiremos e sonharemos. Não se trata de ocupar-se somente em contemplar conscientemente os próprios pensamentos (algo assim como assistir a uma televisão) pois o resultado inevitável seria o adormecimento da consciência. A "procissão de pensamentos" é constituída pelos pensamentos que vão esporadicamente se intrometendo na concentração, para desviá-la.

Muitas pessoas poderiam supor que a primeira etapa da meditação consiste em contemplar conscientemente os próprios pensamentos, deixando a concentração de lado. Se apenas contemplarmos os pensamentos, sem penetrar através deles com a concentração em nos interessa, levaremos a consciência somente até um nível, além do qual adormeceremos normalmente e teremos sonhos.

Importa, então, aprender a aprofundar o sono enquanto se intensifica a lucidez e a consciência, o que requer focalização da atenção em um objeto. Apenas contemplar os pensamentos é não ter objeto definido algum para a atenção e, portanto, para o campo da consciência.

Durante a concentração, não devemos procurar os pensamentos, buscando onde eles estão ou checando se estão surgindo. Tampouco devemos reprimi-los. O estado ideal é um estado em que não os reprimimos, se surgirem, mas também não os estimulamos e nem os buscamos, caso não estejam aparecendo. Apenas aquilo em que nos propomos a prestar atenção é que deve nos interessar.

O empenho em prolongar a atenção/pensamento único pelo maior tempo possível e o maior número de vezes possível por dia resultará em aprofundamento crescente e desenvolvimento da concentração, até o ponto em que ocorra o esquecimento(vairagya) total de tudo o que existe. 

Diferenças e semelhanças entre concentração e distração

A distração e a concentração apresentam pontos em comum e também diferenças diametrais.

Vocês já viram uma pessoa distraída com algo, algum entretenimento? Observem-na: nada mais existe além do objeto do seu interesse. Ela se esquece de todo o resto do mundo. A concentração é semelhante à distração, no que se refere ao envolvimento, mas oposta a ela no que se refere à consciência. o distraído não está consciente do que faz, está esquecido de si mesmo, ao passo que a pessoa concentrada está percebendo plenamente o que faz.

Quando estamos distraídos, estamos com atenção plena, natural e espontânea naquilo que nos interessa, mas, ainda assim, não é correto dizer que estamos concentrados, pela simples razão de que não estamos conscientes do que estamos fazendo.

A diferença entre a concentração e a distração é a consciência, as semelhanças são o envolvimento, a absorção, a entrega e a espontaneidade.

O distraído está fascinado, esqueceu-se de si mesmo. O concentrado está plenamente lúcido, percebe aquilo que lhe interessa com profundidade crescente. Entretanto, ambos estão entregues e absortos.

Equivocam-se aqueles que imaginam a concentração como um ato de esforço, pois a concentração é um ato espontâneo e natural. Fazer esforço para se concentrar é sabotar a concentração.

Observem-se quando estiverem distraídos e verão que se encontram plenamente ocupados com aquilo que lhes interessa, como se estivessem concentrados, mas não o estão simplesmente porque estão fazendo aquilo inconscientemente, por impulso, e mantêm a consciência passiva, sem receber os fatos e sem perceber nada.

Quando estamos tentando nos concentrar e um pensamento nos atrapalha, dizemos que aquele pensamento nos distraiu, ou seja, roubou nossa atenção. Isso significa que a atenção foi desviada do alvo de nosso interesse para outro alvo que não havíamos planejado. Logo, a distração é também uma forma de focarmos atenção e nos oferece um parâmetro para entendermos o que seria uma atenção concentrada. Se quisermos entender o que é a concentração, basta observarmos o que é a distração. A concentração é o pólo contrário da distração, mas nem por isso deixa de ser semelhante a esta última, em certos aspectos. Ambas são similares e antitéticas, são especulares.

É importante entender o que é exatamente a concentração para se evitar esforços equivocados.

Para se desenvolver a concentração, é conveniente escolher objetos que nos interessem, pois se tentarmos nos concentrar em algo que nos molesta, algo enfadonho, teremos dificuldade, nos cansaremos e não teremos resultado.

As pessoas leigas costumam confundir uma pessoa concentrada com uma pessoa distraída. Se alguém caminha por uma estrada altamente lúcido e concentrado, os demais podem achar que ele está distraído com seus pensamentos, isso porque, aparentemente, os dois estados são semelhantes, mas diferem radicalmente no que tange à lucidez e a recordação de si.

O indivíduo concentrado percebe de forma intensa e objetiva aquilo que se propôs a observar, pois aprofunda a sua atenção e não mariposeia. Já o distraído mariposeia , muda de objeto constantemente e seu pensamento é superficial.

Há um certo tipo de divagação superior e objetiva na concentração, isenta de fascinação e totalmente distinta das divagações subjetivas da distração. Trata-se de uma viagem imaginativa que ocorre sem perda de consciência, sem queda na fantasia.

Poderíamos, para melhor entendimento, colocar as coisas assim: a distração é uma concentração inconsciente, enquanto a concentração é uma distração consciente (apenas para facilitar o entendimento, pois em realidade são opostos).

Concentrar-se é contemplar, observar com interesse.

A concentração está para a imaginação consciente assim como a distração está para a imaginação mecânica (fantasia).

Que ninguém suponha que a concentração seja um conflito com a mente, pois é a superação ou transcendência dos conflitos. Na concentração, tudo vai ficando para trás, inclusive os conflitos com a mente.

Um homem dirigindo em uma estrada, plenamente lúcido e relaxado, sem que nada o distraia, está altamente concentrado.

Tanto na concentração quanto na distração há receptividade, a pessoa está aberta ao objeto, porém na distração não há aprofundamento, a pessoa muda constantemente de objeto.

No cotidiano, temos que aprender a nos concentrar naquilo que estamos fazendo, sem distração, isto é, temos que contemplar a nós mesmos em cena, em ação. Então descobrimos muita coisa sobre o ego que antes não suspeitávamos.

A auto-observação é uma concentração em si mesmo, no que se está realizando.

Um motorista concentrado perceberá minuciosamente o que está fazendo. Esquecerá seus pensamentos, não se ocupará com eles, os deixará para trás. Somente perceberá o que estiver diretamente relacionado à sua tarefa ou ocupação naqueles momentos. Estará presente ao momento e ao lugar, vivendo o aqui e o agora. Perceberá profundamente o que faz, nuances e detalhes do ato penetrarão em seu campo de consciência. Seu campo de consciência abrangerá a estrada, os movimentos do volante, as acelerações e desacelerações, curvas, perigos etc. estará conscientemente entregue ao ato. Seu centro intelectual estará em repouso,enquanto seu centro motor e sua consciência estarão em atividade.

A concentração é o caminho para a meditação e não se consegue silenciar a mente sem antes desligar-se dos múltiplos pensamentos. Quem rejeita a concentração não conseguirá meditar.

