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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Milarepa: ensinamento em vídeo

Este  vídeo contém alguns ensinamentos importantes do Santo Milarepa sobre a meditação (é a segunda parte de uma sequência de três vídeos):


"Para testar a conquista e experiência de Rechungpa e também para descobrir o quão forte era o seu espírito de renúncia, um dia Milarepa casualmente cantou para ele a 'Canção dos Doze Enganos':

A Canção dos Doze Enganos 

'Afazeres mundanos são todos enganadores; então procuro a verdade divina.

A excitação e distração são ilusões; então medito na verdade não dual.

Companheiros e servos são enganadores; então permaneço em solidão.

Dinheiro e posses também são enganadores; então se eu os tenho, dou para os outros.

Coisas do mundo externo são todas ilusões; a mente interna é a que observo.

Ensinamentos vagantes são todos enganadores; então só trilho o caminho da sabedoria.

Enganadores são os caminhos da verdade oportuna; a Verdade Final é aquela em que medito.

Livros escritos em tinta preta são todos enganadores; apenas medito no âmago das instruções da Linhagem Sussurrada.

Palavras e dizeres também são enganadores; calmo, descanso minha mente no estado sem esforço.

Nascimento e morte são ambos ilusões; observo somente a verdade do Não Elevar.

A mente é, em todos os meios, enganadora; então pratico como animar a consciência.

A prática de segurar a mente é enganadora e leva a caminhos errados; então descanso no Reino da Realidade.'

Rechungpa pensou:

'Meu Guru é o próprio Buda, não há idéia ilusória em sua mente. Mas, por minha incapacidade de devoção e também a dos outros, ele cantou para mim, esta canção.'

E Rechungpa cantou em resposta para explicar ao seu guru sua compreensão sobre o ensinamento da visão, prática e ação:

'Ouça-me, por favor Pai Guru, minha mente escura é cheia de ignorância, segure-me com a corda de sua compaixão.

Na encruzilhada onde Realismo e Nihilismo encontram-se, perdi meu caminho, ao procurar a visão dos Não Extremos, então não tenho segurança no conhecimento da Verdade.

Sonolento e distraído a toda hora, alegria e Iluminação ainda não são minhas e assim não conquistei todo o apego.

Não consigo me libertar de tomar e abandonar e, sem necessidade, continuo em meus atos impulsivos, então ainda não destruí todas as ilusões.

Fui incapaz de afastar todos feitos de fraude e observar os preceitos tântricos sem falha, ainda não conquistei todas as tentações.

A distinção ilusória entre o Samsara (ciclo da reencarnação) e o Nirvana (Felicidade Eterna) ainda não percebi na própria mente do Buda, então ainda tenho que encontrar meu caminho ao Darmakhaya.

Não fui capaz de equalizar esperança com medo e a minha própria face para contemplar, então ainda tenho que ganhar os Quatro Corpos de Buda.

Eu fui protegido por sua Compaixão no passado, agora, colocando-me inteiramente em tuas mãos, rezo; dê-me ainda mais de tuas bençãos.'

Assim Milarepa, mandou sua Graça compassiva para abençoar Rechungpa e disse a ele, fingindo:

'OH, Rechungpa, você tem mais conhecimento e experiências que aqueles que acabou de me contar. Não deveria esconder nada de mim. Seja franco e cândido.'

Quando Milarepa disse isto, Rechungpa se tornou iluminado e ele cantou as 'Sete Descobertas'.

Canção das Sete descoberta

'Através da Graça do meu pai guru, o sagrado Jetsün, agora percebi a Verdade nas Sete Descobertas.

Em manifestações, descobri o Vazio, agora não tenho pensamento de que nada exista.

No Vazio encontrei o Dharmakaya, agora não tenho pensamento da ação.

Em miríades de manifestações o Não Dual encontrei, agora não tenho pensamento de reunir ou dispersar.

Em elementos de Vermelho e Branco descobri a essência da igualdade, agora não tenho pensamento de aceitar ou rejeitar.

No corpo da ilusão descobri Grande Felicidade, agora em minha mente não há sofrimento algum.

Na Auto Mente descobri o Buda, agora em minha mente Samsara (ciclo da reencarnação) não existe mais.'

Milarepa então disse a Rechungpa:

'Sua experiência e compreensão estão próximos da real iluminação, mas ainda não são o mesmo. Experiência Real e compreensão verdadeira deveriam ser assim; e ele cantou 'Os Oito Reinos Supremos':

Canção dos Oito Reinos Supremos

'Aquele que vê que o mundo e o vazio são o mesmo, alcançou o reino da Verdadeira Visão.

Aquele que não sente diferença entre sonho e despertar, ele alcançou o Reino da Verdadeira Prática.

Aquele que não sente diferença entre Alegria e Vazio, atingiu  o Reino  da Verdadeira Ação.

Aquele que não sente diferença entre 'agora' e 'depois', atingiu o Reino da Realidade.

Aquele que não vê que a mente e o vazio são o mesmo, atingiu o Reino de Dharmakaya.

Aquele que não sente diferença entre dor e prazer, atingiu o reino do Verdadeiro Ensinamento.

Aquele que vê os desejos humanos e a sabedoria de Buda como iguais, atingiu o Reino da Suprema Iluminação.

Aquele que vê como a própria mente e o Buda são semelhantes, alcançou  o Reino da Verdadeira Realização.'


Consequentemente, através da Misericórdia e Benção de seu Guru, Rechungpa gradualmente aprimorou em compreensão e realização. Ele então, compôs a 'Canção dos Seis Bardos', no qual ele apresentou a Milarepa seu insight e compreensão final:

'Eu me curvo diante dos Santos Gurus. 

No Bardo (estado de existência entre a morte e o renascimento), onde o Grande Vazio manifesta-se, não há visão realista e nem niilista, eu não compartilho o pensamento dos sectários humanos.

Além de toda a apreensão está a Não Existência agora. Da visão esta é minha firme convicção.

No Bardo do Vazio e da Alegria não há objeto no qual a mente possa meditar, então não preciso praticar a concentração.

Descanso minha mente sem distração no estado natural. Esta é minha compreensão da Prática. 

Não me sinto mais envergonhado diante dos amigos iluminados. No Bardo, com luxúria e sem luxúria, eu não vejo felicidade samsárica, e então, não sou mais um hipócrita, eu não encontrei má companhia alguma.

Tudo o que eu vejo diante de mim tomo como minha companhia. Esta é minha convicção na ação. 

Não sinto mais vergonha diante de um encontro de grandes yogues. Entre vícios e virtudes, não discrimino mais; os puros e impuros são agora para mim iguais. 

Assim eu nunca devo ser falso ou pretensioso. Agora conquistei totalmente a maestria da Auto-Mente. Esta e minha compreensão de Moralidade. 

Não sinto mais vergonha diante da assembléia dos Santos. No reino recém descoberto do Samsara e Nirvana, seres senscientes e os Budas são para mim o mesmo. 

Então, não espero e nem anseio pela qualidade de Buda. Neste momento, todo o meu sofrimento tornou-se um prazer. Esta é minha compreensão de iluminação. 

Não sinto mais vergonha diante dos seres iluminados. Tendo me libertado das palavras  e significados, não falo mais a linguagem de todos os estudiosos. 

Não tenho mais dúvidas em minha mente. O Universo e todas as suas formas agora não aparecem senão como o Dharmakaya. Esta é a convicção a que cheguei. 

Não sinto mais vergonha diante de uma reunião de grandes estudiosos.'


Milarepa estava em grande prazer e disse:

'Rechungpa, esta é de fato a Experiência Real e o Conhecimento. Você pode realmente ser chamado de Discípulo Bem Presenteado. Agora existem três formas nas quais alguém pode agradar seu Guru: Primeiro, o discípulo deve empregar sua fé e inteligência para gratificar seu Guru; então, através do aprendizado inequívoco e da contemplação, ele deve entrar no portão do Mahayana e do Vajrayana e praticá-los com diligência e grande determinação. Então, ele finalmente pode agradar seu Guru com suas experiências reais de Iluminação, que são produzidas passo a passo através de sua devoção.

Eu não gosto do discípulo que fala demais; a prática real é muito mais importante. Até a completa realização da Verdade ser obtida, ele deve fechar sua boca e trabalhar em sua meditação. Meu Guru, Marpa, disse para mim: Não importa o quanto e se alguém sabe grande coisa sobre Sutras e Tantras. É preciso não apenas seguir as palavras e livros, mas a pessoa deve fechar sua boca, seguir sem erro as instruções verbais de seu guru e meditar. Assim, você deve também seguir seu conselho, não esquecendo e colocando-o em prática. Se você puder deixar todos os assuntos samsáricos para trás, os grandes méritos e realizações serão todos seus.'

Rechungpa replicou:

'Querido Jetsün, por favor seja bom o bastante para dizer o que Marpa disse.

Milarepa então cantou 'As Trinta Admoestações do Meu Guru':

'Querido filho, estas são as palavras que Ele me disse :

De todos os Refúgios, o Buda é o Melhor.

De todos os amigos, a fé é a mais importante.

De todos os males, Nhamdog (pensamento perturbador) é o pior.

De todos os demônios, o orgulho. De todos os vícios, difamar.

Ele disse: Aquele que não purifica seus pecados com os quatro poderes, estará atado a vagar no Samsara.

Aquele que, com diligência, não acumula mérito, nunca ganhará a Benção da Liberação.

Aquele que não refreia cometer os Dez Males está atado a sofrer as dores junto ao Caminho.

Aquele que não medita no Vazio e na Compaixão, nunca atingirá o estado do BUDDHADO.' "



Se você gostou, pode assistir também outros vídeos onde Milarepa compartilha seu conhecimento.

Milarepa instrui as Dakinis e aos patronos:

http://www.youtube.com/watch?v=w7RLNBFKiPw&feature=relmfu

Aqui há a estória inteira: (três vídeos)

http://suprememastertv.com/pt/bmd/?wr_id=763&url=link1_2&page=4#v




Boa reflexão.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Meditação e paralisia do sono


Quando estamos meditando, podemos ser assaltados pela paralisia do sono. A paralisia costuma aparecer quando, durante fase do relaxamento profundo, a pessoa tenta se mover por alguma razão.

