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domingo, 11 de setembro de 2011

Sobre não pensar em perigos inevitáveis

Há uma crença corrente de que, para enfrentar problemas e perigos, temos sempre que neles pensar. Isso é algo questionável.

Obviamente, em certas situações, pode ser útil raciocinar para encontrar a solução. Mas há situações em que a solução já foi encontrada ou é impossível e, ainda assim, nossa mente insiste em tentar imaginar soluções.

Se, mesmo sem ter (outra) solução para um problema, eu insisto em procurá-la, estou procurando algo inexistente. Tal insistência indica que não estou aceitando a realidade e indica, também, que não acredito que a solução, se existir, possa chegar por vias não racionais (ex. maçã de Newton e outras sincronicidades). A insistência teimosa em pensar em um problema, grave ou não, contra toda possibilidade de solução, assinala confiança cega e extrema na faculdade racional. Isso não significa, entretanto, que nunca se possa procurar soluções raciocinando e nem que sempre seja útil renunciar ao intelecto.

Vemos, então, que pensar às vezes é bom e às vezes é ruim.

Quando há um problema ou perigo onipotente, contra o qual é inútil lutar, a solução mais sábia é a aceitação. Porém, os centros emocional e intelectual reagem furiosamente e se debatem contra o inevitável. No fundo, está o Ego reacionando contra a realidade, por medos ou por desejos intensos. A mente é como um asno teimoso, que esperneia sem parar, e o centro emocional é como um elefante louco.

Se queremos que os centros intelectual e emocional se acalmem, temos que aprender primeiramente a não pensar nos perigos e problemas inevitáveis. Desviar o pensamento daquilo que nos ameaça é uma faculdade a ser obtida por meio do desenvolvimento da concentração.

Se me detenho pensando em um perigo inevitável, emoções negativas vão crescendo dentro de mim, fazendo o problema assumir um significado cada vez mais monstruoso.

Pensemos na morte (desencarnação), por exemplo. Se refletirmos um pouco, veremos que a morte, em si mesma, não é algo terrível, é simplesmente um processo natural a mais, ao lado do nascimento e do crescimento. Os animais e as plantas incessantemente morrem, as rochas, planetas, estrelas e galáxias são constantemente destruídos no céu. No entanto, nossa mente não aceita tal processo natural e luta para escapar. O motivo é o significado desesperador e monstruoso atribuído à morte, o qual é algo completamente psicológico, interior. O significado sombrio da morte é algo atribuído por nós e não existe por si mesmo, inerentemente ao processo de destruição. Em outras palavras: se nossa mente lhe atribuísse um significado oposto, todos teríamos pressa em morrer e seriam necessárias leis para impedir que as pessoas apressassem a morte.

Tememos a morte e sofremos ante sua aproximação porque nos condicionamos a nela pensar como algo ruim. E tal condicionamento está longe de ser mera questão de opção e livre arbítrio. Não tememos a morte porque queremos, a tememos porque estamos condicionados. Ainda que queiramos pensar nela de outro modo, os pensamentos sombrios voltam, pois são valores vivos e autônomos dentro de nós.

Se queremos ser capazes de enfrentar ameaças e perigos sem nos perturbarmos, temos que primeiramente aprender a não pensar neles, mesmo estando dentro e diante deles. E isso não se consegue pelo mero esforço intenso, mas pelo esforço estratégico correto e intenso. Não conseguirá esta capacidade aquele que simplesmente se expor ao perigo e tentar não pensar. Há que se conquistá-la gradualmente, dissolvendo todos os detalhes do medo que afloram no cotidiano. Toda dificuldade, perigo, ameaça tem que ser usada como ginásio psicológico para se estudar os detalhes e facetas do medo, da sensação de sentir-se vulnerável. Quem simplesmente se expõe a perigos e tenta nada pensar e nada sentir, está reprimindo o Ego e, cedo ou tarde, a corda irá arrebentar.

Seria muito interessante atingirmos um estado de serenidade como o do Buda diante das ameaças de Mara, mas isso não se consegue pelo mero esforço bruto. A serenidade dos mestres resulta de longo trabalho de Morte do Ego ao longo de toda a vida. Se quisermos este estado, teremos que trilhar este caminho.

Nós, pessoas normais, temos uma relativa e pequena capacidade de não pensar em problemas menores, menos ameaçadores. Se tivermos que enfrentar ameaças terríveis, podemos apelar aos seguintes recursos:

1) oração (conectando-nos às nossas Partes Internas obtemos força);
2) relaxamento (acalmando o centro motor, facilitamos a calmaria dos centros emocional e intelectual);
3) emoções superiores (colocando o centro emocional para trabalhar de forma oposta);
4) reflexão na dualidade (todo pensamento insistente possui um pensamento contrário que o anula);

Creio que os quatro pontos acima merecem maior aprofundamento, mas pretendo fazê-lo em outra oportunidade.

Até logo

sábado, 3 de setembro de 2011

Em que consiste a concentração nos koans

Um koan é um problema insolúvel que propomos à mente, para que ela encontre a solução. Por "propor" um problema à mente entenda-se: quebrar a cabeça para solucioná-lo através do pensamento.

Quando nos concentramos em um koan, o koan escolhido passa a ser o objeto de nossa concentração. Nosso pensamento, poder analítico, reflexão e racionalização são focados no problema, na tentativa de resolvê-lo.

Concentrados no koan, buscamos a resposta. Buscar a resposta de um koan é pensar no problema proposto, procurando solucioná-lo, até que nos convençamos completamente que a mente e os pensamentos, mesmo que concentrados, não podem resolver tal problema.

Quando nossa parte mental se convence de que não pode resolver o problema, isto é, que a via racional não dá conta do mesmo, ela se aquieta e se retira, deixando a consciência, temporariamente, pura e livre.

O pensamento único que se tem quando se está concentrado em um koan é o pensamento a respeito do problema proposto. A solução está além deste pensamento único e concentrado.

Qualquer problema insolúvel da vida pode funcionar como koan e não somente os koans propostos pelos sábios chineses e tibetanos. Enigmas científicos, filosóficos ou problemas insolúveis do cotidiano também podem ser usados como koans.



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aplicando a dualidade aos pensamentos

Para cada fato ao qual damos grande importância há alguns fatos contrários que o anulam. Quando estamos exageradamente preocupados com um problema, outro problema ainda pior ou uma alegria imensamente superior podem torná-lo imediatamente insignificante. Quando estamos envolvidos com alguma modalidade de prazer, outro prazer muito maior ou uma dor exagerada poderão torná-lo sem sentido. Os valores que conferimos são relativos. Algo valerá muito ou pouco de acordo com o referencial adotado. No mundo fenomênico em que vivemos, os objetos, os fatos, as coisas, não possuem valor absoluto. Estamos aprisionados na relatividade.

O mesmo princípio vale para os pensamentos. Todo pensamento corresponde a um valor, traz um valor embutido. Um pensamento insistente relacionado com algum problema sério em que tenhamos nos metido perde seu sentido no momento em que conjeturamos a possibilidade de que um outro problema distinto e ainda pior, e que nada tenha a ver com o primeiro, nos afete. Portanto, o pensamento em um problema é anulado pelo pensamento em outro problema, o que significa que ambos possuem, entre si, uma relação de polaridade: um conduz à compreensão da nulidade e inutilidade do outro. Neutralizar um pensamento mediante o seu oposto é o que se chama de "aplicar a dualidade".

O que é aplicar a dualidade a um pensamento? É encontrar um fato que, ao ser considerado (pensado, conjeturado), torna sem sentido o fato no qual estávamos pensando, esvaziando-o de importância. Todo pensamento, bom ou mal, está em nossa mente por identificação. E se nos identificamos com um pensamento, estão estamos lhe conferindo importância, seja positiva ou negativa. Se fico pensando na discussão hostil que tive com um colega de trabalho, estou conferindo importância a essa discussão. Se fico pensando na mulher nua que vi em algum lugar, estou conferindo-lhe importância. Conferimos importâncias boas ou más aos conteúdos dos nossos pensamentos. Se queremos anulá-los, temos que encontrar os seus contrários.

A maior parte dos pensamentos surgem na mente e nos deixam ao serem simplesmente percebidos. Mas há pensamentos renitentes, teimosos e insistentes como, por exemplo, uma música que fica tocando na cabeça ou um problema que fica martelando. Neste caso, temos que encontrar os fatos opostos que, ao serem levados em consideração (pensados) os inutilizam. Que valor atribuímos à música teimosa que se repete infinitamente? Será um valor positivo (gostamos dela) ou negativo (a detestamos tanto que não a esquecemos)? E o que tornaria aquela música sem importância? Outra música ainda melhor ou uma música tão detestável que a tornaria sem valor algum?