Tenho visto pessoas tentarem meditar sem concentração e até rejeitando o sono, o que me parece um absurdo. A mesma similaridade antitética que existe entre a concentração e a distração, existe entre a meditação e o sono. A meditação é um sono consciente, enquanto o sono comum é algo assim como uma espécie de meditação inconsciente (digo isso para fins didáticos, pois a verdadeira meditação é consciente). Tentar meditar rejeitando o sono é forçar uma falsa meditação, cujo efeito é danificar o cérebro. A verdadeira meditação não cria transtornos psiquiátricos, mas a falsa meditação ou meditação sem sono sim. Por isso é tão importante compreender corretamente a teoria. Ninguém pode meditar de verdade sem baixar as ondas cerebrais e o metabolismo. Assim como no sono, os batimentos cardíacos, a respiração e muitas outras funções corporais reduzem-se durante a meditação.

Quando você ouvir falar em meditação, pense em algo análogo ao sono que você tem todas as noites, porém consciente.

O êxtase que se atinge por meio da concentração e da meditação não tem nada a ver, no que se refere à consciência, com os transes, sejam hipnóticos, mediúnicos ou de quaisquer outros tipos. Também entre o transe e o êxtase existem similaridades antitéticas, ambos são semelhantes e contrários.

A partir da concentração, chegamos à meditação e ao êxtase. A partir da fascinação, chegamos ao transe. O indivíduo em transe está absolutamente inconsciente, adormecido, enquanto o indivíduo em êxtase está hiperconsciente e hiperlúcido, ainda que seus centros e seu corpo físico estejam em repouso.

O V.M.R. nos diz que, quando criança, se concentrava, por medo, no som dos grilos à noite, ao deitar-se, e que tal concentração instintiva tinha por resultado o desdobramento astral consciente. Isso demonstra que a concentração não é algo artificial e nem forçado, mas sim espontâneo e natural. "Atenção plena, natural e espontânea, sem artifício de espécie alguma é a concentração perfeita", escreveu o V.M.S.

Por medo do grilo, o menino, bodhisattwa do V.M. Rabolú, se concentrava. O medo fazia com que o som se tornasse objeto do seu interesse e o levava a focalizar a atenção ali, esquecendo-se de todo o restante.

Se ainda assim a concentração não está clara para você, imagine o seguinte. Suponha que você tenha que carregar uma xícara cheia de água sem derrubar uma só gota e sob a mira de um arqueiro, pronto para disparar a flecha contra você caso não cumpra a meta. Você obrigatoriamente terá que se concentrar da forma correta! Se pensar na flecha, se desconcentrará.

Temos que diferenciar a atenção do esforço. Atenção é uma coisa e esforço é outra. Na concentração existe atenção pura, sem esforço nenhum, somente a atenção, separada do esforço e de modo algum mesclada ao mesmo.

A atenção pode existir na ausência total do esforço, da preocupação e até do desejo, pois o ato de prestar atenção é um ato de receptividade. Estar atento não é estar tenso, é estar receptivo, aberto a alguma coisa. Quando se diz "concentre-se", está-se dizendo "torne-se aberto para tal coisa".

O V.M. Rabolú nos fornece alguns parâmetros que permitem melhor compreender o que é uma prática da concentração. Ele nos diz que concentrar-se em um objeto é refletir sobre seus seguintes aspectos:

  • o que é o objeto (em que consiste?);
  • de que é feito o objeto (quais são os materiais que o constituem, de que é composto?);
  • para que está feito o objeto (qual é a sua função, para que serve?);
  • como funciona o objeto (de que maneira opera, como o mesmo atua?);

O estudante, concentrado, deve refletir sobre esses aspectos. Tais parâmetros "balizam" o pensamento sobre o objeto e o direcionam. O Mestre também sugere ao estudante que "entre" no objeto com a imaginação.

Em suma, concentrar-se, dentro desta concepção, é investigar reflexivamente o objeto. Muito provavelmente, o V.M. não restringia a prática a tais parâmetros, os quais parecem ser mais um ponta-pé inicial. Entendo que tudo o que for intrinsecamente inerente ao objeto pode ser alvo de reflexão sem que incorramos em desvio e desconcentração.

Na concentração ainda existe atividade mental. A concentração não é a fase de ausência de pensamento, mas sim de pensamento único. O pensamento único é atividade mental reduzida e dirigida. Múltiplos e dispersos pensamentos implicam em atividade mental mais intensa do que um único pensamento. Quem concebe a concentração como uma fase de ausência de atividade mental está equivocado, pois tal fase corresponde à meditação.

Em etapas profundas, o pensamento na concentração não é articulado, é um simples "dar-se conta" silencioso, receptividade pura.

Por meio do pensamento único ocorre o desligamento dos sentidos externos, do mundo físico e do corpo físico.

A recordação do Ser

As palavras abaixo são de extrema importância. Escrevi sob inspiração profunda outro dia em Vilhena, RO. Sugiro que medite nelas com atenção cuidadosa e sem pressa alguma.

Os desejos não são o Ser.

Os pensamentos não são o Ser.

A mente não é o Ser.

As emoções não são o Ser.

O corpo físico não é o Ser.

A Essência é o Real Ser em nós, o que há dEle em nosso interior.

Recordar-se de si é recordar-se da Essência.

Recordar-se de si é recordar-se de que se possui um Ser/Essência real, totalmente distinto do corpo, dos sentimentos, das emoções, da mente, dos pensamentos, dos desejos, das lembranças, dos sofrimentos, alegrias etc. É recordar-se desse "algo" que ultrapassa tudo e que somos, no fundo.

Mediante a recordação de si, a Essência se dissocia do Ego. Nos separamos do Ego quando nos recordamos de nós mesmos.

Quando nos recordamos de nós mesmos, rompemos com a fascinação e nos diferenciamos de tudo o que não é o Ser.

Não é possível observar algo com o qual estejamos identificados.

Identificar-se com algo é confundir-se com aquilo, perdendo a noção da diferença entre o que verdadeiramente somos e o objeto que nos fascina.

Nos identificamos pela fascinação (força hipnótica).

A fascinação "apaga" a consciência (adormece a Essência), impedindo-a de observar e contemplar.

O choque da recordação de si rompe com a fascinação e permite a contemplação consciente do objeto do qual nos diferenciamos.

A observação do Ego somente é possível mediante a recordação de si.

A Essência fascinada confunde-se com o Ego e sente seus desejos e sofrimentos.

Por ser uma parte do Ser Real (Espírito Divino ou Deus Interior), a Essência (alma pura e primordial) participa da mesma natureza natureza divina. A Essência é Deus em miniatura.

São características da Essência e, portanto, do Real Ser:

· silêncio interior (o que pensa não é o Ser);

· serenidade (o que se perturba não é o Ser);

· contemplação (observação).

Damos o choque da recordação de nós mesmos para romper nossa identificação com o Ego. Rompemos a identificação com o Ego para podermos observá-lo.

Aquele que se identifica com o Ego, sente-se como ego e se confunde com o mesmo. Identificado, sentirá como se os seus pensamentos, atos e desejos fossem ele mesmo, sua própria Essência, o seu próprio Ser Real ou Espírito, perdendo a capacidade de diferenciar-se dos mesmos.

O choque da recordação de si mesmo rompe tal vínculo fascinatório e equivocado, nos permitindo evidenciar que não somos os elementos que pensam, sentem e atuam dentro de nós.