O melhor a fazer quando somos assaltados pela paralisia é esquecê-la e continuarmos concentrados em nosso lakshya. Se a pessoa não tiver medo e prosseguir concentrada, terá logo experiências muito interessantes. A paralisia do sono indica que se está no limiar das experiências supra-sensoriais. As chamadas "alucinações hipnagógicas" são na verdade percepções do universo supra-sensorial.

sábado, 25 de agosto de 2012

Imaginação e emoção


Comportamento e imaginação estão diretamente vinculados. O comportamento costuma corresponder às emoções e as emoções são direcionadas pela imaginação.

Se me fizerem acreditar que estou em perigo, imaginarei mil riscos e ameaças, sentirei medo e agirei em consonância com tal emoção. Se me fizerem acreditar que estou em segurança, imaginarei que não há problema algum, ainda que eu esteja sob grande risco, e sentirei tranquilidade. Quando um homem aponta uma convincente arma de brinquedo para outro, fere sua imaginação, fazendo-o crer que a arma é real, e nele provoca emoções correspondentes, fazendo-o sentir medo, insegurança e vulnerabilidade. Quando um homem imagina que uma mulher lhe dará mil prazeres indescritíveis, sentirá desejo intenso. Uma pessoa que tenha uma grave doenças e não o saiba, não sentirá as emoções correspondentes, por não estar ferida em sua imaginação e não se imaginar sob risco. Uma pessoa saudável que, por um erro de exame, se acredite gravemente doente, sentirá as emoções negativas correspondentes, pois imaginará a si mesma piorando cada vez mais. Se um ladrão imaginar que há grande soma de dinheiro em uma casa, sentirá o desejo de invadi-la para roubá-lo.

Quando uma pessoa faz ameaças diretas a outra, o faz com o intuito de ferir sua imaginação, induzindo-a a imaginar-se em perigo. Se a imaginação da vítima for ferida como deseja o agressor, ela sentirá medo, ficará intimidada e retrocederá. Quando um homem exibe um carrão ou sinais de riquezas e poder para uma linda mulher, o faz com o intuito de ferir-lhe a imaginação, induzindo-a a imaginar que ele pode lhe dar conforto, segurança e proteção sem fim.

As diversas situações da vida provocam emoções em consonância qualitativa com as imaginações que provocam. Sentimos de acordo com o que imaginamos. Se eu imaginar que um homem é o meu pior inimigo, sentirei raiva, ódio, medo e tentarei prejudicá-lo, ainda que o infeliz nem sequer saiba de minha existência.

Quem tenta controlar as emoções diretamente, sem redirecionar o curso da imaginação, está cindindo-se interiormente e desencadeando uma neurose.  O elefante louco das emoções não se deixa dominar.

A emoção é rápida como um tiro, mas a imaginação é a mão que direciona o cano da arma. A mente não é mais rápida que a emoção, mas é o fator que a direciona. E não podemos controlar a mente entrando em conflito com os maus pensamentos e más imaginações, mas sim reforçando os seus contrários. Somente deixarei de pensar em um perigo se preencher minha mente com pensamentos e imaginações de segurança.
A concentração serve para preencher a mente com os pensamentos que queremos, redirecionando a imaginação. Ao imaginarmos algo em um rumo que desejamos, modificamos o funcionamento mental (sanskaras) e alteramos as emoções.

O Ego resulta da imaginação equivocada que vai se nutrindo e sendo reforçada ao longo de toda a vida desde a infância. Como Freud acertadamente se deu conta, é na infância que começa tudo. Os vícios e deformidades que temos hoje se originaram na infância e, indo além de Freud, em passadas existências. Quando, em um passado remoto, adquirimos a mente e o poder de imaginar, começamos a dar vida aos desejos.  

A imaginação não é ruim e nem boa, é dual. Podemos nos afundar ou nos salvar através da imaginação. Educar a imaginação é fundamental em toda disciplina espiritual.

Os corajosos que não temem o inimigo e se expõem no campo de batalha não se imaginam em risco, ainda que conscientemente saibam que estejam se arriscando. Os insensatos que se arriscam tolamente também não se imaginam em perigo, por falta de discernimento, e não sentem medo. São pessoas que não pensam na morte e nem na vulnerabilidade (aqueles por terem aprendido e estes por serem estúpidos). Os covardes que vivem intimidados com tudo possuem uma imaginação vulnerável ao perigo e se imaginam constantemente em risco.

Uma pessoa que sofra cronicamente com emoções ruins deverá procurar, dentro de si, as imaginações e pensamentos que as provocam.

Uma das funções da auto-observação é revelar as reações mentais (imaginativas) que vamos tendo aos diversos fatos que vamos presenciando, para que possamos eliminá-las. Os acontecimentos fazem a mente reagir de determinada maneira, ocasionando emoções inferiores. Temos que descobrir as imaginações equivocadas antes de corrigi-las. Como eu poderia corrigir algo cuja existência desconheço?

Um funcionamento imaginativo equivocado é nutrido e reforçado por falas e atitudes que desconhecemos e necessitamos descobrir ao vivo. Corrigindo a fala, os comportamentos e as imaginações que reforçam uma emoção ruim, a enfraqueceremos. 

Portanto, a correção da imaginação destrutiva se obtém por dois trabalhos simultâneos: a concentração/meditação e a auto-observação/Morte em Marcha.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Morte do Ego: a correta relação com o mundo exterior

Todos os defeitos e sofrimentos estão relacionados a algum tipo de desejo. A preguiça é o desejo de não fazer nada, de evadir-se do esforço, a ira resulta do desejo insatisfeito, o ódio é o desejo de que alguém seja prejudicado e arruinado, o medo relaciona-se com o desejo de sentir-se seguro, a salvo do perigo, a gula é o desejo de comer algo para sentir seu sabor, a inveja é o desejo de ter o mesmo que outra pessoa possui. Existem muitos tipos de desejo e não somente o desejo sexual.

Todas as formas de desejo provocam sofrimento. Quando o desejo morre, o sofrimento acaba. É muito importante entender como fazemos para enfraquecer gradativamente o poder do desejo.

Quem nunca tomou consciência da existência de algo desejável, não pode desejá-lo. Quem toma consciência da existência de algo desejável, passa a desejá-lo. Quem renuncia voluntariamente à percepção dos objetos de desejo, após ter consciência da existência dos mesmos, volta a não desejá-los mais. Há, portanto, três estágios no desenvolvimento da alma: 

1) inconsciência da existência do objeto; 
2) consciência da existência do objeto; 
3) esquecimento intencional da existência do objeto. 

Uma é a felicidade dos seres inocentes, que nunca se deram conta ou não compreendem a existência dos objetos de desejo. Outra é a felicidade daqueles que sofreram desejando os objetos mas conseguiram esquecê-los, renunciando aos mesmos. Tormentosa é a existência daqueles que estão na fase intermediária, percebendo os objetos e os desejando continuamente, afogando sua consciência na embriaguês da matéria. 

Quem nunca viu ouro ou jóias, não poderia desejá-los. As crianças não desejam dinheiro, porque neles não pensam e não “entendem” o seu valor. Alguém que tenha contato com ouro ou jóias, passará a entender, com o tempo, que os seres humanos os valorizam em demasia, desenvolverá um entendimento enviesado ou distorcido a respeito e então irá desejá-los. Porém, se tal pessoa decide aprofundar a compreensão a respeito do desejo que sente e, por extensão, do verdadeiro ou essencial valor do ouro e das jóias, chegará a compreender que o valor atribuído aos mesmos é tão somente uma ilusória criação mental, ou seja, o valor não existe objetivamente, somente subjetivamente (as pessoas o inventaram). Caso tal pessoa se divorcie do ouro e das jóias, os abandone, esqueça e deixe de percebê-los, estará, de certo modo e em um certo sentido, retornando ao estado inicial de desconhecimento. Após a compreensão, a pessoa estará “desconhecendo intencionalmente” o objeto de desejo. Para tanto, a pessoa terá que deixar de ocupar-se fisica e mentalmente com aquilo. 

Retornar conscientemente ao estado de inocência original ou à infância espiritual perdida é ocupar-se somente com as coisas do céu, renunciando às coisas da Terra. Entretanto, após estarmos aprisionados no mal, tal retorno não será possível senão após tomarmos consciência de cada prisão. Cada desejo é uma prisão que encarcera uma parte de nossa alma.

O esquecimento intencional daquilo cuja existência não temos consciência é um absurdo. Como eu poderia esquecer algo cuja existência me é desconhecida? O esquecimento intencional ou abandono voluntário requerem a consciência prévia daquilo que nos prende. Não é possível esquecer intencionalmente um objeto de desejo se não estamos conscientes de que o desejamos. E não estaremos conscientes se não nos observarmos em plena relação com o mundo. Portanto, tomamos consciência para nos desligarmos. Quem quer libertar-se do desejo por jóias, deve primeiro dar-se conta de que as deseja e tal consciência não ocorrerá senão pela auto-observação das próprias reações perante a percepção das jóias.

Mas se aquele que percebe que deseja as jóias, ao vê-las, as continua contemplando após tê-lo compreendido, estará, a partir deste ponto, alimentando seu desejo ao invés de enfraquecendo, por uma simples razão: o desejo se nutre pela fascinação, intencional ou não.  Estejamos ou não conscientes da fascinação, ela alimentará os desejos e os reforçará. Este é o motivo pelo qual aqueles que se entretém fascinando-se pelo que desejam jamais se libertam. Temos que descobrir os processos fascinatórios inconscientes e interrompê-los, caso queiramos nos libertar.

A finalidade da auto-observação é levar-nos a descobrir os infinitos processos fascinatórios que se processam inconscientemente durante o dia, enquanto estamos em contato com os objetos da vida. Os objetos desejáveis do mundo físico são uma faca de dois gumes: servem para descobrirmos nossas reações inconscientes a eles mas também promovem a fascinação e podem nos lançar mais profundamente no desejo. Tudo depende da forma como nos relacionamos. Quem se identifica com as coisas do mundo, ao invés de usá-las para o auto-descobrimento, fortifica suas próprias prisões interiores.