Aplicar a dualidade não significa deixar uma identificação por outra, simplesmente trocando-a. Não é identificar-se com algo novo. É aprender a anular ambas as identificações, uma pela outra. O fato contrário anulante é evocado somente com o intuito de cancelar a identificação com seu contrário e não de gerar uma nova identificação. Caso isso ocorra, temos que apelar para um terceiro que irá anular o segundo. O ideal, no entanto, é evocar o segundo fato sem, entretanto, nos identificarmos com o mesmo. Como previamente estamos em recordação de nós mesmos e não fascinados pelo fato a ser evocado, torna-se mais fácil evitar a identificação.

Esta prática, normalmente, deve ser empregada somente nos pensamentos teimosos, que não nos abandonam mesmo após serem contemplados e insistem em atrapalhar a concentração/meditação.

Buscar a dualidade é uma forma de abandonar os pensamentos intrusos:

“P. – Mestre, quando se está concentrado num Koan, se cruza um pensamento… que é que se vai fazer amanhã, coisas do trabalho. Que se faz com esse pensamento?

V.M. – Não, seguir o Koan, a concentração no Koan. Deixar isso que chegou à mente. Abandoná-lo. Dizer: ‘Veja, eu não estou buscando isto, estou numa concentração’. E abandona isso.

P. – Verbalmente?

V.M. – Não, mentalmente. Abandona-se, despreza-se esse pensamento ou se lhe busca a dualidade. ‘Amanhã tenho que fazer um trabalho’. Qual é a dualidade desse trabalho? Não fazer nada. Essa é a dualidade.

P. – Se buscamos a dualidade, não nos evadimos do Koan?

V.M. – Não, porque se coloca a dualidade, o positivo e o negativo; coloca-se e se segue com sua concentração.” (1)

Buscar a dualidade não é evadir-se do koan, que, no caso acima, é o objeto da concentração. Logo, buscar a dualidade não é evadir-se da concentração.

Buscar o oposto de um pensamento é buscar outro pensamento que o anule. Todo pensamento possui um contrário que o anula, o deixa sem sentido. Quando se alcança encontrar tal oposto, chega-se a uma síntese de ambos e se os descarta. A síntese é a neutralidade, fusão dos opostos. Antes de se chegar à síntese, se está preso à tese ou a antítese. Cada pensamento que tenhamos é uma tese ou antítese, pois é imbuído de valor tendencioso.

A dualidade pode ser aplicada tanto a pensamentos insistentes e teimosos que atrapalham a prática como ao único pensamento que restou após a concentração bem sucedida. A busca do oposto de um pensamento é um meio de esgotá-lo, neutralizá-lo.

Se temos um pensamento luxurioso, qual seria o pensamento contrário que o anularia? Isso pode variar de uma situação para outra, bem como de uma pessoa para outra. O contrário de um pensamento luxurioso pode ser um pensamento de morte, de fealdade ou de doença, entre outros. Se, durante a imaginação morbosa, me recordo que irei envelhecer, adoecer e morrer, tal pensamento poderá inutilizar o pensamento luxurioso. O que importa é encontrar mentalmente um fato que torna o objeto do pensamento sem importância, que altere o seu significado.

"Porque, vejam, para a meditação necessitamos concentrar-nos primeiro, que haja um só pensamento.

Então, de repente lhe aparece outro pensamento… a dualidade. Então se descartam juntos e se entra para a meditação.

Para a dualidade se busca a síntese ou o oposto. A síntese e se descarta. Então, a mente vem a ficar em branco." (1)

Na concentração, começa-se pensando sobre os múltiplos aspectos inerentes e intrínsecos ao objeto de nosso interesse (e não sobre outros elementos que, embora relacionados, não lhes sejam intrínsecos e nem inerentes) e desenvolve-se assim o pensamento único até se chegar a uma síntese de todos os pensamentos sobre o objeto. Penetra-se imaginativamente o objeto em todos os seus aspectos possíveis, até onde se alcance:

"P. – Diz-se que a concentração é fixar a mente num só pensamento. Porém, temos que entender que, por exemplo, vamos concentrar-nos neste aparelho, podem vir distintos pensamentos relacionados com esse aparelho e estaríamos concentrados. Por exemplo, penso: É feito de plástico, serve para gravar, é um aparelho que se compra nas lojas eletrônicas… Tudo isso seria o mesmo? Não é um só pensamento?

V.M. – Sim. Por exemplo, você, para se concentrar, tem que olhar a forma, de que material é feito, para que foi feito, e você vai penetrando dentro desse aparelho, até ver por dentro como é, tudo, para poder chegar a uma síntese, a um só pensamento. Do contrário, a nossa mente então começa a trazer cinqüenta coisas aí, referentes ao mesmo aparelho. Então, tratar de penetrar dentro do próprio aparelho." (1)

Neste caso, os múltiplos pensamentos (forma, do que está feito, para que está feito etc.) sobre o objeto são partes do pensamento único que está se desenvolvendo. Quando se chega à síntese do objeto, atinge-se um pensamento único envolvente (dharana), no qual se está a um passo do estado em que, no Raja Yoga, se diz que foi alcançada a união com o objeto e sua essência foi capturada pela consciência (dhyana). Esta captura da natureza essencial e íntima do objeto segue imediatamente após estado que o V.M.R. descreve como “chegar à síntese”. Para se alcançá-la, há que se aplicar a dualidade ao pensamento síntese que restou (buscar o seu oposto neutralizante), pois este ainda não é a realidade, mas tão somente um pensamento sobre a realidade, ainda que dirigido e concentrado.

Um pensamento luxurioso pode ser anulado pela recordação das consequências negativas da luxúria (ex. doenças venéreas, enfraquecimento do corpo etc.), um pensamento de gula, pela recordação das consequências negativas do ato de gula desejado (ex. obesidade, doenças etc.), um pensamento de ira, pela recordação das consequências negativas do ato correspondente (vingança posterior do inimigo, encrencas com a polícia etc.). É claro que, a cada pensamento específico, há consequências contrárias também específicas.

Assim, se você está identificado com algo, pode anular esta identificação recordando-se de algo que seja o seu contrário, que o esvazie de sentido. O que pode ser considerado o contrário daquilo que está te fascinando? Que fato o tornaria sem sentido algum? Se você está identificado com uma mulher linda, o que tornaria sua beleza totalmente desprovida de sentido?

O que importa é compreender a inutilidade do pensamento ao qual damos tanta importância. E o confronto entre o fato no qual estamos pensando e um fato que o torne nulo é um bom meio de lográ-lo. Deste modo, tomamos consciência da inutilidade do pensamento que estamos alimentando.

Ao aplicar a dualidade, você inutilizará o pensamento correspondente, mas não eliminará o ego que o criou, o qual continuará vivo em sua psique. No entanto, se livrará do mesmo temporariamente, o que significa muito durante a concentração/meditação.

Esta é uma medida paliativa para uma necessidade momentânea e não pode ser confundida com a morte do ego emissor do pensamento. Anular temporariamente um pensamento é muito diferente de eliminar o "eu" que o criou.

Nota:

(1). V.M. Rabolú. A Águia Rebelde. (Cap. IX, “Concentração e Meditação”)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Meditação - recuperando os dispersos percentuais de essência livre

Temos percentuais de essência livre e percentuais de essência engarrafada dentro de cada defeito. No entanto, os percentuais de essência livre não estão despertos, estão adormecidos, acompanhando os percentuais de essência engarrafada. Assim como cada "eu" aprisiona dentro de si frações de essência, o Ego como um todo circunda percentuais de essência não engarrafada e os sujeita ao condicionamento fascinatório. Portanto, o Ego, como um todo, é uma grande garrafa, no sentido de que atrai, envolve e prende a si, por meio da fascinação, percentuais de essência livre.

Cada "eu" é uma pequena garrafa e o Ego, como um todo, é uma grande garrafa. As porções de essência aprisionadas dentro de cada defeito ou "eu" estão em um estado de sonolência profunda. As porções de essência livre, mas fascinadas pelo Ego, estão em estado de distração e preguiça, inativas. Estão distribuídas ao longo das regiões inconscientes da psique, espalhados através dos vários níveis. Os pensamentos são o agente que mantém a essência livre fascinada, inativa, distraída.

A atividade mental é o ponto-chave. Quanto mais se pensa, mais se distrai e se adormece a essência livre. Para ativar os percentuais preguiçosos de essência, o primeiro que se requer é o silêncio mental. A mente ativa distrai a essência. A mente quieta a liberta para trabalhar. Quando os pensamentos se esgotam, o Ego se ausenta. Praticar a concentração é dar um passo rumo ao silêncio mental.

O primeiro impulso do meditador novato, ao dar-se conta da intromissão de um pensamento que lhe perturba a concentração, é tentar silenciá-lo à força, opondo-se e entrando em conflito. É um procedimento equivocado e que não resulta em verdadeiro silêncio.

Um pensamento intruso não se calará pela imposição forçada do silêncio, simplesmente se desviará, indo com sua tagarelice para outro nível da mente e ali prosseguirá atuando, agora sem ser percebido. Logo, é perda de tempo tentar aquietá-lo simplesmente à força, assim de qualquer maneira.