Na recordação de nós mesmos, nos recordamos de nosso próprio Ser e rompemos a identificação com o ego, a qual é causada pela fascinação. Somente assim podemos começar a observá-lo e compreendê-lo.

A mente, os desejos, as emoções e o comportamento como um todo não podem ser observados quando os consideramos como parte do Ser e não como algo distinto.

Tratar a mente como um elemento estranho e o Ego como um conjunto de pessoas estranhas ("Eus") assinala o princípio do trabalho sério sobre nossa natureza interior.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Prazer mental

Há uma diferença entre o ato sexual real e o ato sexual mental. Este último se dá pela contemplação de imagens eróticas, sejam elas imagens mentais, lembranças, fantasias eróticas ou então filmes, fotografias e películas pornográficas. O ato sexual real é concreto e vivo, enquanto suas diversas representações são abstratas. Viciar-se em imagens sexuais abstratas equivale a atrofiar o poder de praticar o sexo real. Quem gosta de se divertir com sexo virtual, mental ou em telas de computadores, termina com impotência psico-sexual, pois perde o poder de se excitar e se relacionar com mulheres reais. O poder sexual tem que ser mantido vivo através da prática com a mulher concreta.

As imagens pornográficas são tão prazeirosas porque refletem nossas fantasias e sonhos de perfeição. No entanto, nos afastam do mundo sexual real e roubam energia sexual (por isso é que dão prazer e são viciantes). Ao pensar em sexo, estamos usando a energia sexual de uma forma que não lhe corresponde, pois a função do pensamento é tecer análises e não curtir prazeres. Com a repetição de tal uso indevido e equivocado do intelecto, cria-se o vício de sentir prazer através do pensamento e não mais somente do órgão sexual. O ato de pensar e fantasiar sexo com mulheres maravilhosas torna-se cada vez mais prazeiroso. A sensação de prazer morboso que se experimenta ao pensar-se em sexo provém da energia sexual que está sendo roubada e desviada de sua função original. O centro sexual perde sua energia para o intelectual, o qual passa a trabalhar com energias sexuais e intelectuais mescladas. Então, ao ficar sem energia, esse centro tem que roubar energia de outros centros e o resultado é o desequilíbrio: centros que não desempenham suas funções como deveriam e que começam a atuar de forma desorganizada.

Os masturbadores apreciam o prazer de lembranças e fantasias eróticas, evocando-as constantemente para deleite, afastando-se, assim, do ato sexual real e vivo.

A ato de masturbar-se é um ato de desfrute de um prazer de tipo mental. O prazer masturbatório, tão elogiado hoje em dia, é mental, abstrato, teórico, fantasioso e imaginativo, resulta do desfrute de sensações vivenciadas mentalmente. O masturbador não se excitaria e nem teria prazer caso não evocasse mentalmente suas fantasias eróticas. Aquele que está se masturbando está gozando sensações mentais.

O sexo mental alimenta a luxúria e escraviza a pessoa. Quem o cultiva não se liberta da luxúria jamais. Deter-se contemplando prazeirosamente imagens eróticas na tela da mente ou em uma televisão é escravizar-se mais e mais à luxúria. O caminho para recuperar-se é parar de pensar em sexo e começar a praticar o sexo com uma mulher humana verdadeira, sem ejaculação. Aprendamos, então, a nos excitarmos sexualmente com a presença física da mulher real e não com meras imagens mentais, recordações ou vídeos. A excitação sexual mental acusa mescla de energias: o centro intelectual está vampirizando o centro sexual e trabalhando com a energia que não lhe é própria. O centro sexual é para análises e não para deleites eróticos.

A luxúria é algo totalmente mental. Quem quiser transmutar a luxúria em castidade necessita eliminar o hábito de desfrutar o prazer sexual abstrato, o prazer de pensar em sexo. O que se requer não é a eliminação do erotismo do corpo, mas da mente. O desejo não está no órgão sexual e sim na cabeça.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O erro de focar somente os defeitos mais graves

Todos temos alguns defeitos que são maiores, mais fortes e mais perigosos e outros mais fracos, menores, menos perigosos e até inofensivos. De acordo com nossa personalidade, poderão ressaltar mais certos defeitos (ex. ira, cobiça, luxúria) , enquanto outros se manifestarão muito pouco e nos perturbarão. Essa é uma das razões pelas quais nos parece tão fácil julgar e condenar os outros, mas não a nós mesmos.

Um erro que podemos cometer é o de não darmos atenção aos defeitos que causam pouco prejuízo, manifestam-se raramente ou apresentam fraco poder sobre nós, priorizando exclusivamente os defeitos piores e mais perigosos. Motivados pela justa necessidade de nos livrarmos de tais defeitos, que configuram uma linha psicológica principal em nossa personalidade, podemos cair no erro de nos dedicarmos exclusivamente à morte dos mesmos, engajando-nos em uma luta sem fim em que não há vencedor e nem vencido. O motivo? Não se pode matar tiranossauros antes de se ter aprendido a matar lagartixas. Exercite-se matando lagartixas, depois lagartos, depois jacarés, depois crocodilos e por fim será capaz de matar o tiranossauro. É uma questão de lógica: ninguém pode começar pelo pior, embora seja natural que sintamos certa urgência em derrubar o inimigo principal

Os defeitos secundários (que não abrem tanta passagem através de nossa personalidade) fornecem um valioso material experiencial. Aprendendo a matá-los, desenvolvemos a fé, comprovamos a eficácia dos métodos da morte, exercitamos a auto-observação e entendemos de forma ampla o que é a morte do ego e como se morre de verdade. Aprendemos também a superar a tendência comum de fingir a morte para nós mesmos, por meio de comporamentos simulados e resistências inúteis.

Focar exclusivamente a a luxúria, ignorando outros defeitos mais fáceis de eliminar, é rejeitar experiências e comprovações importantes e imprescindíveis para o avanço.

Não é demais lembrar que, quando falo de "matar o defeito" e menciono sua eliminação, não estou me referindo a nenhuma forma de repressão, recalque, bloqueio ou resistência aos desejos e impulsos, os quais são meros comportamentos fingidos. Por "matar" estou me referindo à assimilação e a consequente dissolução dos nossos defeitos.