Temos que saber como nos relacionar com as coisas desejáveis da Terra. Podemos usá-las para tomarmos consciência de que as desejamos, mas também podemos, caso nos relacionemos equivocadamente, usá-las para nos prejudicarmos, alimentando os desejos que elas provocam e nos afundando cada vez mais no lodo da miséria espiritual.

O que se passa é que um certo fato exterior qualquer do mundo físico que provoca um dado desejo serve para que o mesmo desejo seja descoberto em plena ação. O mérito das almas vitoriosas consiste justamente em não se identificar com tais fatos mesmo que estejam se dando a seu redor a pleno vapor. Por esta via, as almas vitoriosas alcançaram uma pureza semelhante à das almas inocentes, com a diferença de que isto foi conquistado de forma consciente, intencional e voluntária. As almas vitoriosas são crianças porque querem sê-lo. 

As almas vitoriosas não se entretém contemplando  os fatos evocadores do desejo, evitam a fascinação, porém o fazem por vontade deliberada. Elas decidiram não mais olhar para o mal. Já as almas desgraçadas, por outro lado, estão aprisionadas pelo olhar fascinante da medusa, presas espiritualmente ao mal, porque não sabem ou não querem desviar o olhar, não querem abandonar os atrativos mundanos. 

Não podemos explorar o Ego senão através dos fatos que nos acontecem, nos acometem e nos ferem. Não é possível explorar o Ego através de teorizações, conjeturando a respeito do que somos ou sentimos. Temos que vê-lo em ação e tal percepção é possível exclusivamente em contato com os fatos da vida, do mundo exterior. É algo muito interessante: temos que aprender a nos isolar dos fatos do mundo, mesmo estando eles acontecendo ao nosso redor, e fazemos isso após percebermos as reações que provocam em nós. Se você percebeu que sua vizinha está dançando de calcinhas na laje, melhor é não ficar espiando porque senão ficará tomado por um desejo desesperador, se você percebeu que a carta ou mensagem enviada por alguém é negativa e malcriada, melhor é não abri-la e jogá-la na lixeira ou então ler somente as primeiras linhas para se certificar de que se trata de algo prejudicial. Assim vamos cortando os canais de alimentação dos desejos. Tudo isso, é claro, tem que ser realizado através da Morte em Marcha.

O que estamos aqui descrevendo vale para todos os tipos desejo, todos os tipos de defeitos, emoções inferiores ou negativas. Quem teme ser assassinado e fica contemplando assassinatos, seja em filmes ou livros, está alimentando o seu medo. Quem teme fantasmas e assiste a filmes de terror, ficará ainda mais atemorizado. Aquele que alimenta um defeito, torna-se incapaz de libertar-se do mesmo. 

O segredo, a chave da Morte, está no processo de nutrição dos egos. É o que diz aquele conto indígena dos dois cachorros em conflito que existem dentro do ser humano. Qual dos dois cães irá ganhar a luta? Aquele que alimentarmos.

Tenho medo de não estar sendo claro. O que quero transmitir neste texto é a necessidade de tomarmos consciência dos fatos físicos para, em seguida, nos isolarmos (psicologicamente) dos mesmos e não para nos fascinarmos ainda mais. Quero que compreendam que os mesmos fatos que servem para descobrir os defeitos podem servir para alimentá-los. Temos que saber usar esses fatos em nosso favor e não contra nós. Quero que compreendam que os fatos da vida são facas de dois gumes, podem servir para o nosso bem ou para o nosso mal, são males necessários. Não devemos fugir deles, nos isolando para sempre nas montanhas ou em cavernas, e nem tampouco mergulhar nos mesmos. Quem mergulha nos fatos da vida se afoga e é arrastado por suas correntezas. Os fatos da vida constituem um ginásio psicológico mas também uma porta para o abismo, tudo depende do modo como nos relacionamos.

Como nos isolamos psicologicamente dos fatos, de modo a não perdermos os resultados conquistados com a Morte em Marcha? Controlando os sentidos, evitando ver, ouvir e sentir aquilo que fortifica o mal em nós.  Aquilo que faz o mal aflorar também o alimenta. É importante que o mal aflore para que seja visto, mas alimentá-lo é desnecessário e prejudicial.

Quem quer realmente morrer deve evitar todos os estímulos externos e internos aos desejos. As situações exteriores que os evocam e excitam necessitam ser descobertas e evitadas, assim como os pensamentos, falas, recordações e atos. Toda excitação deve ser removida da vida. Isso se aplica à gula, à ira, ao ódio, ao medo, à luxúria, às preocupações e a quaisquer outros defeitos. A excitação passional deve ser substituída pelas emoções superiores e pelo êxtase espiritual.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Concentração: como lidar com os pensamentos indesejáveis

Em primeiro lugar, não se incomode com os pensamentos invasivos que surgem durante a prática, seja indiferente, de modo algum reaja contra e nem a favor. Não se identifique e nem corra atrás dos pensamentos para silenciá-los, seja neutro e volte-se para o lakshya.  Os pensamentos invasivos e desviantes são meras tentativas de atraí-lo. Lembre-se das tentações que Mara enviou ao Buddha Gautama para desviá-lo. Como o Buddha reagiu a elas? Ele não se deixou afetar, simplesmente continuou meditando embaixo da árvore.

Em segundo lugar, se um pensamento for muito insistente, aplique a dualidade: coloque um pensamento que lhe seja oposto e que o anule. Exemplo: se o pensamento for sobre algum mal que lhe fizeram, pense nos prejuízos físicos, psicológicos e espirituais que o ressentimento irá lhe causar, encontre algo que o anule.

Em terceiro lugar, interrompa por um instante sua concentração e analise o conteúdo do pensamento invasor, com a intenção compreendê-lo. Procure compreender, principalmente, qual é a (in)utilidade daquele pensamento para aquele momento, o que se consegue perguntando-se "para serve este pensamento?" e buscando sinceramente a resposta.

Em quarto lugar, aplique a Morte em Marcha no ego teimoso que está emitindo o pensamento intruso. 

Em quinto lugar, realize a Dança dos Derviches.

Se nada disso funcionar, deixe sua prática por um instante e a retome dali há pouco.

Aprenda com o Santo e Venerável Mestre Milarepa:

"A prática de segurar a mente é enganadora e leva a caminhos errados; então descanso no reino da Realidade." (Milarepa, A Canção dos Doze Enganos)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sobre a necessidade de controlar os sentidos

Gostamos de nos entreter prestando atenção naquilo que desejamos, detestamos, tememos ou simplesmente naquilo que nos altera ou perturba. Trata-se de um vício de má utilização dos sentidos. Temos que exercitar o controle dos sentidos. Permanecer vendo, ouvindo e percebendo aquilo que não presta é escravizar-se voluntariamente pelo mal.

Existem egos visíveis e egos ocultos. Há uma parte de nós que enxergamos e da qual temos consciência, porém há outras partes do Eu que não alcançamos enxergar e nem sequer suspeitamos que existem. Apesar de não serem percebidas conscientemente, a parte oculta do Ego está ativa, atua. O ego oculto atua na escuridão, sem ser visto, e em várias dimensões, não somente no mundo físico. Portanto, temos defeitos que atuam no mundo físico, nos centros da máquina, sem que o saibamos. São muitos os pensamentos, emoções, movimentos e ações que temos mas desconhecemos. Não percebemos a totalidade do que somos e do fazemos neste mundo e nem, muito menos, nos mundos paralelos. 

Não estamos conscientes da maior parte dos nossos defeitos, mas tal inconsciência não os impede de atuar livremente, de se alimentarem e colherem energia. Estamos constantemente criando e alimentando defeitos sem nos darmos conta.

A alimentação dos egos acontece por meio da identificação (fascinação). A identificação ocorre por via sensorial e extra-sensorial. Quando contemplamos fisicamente um objeto de desejo, estamos alimentando o desejo por via sensorial. Quando contemplamos mentalmente um objeto de desejo, estamos fortificando o desejo por via extra-sensorial (a extra-sensorialidade existe de forma germinal em todos os seres humanos).
Perceber o objeto de desejo é alimentar o desejo, perceber o objeto do ódio é alimentar o ódio, perceber o objeto do medo é alimentar o medo. 

Quando se tem o Ego vivo, não é possível olhar para uma linda mulher desejável sem desejá-la, não é possível olhar para o inimigo sem detestá-lo, não é possível olhar para o perigo sem sentir medo. Similarmente, não é possível pensar em tais objetos sem sentir as emoções correspondentes. Quem tenta eliminar os defeitos sem renunciar aos pensamentos que lhes correspondem, está se partindo, se despedaçando interiormente, pois fortifica o inimigo e ao mesmo tempo faz esforços para matá-lo. A pessoa, em tal caso, faz dois esforços contrários, que se anulam: esforço para matar e esforço para dar vida. A infeliz pessoa girará em círculos por tempo indefinido, a não ser que se dê conta do equívoco e se defina em uma única direção, em um único objetivo.

Por meio da auto-observação no ginásio psicológico, vamos descobrindo novas manifestações do Ego, antes desconhecidas. Cada manifestação descoberta é uma forma de alimentação, antes insuspeitada. Ao descobri-la e a eliminarmos, por meio da oração (Morte em Marcha), nos tornamos capazes de descobrir novas manifestações, ainda ocultas. Deste modo, descobrimos sucessivas manifestações dos egos e, portanto, sucessivas formas de alimentação dos mesmos. Como a manifestação se dá por meio da identificação, podemos dizer que a manifestação é a própria alimentação dos "eus". O "eus" se nutrem durante as manifestações. Descobrir uma manifestação é descobrir um canal de alimentação.

A todo momento os egos estão se nutrindo, colhendo energia de nosso corpo. Não percebemos o processo porque não nos mantemos receptivos ao mesmo. E não nos mantemos receptivos porque vivemos distraídos com os objetos do desejo.