O procedimento que se requer para silenciar um pensamento é a contemplação consciente do mesmo, visando compreendê-lo. A compreensão promove o esgotamento dos pensamentos. Compreender é distinto de entrar em conflito.

A postura correta da consciência é a de não procurar os pensamentos e nem fugir deles, de não provocá-los e nem reprimi-los caso apareçam. É uma postura de neutralidade e imparcialidade, em que não se os valoriza positivamente e nem negativamente. Valorizar positivamente seria gostar dos pensamentos, saboreá-los e se identificar com eles. Valorizar negativamente seria detestá-los, fugir dos mesmos, tentar evitá-los, reprimi-los e criar conflitos.

Quem fica procurando pensamentos à toa, quando eles não estão presentes, os está estimulando. Cogitar um pensamento quando o mesmo não está molestando é iniciá-lo. Embora não seja correto procurar os pensamentos e seja importante reter o objeto de atenção no campo da consciência, necessitamos verificar, com certa frequência, se não há algo de desatento em nós, pois pode-se dar o caso de estarmos divididos. Quando estamos divididos, uma parte de nossa essência livre (que nos confere atenção consciente) permanece focada no objeto, enquanto outras partes ficam distraídas com os pensamentos, em vários níveis. Como queremos atenção integral, envolvimento de todas as partes da consciência, temos que verificar se estamos plenos, se há algo de desatento em nós. A consciência necessita estar plenamente focada no objeto da concentração, se estiver focada parcialmente, a prática não avançará. Os 3% de essência livre (e adormecida) devem se dissociar completamente dos 97% de Ego.

Ao longo dos 49 níveis do subconsciente estão distribuídas as frações do pequeno percentual (3%) de essência livre, que necessitam ser recolhidas e unidas. O Ego as mantém fascinadas e presas (não engarrafadas em sentido literal, pois estamos nos referindo às porções de essência livre, porém adormecida e condicionada pelos eus). Silenciar a mente em todos os 49 níveis do inconsciente significa dissociar a essência dos egos submersos, emancipando-a do efeito fascinatório dos pensamentos nesses níveis. Quando o pensamento se esgota, o ego se ausenta e algo da essência que está dispersa se torna temporariamente independente. Isso é sentido sob a forma de um aumento da sensação de leveza, do bem estar e da lucidez.

Trazer o que está desatento à atenção é acordar o que temos de alma e que está "esparramado" entre os Egos, atraído pelo poder fascinatório da mente. A essência que está ativa, incipientemente acordada, chama a atenção da essência que está livre, porém distraída, adormecida, sonhando com as bobagens, cenas mentais etc. oferecidas pelos Egos.

Quando buscamos nos concentrar, ficar lúcidos, despertos etc. uma parte de nossa essência livre se empenha neste trabalho, enquanto as outras partes da mesma, ainda que estejam livres, gozam com os sonhos e pensamentos. Temos que ser capazes de enxergar o adormecimento destas partes e trazê-las à lucidez, mas sem procurar pensamentos e nem estimulá-los.

Portanto, não são somente os percentuais de essência aprisionados em cada defeito que estão adormecidos. Os percentuais de essência livre também não estão despertos, pois estão sujeitos ao ego e terminam acompanhando os percentuais engarrafados em seus condicionamentos. Como pessoas que acompanham parentes aprisionados, permanecendo ali ao lado dos mesmos e não arredam pé, ao invés de se afastarem para negociar a soltura, os percentuais de essência livre acompanham os percentuais engarrafados em seus sonhos absurdos. Por tal razão, podemos dizer que a essência livre também está, de certa forma e em um certo sentido, engarrafada, pois os vários agregados psíquicos, com suas respectivas frações de essência engarrafada, a circundam e influenciam. Esta influência hipnótica dos múltiplos eus sobre a essência livre atua, também ela, como uma espécie de "garrafa". É desta grande garrafa que temos que retirar a essência durante a meditação e o fazemos à medida que silenciamos os pensamentos. São os pensamentos que distraem a essência com seus poderes hipnóticos. As partes adormecidas da essência (livre) necessitam ser alcançadas pela porção que está empenhada em despertar, para que sofram choques e saiam da preguiça, da inércia dos sonhos, fantasias e distrações.

Somente chegamos até estas partes adormecidas e submersas se o relaxamento e a concentração forem profundos, pois os vários níveis do sub/inconsciente se encontram nas diversas dimensões. Não podemos esgotar os pensamentos submersos se não adentrarmos conscientemente às dimensões ou mundos em que tais pensamentos estão. O processo iniciado aqui tem que se repetir de dimensão em dimensão, até o desprendimento total. Primeiramente ficamos conscientes aqui no mundo físico, nos desprendemos dele e passamos ao astral, prosseguimos aumentando a consciência no mundo astral, nos desprendemos dos pensamentos aí, passamos ao mental, nos desprendemos dos pensamentos ali e, finalmente passamos ao causal, onde não existem mais pensamentos. O processo vai assim se repetindo, desde o mundo físico até às alturas. Quando os 100% da essência livre (não da essência engarrafada) estão unidos, ela pode fazer frente ao poder fascinatório do Ego e escapar completamente à sua influência, porém não de forma definitiva. Irá adquirir plena lucidez e consciência intensa e absolutamente clara.

Ao nos depararmos com cada pensamento no caminho, seja em que mundo ou dimensão estivermos, temos que buscar a compreensão e não o conflito com o mesmo. Compreendemos um pensamento quando o observamos, o estudamos e descobrimos o que contém. A contemplação imparcial e sincera é a chave. Porém, compreender um pensamento não é entreter-se fascinado, é remover o obstáculo que nos impede de ver o objeto que nos interessa.

Enquanto estamos tentando atingir a etapa da concentração (dharana), perseguimos um único pensamento e transcendemos (por meio do pratyhara) todos os demais pensamentos que atrapalhem. Chega um momento, porém, em que este único pensamento é atingido plenamente e, também ele, se converte em obstáculo para o nosso acesso à realidade que nos interessa. Então, em tal etapa, deixamos este pensamento para trás e começamos a meditação (dhyana).

Enquanto o pratyahara está se aprofundando, ainda não se atingiu plenamente dharana. Quando dharana é plenamente atingida, aplica-se um último pratyahara e se descarta o pensamento final. Cai-se então em dhyana.

Na meditação, não corremos atrás do Ego, não perseguimos os pensamentos. Muito pelo contrário: os vamos abandonando.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Criamos os mundos em que vivemos

Toda pessoa vive aprisionada em um mundo que ela mesma criou com seus pensamentos. Este mundo é forjado pela mente, sendo composto pelas concepções, pontos de vista, idiossincrassias e ideologias pessoais. O mundo assim criado se torna um verdadeiro universo, que a segue em vigília e durante o sono. As imagens terão um colorido especial, dados pela frequência dos pensamentos em que a pessoa vive. Quem dissolve o Ego, altera radicalmente este mundo pessoal.

Uma pessoa que odeia forja para si um inferno que a perseguirá onde quer que vá. Enquanto odiar, o inferno do ódio a estará acompanhando e dará às percepções um colorido especial.

O psiquismo humano cria um mundo perceptual circundante, composto pelas emoções e pensamentos correspondentes. Bom e mau, agradável e desagradável, são criações do psiquismo, existem internamente. Dissolver o Ego equivale e alterar o mundo psíquico circundante e acompanhante.

De acordo com nosso estado emocional, podemos viver no céu ou no inferno. As emoções negativas e inferiores nos aprisionam em um inferno sem limites, enquanto as emoções superiores nos permitem viver no paraíso. As vibrações psíquicas nos vinculam a regiões do universo correspondentes. Vibrações inferiores nos vinculam às infra-dimensões, vibrações superiores nos vinculam às dimensões superiores. O homem decide se irá para o inferno ou para o céu. Existem diversos céus, com distintos graus de felicidade, e existem muitos infernos, com variáveis graus de tormento.

É recomendável nos libertarmos ao máximo dos infernos e conquistarmos os céus ainda em vida, antes da desencarnação. Então prosseguiremos em tal estado depois da morte do corpo físico.

Falando particularmente da luxúria, o mesmo princípio vale: a luxúria é algo totalmente mental, interior. O estado luxurioso é um estado de consciência adormecida, alterada e condicionada. O luxurioso vive em uma espécie de paraíso diabólico sensual e erótico, no qual o prazer sexual suplanta todas as percepções e confere um único sentido à vida. O mundo erótico que o luxurioso forja para si não existe, é irreal, mas ele ainda assim o saboreia como se existisse, pois está iludido por suas próprias percepções fantasiosas. Não compreende, o infeliz luxurioso, que o paraíso que criou para si não existe, que é mera ilusão. Somente a compreensão pode dissolver a fantasia da luxúria. Quem quer se libertar do inferno da fornicação e seus defeitos correlacionados, tem que compreender o aspecto ilusório das percepções luxuriosas.