Portanto, aprendamos a trabalhar também os defeitos que não incomodam muito, adquirindo experiência e comprovação, e teremos, assim, armas para direcionar aos piores inimigos futuramente.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A valorização negativa do Ego

Se acredito que determinado desejo é terrível e perigoso, então o estou considerando poderoso e despótico. Não é possível que algo seja terrível e, ao mesmo tempo, não seja perigoso e nem poderoso. A terrificidade vincula-se diretamente à ameaça e ao poder. Aquilo que é fraco e inofensivo não pode ser considerado terrível. Logo, acreditar que um desejo é terrível e ameaçador, é acreditar que seja poderoso.
Ao simplesmente acreditarmos (sem termos consciência) que o desejo é terrivelmente poderoso, estamos fortificando o ego do derrotismo, reforçando, inconscientemente, a crença de somos fracos (se meu inimigo é poderoso, somente pode sê-lo em relação a mim, portanto, considero-me fraco), esquecendo-nos de que temos ao nosso lado as forças muito mais poderosas do Ser. Se acredito que meu inimigo é poderoso, estou atribuindo-lhe poder. Ao atribuir-lhe poder, estou atribuindo-me fraqueza. Origino, assim, um sistema de crenças em que sou fraco e meu inimigo forte. A crença derrotista, arraigada, converte-se em um freio inconsciente que inutiliza todos os nossos esforços, um defeito que necessita ser compreendido e analisado.
Muito diferente seria se tomássemos consciência do exato poder, prejuízo e despotismo de um defeito, ao invés de forjarmos crenças derrotistas para nós mesmos. Uma coisa é conhecer diretamente, outra coisa é acreditar. Quem vive forjando crenças derrotistas, fica estancado, não avança. As crenças derrotistas estão ligadas à supervalorização do Eu. O derrotista acredita que o seu Eu é todo-poderoso e o teme, pois desconhece todas as possibilidades do seu Real Ser Interior Profundo. O Ser é imensamente superior ao Eu e pode derrotá-lo, desde que a Essência colabore.
Parece contraditório, mas o desespero por se livrar dos desejos lhes confere poder, através da valorização negativa. Desesperar-se diante de um desejo é tão prejudicial quanto entreter-se curtindo sua satisfação. O recalque, a repressão, provém justamente do desespero por se livrar do que tememos, são procedimentos de fuga. Melhor seria enfrentar com frieza e coragem a realidade, ainda que desagradável e vergonhosa. Se, depois de observarmos e compreendermos razoavelmente um defeito, começamos a sentir tristeza ou vergonha pela miséria que representa, aí já é outra coisa. Mas cair em um estado negativo antes de conhecê-lo, simplesmente por uma crença que forjamos, é auto-sabotagem.
É absolutamente normal, e até desejável, que, à medida que aprofundamos a observação, comecemos a sentir aversão e arrependimento. Trata-se de um arrependimento a posteriori, que nada tem a ver com nenhuma crença apriorística forjada a partir da identificação com relatos ou explicações alheias. O arrependimento é paralelo e posterior à compreensão, a culpa a antecede e se torna um obstáculo se nos fixarmos nela.
Podemos valorizar um defeito positivamente ou negativamente. O valorizamos positivamente quando o endeusamos, adoramos, amamos, justificamos e buscamos satisfazê-lo. O valorizamos negativamente quando superestimamos seu poder e acreditamos que seja invencível, imortal, insuperável etc. crendo-o superior ao Íntimo e à Mãe Divina, acreditando que estamos condenados inapelavelmente, que nosso destino já está selado e negamos as verdadeiras possibilidades que possuímos.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Abordando imparcialmente o lado tenebroso