O Ego é algo sensorial, busca as sensações. Qualquer ego se fundamenta nas sensações. O controle dos sentidos é indispensável pois os objetos exteriores provocam emoções negativas. Se me distraio percebendo os objetos evocadores das emoções inferiores, as fortifico e me torno mais e mais escravizado.
Contemplar os objetos evocadores das emoções causa um certo prazer mórbido. Isso vale para o medo, o ódio, a ira, a cobiça, a luxúria e tantos outros egos. Quando controlamos os sentidos, experimentamos um grande avanço.

O ginásio psicológico é faca de dois gumes: pode ser usado para enfraquecer os defeitos ou para fortificá-los. Quem se identifica, fortifica.

Conforme avançamos, vamos despertando consciência e nos tornando mais conscientes nos mundos parelelos. Então, praticamos a auto-observação durante os sonhos e descobrimos que também ali, nos outros mundos, temos o hábito de alimentar os defeitos. Também ali, nos envolvemos com os egos, tentamos controlá-los, nos identificamos, nos amarramos e perdemos tempo. Ao tomarmos consciência, temos a chance de superar aos poucos o problema. É assim que vamos despertando nos vários mundos.
Inconscientemente, olhamos para as mulheres, para alimentos saborosos, para pessoas antipáticas, ouvimos vozes e sons etc. Tudo isso alimenta vários defeitos sem que nos demos conta. 

Quando olhamos para nós mesmos e não vemos defeito algum, isso não significa que os egos não estejam atuando ou que a Morte tenha terminado, significa somente que os defeitos estão agindo fora do alcance de nossa consciência.

A auto-observação é para descobrir o novo. Controlar os sentidos, deixar de perceber os objetos que provocam emoções negativas, não é renunciar ao novo, não é esconder-se e nem enganar-se. É resolver um problema para ocupar-se com outros problemas que virão a ser detectados, pois há outras atuações do sentidos a serem descobertas. Aí reside um equívoco, pois muitas pessoas imaginam que devem cultivar a percepção dos objetos do desejo para descobrir os egos que evocam. Na verdade, tal cultivo prende a pessoa em um círculo vicioso, no qual ela fortifica os egos ao mesmo tempo em que tenta observá-los e compreendê-los. Se não resolvemos os problemas atuais, não podemos nos ocupar com problemas futuros.

A crença de que podemos "olhar sem nos identificarmos" com os objetos que desejamos é absurda. Se desejamos e olhamos, nos identificamos, obrigatoriamente. Somente quem está realmente morto pode olhar sem identificar-se. Quem está vivo, forçosamente se identifica.

Portanto, o Morrer equivale a ir retirando de nossa vida todas formas de identificação. E retirar as identificações é descobri-las e orar pela Morte. Eliminar um "eu" é eliminar uma forma de identificação.

Muitas formas de alimentação do Ego (detalhes) se apresentam sob uma aparência inofensiva e até virtuosa. Atitudes inocentes, desprovidas de qualquer sentido delituoso, podem estar nutrindo algum defeito. Atos comuns do dia a dia podem ser canais de nutrição dos defeitos. Mediante a auto-observação sincera e criteriosa, vamos aos poucos discernindo.


Sobre contemplar o objeto de desejo mentalmente e perceptualmente

Se não devemos contemplar mentalmente o objeto de desejos, porque desencadeia uma manifestação incontrolável do desejo correspondente, é muito claro que não devemos também contemplá-lo fisicamente, pois o efeito será o mesmo.

Pensar em algo é contemplar mentalmente. Pensar na imagem de uma linda mulher nua satisfazendo nossas fantasias sexuais é o mesmo que ver uma linda mulher fazendo o mesmo.  Pensar é ver na tela da mente.

Se fico contemplando objetos de desejo, estou fortificando o desejo do mesmo modo que se neles pensasse. 

Não contemple o objeto dos desejos fisicamente e nem mentalmente. Ainda que contemplemos o objeto dos desejos com os olhos físicos, o estaremos fazendo através de alguma forma mental.


A luxúria possui inevitavelmente um caráter imaginativo ou mental e se reforça pelos pensamentos e imaginações. É pela contemplação de imagens que a luxúria colhe força e se arraiga em nossa personalidade. Sempre que contemplamos um objeto de desejo, o desejo se torna mais forte. 


Quando imaginamos cenas eróticas, mulheres lindas, estamos contemplando o objeto de desejo mentalmente. Quando observamos as mesmas cenas no mundo físico, com os olhos físicos, o estamos fazendo fisicamente. Em ambos os casos, estamos fortificando a prisão da luxúria. A contemplação das imagens desejáveis, seja fisicamente ou imaginativamente, é o caminho para a escravização. 


Desejar algo corresponde a uma forma de entender e de perceber aquilo que desejamos. A forma de entender corresponde a um entendimento viciado, tendencioso. Quanto mais fortificamos o entendimento vicioso, mais fortificamos o desejo em nós.


O entendimento vicioso (equivocado) é reforçado por ações em todos os demais centros (que não o intelectual). As ações e reações mínimas de cada instante estão reforçando as equivocadas formas de perceber e compreender. Como resultado, desejamos o objeto por imaginarmos e acreditarmos milhares de coisas absurdas a respeito. Quando um homem deseja uma mulher, não a enxerga de forma objetiva, tal como é, mas sim através da lente da luxúria. O prisma do desejo o cega e todas as consequências indesejáveis de um relacionamento se tornam empalidecidas, apagadas. Quando removemos a lente luxuriosa, enxergamos o ser feminino com objetividade, sem exageros favoráveis ou desfavoráveis. 


O prisma do desejo é como uma lente colorida: se olhamos o mundo com uma lente vermelha ou azul, as cores dos objetos mudam. Sob a lente da luxúria, o mundo se torna repleto de erotismo e sensualidade, cada mulher passando a ser avaliada segundo seu potencial para o sexo. As mulheres se dividem entre as sexualmente desejáveis e as indesejáveis. O luxurioso não enxerga mais nada na vida. A Morte do Ego, no entanto, reverte tal situação miserável.


Três cuidados importantes na Morte

Três cuidados importantes a serem tomados na Morte são:

1. Não nos distrairmos prestando atenção ou pensando nos milhares de defeitos que temos mas sim nos mantermos atentos ao que estamos fazendo no momento;

2. Nunca "passar para o outro lado da margem", ou seja, nunca nos identificarmos com um desejo;

3. Não perder o tempo prestando atenção e/ou nos distraindo com os objetos que provocam desejo ou perturbação.

Portanto, temos que evitar o processo de identificação com os defeitos a todo custo. Identificar-se com um desejo é como passar para o outro lado da margem de um rio e transformar-se em algo completamente diferente. Quando você está identificado, você se torna outro.

Para não passar para o outro lado, temos que vigiar nossa conduta e deter as manifestações diminutas do desejo antes que cresçam. Quando as manifestações crescem, tomam conta do veículo físico e o comandam. Não basta somente resistir à identificação, é preciso evocar o poder superior da Mãe Divina e aplicar a Morte em Marcha.


Como fortificamos nossas prisões


O mal é o desejo, pois em todo sofrimento há desejo encarcerado. Os doentes desejam a cura, os famintos desejam comida, os sofredores desejam a felicidade. 

Não é possível desejar aquilo cuja existência jamais foi sequer cogitada. Essa é a felicidade dos inocentes.

Há uma diferença entre a felicidade daquele que nunca conheceu o mal e a felicidade daquele que experimentou o mal e o superou.

Uma coisa é não desejar algo cuja existência nem sequer suspeitamos, outra coisa é não desejar aquilo cuja existência já nos é conhecida.

Quando comemos do fruto proibido e tomamos consciência de sua natureza desejável, nos tornamos escravos do desejo. A superação do desejo após a consciência experiencial dos prazeres do fruto proibido nos lança em uma espiral superior de felicidade espiritual. Uma coisa são os seres inocentes que nunca saborearam a fruta e outra são as hierarquias que foram escravizadas pelo desejo no passado e o superaram. Tais seres divinos foram expulsos do Paraíso, cairam na escuridão do pecado, mas a venceram.

Retornar conscientemente ao estado paradisíaco e puro é deixar de ter consciência do mal após o mesmo ter invadido nossa consciência. Não tomamos consciência do mal (desejo) para aprisioná-lo em nossa consciência, mas para esquecê-lo, abandoná-lo com o discernimento de que o estamos fazendo. Quem retém o mal em sua consciência, permanece preso a ele por tempo indefinido. 

O mal não existe para os Budhas e os seres vitoriosos. Tais seres vivem sintonizados com frequências altíssimas, fora do alcance do mal sob todas as suas formas. O mal existe para as almas que com ele se sintonizam, por bom grado ou à força. Para a nossa infelicidade, o Ego nos aprisionou nas frequências malignas, vibramos em sintonia com o mal, queiramos ou não.

Quanto mais nos ocupamos com o mal, mais força lhe damos. O mal existe para que tomemos consciência de sua existência, nos ocupemos com ele e o abandonemos em seguida, de forma voluntária e intencional. O mal existe para ser abandonado conscientemente, para ser voluntariamente deixado para trás. Os esforços que fazemos para reprimir o mal no mundo o alimentam e o mantem vivo, torturando a humanidade.

As almas que se debatem contra o desejo, lutando pela libertação, ainda não compreenderam que o estão nutrindo por esta via. O desejo morre somente quando não é mais alimentado. De nada adianta a alma gritar, clamar, chorar, debater-se, sofrer e lutar se, ao mesmo tempo, continua ocupada com o mal, alimentando-o. A alma que pensa, fala e protesta contra aquilo que a oprime está se aprisionando ainda mais. 

As almas que se libertam do desejo são aquelas que renunciam completamente ao mundo, a todos os objetos sensíveis que evocam lembranças e pensamentos, acendendo dentro dela a chama das paixões. Libertar-se de um desejo não é possível quando não abrimos mão das formas sensíveis que o acordam e o nutrem. Enquanto o objeto evocador do desejo existir para mim, isto é, enquanto houver identificação minha com o objeto, enquanto eu o aprisionar em minha consciência, continuarei a desejá-lo, para deixar de desejá-lo, o mesmo não deve mais existir para mim.