Dissolver a luxúria não é combater a sexualidade física propriamente dita, mas sim os aspectos internos equivocados da sexualidade: as formas mentais, formas de pensamento, formas equivocadas de entender e de enxergar o sexo, percepções enviesadas e subjetivas do corpo e do prazer sexual. Precisamente aí, na concepção de sexo, está o problema e a tal concepção é algo mental, encontra-se na mente. Portanto, dissolver a luxúria é alterar radicalmente um estado psíquico.

De nada adianta tentar acorrentar as ações se os elementos geradores das ações (as emoções e os pensamentos) as estão fomentando a todo instante.

Detalhes: o que são e como identificar

Tenho insistido na necessidade de observar ao invés de reprimir. Afirmei repetidamente que o recalque é inútil e que a Morte se dá por observação, contemplação e oração. Agora vou acrescentar algo mais.
Quando nos observamos, podemos perceber em nós mesmos leves alterações. São leves irritações, leves preocupações, leves temores, leves desejos, leves impulsos, leves reações emocionais às circunstâncias do dia a dia, falas e comentários levemente luxuriosos, levemente invejosos, lembranças levemente prejudiciais, imaginações levemente morbosas etc. Em suma: comportamentos levemente delituosos, cuja gravidade não nos incomoda. Esses comportamentos tênues são os detalhes aos quais se refere o V.M. Rabolú.
Os detalhes não costumam despertar interesse nos aspirantes à Morte porque não representam nenhum perigo imediato e seu caráter delituoso é tênue. Por serem tão leves, muitas vezes acredita-se que os mesmos não são egos. Justamente aí reside o erro.
Qualquer comportamento que ao estudante pareça "levemente egóico" é um detalhe e fornece energia aos egos visíveis e perigosos. O V.M. Samael chamou os detalhes de "facetas".
Se dissolvermos os detalhes, os egos terríveis perderão a força.
O empenho em observar o Ego e orar pela Morte deve ser focado sobre as manifestações diminutas dos defeitos. Todos temos pecados grandes e pequenos. Pomos cuidado nos pecados grandes e perigosos e não damos importância aos pequenos. Ocorre, entretanto, que os pequenos são a sustentação dos grandes.
O Ego possui manifestações grosseiras e sutis. As manifestações grosseiras são facilmente visíveis e reconhecíveis, são os problemas psicológicos de sempre que nos incomodam. As manifestações sutis são os detalhes, traços comportamentais difíceis de enxergar por serem muito pequenas e de difícil reconhecimento. Requerem olho clínico para serem vistos.
Os detalhes normalmente não são vistos simplesmente porque não lhes damos importância. E não lhes damos importância porque acreditamos que não são defeitos, que não apresentam prejuízo algum e que são simples comportamentos aceitáveis que não fazem mal algum a ninguém. Desconhecemos a relação entre tais detalhes e os defeitos grandes e perigosos, motivo pelo qual os negligenciamos.
Quando reitero a necessidade de contemplarmos, de forma desbloqueada, a nós mesmos e orarmos pela morte dos defeitos descobertos, não estou afirmando que devamos fazê-lo sobre os defeitos maiores e mais visíveis. Na verdade, nossa prioridade devem ser os defeitos menores, quase invisíveis ou normalmente invisíveis, que passam a todo momento sem serem percebidos.
Todo o processo de dissolução do Ego se dá a partir da dissolução dos detalhes, que são suas manifestações sutis. Quanto mais sutil, mais difícil de ser enxergada é uma manifestação. Quem quer morrer, não pode reprimir ou resistir às manifestações sutis, muito pelo contrário: deve observá-las com máximo rigor criterioso e imediatamente orar pela dissolução. Se simplesmente detectar um detalhe e em seguida se ocupar em resistir, não irá eliminá-lo. A eliminação requer que se dê espaço para a atuação da Mãe Divina e aquele que recalca está Lhe tirando espaço.
Aquele que recalca um detalhe está tentando eliminá-lo sozinho e cometendo um erro. Quem diz ou pensa "EU eliminarei este defeito" está cometendo um erro, pois o Eu não elimina o Eu. Melhor é dizer "Minha Mãe eliminará este defeito para mim, enquanto o observo e peço por sua morte", e então deixá-La atuar.
Assim, entendamos que a observação desbloqueada procura o sutil, o pequeno, o imperceptível. Quanto mais a exercitamos, mais a desenvolvemos.
Os detalhes aparecem naqueles momentos em que tudo está bem, em que estamos despreocupados e acreditando que não há nenhum problema. Se observamos melhor, veremos muitas manifestações sutis do Ego em plena ação.
Você não será capaz de descobrir seus detalhes se não se relacionar com as pessoas. Os detalhes afloram na vida social. A vida social é necessária para que eles aflorem e sejam vistos. São milhões, mas se processam fora do campo de nossa consciência, a menos que o direcionemos para captá-los.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Desbloquear a repressão sobre os detalhes

Tenho insistido na necessidade de observar ao invés de reprimir. Afirmei repetidamente que o recalque é inútil e que a Morte se dá por observação, contemplação e oração. Agora vou acrescentar algo mais.
O empenho em observar o Ego e orar pela Morte deve ser focado sobre as manifestações diminutas dos defeitos. Todos temos pecados grandes e pequenos. Pomos cuidado nos pecados grandes e perigosos e não damos importância aos pequenos. Ocorre, entretanto, que os pequenos são a sustentação dos grandes.
O Ego possui manifestações grosseiras e sutis. As manifestações grosseiras são facilmente visíveis e reconhecíveis, são os problemas psicológicos de sempre que nos incomodam. As manifestações sutis são os detalhes, traços comportamentais difíceis de enxergar por serem muito pequenas e de difícil reconhecimento. Requerem olho clínico para serem vistos.
Os detalhes normalmente não são vistos simplesmente porque não lhes damos importância. E não lhes damos importância porque acreditamos que não são defeitos, que não apresentam prejuízo algum e que são simples comportamentos aceitáveis que não fazem mal algum a ninguém. Desconhecemos a relação entre tais detalhes e os defeitos grandes e perigosos, motivo pelo qual os negligenciamos.
Quando reitero a necessidade de contemplarmos, de forma desbloqueada, a nós mesmos e orarmos pela morte dos defeitos descobertos, não estou afirmando que devamos fazê-lo sobre os defeitos maiores e mais visíveis. Na verdade, nossa prioridade devem ser os defeitos menores, quase invisíveis ou normalmente invisíveis, que passam a todo momento sem serem percebidos.
Todo o processo de dissolução do Ego se dá a partir da dissolução dos detalhes, que são suas manifestações sutis. Quanto mais sutil, mais difícil de ser enxergada é uma manifestação. Quem quer morrer, não pode reprimir ou resistir às manifestações sutis, muito pelo contrário: deve observá-las com máximo rigor criterioso e imediatamente orar pela dissolução. Se simplesmente detectar um detalhe e em seguida se ocupar em resistir, não irá eliminá-lo. A eliminação requer que se dê espaço para a atuação da Mãe Divina e aquele que recalca está Lhe tirando espaço.
Aquele que recalca um detalhe está tentando eliminá-lo sozinho e cometendo um erro. Quem diz ou pensa "EU eliminarei este defeito" está cometendo um erro, pois o Eu não elimina o Eu. Melhor é dizer "Minha Mãe eliminará este defeito para mim, enquanto o observo e peço por sua morte", e então deixá-La atuar.
Assim, entendamos que a observação desbloqueada procura o sutil, o pequeno, o imperceptível. Quanto mais a exercitamos, mais a desenvolvemos.
Os detalhes aparecem naqueles momentos em que tudo está bem, em que estamos despreocupados e acreditando que não há nenhum problema. Se observamos melhor, veremos muitas manifestações sutis do Ego em plena ação.
Você não será capaz de descobrir seus detalhes se não se relacionar com as pessoas. Os detalhes afloram na vida social. A vida social é necessária para que eles aflorem e sejam vistos. São milhões, mas se processam fora do campo de nossa consciência, a menos que o direcionemos para captá-los.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Quando bloquear a ação?

Embora seja importante desbloquear as emoções, nem todas as ações devem ser desbloqueadas. Há ações que necessitam ser bloqueadas e isso depende das circunstâncias.
As ações que necessitamos bloquear são aquelas que acarretam consequências desastrosas para nós ou para os nossos semelhantes, originam karma etc. Ações que não necessitam ser bloqueadas são as ações úteis ou inofensivas.

Começar a partir do hoje e não voltar atrás

Um único dia de castidade verdadeira (não forçada e nem tampouco simulada pela pessoa para si mesma) pode ser prolongado infinitamente, desde que se mantenha a compreensão e se aprofunde neste sentido a vigilância. Pode-se adquirir a castidade a partir de um simples e único dia, desde que se realize neste dia a morte dos detalhes de forma correta, com todo o rigor aplicado sobre TODAS as manifestações luxuriosas daquele dia. Porém, esse dia especial somente chegará depois de uma certa experiência, a qual leva algum tempo para ser conseguida. Esse dia especial, então, pode ser prolongado por tempo indefinido, desde que a pessoa se polarize cada vez mais na castidade e abandone o pólo da fornicação.