Diante dos desejos e sentimentos proibidos, o primeiro impulso das pessoas é sufocá-los, na vã ilusão de se livrarem assim do incômodo. Por desconhecimento, costumamos acreditar que ignorar as emoções ou "fazer força para não sentir aquilo" eliminará o problema. A experiência mostra o contrário.
Qualquer grupo social possui suas proibições, suas regras de conduta. Nem todos os impulsos instintivos são aceitos e alguns são furiosamente condenados pela sociedade. Normalmente, as regras envolvem principalmente a questão sexual: os tabus sexuais costumam ser os mais radicais e rígidos. Em certos casos, quebrar tais tabus significa perder a vida, ser condenado à tortura e à morte.
Neste ínterim, é mais que natural que a maior parte dos desejos reprimidos (mas nem de longe todos) envolvam, de um modo ou de outro, a questão sexual. Os tabus sexuais são inúmeros e relacionam-se diretamente com uma série de sofrimentos emocionais.
Sendo assim, nos círculos gnósticos não poderia ser diferente, existem também as proibições, que possuem suas razões de ser e suas funções sociais, tendo surgido para o bem coletivo. Entretanto, como somos pessoas comuns, tomamos tais proibições inconscientemente e, identificados com e a partir delas, criamos ou reforçamos vários defeitos: culpas, medos, resistências. Não nos damos conta de que o ego se disfarça de virtudes e assume aparências santíssimas.
Movidos por tais enganos, muitos estudantes enveredaram pelo caminho da repressão dos desejos, acreditando que estavam trilhando o verdadeiro caminho da Morte. Acreditaram que, sufocando o que sentiam, estavam morrendo, e não se deram conta de que estavam tão somente polindo a personalidade e fortificando egos de resistência.
O problema não são as proibições, as quais possuem sua razão de ser. O problema é a forma como tomamos as proibições. Se determinada atitude é errada ou prejudicial, não devemos tomá-la. Mas isso não significa que devamos reprimir as emoções correspondentes (e nem que devamos cultivá-las ou estimulá-las).
Reprimir ou explodir? Segurar ou deixar a emoção tomar conta? Eis o dilema dos estudantes gnósticos. Deixar a emoção tomar conta, mantendo-se passivo e não fazendo nada, é o meio mais rápido para a auto-destruição. Viciar-se em entorpecer a vontade, deixando-se levar pela fascinação, é atirar-se de cabeça no precipício da loucura. Mas tentar reprimir é inútil e também perigoso. O que fazer então? Compreender!
No que se refere às proibições, temos que compreender ambos os lados do problema: tanto o impulso de "infringir a lei", como o impulso de obedecê-la. O impulso de acatar as proibições é um ego e o impulso de desobedecê-las é outro ego. Ambos são egos, são defeitos! Por isso diz o V.M.S. que devemos compreendê-los sem absolvê-los e nem condená-los, temos que simplesmente compreendê-los, sem julgamento moral algum, ainda que a moral tenha seu sentido e sua razão de ser na vida social.
Cada "eu" possui seu sentido, sua lógica própria inerente, seu significado. Tentar analisá-lo a partir de um preceito moral, ainda que gnóstico, é distorcer a análise, sabotar a própria compreensão. Uma moral religiosa qualquer, por mais imprescindível que seja, serve aos egos santarrões que se vestem com a túnica do Cristo.
Não fornicar, não adulterar, não xingar, não mentir, não roubar, não ferir o próximo são virtudes maravilhosas, mas deixar que o ego as comande é adormecer ainda mais a consciência e nutrir elementos psíquicos enganosos, que gostam de aparentar santidade, martírio, altruísmo. A moral é um produto do Ego e quem é moralista está longe de morrer.
Não será com repressões moralistas que se conseguirá a Morte. Quem quer a Morte de verdade, deve ser capaz de observar sem julgamento e sem resistências morais os pecados mais feios, vergonhosos e abomináveis. Deve-se observar e enxergar tais defeitos imparcialmente, sem culpas e nem auto-depreciações. Culpa e auto-depreciação são egos disfarçados de virtudes.
O V.M.S. fala de auto-crítica. A verdadeira crítica de si mesmo é imparcial. É tão grave desculpar e absolver os defeitos, quanto condená-los sem compreensão. Após a compreensão, haverá sempre a conclusão, espontânea e natural. É na conclusão que estarão os resultados da análise, do julgamento. A condenação de um defeito é posterior ao seu julgamento e não anterior, surge quando finalmente compreendemos que aquele desejo, que antes nos pareceu tão agradável e maravilhoso, não serve para nada além de prejudicar e destruir a nossa vida. Mas não chegaremos a tal compreensão se sabotarmos a própria observação ou análise de antemão.
Então, vejam que curioso: o moralismo religioso (gnóstico ou não), que tanto detesta e quer banir os desejos pecaminosos da alma, os preserva da Morte e nos impede de matá-los, pois não permite que os enxerguemos. O moralismo religioso é aliado dos pecados!
O conceito de pecado é faca de dois gumes: serve para orientar a conduta, mas pode também servir para criar "eus" que ficam atormentando o pecador com a culpa. Os atormentadores egos de culpa não são nada dignos e nem decentes, são meros defeitos disfarçados de virtudes, demônios interiores sabotadores da Morte.
A consciência possui um poder desinfectante e regulador que nos possibilita deixar que um desejo aflore sem que nos possua e nos domine. Para tanto, basta não nos identificarmos. Não precisamos temer a possessão. Se não nos identificamos com o desejo e o observamos, extrairemos dele a compreensão e podemos deixá-lo aflorar livremente sem nenhum problema. O que importa é aprender a separar-se do desejo, observá-lo de fora, como um elemento estranho. O que provoca a possessão não é o afloramento do desejo, mas sim a identificação. É a identificação que deve ser evitada e é nesse sentido que temos que nos disciplinar com rigor.
Tenho falado em análise, mas a simples auto-observação já é um processo analítico e amplia a compreensão progressivamente, dia após dia. A observação de si mesmo deve ser absolutamente livre de julgamentos morais. Se você tem desejos feios e condenáveis, dos quais se envergonha, observe-os sem julgamento moral, apenas tentando compreendê-los. Observe de forma imparcial e crítica até mesmo os impulsos de culpa, auto-depreciação, auto-condenação, moralismos etc. Que nada escape de vosso crivo analítico dissolvedor.
Suponhamos que você tenha um desejo bem ridículo, daqueles que todo mundo condenaria se soubesse, e que você o esconda com unhas e dentes do olhar de todos. Você o satisfaz em segredo, sem que ninguém veja, e se sente culpado, imprestável, inútil, condenável e não sei que mais. Pois bem, digo-lhe que tais sentimentos negativos, que conflitam com o desejo em questão, são emoções inferiores e não superiores, não são arrependimentos e não te livrarão desse pecado indesejável. Se quiser se livrar, terá que, antes de mais nada, ser capaz de observá-lo de forma imparcial. Só assim poderá começar a enxergar de fato o que é aquilo. Simplesmente condenar-se a priori é guiar-se pela moral convencional, a qual é inútil para quem quer ir além de si mesmo.
Veja bem: não estou afirmando que devamos gostar dos defeitos, cultivá-los ou alimentá-los. O que estou afirmando é que temos que ser capazes de observá-los sem preconceitos morais para compreendê-los, o que é totalmente diferente.
Quando um mestre desperto condena atitudes, desejos e sentimentos, o faz a posteriori, pois está expondo o resultado de suas experiências. O mestre sabe que a fornicação, por exemplo, é altamente prejudicial e expõe tal fato, de forma crua, clara e contundente. Mas isso não significa que você ou eu tenhamos compreendido verdadeiramente tais prejuízos. E se não os compreendemos, mas nos opomos a ela gratuitamente, estaremos simplesmente nos auto-enganando. Se você quer compreender os prejuízos da fornicação, observe-os em si mesmo, imparcialmente, e os verá. Quem observa a sua própria fornicação (e não a dos outros!) em suas múltiplas manifestações de forma realmente imparcial, inevitavelmente concluirá que é algo altamente prejudicial. Mas o mestre afirmou isso apenas para a sua informação e não para que você forjasse um problema e criasse um "eu" de culpa ou medo. A culpa não é dele e sim sua, pois foi você que criou mais um problema para a sua sofrida vida.
Comumente confundimos sentimentos negativos como culpa, medo e auto-condenação com o arrependimento. Achamos que temos que sentir culpa para nos arrependermos. Achamos até que a culpa vem de Deus! A prova de que estamos equivocados é que podemos sentir culpa por vários anos sem nos arrependermos do ato que nos faz sentir culpados, pois se realmente nos arrependêssemos, não tornaríamos a cometê-lo.
Então, aprendamos a tomar nossos pecados feios e vergonhosos tal como são, sem culpa e nem tampouco justificativas. Todos fizemos coisas feias ao longo da vida, nessa ou em outras existências, e não adianta nada identificar-se com isso e ficar se lamentando. O que importa é mudar, dar outra oitava na existência, elevar nosso nível de Ser. Os estudantes gnósticos são humanos e também possuem seus monstros no armário e não há nada demais nisso, a não ser o fato de ficarmos passivos e fugirmos do problema por toda a vida. Tudo bem, erramos, mas e daí?
Observe calmamente a sua podridão interior, com coragem. Veja toda a imundície, reconheça-a, mas sem parcialismos. Não seja contra e nem a favor de um pecado, simplesmente conheça-o. Eduque sua vontade nesse sentido.
Você não é só lixo, existem coisas boas dentro de você, ainda que você não esteja consciente delas. Então porque enveredar pelo caminho da auto-depreciação?
Uma coisa é achar que um defeito é maléfico; outra coisa é compreender de fato que um defeito é maléfico. Na Morte do Ego, não se "acha" nada, se compreende. Não se acredita que o Ego seja isso ou aquilo, se sabe, por experiência direta. Podemos acreditar ou supor que um comportamento seja bom ou ruim, pecaminoso ou virtuoso, mas isso não significa que tenhamos plena consciência disso.
Conscientizar-se não é acreditar, nem supor e nem "achar". Conscientizar-se é experienciar diretamente. Temos que experienciar os pecados tal como são e não o conseguiremos se qualquer crivo tendencioso, favorável ou desfavorável, estiver condicionando a observação.
Não tenha medo de enxergar a realidade dos seus desejos, é a verdade que te libertará. Vá até ela de braços abertos.
Por mais vergonhoso e reprovável que seja um defeito, temos que observá-lo e analisá-lo de forma imparcial, sem cair no desespero. Desesperar-se diante de um defeito ou pecado terrível é tornar-se incapaz de abordá-lo objetivamente. Se queremos a compreensão, temos que abordar os pecados objetivamente e se os queremos abordar objetivamente, temos que ser absolutamente imparciais, ainda que o comportamento a ser estudado esteja contra os princípios mais sagrados em que acreditamos. Somente a abordagem imparcial nos permitirá compreender de verdade todos os prejuízos do defeito. Ao contrário do que pode parecer, a condenação antecipada de um defeito é um mecanismo engenhoso para escondê-lo de nossa consciência. Quem condena um defeito antes de observá-lo e examiná-lo, está protegendo-o do julgamento objetivo e, portanto, da Morte. É assim que evitamos tomar consciência e nos recusamos a morrer de verdade.
Temos medo da condenação, medo do inferno, medo do que somos. Tais medos se devem a crenças negativas que forjamos sobre nós mesmos, a partir da experiência de vida. Temos que dissolvê-las. Se, por um lado, somos criaturas perigosas e imprestáveis, que se encontram em um estado horrível, por outro lado, temos muitas possibilidades e anelos. Temos um Ser Interior Profundo e Real, do qual emana tudo o que é divino em nós. Focarmos exclusivamente no que não presta é ignorá-lO. Temos que recordar que temos Deus conosco, se quisermos vencer a escuridão do pecado.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