Os objetos do desejo pertencem ao mundo das formas sensíveis: mulheres, dinheiro, bens materiais, beleza, prazeres e tudo aquilo que nos prenda ao mundo físico. Um objeto de desejo é algo sensorial, algo que se percebe, que se vê, que se toca. Uma coisa é nunca ter tido consciência de que um objeto desejável existe, outra é voluntariamente deixar de manter a consciência focada sobre a existência do objeto. Portanto, à medida que vamos morrendo, os objetos de desejo vão deixando de existir para nós, pelo simples fato de que vamos nos sintonizando com outras frequências. Em outras palavras: viramos as costas para o mal.

A auto-observação nos permite tomar consciência de facetas do Ego, não para aprisioná-las em nossa consciência, mas para eliminá-las e esquecê-las para sempre. Tomamos consciência dos detalhes para abandoná-los e não para mantê-los conosco. Quando um defeito morre, seu respectivo objeto de desejo deixa de existir para nós, sofre uma transformação. As palavras de um insultador, por exemplo, não existe mais, se transformam em algo distinto.

Desejamos por não compreender o mal que o desejo ocasiona. O desejo entorpece, confunde, engana.

O mal do qual temos que nos libertar possui dois aspectos: o interior e o exterior. Interiormente, o mal é o desejo, sob todas as suas formas. Exteriormente, o mal são os objetos sensíveis que evocam o desejo.

A alma que, uma e outra vez, cai em tentação, sofre tais derrotas porque, sem se dar conta, continua dando vida ao desejo dentro de si. Inconscientemente, aprisionamos os objetos do desejo dentro de nossa mente, não os largamos. Somente tomando consciência de tal erro é que alcançamos nos libertar. Daí a auto-observação. Dito de outra maneira: não permitimos que aquilo que provoca o desejo, o sofrimento e a dor deixem de existir para nós, mas não nos damos conta do erro. Cometemos o erro sem saber que o estamos cometendo. Acreditamos estar fazendo tudo corretamente e, no entanto, estamos fortificando as grades de nossa prisão, a mesma prisão contra a qual nos debatemos em vão tentando escapar.     

Efeitos indesejáveis dos pensamentos


O turbilhão das emoções, sentimentos e desejos humanos é um inferno que desconcerta filosófos, cientistas, médicos, psicólogos, psiquiatras, educadores e sacerdotes. Ninguém sabe, absolutamente, o que fazer com os impulsos. Todos dizem para sermos corretos e não fazermos coisas erradas, mas ninguém tem uma fórmula que realmente faça com que não desejemos aquilo que não é conveniente. Sem pretender ter a solução final, vamos tentar encontrar uma contribuição para a solucionar esse problema.

Analise a manifestação de qualquer desejo ou emoção intensos e você descobrirá os pensamentos como pano de fundo. Pensar em algo desejável equivale a dar o ponta-pé inicial para desencadear uma avalanche. Uma vez desencadeada a avalanche, não adianta correr atrás dos prejuízos, tentando reverter os resultados. 

Em questão de Morte do Ego, o trabalho sobre a mente (os pensamentos) é prioritário. Quem não prioriza o trabalho sobre a mente jamais avançará. A mente é o principal meio de alimentação dos defeitos e das emoções negativas. Não é possível livrar-se de uma emoção ou desejo inconvenientes se houver identificação com os pensamentos correspondentes. Todos os fracassos espirituais são devidos à mente. Obviamente, há outros centros através dos quais o Ego se manifesta e que não devem ser negligenciados, mas a mente possui prioridade. Quando me refiro à mente, estou me referindo a todas as funções do centro intelectual: pensamentos, raciocínios, análises, lembranças, imaginações.

Temos que aprender a lidar com a mente. Há duas formas de lidarmos com a mente, as quais devem ser conjugadas em nossa vida: a meditação e a Morte do Ego. Não podemos negligenciar nenhuma das duas.

Temos que meditar várias vezes por dia, o mais que pudermos, para que a mente fique domada. Ao mesmo tempo, fora das sessões de meditação, temos que eliminar os funcionamentos mentais viciosos (sanskaras) pela Morte em Marcha. Na meditação, escapamos dos sanskaras temporariamente e nos fixamos na Essência. Na Morte em Marcha, os dissolvemos. 
Um simples pensamento é suficiente para desencadear toda uma avalanche de desejos e emoções dos quais não seremos capazes de nos livrar. Melhor é não dar o primeiro passo, evitando entrar na "masmorra da identificação". 

Quem medita muito e pratica a Morte em Marcha, mantém sua mente ocupada e não dá espaço para pensamentos invasivos. Em momentos de desespero e intensa tentação, busquemos o vazio mental e o silêncio interior. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Morte do Ego: não distrair-se com os defeitos


Na auto-observação, a meta não é entreter-se contemplando os defeitos, nem tampouco procurá-los quando não estão se manifestando. O objetivo da prática é perceber as manifestações concretas que ocorrem espontaneamente, evocadas pelo ginásio da vida. O ginásio da vida são as diversas situações exteriores que nos alteram e afetam psicologicamente, provocando o afloramento dos defeitos que estão ocultos. 

Quem não observa a si mesmo, não percebe quando se identifica, não vê quando se altera e nem se dá conta das manifestações que vão ocorrendo. Esquecido de si mesmo, o pobre adormecido vegeta, sem ter consciência alguma dos processos psicológicos que lhe acometem, somente percebendo os frutos desastrosos da atuação do Ego, quando os desastres já estão consumados.

Portanto, observar a si mesmo é algo muito conveniente e indispensável para quem quer alcançar a Morte. Mas há que se entender corretamente como se faz tal observação.

Observar a si mesmo não é ficar recordando dos defeitos, pensando nos erros, procurando os desejos a toda hora. Não é ficar correndo atrás do Ego, ainda que com a boa intenção de compreendê-lo. Quem fica correndo atrás do Ego perde sua existência. 

Não corra atrás do Ego, deixe que ele venha até você e esqueça-o quando não estiver aparecendo. Não se preocupe, ele surgirá no seu devido tempo. Aprenda a olhar para si mesmo sem se recordar do mal. Preste atenção no presente, no que está fazendo aqui e agora, e se esqueça de tudo o mais. Em tal estado receptivo, você perceberá quando algum defeito invadir sua personalidade, estará consciente e poderá colocar a Morte em Marcha em ação. Um dos erros que nós cometemos no passado, quando estávamos na Nova Ordem, foi nos ocuparmos com o Ego em tempo integral, motivo pelo qual não morremos. Fomos vítimas da crença errônea de que deveríamos correr atrás do Ego para eliminá-lo e compreendê-lo.

Ocupar-se com os desejos é uma forma de fortalecê-los. Não se ocupe com as coisas feias e erradas que você fez ou faz, esqueça-as. Apénas observe-se no presente, o Ser proverá o resto.

Na didática gnóstica, a Morte ocorre por conscientização e enfraquecimento. A consciêntização não consiste em reter os defeitos na consciência, consiste somente em perceber sua manifestação concreta e em esquecê-la. O movimento é o de tocar e largar, não o de agarrar e prender. Apenas vemos, nos damos conta, e esquecemos em seguida. O enfraquecimento vem pela oração á Mãe Divina. Quando os detalhes são percebidos, mortes e esquecidos, o defeito que configuravam vai perdendo força, até desaparecer. O processo é o de tirar a força e não o de fazer força contra. Quanto mais tiramos a força de um defeito, menos nos ocupamos e nos preocupamos com ele.

Aprendamos a viver o esquecimento, o desprendimento. 

Enquanto alguém corre atrás de um defeito, não se dá conta das inumeráveis alterações psicológicas que invadem sutilmente sua personalidade. Se estivesse simplesmente observando-se aqui e agora, perceberia as nuances e detalhes dessas alterações psicológicas reais que lhe afetam a todo momento.

O que buscamos é penetrar na realidade do Ego por meio da observação direta do que acontece no presente e não por meio de elocubrações teóricas e imaginações absurdas. Queremos enxergar a realidade concreta dos egos e isso não é possível fora do terreno observacional do presente. Você não pode ver o Ego ontem, amanhã, lá ou acolá, somente agora e aqui. 

Observar a si mesmo significa observar a própria pessoa que somos, a pessoa concreta. Quem observa sua própria pessoa concreta, sem distrair-se pensando sobre seus defeitos e nem procurando-os onde não estã, verá claramente as alterações que vão ocorrendo nos centros e perceberá as nuvens que vão se formando quando a identificação com algo está em curso. Isso é o que necessitamos: ser perceptivos em relação a nós mesmos.

Quando uma pessoa está se observando corretamente, percebe detalhadamente todas as alterações psicológicas e comportamentais que lhe ocorrem. Quando está distraída com algum pensamento ou desejo, não percebe nada ou percebe muito vagamente.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Alguns cuidados psicológicos na prática do coitus reservatus ou maithuna

A melhor parte do ato sexual é aquela em que estamos dentro da mulher mas ainda distantes do orgasmo. Podemos nos manter em tal fase e prolongá-la quando refreamos a empolgação, o entusiasmo e a excitação, o que é possível por meio do controle da mente. É a mente que dispara a ejaculação, através da excitação progressiva que culmina em estados de entusiasmo e empolgação incontroláveis.  

Todo orgasmo, seja no ato da fornicação ou no ato vicioso da masturbação, provém da hiperexcitação sexual. Toda hiperexcitação sexual, por sua vez, provém das fantasias sexuais. Daí se depreende que a imaginação é o agente desencadeador do processo orgásmico, o qual é uma espécie de curto-circuito que nos descarrega energeticamente. Quem controla a mente, os pensamentos, é capaz de suprimir o orgasmo. 