Quanto mais nos polarizamos na castidade, tanto mais firmemente nela nos estabelecemos (isso inclui pensamentos, sentimentos, ações e PALAVRAS!). Inversamente, uma simples concessão à luxúria resulta em uma cadeia sucessiva de fracassos sexuais. Por tal razão, temos lutar muito para não nos deixarmos cair, pois, uma vez caídos, é muito mais difícil, mas não impossível, subir. Logo, um dos segredos é "não começar": não começar a pensar, não começar a falar e não começar a fazer as besteiras. Temos que nos adiantar aos defeitos.

Entretanto, os irmãos que fracassarem hoje, não devem desanimar. Devem continuar tentando, pois o dia D sempre chega para aqueles que nunca desistem. Se o irmão fracassou hoje, ontem, anteontem ou nos anos e décadas que já passaram, saiba que é porque sua compreensão dos processos ainda está se configurando, amadurecendo. Esse é o seu tempo , que cada um tem o seu.

Para muitos, o dia D pode demorar muito, seja pelo karma, seja por pactos tenebrosos de outras existências. Daí a importância de não desistir, ainda que se passe por muitos anos de fracasso. O que importa é sempre descobrir por onde se erra e prosseguir. Conforme disse o V.M.S., o problema não são as caídas, mas a falta de vontade de se levantar e prosseguir.

Jamais percamos a noção de nossa fragilidade em relação à luxúria e sempre nos lembremos de que matar um desejo não é de modo algum satisfazê-lo e nem tampouco reprimi-lo.

O péssimo hábito de checar se um defeito está morto

Algumas pessoas possuem o péssimo hábito de "checar" se um defeito sobre o qual estão trabalhando está realmente morrendo ou enfraquecendo. Tal "checagem" é realizada tentando-se "sentir", sob um pretenso controle consciente, se há algum resíduo de desejo, sentimento ou emoção correspondente ao defeito. Na verdade, tal atitude tem o efeito de acordar aquilo que estava adormecido e é uma forma de alimentar e evocar o defeito que deveria ser cada vez mais esquecido.

Algo semelhante acontece com os sintomas físicos de doenças: quanto mais atenção lhes damos, mais energia lhes conferimos. A identificação com uma doença física ou psíquica (o Ego é uma doença) atrapalha os processos de cura realizados pelo Ser.

Um segredo prático para sucesso na magia sexual

No passado, eu acreditava que a magia sexual intensa fosse adequada a nós, pessoas normais, fracas e luxuriosas. Hoje acredito que a prática do maithuna deve ser o mais suave possível, quase somente uma "carezza", e que a regeneração biopsíquica que ela promove é a mesma regeneração natural que se verifica em todo ser humano comum, somente diferindo por ser muito mais intensa e "turbinada" energicamente.

Uma dica que auxilia na magia sexual é ser capaz de retirar-se antes da satisfação plena, não prolongando o ato indefinidamente. Preserve a vontade para outro dia, não a esgote. Praticar magia sexual é como tomar banho quente em um dia bem frio: você quer sempre prolongar mais. É também similar a comer um alimento saboroso: você não quer parar até ter terminado de empaturrar seu estômago. Aí reside um dos erros, pois temos que aprender a moderar o desfrute dos prazeres. Se você não é capaz de um interromper um ato prazeiroso qualquer no momento certo, muito menos será capaz de se retirar do coito após um tempo pré-determinado. Outra dica que pode ajudar é estabelecer previamente o horário de término da prática e segui-lo a todo custo, ainda que o mundo desabe. Comunicar e pedir ajuda à parceira também costuma ser favorável.

O erro dos que fracassam consiste em tentar prolongar demais o ato, acreditando-se muito fortes.

Aprenda sentir satisfação em cheirar a maçã e não em comê-la.

Na prática do arcano, a excitação nunca dever ser alta e nem baixa, deve ser sempre média e constante. Se você estiver muito excitado, acalme-se.

O refinamento da energia sexual está diretamente ligado à santidade na prática do arcano. Quanto mais espiritual e intensa for a prática, mais evoluída estará a energia. Quanto mais animal, mais baixa estará.

Aprenda a sentir intenso erotismo espiritual e não animal.

Quebrando à resistência à conclusão de que se está em astral

O ser humano está geralmente condicionado a sempre acreditar que se encontra em corpo físico, no mundo tridimensional. Esta crença se reforça ao longo da vida, durante os estados de vigília, e se reproduz no interior dos sonhos. Trata-se de uma crença solidamente cristalizada, que guarda relação com outra crença: a de que somente existe este mundo, a de que somente o mundo físico é real. Ambas as crenças se reforçam em uma espécie de simbiose, de sinergia, resultando no adormecimento da consciência astral.

Se não sou capaz de conceber como real e concretamente existente um outro mundo, paralelo a este em que eu vivo, muito menos serei capaz de reconhecê-lo quando estiver inserido no mesmo. A crença na inexistência origina confusão, falta de discernimento. Condicionado pela crença de que somente a matéria densa é real, o materialista dorme profundamente e não reconhece as figuras astrais quando está diante delas, tomado-as sempre por objetos deste mundo e não daquele.

O despertar da consciência astral requer que se "quebre" o condicionamento do entendimento, que se abra para a existência objetiva do que está "além".

À medida que uma pessoa se desenvolve conscientemente no mundo astral, se dá conta, mais e mais, que o mesmo é real e concreto. As constatações se fixam em sua mente e se concretizam de modo a conduzir sua cognição à conclusão de que estar em um mundo paralelo não é um absurdo lógico.

A tendência comum da mente é duvidar da possibilidade de se estar em corpo astral. O ceticismo se origina do impacto realístico do mundo astral e da crença de que somente o mundo físico é real. Ambos, a crença invertida e o impacto realístico interno, se combinam e o resultado é a incapacidade de reconhecer a astralidade dos objetos percebidos.

O condicionamento da mente vai sendo revertido, à medida que a consciência vai sendo impactada pelo impacto realístico das experiências astrais conscientes. Quanto mais vezes uma pessoa sair conscientemente em astral, mais facilidade terá para se desdobrar nas próximas vezes. Cada percepção consciente do mundo astral facilita o seu reconhecimento na próxima oportunidade. É por isso que as pessoas que saem conscientemente com o uso de enteógenos com o tempo não precisam mais dos mesmos para fazê-lo.

Certos enteógenos podem despertar a consciência astral e, após essa consciência se fixar, o mesmo já não se faz necessário, uma vez que a crença na imaterialidade do mundo astral foi revertida. O que impede o discernimento é o ceticismo materialista, a crença na realidade do mundo tridimensional. É esta crença que necessita ser revertida caso queiramos discernir.

Refletindo sobre si mesmo

Podemos compreender a nós mesmos (nosso ego) por duas vias: a reflexão e a observação. A observação é mais trabalhosa e menos sujeita e erros. A reflexão é adequada a quem ainda não aprendeu a pensar psicologicamente e sente seu próprio psiquismo como algo vago e inacessível.
A reflexão deve ser rigorosamente pautada em fatos psicológicos observados, o que significa que jamais pode ser realizada sozinha, sem embasamento prático observacional. Caso contrário, se transformará em mera teorização estéril sobre o ego.

Inicialmente, realizamos reflexões intelectuais, usando a linguagem interior para as análises e pensando através do idioma que usamos para falar (inglês, português, francês etc.). Depois, aprendemos a pensar silenciosamente, sem idioma mental algum, somente capturando os fatos diretamente. Posteriormente, aprendemos a refletir sem pensamentos, captando intuitivamente a essência dos fatos. Entretanto, o iniciante usará a mente para refletir, como ponto de partida de sua aprendizagem.

A observação é algo menos sujeito ao erro e a cair no teoricismo, mas por isso mesmo, mais trabalhoso. O preguiçoso tende a ficar preso na teoria. Teorizar sobre si mesmo é perder o tempo, muito melhor é observar e descobrir. Observamos o ego como observaríamos o comportamento de qualquer pessoa ou como um psicólogo observa o comportamento do seu paciente: buscando detalhes. Quanto mais detalhes descobrimos, melhor. Não existem detalhes depreciáveis. A descoberta de inúmeros detalhes vai configurando uma compreensão em contínua construção, que jamais termina.

A observação exige desbloqueio das emoções pois emoções bloqueadas não podem ser observadas. Mas isso não significa que devamos nos entregar à fascinação e deixar de exercer controle sobre as ações. Desbloquear a emoção não é sair por aí gritando e descabelando, fazendo tudo o que dá vontade. É simplesmente não freiar brutalmente as emoções, mas também não se esquecer de observá-las.