A disciplina e a vontade na aplicação do livre arbítrio interior

Quando descubro um detalhe comportamental indesejável e peço por sua morte, conquisto uma pequena porção de livre arbítrio. Se deixo de continuar realizando o ato correspondente a partir de então, estarei impedindo aquele detalhe de voltar à vida. Se torno a fazer a mesma coisa, estarei trazendo o defeito novamente à vida.
Somente à medida que conquistamos livre arbítrio interior podemos nos dar ao luxo de não mais fazer o que antes fazíamos. E somente conquistamos o livre arbítrio se o defeito (ou sua faceta) morrer. Deixar de fazer o que sempre se fez, sem compreender o quão prejudicial é aquilo, é adotar um procedimento repressivo, bloqueador. A verdadeira morte se dá paralelamente à aquisição de livre arbítrio interior. Se alguém tem muito vícios, deve continuar com eles e observá-los, ao invés de forçar uma mudança artificial do dia para a noite (pois de todas as maneiras, tal mudança será falsa, pois ninguém muda assim). Tais mudanças são meros fingimentos para si mesmos e para os outros, e não são duradouras. A verdadeira mudança vem com a compreensão.
Sorrir diante de quem nos irrita, estando interiormente cheio de ira e ódio, não é mudar. Tentar sufocar a raiva que se sente, segurando-a pela força, em bruto, não é mudar, e criar uma bomba relógio que explodirá cedo ou tarde, de uma forma ou de outra, seja sob a forma de um ataque de fúria, seja sob a forma de um ataque cardíaco, seja sob a forma de qualquer outra doença psicossomática.
Mudar superficialmente, por fora, é fingir. Virtudes fingidas e forçadas são mero cultivo da resistência. Queremos a transformação verdadeira e não a conseguimos por meio da resistência. Resistir aos desejos não é eliminá-los. Queremos a morte verdadeira, o enfraquecimento e a morte completos daquilo que nos perturba e nos tortura. Os recalques são procedimentos de mudança superficial, aparente. A verdadeira morte não é fingimento, não é repressão ou recalque. É realizada por uma parte superior do Ser (Mãe Divina) sobre o Eu. É isso o que buscamos.
Resistir ao Eu não é matá-lo. Observar o Eu sem identificação e pedir pela morte de cada faceta descoberta sim, provomerá a morte verdadeira.
Suprimir detalhes do comportamento antes da Morte é recalcá-los. Suprimi-los durante e depois da Morte é exercer o livre arbítrio conquistado.
O fato de não reprimirmos os desejos não significa que não iremos adotar firmes resoluções, vontade de aço e tenacidade de ferro em sentidos específicos; significa, isso sim, que os empregaremos na direção correta. No trabalho interior não deixamos as coisas à deriva e nem esperamos que tudo aconteça enquanto ficamos de braços cruzados.
O fato de não reprimirmos os desejos não significa que os mesmos atuarão livremente, se alimentando à vontade, sem que nada atue sobre os mesmos e os enfraqueça. A observação consciente lhes despotencia e a Mãe Divina os decapita.
A consciência tem um poder desinfectante sobre o psiquismo que substitui plenamente o mecanismo repressor.
A vontade de aço estará corretamente empregada se for aplicada no sentido de não reprimir mas, ao mesmo tempo, observar e pedir. A disciplina empregada para a repressão é prejudicial, mas a disciplina empregada para a compreensão é útil.
A disciplina para resistir é contrária ao auto-conhecimento. Necessitamos de uma disciplina favorável aos nossos interesses: disciplina rigorosa no sentido de permitir o livre afloramento dos conteúdos inconscientes, de não nos identificarmos com tais conteúdos, de observá-los com plena consciência e lucidez e orar pela dissolução de tais conteúdos.
No campo em que possuímos livre arbítrio interior (liberdade emocional do comportamento), temos toda a capacidade de NÃO FAZER algo, mas isso não significa que sempre devamos evitar fazer aquilo, tudo dependerá das circunstâncias. Se algo alimentar ou criar um defeito, não devemos realizá-lo, mas se for inofensivo e não reforçar em nós nada prejudicial, não há problema em realizá-lo. A consciência é o melhor guia.
Quando descobrimos um ato que alimentava um defeito e o eliminamos, dali para frente poderemos continuar a realizá-lo ou não, tudo dependerá do seguinte:
1. Se o ato prejudica a nós mesmos ou a outras pessoas;
2. Se o ato irá alimentar ou (re)criar defeitos.
A reflexão sincera (Reflexão Evidente do Ser) é que nos dá a orientação no momento e nos permite saber se devemos ou não continuar a realizar o ato. Certos atos podem e devem ser realizados após a morte do defeito correspondente, outros atos não.
Há atos que nutrem defeitos mas não podem ou não precisam ser suprimidos de nossa vida, mesmo após a dissolução dos Eus correspondentes. Neste caso, devemos passar a realizá-los conscientemente, pois então uma parte do Ser se ocupa em realizá-lo sem causar danos (ex. ser carinhoso com a esposa). Já outros atos, ao contrário, não podem permanecer em nossa natureza pois impossibilitam avanços posteriores e nos estancam (ex. frequentar prostíbulos, masturbar-se ou ver filmes pornográficos). Não nos orientamos pela moral, a moral nos é inútil. Nos orientamos pelo prejuízo: o que prejudica a nós ou aos demais, o que nutre ou cria defeitos, precisa ser retirado. Portanto, o livre arbítrio deve ser exercido com consciência.
Quando não se tem livre arbítrio e se é impelido a realizar um ato, o melhor a fazer é não reprimi-lo e separar-se do mesmo para observá-lo, ver-se em cena. Quando se conquista o livre arbítrio, porém, o ato deve ser realizado somente se não ocasionar nenhum prejuízo a ninguém.
Além disso, após compreendermos que determinada conduta é prejudicial e não nos traz benefício algum, não resta alternativa além de tomarmos a firme resolução de não a repetirmos mais e exercer tal resolução por meio da vontade poderosa e decidida. Aqui há um ponto importante a ser considerado.
Se, após o enfraquecimento ou eliminação de um ego, nos identificamos novamente com pensamentos correspondentes, iremos fortificá-lo ou recriá-lo. O mesmo valerá para os atos: atos que nutrem um defeito irão reforçá-lo ou recriá-lo após seu enfraquecimento ou eliminação. Se você enfraqueceu o poder da luxúria e em seguida começar assistir a filmes pornográficos, irá fortificá-la novamente. Se começar a pensar em sexo e fantasiar, o mesmo acontecerá. À medida que um defeito vai sofrendo enfraquecimento, temos que empregar a vontade libertada (livre arbítrio interior) para não fortificá-lo novamente ou perderemos todo o trabalho. Não nos interessa andar em círculos, enfraquecendo e fortificando os mesmos vícios eternamente, almejamos a liberdade interior definitiva.
Que ninguém suponha, portanto, que removemos os mecanismos repressivos para nos entregarmos à identificação, ao hedonismo, ao desenfreio, à satisfação dos desejos. Os removemos com o único intuito de observá-los e compreendê-los, nada mais.
Assim, não empregamos a vontade férrea para reprimir o ego, mas para observá-los de fora, sem identificação, para orar por sua morte e para, à medida que a conduta prejudicial se enfraquece, adotar novos comportamentos.
Toma a resolução firme de, por exemplo, não alimentar de modo algum a luxúria amanhã, durante todo o dia. Então você compreenderá que é capaz, terá comprovado seu poder e poderá tomar outras resoluções posteriores, cada vez mais rigorosas. Essa é a disciplina correta, que não é voltada para o cultivo das resistências e recalques.
É importante aplicar e exercitar a vontade para que saibamos quais são nossas verdadeiras capacidades. Temos capacidades que ignoramos, somos capazes, por exemplo, de praticar a magia sexual corretamente por certo tempo, de praticar a concentração em um copo com água por vários dias sem falhar, de cortarmos toda a alimentação de um certo defeito por um determinado número de dias, mas não o fazemos por desconhecer tais capacidades. Temos que traçar nossa própria disciplina já, sem esperar para depois. É claro que a disciplina traçada tem que manter-se dentro de nossas capacidades. Seria absurdo traçar uma disciplina que não suportamos. À medida que nos acostumamos, podemos ir "apertando os parafusos", gradualmente. A disciplina é elaborada pela própria pessoa, por nós mesmos, e não por outros. Não fiquemos perdendo o tempo, esperando que algum mestre nos diga o que fazer ou que disciplina traçar. Tracemos nossa própria disciplina e a tornemos cada vez mais severa.