O mecanismo de atuação da mente luxuriosa consiste principalmente em recordações de imagens eróticas idealizadas, de acordo com as fantasias sexuais que cada um possua. O segredo fundamental para manter a excitação sob controle, portanto, consiste em não fantasiar durante o ato, em não levar a mente ao sexo oposto.

O nível de excitação adequado é somente o necessário para a realização e prolongamento do ato, não mais que isso. O que passar deste nível estará sobrando.

É fundamental preservar calma e manter-se relaxado, profundamente concentrado na transmutação e distribuição da força através da coluna e do corpo. Por meio da concentração, buscamos provocar uma espécie de êxtase anti-orgásmico, um orgasmo ao contrário, totalmente espiritual, devocional e erótico ao mesmo tempo. Assim como o orgasmo resulta da concentração da mente em fantasias eróticas, o êxtase sexual sublime resulta da concentração da mente em imagens opostas, o que provoca um movimento interiorizante das energias. No sexo animal, a energia flui para fora. No sexo espiritual, a energia flui para dentro e para cima. Conseguimos fazer a energia refluir e redirecionar-se quando sentimos a força erótica como algo divino que não pode ser profanado e a associamos a imagens de devoção religiosa. Não é muito fácil descrever isso.

Ao invés de nos concentrarmos em cenas que ascendem o desejo e o descontrolam, nos concentramos em imagens da energia sendo transmutada, conduzida, elevada pela medula vertebral e distribuída através do corpo físico a partir do coração. Ao nos concentrarmos em tais cenas, opostas às cenas luxuriosas, é claro que diversas emoções distintas, superiores, vão acompanhando o processo. É importante sentir que se está dando à força sexual um sentido que agrada a Deus. Se tais emoções se tornarem intensas, não haverá problema, pois são opostas às emoções animalescas que conduzem à ejaculação.

Praticar o coitus reservatus corretamente é vibrar sexualmente em uma sintonia espiritual com os céus, elevando a frequência de nossas vibrações.  

No ser humano, o orgasmo é algo aprendido. Do mesmo modo, o anti-orgasmo é algo que  aprendemos, quando mudamos as correntes da força erótica. A sensualidade não é ruim em si mesma e pode sempre se desenvolver por dois caminhos. Se, por um lado, a fornicação nos sintoniza com o abismo, a transmutação nos sintoniza com os céus. 

A transmutação, e não os esforços para levar uma vida assexuada, é o antídoto para a luxúria,a promiscuidade e a depravação compulsivas. Mas a transmutação não ocorrerá se não houver uma mudança na mente.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Os níveis de excitação

A cultura atual é marcada pelo cultivo da excitação intensa e violenta. Todos vivem excitados em níveis extremos e se tornam desequilibrados. Em todos os lugares vemos o apelo para a excitação extrema. Só faltam cartazes com os dizeres: "excite-se ao máximo".

Há três tipos básicos de excitação: a sexual, a emocional e a intelectual. Há também a excitação do centro motor quando, por exemplo, ficamos com muitas tensões musculares e movimentos inúteis, e a excitação do centro instintivo, verificável em quem come demais ou força exageradamente tal centro de outras maneiras. Excitar um centro é estimulá-lo a trabalhar em demasia, o que ocasiona vários desequilíbrios na máquina.

Quem quer desenvolver-se espiritualmente, necessita aprender a manter seus níveis de excitação baixos, tão baixos quanto puder. Não será possível sublimar e transmutar a energia sexual se vivermos nos excitando com fantasias eróticas e pensamentos morbosos, tampouco será possível a serenidade se não abandonarmos o hábito de nos excitarmos emocionalmente ou mentalmente o dia inteiro com tolices. 

A Morte do Ego e a meditação são, entre outras coisas, formas de reduzir os níveis de excitação. Obviamente, um nível mínimo é necessário para a sobrevivência do corpo físico, mas tal nível não será determinado pelo Ego.

A excitação em qualquer centro pode ser controlada por meio da diminuição da excitação correspondente no centro respectivo. Se você não pensar em um perigo, a excitação emocional e instintiva correspondentes ao medo serão diminuidas. Se você não pensar em fantasias sexuais, a excitação sexual correspondente a elas será diminuída.

Morte do Ego: descansando o centro emocional

Nos dias atuais, não há quem não tenha um ou outro problema emocional. O coração está sobrecarregado com emoções negativas e inferiores, emoções brutais e destrutivas, que algumas vezes se manifestam de forma sutil e outras vezes de forma grosseira.

Muitas pessoas sedentárias quase não utilizam o centro motor mas, em contrapartida, desgastam o centro intelectual com pensamentos inúteis e o centro emocional com emoções inferiores constantes.

A negatividade, a pressa, a impaciência, o medo constante de tudo são apenas alguns poucos exemplos da imensa legião de emoções inferiores que nos estão assaltando a todo momento. A maioria de nós sente certo "peso" no coração, resultante dos milhares de problemas nos quais nos metemos. Quase não há quem sinta a leveza típica do coração tranquilo. O coração humano está oprimido, sente o peso da opressão dos milhares de problemas, que não são mais que formas mentais ou valorizações infernais de acontecimentos externos. Os problemas são significados atribuídos e não existem na ausência de quem os sente. Na ausência do sofredor, o problema não é um problema, mas somente um fato natural. É a mente humana que atribui aos fatos naturais o significado de problema.

O estresse está matando muitas pessoas e isso é a prova de que o coração humano está sendo oprimido.

Observando o centro emocional podemos perceber o efeito opressor dos acontecimentos: reveses amorosos, traumas, trapaças econômicas e sentimentais, conflitos no trânsito, brigas no lar, violência doméstica, culpas, desejos incontroláveis, perversões, medo da condenação eterna, medo de ir preso, nervosismo, irritações, impaciência, violência na televisão e muitíssimo mais.

Há necessidade urgente de darmos um descanso ao centro emocional. O coração descansa quando tudo está tranquilo e não existe temor algum e nem o menor desejo de nada. A forma mais rápida de chegarmos a tal estado e por meio da meditação. A forma mais duradoura de enraizarmos tal estado em nossa natureza é a Morte do Ego. 

Se prestarmos atenção cuidadosa e constante, perceberemos que o desequilíbrio emocional nos afeta de forma sutil durante todo o dia: uma simples olhada em um jornal pode nos alterar levemente. Temos que detectar os desequilíbrios emocionais em ação e eliminá-los de nossa vida mediante a Morte em Marcha. Obviamente, não devemos retornar às situações que os alimentam ou o trabalho ficará inutilizado. 

Quem quer o equilíbrio emocional, necessita retirar imediatamente de sua vida todos os atos e fatos que alimentem o desequilíbrio. Isso implica em isolar-se das situações estressantes após descobri-las, até onde se consiga. Reduzindo ao máximo as situações estressantes inúteis em que costumamos nos meter, iremos adquirir resistência para as situações estressantes inevitáveis da vida, àquelas que não podem ser abandonadas. Somente quem reduz o estresse ao mínimo terá reservas de hidrogênio para transmutação.

Uma noção clara do que são as emoções inferiores é muito importante. Quem não tem o discernimento do que é uma emoção inferior, não tem a capacidade de descobri-la em ação. O que são emoções inferiores? Todas as emoções dos egos, todas emoções ligadas ao material, desvinculadas do espiritual. Emoções inferiores são o oposto das emoções superiores. As emoções superiores são as emoções ligadas ao Ser. 

São exemplos de emoções superiores: amor a Deus, voluptuosidade espiritual, emoção intensa pela beleza da criação, emoção intensa por unir-se ao Íntimo. Não é muito fácil definir as emoções superiores porque estão muito deslocadas da experiência comum da humanidade. Em uma palavra, poderíamos definí-las como êxtase. Quando sentimos uma forte emoção espiritual ao contemplar a glória da natureza, as nuvens, as estrelas, o por do sol, uma floresta, uma cachoeira ou um pássaro cantando, estamos sentindo a emoção superior. Quando sentimos um intenso desejo de nos unirmos ao Ser, ao Ìntimo, de abandonarmos os desejos mundanos, quando sentimos intenso amor e gratidão a Deus, estamos sentindo emoções superiores. A emoção superior é desenvolvida durante a meditação. Quanto mais emoções superiores sentirmos, mais o chakra do coração estará girando corretamente. A emoção superior e a atividade do chakra anahata são interdepentes e simultâneos.

São exemplos de emoções inferiores: as emoções que se tem em brigas, o nervosismo, a irritação, a vingança, o apaixonamento, a pressa, a impaciência, a preocupação com os problemas, a tristeza, as emoções que acompanham a excitação sexual brutal, as emoções dos jogos de futebol, emoções em polêmicas acaloradas, emoções em discussões e em tudo o que esteja relacionado ao Ego. Em uma palavra: emoções egóicas. O medo é uma das principais e mais terríveis formas de emoção inferior. 

O amor é duplo, possui um aspecto superior e outro inferior. O amor apaixonado, aquele que causa sofrimento emocional, é uma emoção inferior. O amor consciente, aquele em que se sente intensa vontade desinteressada de ajudar o próximo, é uma emoção superior. 

As emoções inferiores provocam uma espécie de transe, de rebaixamento da consciência. As emoções superiores, ao contrário, provocam o êxtase, um estado de superconsciência. Êxtase e transe são completamente diferentes.

É inútil debater-se contra as emoções inferiores e negativas enquanto não se corrige as imaginações mecânicas equivocadas que as sustentam. A imaginação é o sustento da emoção. Se me sinto inseguro, é porque imagino que estou exposto a algum risco, se sinto raiva, é porque imagino que está me prejudicando ou frustrando. A imaginação mecânica é o carro-chefe da sustentação das emoções negativas e de todo o Ego.