O hedonista, aquele que vive para satisfazer todos os seus desejos, não observa nada, pois está identificado. O agente assimilador das emoções (a consciência) não está ativo no hedonista. Por isso, o hedonista não é um observador de si mesmo, é tão somente um desfrutador dos próprios desejos. Hedonistas como Marquês de Sade ou Crowley quiseram esgotar o desejo mediante a satisfação, o que é um absurdo, pois a a satisfação o fortifica cada vez mais. Queremos o enfraquecimento verdadeiro do desejo e não sua fortificação. E o enfraquecimento somente advém com a assimilação, com a compreensão.

Quando refletimos em um desejo e buscamos sua causa, encontraremos outro desejo próximo e paralelo escondido. Os desejos se associam em feixes e formam cadeias.

Quando um estudante, refletindo, se pergunta a respeito das causas de um desejo ("Por que desejo isto?"), pode muitas vezes ficar sem encontrar imediatamente uma resposta. A razão dessa frustração pode ser o parâmetro equivocado de busca. O "porquê" de um desejo é outro desejo oculto, que lhe dá fundamento. Exemplo: um homem pode descobrir que deseja um carro moderno e vistoso porque deseja as mulheres que este carro atrairá, e que deseja tais mulheres porque deseja as sensações físicas e emocionais que elas provocam ou porque deseja impressionar a sociedade; questionando-se e auto-explorando, descobrirá uma sequência de desejos encadeados. Se a concentração for profunda, poderá ir bem longe na investigação da cadeia de desejos.

Quando investigamos uma cadeia de desejos, chegamos a um limite, um ponto além do qual nossas perguntas não são mais respondidas. Este é o limite de nossa capacidade de refletir sobre a questão. Entretanto, se aprendermos a meditar em profundidade, podemos ultrapassá-lo. Nem sempre os elos da cadeia posteriores ao limite estão no mundo físico. Na maior parte dos casos, temos que buscá-los nos mundos internos. É por tal razão que os psicoterapeutas analisam os sonhos dos pacientes.

A didática gnóstica, entretanto, quando corretamente aplicada, é mais efetiva que a mera análise dos sonhos: praticar a auto-observação aqui e durante o sono é um caminho muito mais eficaz para obtenção do auto-conhecimento.

A compreensão de um defeito se amplia à medida que os desejos encadeados que o compõem vão sendo revelados. A psicoterapia é uma prática interessante, mas é limitada pela linguagem, limitação esta que a apreensão instintiva por meio da auto-observação e da meditação não nos impõe.

Compreender um defeito é descobrir a capa que encobria os vários desejos que, associados, o formavam.

A auto-observação focada sobre os detalhes resolve o problema da compreensão sem que tenhamos que quebrar a cabeça analisando o defeito. Os vários desejos encadeados vão se revelando gradativamente e uma compreensão vai se configurando. Esse é o trabalho mais rápido e efetivo para a Morte. Quem se acostuma a realizá-lo aqui, o realizará também nos outros mundos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Um erro dos estudantes gnósticos

No início da década de 90, ao receberem do V.M.R. o precioso ensinamento sobre a Morte em Marcha e os Detalhes, os estudantes gnósticos (nós todos) o adaptaram à sua lógica repressionista anterior, à qual haviam sido condicionados pela sociedade. Receberam o vinho novo em odres velhos. Passaram, então, a vigiar os detalhes para reprimi-los cada vez mais, pois a sociedade os havia ensinado que os desejos seriam eliminados se fizessem "esforço para não senti-los". Acreditavam que reprimir os detalhes era uma forma de eliminá-los e não de barrá-los e ocultá-los vivos. Disciplinaram-se arduamente nesse sentido, vigiando-se e reprimindo-se de forma cada vez mais rigorosa. O resultado não poderia ser outro senão a catástrofe.
A sociedade nos ensina que os "desejos maus" são eliminados quando fazemos esforços para sufocá-los, tentando não senti-los. Tal pressuposto equivocado permaneceu entre os estudantes gnósticos, que tentaram adaptar os ensinamentos sobre a Morte do Ego a esses mecanismos. Os estudantes se auto-vigiavam e auto-observavam com o único intuito de se auto-reprimirem. A lógica era: reprimir-se o quanto possível e observar-se em busca de detalhes que escapassem à repressão. Nem bem um estudante descobria direito um detalhe, não reprimido anté então por descuido, suplicava por sua morte e imediatamente voltava a reprimi-lo em seguida, para, no dizer da época, "não deixá-lo se manifestar". A Morte havia sido tomada como sinônimo de repressão. Ninguém havia atentado para o importante fato de que a repressão não é mais que uma forma de fingimento, que o fingido simula virtudes, que aqueles que simulam virtudes são fanáticos hipócritas. Não havia a compreensão de que a repressão não impede manifestação alguma, apenas a canaliza por outros caminhos, e de que o verdadeiro meio de enfraquecer as manifestações até que deixem nos molestar é observá-las conscientemente e orar pela morte dos detalhes correspondentes. Não se compreendia que quem deveria eliminar os detalhes era a Mãe Divina e não nós.
Esse equívoco causou muito estrago.
Agíamos todos como se fôssemos virtuosos. Fingíamos castidade, mansidão, equilíbrio. Não passávamos de sepulcros caiados mas não nos dávamos conta disso. Nossa hipocrisia não era intencional, era inconsciente. Acreditávamos que aquele era o verdadeiro caminho para libertar a alma. Na verdade, não diferíamos dos religiosos comuns, desses que pregam virtudes e não as possuem. Em segredo, dávamos vazão aos conteúdos reprimidos, ou então, quando possível, disfarçávamos e justificávamos suas manifestações, inventando desculpas para que se tornassem aceitáveis (as manifestações de ira e perseguições pessoais "em defesa da obra" eram um bom exemplo disso).

domingo, 29 de maio de 2011

A relatividade da distância

A distância é uma ilusão da mente e não existe no mundo real. Dois objetos que nos parecem separados por um espaço, em um nível profundo de realidade, estão unidos.

Se a distância entre dois objetos existisse objetivamente, não poderia ser encurtada com o aumento da velocidade e seria sempre a mesma. A distância entre dois pontos poderá ser maior ou menor, consoante a escala espaço-temporal em que se vive ou à velocidade com que se desloca de um a outro.

Uma pessoa poderá transformar dois pontos distantes em pontos muito próximos, caso se desloque a grandes velocidades. Caso dê um salto e passe a viver na escala do seu Espírito, os pontos distantes lhes serão vizinhos.

Consideramos que São Paulo e Tóquio estão distantes porque estamos quase divorciados do nosso Ser.

O Ser tem o poder de transitar por diversas escalas de espaço e de tempo, de acordo com sua vontade. No mundo do Espírito, o passado pode ainda estar acontecendo e o futuro já ter chegado, ambos irmanados em um agora contínuo.

Nossa pobre consciência sofre, aprisionada em uma pequeníssima fração da Grande Realidade. Vivemos e nos movemos em uma parcela relativa do Todo. As distâncias que consideramos longas somente possuem sentido dentro da relatividade em que estamos aprisionados. Se nos libertássemos, poderíamos vivenciar o distante no aqui e o futuro no agora.

O mundo das relatividades não é o mundo verdadeiro, é o mundo das ilusões, dos pontos de vista.

Se o espaço e o tempo fossem absolutos, não poderiam ser alterados pela velocidade. Mas a verdade é que podem ser alterados pela velocidade. Quando estamos atrasados, pedimos ao motorista para que aumente a velocidade. Um lugar será ou não distante de outro em dependência da velocidade de deslocamento de que dispusermos.

Aprofundando a concentração

Quando tentamos praticar o relaxamento, a concentração e a meditação e não obtemos nenhum resultado transcendental, a causa do fracasso pode estar na falta de sono.

Em vigília, podemos penetrar nas regiões do inconsciente somente até um determinado nível, além do qual se requer o sono, que é a desaceleração das funções biológicas e cerebrais. O sono abre as portas ao Além.

Após o relaxamento ter avançado razoavelmente, iniciamos a concentração, mas isso não significa que, ao aprofundarmos esta última, aquele não prosseguirá se aprofundando ainda mais. O início da concentração marca um aprofundamento maior do relaxamento e da desaceleração das funções biológicas. Tudo isso é sono cada vez mais profundo, porém consciente.

O aprofundamento da concentração, por sua vez, requer o aprofundamento do sono e o desligamento dos sentidos físicos. A percepção do corpo físico cessa progressivamente, ao passo que a percepção interior consciente daquilo em que nos concentramos aumenta, na mesma proporção.

Se nos concentramos em um elemento exterior, o som de um grilo, por exemplo, deixaremos de percebê-lo fisicamente e passaremos a percebê-lo interiormente, cada vez com mais clareza. Aquilo que nos atinge sensorialmente também nos atinge supra-sensorialmente, ao mesmo tempo.

Deste modo, aprofundar a concentração, durante a prática da meditação, é clarificar a percepção do objeto interior ou exterior que nos interessou.
Se o objeto de nossa concentração for um mantram, inicialmente o perceberemos sensorialmente (o pronunciaremos fisicamente, verbalmente)e posteriormente o perceberemos supra-sensorialmente, pois o pronunciaremos mentalmente. Existem as percepções exteriores e interiores.