domingo, 17 de abril de 2011

Arrependimento e culpa

Há uma diferença entre o verdadeiro arrependimento e a culpa (arrependimento subjetivo).

A culpa nada tem a ver com o verdadeiro arrependimento. Aquele que se culpa não está verdadeiramente arrependido, está somente preocupado consigo mesmo. A culpa é simplesmente um defeito a mais.

Sentir-se culpado não é arrepender-se. Os egos da culpa criam terríveis problemas emocionais.

Arrepender-se verdadeiramente é abandonar definitivamente algo que se fez, nunca mais querer voltar àquilo. Sentir-se culpado é simplesmente sentir-se receoso ou triste pelas consequências negativas e destrutivas que possam recair sobre nós, a partir de atos que nós mesmos provocamos.

A culpa é uma forma subjetiva de arrependimento. Os danos do arrependimento subjetivo podem ser vários. Veja esta matéria:


Muitos estudantes gnósticos confundiram o arrependimento subjetivo (culpa) com o arrependimento objetivo e verdadeiro. O arrependimento objetivo resulta da compreensão profunda do que se faz, enquanto o arrependimento subjetivo é, no fundo, mero impulso de auto-preservação.

À medida que morremos, o arrependimento verdadeiro vai surgindo, até o dia em que negamos totalmente a nós mesmos. Então, deixamos os velhos costumes, não por temor das consequências, mas por compreendermos que realmente não serviam para nada e só atrapalhavam a nossa vida e a dos demais.

Não confundamos, então, a culpa com o arrependimento.

De nada adianta culpar-se por não ter se transformado em um Buda após vinte ou trinta anos de trabalho. Tal sentimento de culpa não mudará a situação para melhor (embora possa causar doenças). Ao invés de sofrermos com sentimentos de culpa, melhor é sermos sérios daqui para frente, dissolver os egos de culpa, praticar todos os dias e esquecer o tempo, colhendo os resultados no final da existência.



quinta-feira, 14 de abril de 2011

Buscando o sublime através da meditação

Durante a meditação, deixamos para trás tudo o que é denso: corpo físico, corpo etérico, corpos astral e mental, pensamentos, sentimentos, recordações. Nos dissociamos dos elementos que nos prendem à realidade temporal, ao mundo relativístico. Buscamos aquilo que é sublime, divino, superior, elevado, leve, divino.

O desligamento se inicia com o relaxamento, prossegue com a concentração e se realiza na meditação, mas pode prosseguir e se aprofundar a niveis inimagináveis. Não há limites na viagem da alma em busca da leveza.

O trabalho de meditar é o trabalho de dissociar completamente a consciência da mente, do corpo físico, dos sentimentos e dos elementos externos.

Na verdade, nos desligamos de tudo para experimentar aquilo que nunca antes experimentamos e que não pode ser descrito e nem imaginado. Qualquer tentativa de se imaginar o que se poderia experimentar fracassa e pode até sabotar a meditação caso se converta em guia do que deveríamos fazer. A experiência da meditação é a experiência do desconhecido.

O esforço que se faz na meditação pode ser qualificado como um esforço negativo. Um esforço negativo é um esforço menor que zero. Todo o empenho é no sentido de se atingir o esquecimento e a despreocupação totais. Meditar é uma forma de dormir e semelhante a morrer (embora não seja a mesma coisa que morrer).

Quem pressupõe um caminho ou meio, através do qual deva se esforçar para meditar, está se sabotando antes de iniciar a prática. Pressupostos sobre a meditação a travam de antemão.

Quanto tempo dedicar às práticas?

A frequência ideal para as práticas de meditação é o maior número de vezes possível durante o dia. Entretanto, todas as práticas devem ser feitas sem esforço (sem forçar-se). A pessoa deve se sentir bem, e não mal, ao fazer as práticas. A leve dor de cabeça, característica do esforço mental, não pode ser sentida.

Uma sugestão minha: em vigília, reparta o seu tempo entre a meditação e a dedicação ao ginásio psicológico (morte em marcha), dedicando 50% do tempo a cada uma.

Alterne as práticas ao longo do dia, isso significa: alterne períodos de atividade contemplativa (meditação) com períodos de atividade corporal (morte em marcha, luta do dia a dia).

Se dedicarmos a metade do nosso tempo à meditação (e práticas afins) e a outra metade à morte em marcha (e práticas afins), reproduziremos o mesmo comportamento em astral, à noite.

O tempo de duração de cada prática de meditação depende do desenvolvimento de cada pessoa. Iniciantes praticam por poucos minutos, várias vezes ao dia, enquanto as sessões de práticas de veteranos são mais demoradas. De todas as maneiras, qualquer praticante assíduo, iniciante ou não, praticará várias vezes ao dia e não somente uma vez.

O conteúdo dos pensamentos

Cada pensamento possui um conteúdo. O conteúdo de um pensamento é a informação que ele traz. Exemplo: se penso em uma casa com uma mulher na janela, este é o conteúdo do meu pensamento.

O conteúdo de cada pensamento corresponde a uma faceta do ego que o emite. Os egos usam o centro intelectual para emitir mútiplos pensamentos.

A esmagadora maioria dos pensamentos são inúteis, meros desperdícios de energia intelectual, e não servem para nada.