O equilibrista que passeia sobre a corda bamba nas alturas necessita imaginar-se andando sobre uma linha desenhada no chão para sentir-se seguro ou,caso se imagine em risco, cairá. Se o equilibrista tentasse não sentir medo mas ao mesmo tempo se imaginasse sob risco,fracassaria. Se você, ou qualquer um de nós, tentar "ir contra" uma emoção negativa.mas continuar nutrindo as imaginações mecânicas que a sustentam, conseguirá apenas uma cisão interna, uma neurose, mas não se livrará da emoção infernal. O elefante louco da emoção somente se aquieta se o centro intelectual e os demais centros se aquietarem. As emoções obedecem ao fluxo imaginativo: se eu me imaginar em risco, sentirei medo; se imaginar que algo é urgente, sentirei pressa; se imaginar que sou inferior às pessoas, sentirei vergonha; se imaginar que uma mulher proporciona mil prazeres ocultos, sentirei desejo e assim por diante. Podemos perder uma existência inteira lutando em vão pela Morte do Ego simplesmente por nos imaginarmos incapazes de realizá-la. Temos que transformar os fluxos imaginativos mecânicos através da imaginação consciente. Ao invés de digladiar-se com a teimosa imaginação mecânica, substitua-a pela imaginação consciente.

Modificar a forma de imaginar as coisas é mudar a forma de pensar. Mudar a forma de pensar é um dos primeiros passos para a extinção das emoções negativas.

domingo, 8 de julho de 2012

Sexualidade superior: alguns aspectos emocionais

O amor e a vontade de se unir a Deus, ao Íntimo e à Mãe Divina é algo erótico, sexual em um sentido amplo. O sexo é sempre a união, a fusão. Toda união é um ato sexual, no sentido amplo da palavra. Os sufis compunham versos eróticos para Deus.

O sexo não é maligno em si mesmo, como sempre acreditaram os fanáticos religiosos. Muito pelo contrário, o sexo é sagrado em essência. Malignos são a luxúria e a fornicação, os quais são infelizes desvios da função sexual natural e original. Se o sexo fosse maligno, não existiria na natureza como meio de perpetuação da vida. A união criadora existe entre as plantas, entre os animais, entre as galáxias e entre as estrelas. Os rios penetram outros rios que, no final, penetram o oceano. O céu fecunda a terra através da chuva. Os raios penetram a atmosfera e o solo. Tudo isso é sexo como parte da natureza e da criação.

A sexualidade humana é indissociável do sentido do tato. Nela intervém também os demais sentidos. Há duas formas básicas de sentirmos uma pessoa: uma é a forma animal e a outra é uma forma avançada, espiritual. 

A sexualidade animal é aquela que objetiva o orgasmo. Tal modalidade de sexo teve sua função no passado, quando éramos somente animais. Hoje somos em parte animais e semi-humanos, necessitando de uma sexualidade espiritual para nos humanizarmos completamente.

O que diferencia a sexualidade espiritual da sexualidade animal é, principalmente, o estado interior, isto é, as emoções e pensamentos que acompanham o ato. Há uma forma de sexualidade completamente pura, elevada, na qual inexiste qualquer ansiedade orgásmica, pressa ou conflito. A supra-sexualidade é marcada pelo relaxamento, concentração e meditação, é o ato de meditar dentro do ato sexual, abrindo-se para o sublime, entregando-se para o Espírito. A supra-sexualidade é o sexo inocente (mas não ingênuo), puro e livre de qualquer mácula. Não tem nada a ver com passionalismos amorosos e românticos, tipicamente femininos, e nem tampouco com a brutalidade da luxúria, tipicamente masculina. É algo incompreensível para os ateus e fanáticos religiosos ocidentais.

Não há como suprimir o sexo de nossa natureza ou detê-lo. Quem quer a purificação da alma, tem que direcionar seu erotismo para o alto, sublimando-o. O luxurioso e o passional não são capazes de elevar a energia sexual, estão aprisionados na cadeia dos impulsos violentos que arrastam para baixo.

Os religiosos que tentam purificar a alma por meio da supressão ou contenção do sexo caem nos sofrimentos emocionais mais horríveis. Há pessoas sinceras que tentam se livrar da luxúria reprimindo suas funções sexuais e não compreendem porque caem cada vez mais profundamente na promiscuidade e na depravação. O motivo é uma idéia equivocada de que o sexo é mau por si mesmo, é a tentativa de ser uma criatura "sem sexo". O brahmacharya é algo muito bom quando tomado como caminho para a sexualidade superior, mas é algo prejudicial quando se limita à absurda tentativa de manter uma abstinência eterna.

Não é muito fácil descrever o estado interior correspondente à supra-sexualidade. Temo estar falhando em minha descrição.

Se queremos nos livrar do inferno da luxúria, temos que aprender a perceber o corpo da mulher da forma mais espiritual possível. Temos que alcançar sentir no ato sexual as mesmas emoções devocionais da oração intensa, transformando o ato sexual em um ato religioso. Trata-se de uma inversão completa da sexualidade, um giro de 180 graus em direção oposta à sexualidade comum. 

De nada adianta tentarmos inverter a sexualidade animal se não modificarmos os estados internos. A chave está justamente na mudança dos estados interiores. O sexo bruto, no entanto, é o ponto de partida. Não permanecemos no sexo bruto, apenas partimos dele rumo ao sexo espiritual. Quanto mais purificarmos os pensamentos e as emoções, mais elevada será a sexualidade. 

Os luxuriosos, depravados e promíscuos estão aprisionados na sexualidade animal. No entanto, por uma curiosa contradição da realidade, estão também com a possibilidade de transformação à mão, bastando, para tanto, que se purifiquem espiritualmente.

O sexo espiritual e puro que estou tentando descrever neste post não tem nada a ver com o passionalismo romântico, o qual é egoísta e possessivo. Não há nenhum tipo de orgasmo em tal modalidade de sexo. Há, ao contrário, um anti-orgasmo, que é o êxtase espiritual da alma.

O nível de excitação adequado é moderado, apenas o suficiente para que se consume o ato. Excitação sexual ou emocional intensas inevitavelmente resultam em descontrole (esse princípio vale para todas as situações da vida). A mente não é levada para a mulher e nem para quaisquer fantasias eróticas. Quando pensamos na mulher ou em fantasias sexuais, a excitação imediatamente se descontrola.  O ideal é aprendermos a nos excitar sem fantasia mental alguma, ou seja, somente com a percepção sensorial real do corpo feminino. Ver e tocar o corpo feminino é o suficiente. Se, por acaso, não formos capazes de nos excitarmos sem imaginações eróticas, tal fato estará indicando que nos viciamos no prazer mental.

A magia sexual requer ausência completa de empolgação e de entusiasmo. Os centros emocional e sexual são mantidos em níveis baixos de excitação (apenas o necessário para a realização e continuidade do ato). Toda fantasia erótica é excluída da mente.

Quando o centro emocional se torna excitado pela empolgação e pelo entusiasmo, a lucidez e a calma são perdidos, o corpo inteiro vibra em sintonia com a luxúria e o orgasmo, com a consequente perda de esperma, se torna um resultado inevitável. Manter-se calmo, tranquilo e profundamente relaxado, tanto física quanto psicologicamente, é imprescindível.

Quem tentar praticar o coitus reservatus sem renunciar à excitação e à empolgação inevitavelmente perderá o controle de si mesmo e terminará fornicando. Não é possível conciliar a prática com exaltações passionais de quaisquer tipos.

Para o desenvolvimento da sexualidade superior, é imprescindível observar as seguintes orientações:

  • não excitar-se através de mente (ou seja, de pensamentos e imaginações morbosas);
  • excitar-se apenas fisicamente e no momento da transmutação;
  • excitar-se somente o estritamente necessário para a conexão sexual (não exagerar na excitação, mantê-la dentro do controle);
  • evitar excitar-se através da visão (não ficar olhando para o corpo das mulheres).

Os pontos acima servem como referenciais do que seria uma prática e conduta ideais, mas nada do que tentei descrever acima será possível sem a Morte do Ego.  

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Concentração não é contração

Nós, principiantes, temos o mau costume de fazer força para concentrar o pensamento. Achamos que o pensamento será conduzido de forma objetiva somente se realizarmos alguma espécie de esforço. Confundimos concentração com contração muscular.

Esse erro não é algo individual, está enraizado na própria cultura ocidental. Quase todo ocidental relaciona os estados de alerta e concentração com tensões, apreensões e esforços. A crença está enraizada subconscientemente e o resultado é que as pessoas contraem músculos da cabeça, do pescoço, da face e dos olhos quando querem concentrar o pensamento. 

A aprendizagem da correta concentração do pensamento requer que se compreenda com exatidão qualitativa o ato volitivo que resulta em um fluxo mental unidirecional. 

Quem quer concentrar corretamente o pensamento, deve aprender a pensar com leveza no lakshya, sem esforços. Por "pensar com leveza" entenda-se pensar de forma despreocupada, sem esforço algum e sem o receio de perder aqueles pensamentos ou se desviar deles. Ao invés de associar a concentração à tensão e à contração, temos que associá-la ao relaxamento e à descontração. Concentrar a mente não é contrair e sim descontrair mais e mais. Não é possível aprofundar a concentração se não descontrairmos o pensamento.

A descontração deve ser cada vez mais profunda durante a concentração. Os pensamentos sobre o lakshya devem fluir espontaneamente, por si mesmos ou quase por si mesmos, enquanto os contemplamos conscientemente. Como um cavalo conduzido em uma estrada, os pensamentos fluem sozinhos, sem que tenhamos que os ficar provocando em tempo integral. Obviamente, o cavaleiro não tem que ordenar ao cavalo para que dê cada passo, o cavalo toma tal decisão por si mesmo. A função do cavaleiro é tão somente manter-se alerta e puxar as rédeas do cavalo caso ele se desvie do rumo. Temos que transformar o asno teimoso da mente em um cavalo obediente e dinâmico. O asno/cavalo da mente deve dar seus passos, trotes e galopes sem ser obstruído, mas também sem deixar de ser acompanhado conscientemente pelo cavaleiro.

A capacidade da mente fluir já existe de forma prévia em todo ser humano, pois é muito fácil pensar aleatoriamente, em bobagens inúteis, o dia inteiro. O problema é que o fluxo mental, nas pessoas destreinadas, é aleatório e não direcionado. A mente das pessoas é um asno teimoso que insiste em andar pelos seus próprios caminhos inúteis ou então empaca. Temos que traçar um caminho (o lakshya) e conduzir os passos do asno em tal direção. E nada disso requer tensão, conflito ou esforço, no sentido usual desta última palavra. O que se requer é empenho, dedicação e seriedade, o que é diferente.