Podemos começar a concentração a partir de um elemento percebido sensorialmente (exteriormente) ou supra-sensorialmente (interiormente). Quando percebemos algo interiormente, diz-se que estamos no pensamento único ou na imaginação consciente, o que é a mesma coisa. O pensamento único ao qual os mestres se referem é a percepção interior do objeto de nossa concentração, a qual requer o abandono da correspondente e limitada percepção exterior, a qual nos restringe à uma percepção tridimensional do objeto. Se ficássemos presos à percepção exterior ou sensorial, não penetraríamos na realidade do alvo de nossa concentração, pois a mesma transcende o tridimensional. Portanto, a percepção tridimensional do objeto é parcial e temos que ir além dela, transcendendo-a, o que se consegue quando a alma vai se desligando do corpo físico.

Ao longo do processo, podem surgir pensamentos que nos distraiam e atrapalhem, desviando-nos. Como almejamos o pensamento único, pensamentos que não tenham nada a ver com o objeto de nossa concentração nos afastam da meta. A recomendação dos mestres para esses casos é que não entremos em confito com tais pensamentos e sim nos detenhamos por um momento para assimilar seus conteúdos, isto é, para nos tornarmos conscientes do que contém. Se entrarmos em conflito, nos prendemos em uma luta e a prática estanca, não avança, pois ficaremos envolvidos em um combate sem fim. O conlito com os pensamentos é uma forma de identificar-se com a mente.

Se dissecamos o conteúdo do pensamento intruso, sem conflitar, o aquietamos e podemos então prosseguir rumo ao silêcio, aprofundando a concentração. Se um pensamento invasor surgir novamente, seja o mesmo ou outro, temos que interromper novamente a concentração para nos fazermos conscientes do seu conteúdo, seu assunto e sua meta. Todo pensamento possui um conteúdo, traz algo dentro de sim: temas, cargas de libido e metas. O pensamento provém de um "eu" que quer algo. Quando o pensamento é assimilado, deixa-nos em paz e podemos prosseguir, aprofundando ainda mais a concentração.

Assim vamos caminhando rumo às profundidades da psique.

O trabalho aqui descrito poderia ser comparado a dirigir por uma estrada. Você está dirigindo, rumo ao que está além do horizonte. De repente, um problema acontece com o seu carro. Você para, verifica qual é o problema, conserta-o e prossegue. Posteriormente surge outro e você faz o mesmo. E assim prossegue.

Diz o mestre que chega um momento em que todos os pensamentos se esgotam, então vislumbramos o mundo que estava além das montanhas mais distantes. É quando então podemos abandonar o pensamento único, que é o último que restou, para cairmos no vazio e experimentarmos o indescritível.

O V.M.S. diz que "a procissão dos pensamentos cessa". Essa procissão é composta pelos pensamentos que vão esporadicamente interferindo na concentração. Não se trata de um conjunto de pensamentos encadeados, que devem ser observados enquanto passam para, somente depois, nos preocuparmos com a concentração. Se nos detivermos somente contemplando os pensamentos, deixando definitivamente a concentração de lado, simplesmente dormiremos e sonharemos. Não se trata de ocupar-se somente em contemplar conscientemente os próprios pensamentos (algo assim como assistir a uma televisão) pois o resultado inevitável seria o adormecimento da consciência. A "procissão de pensamentos" é constituída pelos pensamentos que vão esporadicamente se intrometendo na concentração, para desviá-la.

Muitas pessoas poderiam supor que a primeira etapa da meditação consiste em contemplar conscientemente os próprios pensamentos, deixando a concentração de lado. Se apenas contemplarmos os pensamentos, sem penetrar através deles com a concentração em nos interessa, levaremos a consciência somente até um nível, além do qual adormeceremos normalmente e teremos sonhos.

Importa, então, aprender a aprofundar o sono enquanto se intensifica a lucidez e a consciência, o que requer focalização da atenção em um objeto. Apenas contemplar os pensamentos é não ter objeto definido algum para a atenção e, portanto, para o campo da consciência.

Durante a concentração, não devemos procurar os pensamentos, buscando onde eles estão ou checando se estão surgindo. Tampouco devemos reprimi-los. O estado ideal é um estado em que não os reprimimos, se surgirem, mas também não os estimulamos e nem os buscamos, caso não estejam aparecendo. Apenas aquilo em que nos propomos a prestar atenção é que deve nos interessar.

O empenho em prolongar a atenção/pensamento único pelo maior tempo possível e o maior número de vezes possível por dia resultará em aprofundamento crescente e desenvolvimento da concentração, até o ponto em que ocorra o esquecimento(vairagya) total de tudo o que existe. 

Diferenças e semelhanças entre concentração e distração

A distração e a concentração apresentam pontos em comum e também diferenças diametrais.

Vocês já viram uma pessoa distraída com algo, algum entretenimento? Observem-na: nada mais existe além do objeto do seu interesse. Ela se esquece de todo o resto do mundo. A concentração é semelhante à distração, no que se refere ao envolvimento, mas oposta a ela no que se refere à consciência. o distraído não está consciente do que faz, está esquecido de si mesmo, ao passo que a pessoa concentrada está percebendo plenamente o que faz.

Quando estamos distraídos, estamos com atenção plena, natural e espontânea naquilo que nos interessa, mas, ainda assim, não é correto dizer que estamos concentrados, pela simples razão de que não estamos conscientes do que estamos fazendo.

A diferença entre a concentração e a distração é a consciência, as semelhanças são o envolvimento, a absorção, a entrega e a espontaneidade.

O distraído está fascinado, esqueceu-se de si mesmo. O concentrado está plenamente lúcido, percebe aquilo que lhe interessa com profundidade crescente. Entretanto, ambos estão entregues e absortos.

Equivocam-se aqueles que imaginam a concentração como um ato de esforço, pois a concentração é um ato espontâneo e natural. Fazer esforço para se concentrar é sabotar a concentração.

Observem-se quando estiverem distraídos e verão que se encontram plenamente ocupados com aquilo que lhes interessa, como se estivessem concentrados, mas não o estão simplesmente porque estão fazendo aquilo inconscientemente, por impulso, e mantêm a consciência passiva, sem receber os fatos e sem perceber nada.

Quando estamos tentando nos concentrar e um pensamento nos atrapalha, dizemos que aquele pensamento nos distraiu, ou seja, roubou nossa atenção. Isso significa que a atenção foi desviada do alvo de nosso interesse para outro alvo que não havíamos planejado. Logo, a distração é também uma forma de focarmos atenção e nos oferece um parâmetro para entendermos o que seria uma atenção concentrada. Se quisermos entender o que é a concentração, basta observarmos o que é a distração. A concentração é o pólo contrário da distração, mas nem por isso deixa de ser semelhante a esta última, em certos aspectos. Ambas são similares e antitéticas, são especulares.

É importante entender o que é exatamente a concentração para se evitar esforços equivocados.

Para se desenvolver a concentração, é conveniente escolher objetos que nos interessem, pois se tentarmos nos concentrar em algo que nos molesta, algo enfadonho, teremos dificuldade, nos cansaremos e não teremos resultado.

As pessoas leigas costumam confundir uma pessoa concentrada com uma pessoa distraída. Se alguém caminha por uma estrada altamente lúcido e concentrado, os demais podem achar que ele está distraído com seus pensamentos, isso porque, aparentemente, os dois estados são semelhantes, mas diferem radicalmente no que tange à lucidez e a recordação de si.

O indivíduo concentrado percebe de forma intensa e objetiva aquilo que se propôs a observar, pois aprofunda a sua atenção e não mariposeia. Já o distraído mariposeia , muda de objeto constantemente e seu pensamento é superficial.

Há um certo tipo de divagação superior e objetiva na concentração, isenta de fascinação e totalmente distinta das divagações subjetivas da distração. Trata-se de uma viagem imaginativa que ocorre sem perda de consciência, sem queda na fantasia.

Poderíamos, para melhor entendimento, colocar as coisas assim: a distração é uma concentração inconsciente, enquanto a concentração é uma distração consciente (apenas para facilitar o entendimento, pois em realidade são opostos).

Concentrar-se é contemplar, observar com interesse.

A concentração está para a imaginação consciente assim como a distração está para a imaginação mecânica (fantasia).

Que ninguém suponha que a concentração seja um conflito com a mente, pois é a superação ou transcendência dos conflitos. Na concentração, tudo vai ficando para trás, inclusive os conflitos com a mente.

Um homem dirigindo em uma estrada, plenamente lúcido e relaxado, sem que nada o distraia, está altamente concentrado.

Tanto na concentração quanto na distração há receptividade, a pessoa está aberta ao objeto, porém na distração não há aprofundamento, a pessoa muda constantemente de objeto.