Usar nossa pequena margem de livre arbítrio intelectual para parar de pensar é o primeiro passo. Observar e pedir a morte dos pensamentos que fogem ao alcance deste livre arbítrio é o segundo passo.

Então, fazemos duas coisas: pedimos a morte dos pensamentos existentes e, mediante o exercício da vontade, deixamos de recriá-los ou de criar novos pensamentos.

A auto-observação revela o conteúdo de cada pensamento e permite verificar o avanço na morte do defeito correspondente.

Pensamentos são manifestações do Ego no centro intelectual.

Quando nos propomos a eliminar um ego, o primeiro a fazer é não ocupar nossa mente com os objetos de sua libido (desejos, medos, sofrimentos etc.). Se ocuparmos nossa mente com os pensamentos emitidos pelo Ego, o fortificaremos e jamais o eliminaremos. A verdadeira morte é o enfraquecimento progressivo, até o definhamento e morte totais (decapitação). Morte é esquecimento.

A vigilância no sentido de não reprimir e nem deixar de pedir pela morte da faceta expressa no pensamento deve ser rigorosa. Temos que encontrar um ponto interno de equilíbrio, onde não reprimimos os pensamentos, mas também não deixamos que passem sem serem queimados pela Mãe Divina. Não os reprimimos, mas não deixamos de pedir à Mãe Divina que os mate. Aí está o rigor da disciplina mortal e não repressora.

Neste ponto de equilíbro, não emitimos nenhum pensamento voluntariamente, mas pedimos a Morte para todos os pensamentos involuntários que nos assaltam, sem nos preocuparmos em reprimir estes últimos e nem tampouco alimentá-los pela identificação.

Alimentar um pensamento pela identificação e pedir por sua morte é um contra-senso. Alimentar um pensamento pela identificação e tentar reprimi-lo também é um contra-senso. O correto é não reprimir e nem estimular, mantendo-nos fora desta dualidade.

Existem pensamentos voluntários e involuntários. Os voluntários são aqueles que podemos deixar de emitir por um simples esforço de vontade. Os involuntários são aqueles que não nos deixam, mesmo quando tentamos expulsá-los de nosssa mente (ex. música que toca na cabeça por vários dias).

Na correta prática da morte, não emitimos voluntariamente os pensamentos e não deixamos que os pensamentos que nos invadem involuntariamente passem sem serem mortos pela Divina Mãe.

Na correta prática da morte, não procuramos os pensamentos: os esquecemos e nos ocupamos com nossas tarefas cotidianas. No entanto, não deixamos que passem por nossa mente sem serem afetados pelo fogo da Mãe Interna. Por isso nossa meta é a observação e a oração.

Procurar os pensamentos é evocá-los, atraí-los e criá-los, motivo pelo qual não os procuramos. Mas não deixamos de percebê-los quando chegam sem terem sido chamados e, nesse caso, imediatamente pedimos pela morte.

Os pensamentos devem morrer porque não são o Ser e obstaculizam o Ser. Somente o Ser (ou Essência) deve ser admitido em nós.

Quem se deixa fascinar pelos pensamentos, confunde-os com a Essência, alimenta os egos que os emitiram e se torna incapaz de observá-los . A mente deve sempre ser vista como um elemento estranho, como algo distinto do Ser.

Buscamos o Ser Verdadeiro, nosso Espírito Divino, que é o que temos de melhor e mais decente. Então, não cultivemos o Ego, apressemos sua morte e o Ser resplandecerá. O Real Ser é Deus em nós.

O conhecimento do coração

Existe uma sabedoria do intelecto, que pertence à cabeça, e existe uma sabedoria do coração.

A sabedoria da cabeça vincula-se ao pensar, o qual, por sua vez, vincula-se ao sensorial: a lógica do intelecto é dada pelos sentidos comuns.

A sabedoria do coração vincula-se a um sentir específico. Sua lógica é de tipo interno e se fundamenta no supra-sensorial.

A emoção também é veículo de conhecimento. O mundo das emoções que podem ser experimentadas é infinito e corresponde a todo um universo a ser conhecido.

Podemos conhecer um objeto a partir das sensações físicas que o mesmo nos proporciona e a partir das sensações internas que provoca.

Um objeto qualquer do mundo provoca em nós sensações internas e a percepção consciente das mesmas constitui uma forma de conhecimento. Esse é o conhecimento do coração.

O conhecimento do coração é o conhecimento das sensações interiores.

O mundo inteiro, com todos os seus objetos físicos exteriores, toca o homem psiquicamente, de forma análoga à que o toca com suas vibrações físicas. A luz refletida por um pássaro afeta a retina, o som produzido por seu canto, afeta seus ouvidos. Mas há algo além: a imagem, o canto, a presença do pássaro provoca em nós uma reação psíquica: emoções de variados tipos, recordações, imagens mentais etc. O pássaro também nos atinge interiormente.

A principal forma de sermos atingidos interiormente por algo é a emocional.

Se nosso sentido de auto-observação fosse desenvolvido, veríamos uma gama imensa de emoções oriundas dos objetos que nos rodeiam. Estaríamos captando o aspecto astral do mundo e adquirindo o conhecimento do coração.

Quando as percepções emocionais se tornam conscientes e objetivas, desenvolvemos a faculdade da intuição, que é o mesmo conhecimento do coração, aprimorado e treinado. O intuitivo lê o mundo com o centro emocional.

Quem tem o ego desenvolvido não pode ter conhecimento intuitivo porque suas emoções são desordenadas, caóticas e subjetivas.

Se quisermos entrar nos mundos espirituais, temos que desenvolver a emoção. As emoções inferiores caotizam e desordenam a percepção interior.

Todo ser humano possui um pouco de intuição que pode ser exercitada e desenvolvida, desde que se saiba o caminho.

Não há limite para o desenvolvimento do conhecimento do coração. A capacidade de discernir objetivamente as emoções que sentimos pode ser aprimorada até níveis inimagináveis, revelando o que ao intelecto se mantém oculto.

À medida que o Ego morre, as emoções não deixam de existir: se tornam mais e mais objetivas, correspondendo-se com a realidade.

Não temos que nos tornar seres frios e sem emoção, temos que eliminar as emoções inferiores e desenvolver as emoções superiores.

Aqueles que supõem não existir relação alguma entre a emoção e a realidade estão enganados. A realidade não pode ser capturada objetivamente na frieza porque a emoção é, ela própria, uma parte da realidade. A emoção humana é parte do aspecto emocional do universo.

A realidade não é constituída somente por vibrações sonoras, luminosas e de outros tipos.

Existem também as vibrações psíquicas (emocionais e mentais, entre outras não compreensíveis ao intelecto materialista), as quais fazem parte da realidade e são requeridas para uma compreensão mais profunda do todo no qual estamos inseridos.

A frieza do intelecto, que exclui a emoção, não pode penetrar no aspecto mais profundo do universo. Pode ser útil para a compreensão da secção sensorial do mundo, mas se torna desorientante quando aplicada à tentativa de se ir além, como vemos nos casos dos cientistas que tentam penetrar o mundo subatômico sem renunciar ao paradigma sensorialista.