Quando focalizamos a mente no lakshya, temos que sentir que o estamos fazendo de forma agradável, confortável e leve. Se a leveza e o conforto desaparecem, temos que recuperá-los imediatamente. A perda do conforto é um indicador de que está havendo tensão e a concentração está começando a ser feita de maneira errônea. Na verdade, a concentração mental verdadeira irá se aprofundar somente se a leveza e o conforto se aprofundarem também. Portanto, a concentração é para promover um bem-estar (ananda) e não um mal-estar. Quem fica tenso para se concentrar desenvolve dores de cabeça e frustrações.

Quando, nos devaneios de nossa imaginação mecânica, pensamos despreocupadamente em algo inútil, o fazemos de forma completamente espontânea e livre de tensões. Não há preocupação alguma e o pensamento flui. É com essa mesma leveza que necessitamos pensar no lakshya. 

Se queremos abaixar as ondas cerebrais até theta ou delta, como conseguem os ioguis e monjes do oriente, temos que aprofundar a descontração na concentração e chegar a compreender que ambos são quase uma só coisa. Um dos segredos está em não se preocupar com os possíveis desvios do lakshya. Caso os desvios ocorram, "algo" dentro de nós irá nos alertar. Não nos preocupemos, pois, com esse problema e esqueçamos tudo. A concentração não é possível sem desligamento.

domingo, 3 de junho de 2012

Concentração: descomplicando a prática


Atenção é uma faculdade da essência. Pensamento é uma função da mente. Atenção e pensamento são distintos.

Quem quer separar-se da mente, deve separar-se dos pensamentos. Quem quer separar-se dos pensamentos, deve primeiro ligar-se a um único pensamento, para depois descartá-lo. Ligar-se a um único pensamento é aprender a pensar em uma só coisa e esquecer tudo o mais. 

O pensamento prolongado em algo é a concentração mental ou concentração do pensamento. A atenção prolongada sobre algo é a concentração da atenção. 

A concentração da atenção é simplesmente a contemplação ou observação. Se você observa o comportamento de  um pássaro, está com a atenção focada ou concentrada. 

Quem não sabe concentrar a atenção não pode concentrar o pensamento, pois no pensamento concentrado a atenção contínua está presente. É a atenção que denuncia os desvios do tema. Se o praticante não está atento ao que está pensando, não se dá conta dos desvios e viaja nos sonhos e fantasias subjetivos da mente.

Entretanto, estar atento não é estar preocupado, é simplesmente estar receptivo e consciente.

Pode suceder que, ao prestar atenção, o praticante queira perceber algo mais do que está de fato percebendo e faça imensos esforços (1) para "ver o que ainda não consegue alcançar". O esforço articial para enxergar além das capacidades se transforma na meta e toma o lugar do lakshya, travando o desenvolvimento. Portanto, temos que trabalhar em nossa própria esfera atual de alcance, sem tentar dar pulos forçados.

Ao prestarmos atenção em uma rocha, por exemplo, é sensato enxergar e descobrir ao máximo os seus detalhes, mas não é recomendável tentarmos nos forçar a ver além do que estamos conseguindo no momento. Aquilo que somos capazes de perceber pode ser completamente invisível para quem nunca prestou muita atenção à rocha. Não conseguiremos penetrar nos aspectos supra-sensoriais e invisíveis da rocha por meio do conflito. 

O mesmo princípio da espontaneidade da observação vale para a concentração do pensamento.

Fazer esforços para concentrar o pensamento ocasiona dores de cabeça. Na correta concentração, o pensamento é mantido  no tema de forma natural e espontânea, sem contrações e nem tensões mentais ou físicas.

É comum que uma pessoa bem intencionada, mas ainda não bem preparada, faça esforços adicionais para "concentrar-se mais". Tal erro se deve ao desconhecimento do que é a verdadeira concentração. A pessoa ainda não compreende bem o que é "concentrar-se" e julga que uma concentração intensa resulta de um esforço intenso. Ao começar a concentrar-se, o pobre estudante faz esforços desesperados para aumentar sua concentração e cria conflitos com a mente, ao invés de abandoná-la aos poucos. 

Sempre que alguém estiver pensando conscientemente em algo, estará com o pensamento ali concentrado, ainda que seja por alguns instantes. Se conseguir pensar em algo por 5 segundos, isso significa que ele esteve concentrado corretamente por 5 segundos e que deve aumentar o tempo um pouco mais. Ao invés de fazer esforços para "intensificar a atenção e o pensamento", deve somente empenhar-se em prolongar aquele estado, pensando mais sobre o lakshya. A concentração intensa e profunda é a concentração prolongada, que dura bastante tempo, e não a concentração feita com imensos esforços e tensões mentais. Quem quer intensificar e aprofundar a concentração, deve simplesmente prolongá-la. O aprofundamento e a intensidade resultarão então naturalmente.

A intensa concentração dos mestres é simplesmente uma entrega consciente, jamais um esforço desesperado.

Ao pensar no lakshya, não procure "algo mais" a ser feito e nem esforços adicionais, pois o necessário já está sendo feito: você está pensando no lakshya. Por quanto tempo conseguirá pensar? 

Procure simplesmente pensar no tema (de forma prolongada) e não ir além desse empenho. Não queira ter visões, revelações e outras coisas esplendorosas. Esqueça-as. Elas virão um dia, no seu devido momento. Deixe que venham. Não tente se forçar a isso. Tente apenas prolongar o pensamento pelo máximo de tempo que puder, sem desviá-lo. Ao concentrar-se em uma planta, por exemplo, não se preocupe em ver sua fada, contente-se com o que é capaz de alcançar no momento e vá aprofundando e aperfeiçoando sua prática dia após dia. Um dia a fada aparecerá. 

Na prática espiritual, as tentativas de conseguir algo mais do que estamos conseguindo podem assinalar uma espécie de artificialismo que nos impede de receber e apreciar corretamente a realidade que alcançamos até o momento presente. Uma espécie de cobiça espiritual (um defeito) nos motiva a ansiar pelo futuro ao invés de trabalharmos e contemplarmos o presente. Trata-se do extremo oposto da preguiça: o desejo de avançar rápido demais, por meio de passos maiores que nossas pernas. Se, por um lado, o preguiçoso fica estancado pela inércia, o ansioso ficará estancado por atrapalhar-se em suas próprias complicações. Eis a contradição: quem quer andar rápido demais termina andando tão devagar quanto aquele que não se empenha por preguiça. Aquele que escapar aos dois extremos, praticando bastante e sem desespero, progredirá na maior velocidade que lhe for possível.

Portanto, sejamos simples e ativos, mas esqueçamos o tempo e não nos preocupemos pelo que não conseguimos obter agora. Concentrar a mente é simplesmente pensar em algo por tempo prolongado e mais nada. Concentrar a atenção é observar algo por bastante tempo. Não inventemos artificialismos e nem complicações. Se praticarmos bastante e de forma correta, os horizontes irão se expandir e aprofundar de forma espantosa e rápida.

Os momentos em que estamos trabalhando, caminhando, conversando ou nos divertindo não são momentos para procurarmos o pensamento único. Quem procurar o pensamento único em tais situações irá se acidentar, poderá tropeçar, cair, ser atropelado, ferir-se, bater a cabeça ou cortar-se. Os momentos adequados para buscarmos o pensamento único são aqueles em que estamos quietos, descansando bem posicionados, deitados ou sentados, e não quando estamos nas atividades diárias. Durante a atividade diária, o mais indicado é a concentração da atenção no que estamos fazendo. O concentração no que estamos fazendo é a observação de nós mesmos em atividade, é o agir conscientemente. A auto-observação é uma forma de concentração da atenção.

(1) Uso aqui a palavra "esforço" no sentido de contração e tensão. Não estou me referindo ao simples empenho em se fazer algo várias vezes ao dia ou com certa regra.

PS. Esse mesmo princípio, de ater-se ao que se está percebendo de fato e não ao que poderia ser percebido, vale para as práticas de observação dos detalhes do Ego e de observação da realidade circundante para se discernir em qual universo se está (se no mundo físico ou no mundo astral).
  

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Concentração e compreensão


Quando nos concentramos no lakshya, não o fazemos de forma aleatória e subjetiva, mas buscando a compreensão. 

Ao pensarmos de forma atenta e profunda em algo, sem nos desviarmos, compreenderemos vários aspectos profundos daquilo, aspectos dos quais antes não nos dávamos conta, apesar de até serem óbvios. Uma compreensão crescente e mutável do objeto irá se configurando progressivamente. Seja qual for o seu lakshya, você se concentrará para aprender algo a respeito daquilo e não para cumprir uma mera formalidade. 

Múltiplos aspectos do alvo de nossa concentração penetrarão em nosso campo de consciência. Isso ocorre porque temos uma parte de nós mesmos em contato com a intimidade do objeto, sem que o saibamos. Ainda que não estejamos cientes, nosso Atman tem acesso às profundidades subatômicas, ao passado e ao futuro daquilo em que nos concentramos.

O pensamento não se dissocia da imaginação. Se não possuíssemos imaginação, não seríamos capazes de pensar. O pensamento é uma forma assumida pela imaginação, assim como a memória. "Pensar profundamente em algo" é imaginar seu funcionamento, seus processos intrínsecos, seus detalhes anatômicos, funcionais, evolutivos e involutivos, até onde for possível, até onde alcancemos e sejamos capazes. A imaginação é o meio através do qual compreenderemos o que nos interessa. 

O ideal é que a imaginação consciente nos arrebate, nos arraste completamente, para viajarmos em estado de lucidez. Nesse ínterim, o corpo físico deverá ser esquecido e adormecerá. As coisas do mundo também deverão ser esquecidas. Concentrar-se é dissociar-se de tudo o que não seja o lakshya.  Concentração é esquecimento e desligamento, é entrega (consciente).