No cotidiano, temos que aprender a nos concentrar naquilo que estamos fazendo, sem distração, isto é, temos que contemplar a nós mesmos em cena, em ação. Então descobrimos muita coisa sobre o ego que antes não suspeitávamos.

A auto-observação é uma concentração em si mesmo, no que se está realizando.

Um motorista concentrado perceberá minuciosamente o que está fazendo. Esquecerá seus pensamentos, não se ocupará com eles, os deixará para trás. Somente perceberá o que estiver diretamente relacionado à sua tarefa ou ocupação naqueles momentos. Estará presente ao momento e ao lugar, vivendo o aqui e o agora. Perceberá profundamente o que faz, nuances e detalhes do ato penetrarão em seu campo de consciência. Seu campo de consciência abrangerá a estrada, os movimentos do volante, as acelerações e desacelerações, curvas, perigos etc. estará conscientemente entregue ao ato. Seu centro intelectual estará em repouso,enquanto seu centro motor e sua consciência estarão em atividade.

A concentração é o caminho para a meditação e não se consegue silenciar a mente sem antes desligar-se dos múltiplos pensamentos. Quem rejeita a concentração não conseguirá meditar.

Tenho visto pessoas tentarem meditar sem concentração e até rejeitando o sono, o que me parece um absurdo. A mesma similaridade antitética que existe entre a concentração e a distração, existe entre a meditação e o sono. A meditação é um sono consciente, enquanto o sono comum é algo assim como uma espécie de meditação inconsciente (digo isso para fins didáticos, pois a verdadeira meditação é consciente). Tentar meditar rejeitando o sono é forçar uma falsa meditação, cujo efeito é danificar o cérebro. A verdadeira meditação não cria transtornos psiquiátricos, mas a falsa meditação ou meditação sem sono sim. Por isso é tão importante compreender corretamente a teoria. Ninguém pode meditar de verdade sem baixar as ondas cerebrais e o metabolismo. Assim como no sono, os batimentos cardíacos, a respiração e muitas outras funções corporais reduzem-se durante a meditação.

Quando você ouvir falar em meditação, pense em algo análogo ao sono que você tem todas as noites, porém consciente.

O êxtase que se atinge por meio da concentração e da meditação não tem nada a ver, no que se refere à consciência, com os transes, sejam hipnóticos, mediúnicos ou de quaisquer outros tipos. Também entre o transe e o êxtase existem similaridades antitéticas, ambos são semelhantes e contrários.

A partir da concentração, chegamos à meditação e ao êxtase. A partir da fascinação, chegamos ao transe. O indivíduo em transe está absolutamente inconsciente, adormecido, enquanto o indivíduo em êxtase está hiperconsciente e hiperlúcido, ainda que seus centros e seu corpo físico estejam em repouso.

O V.M.R. nos diz que, quando criança, se concentrava, por medo, no som dos grilos à noite, ao deitar-se, e que tal concentração instintiva tinha por resultado o desdobramento astral consciente. Isso demonstra que a concentração não é algo artificial e nem forçado, mas sim espontâneo e natural. "Atenção plena, natural e espontânea, sem artifício de espécie alguma é a concentração perfeita", escreveu o V.M.S.

Por medo do grilo, o menino, bodhisattwa do V.M. Rabolú, se concentrava. O medo fazia com que o som se tornasse objeto do seu interesse e o levava a focalizar a atenção ali, esquecendo-se de todo o restante.

Se ainda assim a concentração não está clara para você, imagine o seguinte. Suponha que você tenha que carregar uma xícara cheia de água sem derrubar uma só gota e sob a mira de um arqueiro, pronto para disparar a flecha contra você caso não cumpra a meta. Você obrigatoriamente terá que se concentrar da forma correta! Se pensar na flecha, se desconcentrará.

Temos que diferenciar a atenção do esforço. Atenção é uma coisa e esforço é outra. Na concentração existe atenção pura, sem esforço nenhum, somente a atenção, separada do esforço e de modo algum mesclada ao mesmo.

A atenção pode existir na ausência total do esforço, da preocupação e até do desejo, pois o ato de prestar atenção é um ato de receptividade. Estar atento não é estar tenso, é estar receptivo, aberto a alguma coisa. Quando se diz "concentre-se", está-se dizendo "torne-se aberto para tal coisa".

O V.M. Rabolú nos fornece alguns parâmetros que permitem melhor compreender o que é uma prática da concentração. Ele nos diz que concentrar-se em um objeto é refletir sobre seus seguintes aspectos:

  • o que é o objeto (em que consiste?);
  • de que é feito o objeto (quais são os materiais que o constituem, de que é composto?);
  • para que está feito o objeto (qual é a sua função, para que serve?);
  • como funciona o objeto (de que maneira opera, como o mesmo atua?);

O estudante, concentrado, deve refletir sobre esses aspectos. Tais parâmetros "balizam" o pensamento sobre o objeto e o direcionam. O Mestre também sugere ao estudante que "entre" no objeto com a imaginação.

Em suma, concentrar-se, dentro desta concepção, é investigar reflexivamente o objeto. Muito provavelmente, o V.M. não restringia a prática a tais parâmetros, os quais parecem ser mais um ponta-pé inicial. Entendo que tudo o que for intrinsecamente inerente ao objeto pode ser alvo de reflexão sem que incorramos em desvio e desconcentração.

Na concentração ainda existe atividade mental. A concentração não é a fase de ausência de pensamento, mas sim de pensamento único. O pensamento único é atividade mental reduzida e dirigida. Múltiplos e dispersos pensamentos implicam em atividade mental mais intensa do que um único pensamento. Quem concebe a concentração como uma fase de ausência de atividade mental está equivocado, pois tal fase corresponde à meditação.

Em etapas profundas, o pensamento na concentração não é articulado, é um simples "dar-se conta" silencioso, receptividade pura.

Por meio do pensamento único ocorre o desligamento dos sentidos externos, do mundo físico e do corpo físico.

A recordação do Ser

As palavras abaixo são de extrema importância. Escrevi sob inspiração profunda outro dia em Vilhena, RO. Sugiro que medite nelas com atenção cuidadosa e sem pressa alguma.

Os desejos não são o Ser.

Os pensamentos não são o Ser.

A mente não é o Ser.

As emoções não são o Ser.

O corpo físico não é o Ser.

A Essência é o Real Ser em nós, o que há dEle em nosso interior.

Recordar-se de si é recordar-se da Essência.

Recordar-se de si é recordar-se de que se possui um Ser/Essência real, totalmente distinto do corpo, dos sentimentos, das emoções, da mente, dos pensamentos, dos desejos, das lembranças, dos sofrimentos, alegrias etc. É recordar-se desse "algo" que ultrapassa tudo e que somos, no fundo.

Mediante a recordação de si, a Essência se dissocia do Ego. Nos separamos do Ego quando nos recordamos de nós mesmos.

Quando nos recordamos de nós mesmos, rompemos com a fascinação e nos diferenciamos de tudo o que não é o Ser.

Não é possível observar algo com o qual estejamos identificados.

Identificar-se com algo é confundir-se com aquilo, perdendo a noção da diferença entre o que verdadeiramente somos e o objeto que nos fascina.

Nos identificamos pela fascinação (força hipnótica).

A fascinação "apaga" a consciência (adormece a Essência), impedindo-a de observar e contemplar.

O choque da recordação de si rompe com a fascinação e permite a contemplação consciente do objeto do qual nos diferenciamos.

A observação do Ego somente é possível mediante a recordação de si.

A Essência fascinada confunde-se com o Ego e sente seus desejos e sofrimentos.

Por ser uma parte do Ser Real (Espírito Divino ou Deus Interior), a Essência (alma pura e primordial) participa da mesma natureza natureza divina. A Essência é Deus em miniatura.

São características da Essência e, portanto, do Real Ser:

· silêncio interior (o que pensa não é o Ser);

· serenidade (o que se perturba não é o Ser);

· contemplação (observação).

Damos o choque da recordação de nós mesmos para romper nossa identificação com o Ego. Rompemos a identificação com o Ego para podermos observá-lo.

Aquele que se identifica com o Ego, sente-se como ego e se confunde com o mesmo. Identificado, sentirá como se os seus pensamentos, atos e desejos fossem ele mesmo, sua própria Essência, o seu próprio Ser Real ou Espírito, perdendo a capacidade de diferenciar-se dos mesmos.

O choque da recordação de si mesmo rompe tal vínculo fascinatório e equivocado, nos permitindo evidenciar que não somos os elementos que pensam, sentem e atuam dentro de nós.

Na recordação de nós mesmos, nos recordamos de nosso próprio Ser e rompemos a identificação com o ego, a qual é causada pela fascinação. Somente assim podemos começar a observá-lo e compreendê-lo.

A mente, os desejos, as emoções e o comportamento como um todo não podem ser observados quando os consideramos como parte do Ser e não como algo distinto.

Tratar a mente como um elemento estranho e o Ego como um conjunto de pessoas estranhas ("Eus") assinala o princípio do trabalho sério sobre nossa natureza interior.