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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As muitas formas assumidas pelos pensamentos

Como uma de nossas metas é desenvolver o pensamento único, que é a capacidade de pensar sem desvios, convém explicar melhor o que é e como se processa o pensamento no ser humano.

O pensamento é a mente em ação e uma das formas assumidas pela imaginação. A mente é uma substância existente na natureza, ainda desconhecida pelos cientistas desta época, mas já postulada, de forma meio confusa, por alguns físicos: as partículas mentais seriam os "psíons". A substância mental, com a qual fabricamos os pensamentos, pode ser chamada de substância manásica. 

A substância manásica em si mesma é neutra, não é boa e nem má, mas pode assumir uma forma destrutiva ou construtiva. A substância manásica dota o ser humano do poder imaginativo. Quando a imaginação se dá na ausência do contato sensorial direto com o objeto imaginado, dizemos que é abstrata. Somente os animais intelectuais são dotados de imaginação abstrata, os demais animais possuem somente imaginação concreta, em diversos níveis, sendo incapazes de associar imagens mentais na ausência dos objetos. 

O poder imaginativo pode ser consciente ou inconsciente. A maior parte dos seres humanos ainda não desenvolveu o poder da imaginação consciente, suas mentes são rebeldes e não obedecem. A mente rebelde trilha sempre seus próprios caminhos e conduz a desastres. A mente rebelde é a chamada "imaginação mecânica". A imaginação mecânica não é mais que o pensamento comum, subjetivo, desorganizado.

Nesse ínterim, temos que entender que o pensamento pode ser disperso ou concentrado. O pensamento disperso é o pensamento sem meta, aquele cujo fluxo não se detém em nada, mas mariposeia sobre infinitos assunto. O pensamento disperso é superficial, "pincela" um pouco de cada assunto e muda constantemente de objeto. Pela lei das associações, a mente pensa um pouco em algo e logo muda de objeto, passando a pensar em outra coisa distinta, porém relacionada. Essa é a classe de pensamentos das pessoas comuns, que não disciplinam a mente. São pessoas que pensam muito mas de forma superficial, pois sua função imaginativa não tem foco. 

Muito diferente é o pensamento concentrado. O pensamento concentrado é quase sinônimo, senão sinônimo, de imaginação consciente. Ao invés de pular constantemente de tema em tema, o pensamento concentrado passeia longamente dentro de um mesmo tema, aprofundando-o pelas associações dos diversos subtemas que o compõem. No pensamento concentrado, o fluxo das idéias flui livremente para dentro do objeto proposto. O objeto de interesse é, por assim dizer, penetrado pelo pensamento. Não há desvio no fluxo de idéias, há direcionamento e penetração. O pensamento concentrado é, portanto, profundo. 

Quando estamos pronunciando um mantram mentalmente, estamos com o pensamento concentrado, pois o som do mantram, entoado interiormente, é o nosso pensamento naquele instante. Quando imaginamos uma paisagem, em todos os seus detalhes, também estamos com o pensamento concentrado, pois a paisagem imaginada é o conteúdo do nosso pensamento. Estaremos, ainda, com o pensamento concentrado quando analisarmos detidamente um problema até que a solução nos caia ou quando oramos. Em todos esses casos, há o pensamento único e a imaginação consciente. Quem aprendeu a penetrar um objeto com o pensamento e passear através dele longamente, aprendeu a concentrar o pensamento.

Há certa forma de endovisão e endoaudição no pensamento concentrado, pois a pessoa "vê" e/ou "escuta" o objeto psicologicamente, isto é, com os sentidos espirituais. A pessoa "vê" e "escuta" com os olhos e ouvidos da alma.

Convém saber que a função imaginativa do pensamento engloba a memória, as lembranças, as reflexões, as análises e o estudo. Portanto, quem direciona corretamente o pensamento exerce influência sobre esses funcionamentos. 

A Grande Verdade não está no pensamento concentrado, está além dele. O pensamento concentrado é a ponte ou meio para a verdade, mas tem que ser descartado quando queremos chegar até ela. Por mais sublime que seja o pensamento concentrado, ainda será algo mental. Uma oração pode ser muito sincera mas, ainda assim, possui algo mental. O aspecto mental da oração também precisa ser transcendido.

O pensamento não pode ser confundido com a atenção, pois é algo diferente. O pensamento é um funcionamento da mente e a atenção uma faculdade da essência ou alma. Concentrar a atenção é perceber um objeto de forma ininterrupta, concentrar o pensamento é ter muitas idéias sobre um objeto de forma ininterrupta. Ambos são interdependentes. Durante a concentração, o objeto imaginado é o objeto da observação. 

Durante a concentração, é importante procurar perceber, enxergar ou ouvir o objeto imaginado com a maior nitidez possível.


Quando estamos pensando analiticamente, estamos concentrados no nível intelectual. Transcendemos este nível quando pensamos de forma completamente imaginativa, isto é, fora da lógica formal conhecida. Se as imagens sobre o lakshya estiverem fluindo livremente e sem desvios, ainda que não encadeadas logicamente de maneira a formar uma análise, estaremos com o pensamento concentrado mesmo assim.

Visualizações com os olhos fechados, desde que se dêem dentro do tema proposto e não se desviem, constituem o pensamento único que nos interessa, mesmo que não pareçam encadeadas logicamente. Concentrar o pensamento é desenvolver e educar a imaginação. O fato das imagens não apresentarem um aspecto analítico à primeira vista não significa que não sejam parte do pensamento. Essas imagens, com o aprofundamento da prática, se transformam em um sonho lúcido. O sonho lúcido, com o aprofundamento da prática, se transforma em desdobramento e viagem astral. Tudo é acompanhado por relaxamento crescente até o nível do sono REM, das ondas delta.


*****

Os pensamentos costumam conter valores, os quais costumam corresponder a formas de entendimento. Aquilo que penso sobre algo é uma determinada maneira de entendê-lo e também uma espécie de crença. A forma de entender algo provocará desejo, medo ou repulsa. Por exemplo: se alguém apontar uma arma para outra pessoa, esta achará graça, caso acredite que a mesma é de brinquedo, ou sentirá medo, caso acredite que a mesma é de verdade. Suas emoções são, portanto, resultado de uma forma de entender as coisas. O mesmo princípio vale para o desejo e para tudo mais. Há, no entanto, pensamentos solidamente cristalizados, cuja dissipação, tentada somente com o recurso da compreensão, é impossível. Tais pensamentos densos somente se dissipam quando são explodidos com o poder da Mãe Divina. São os pensamentos obsessivos e compulsivos.

Via de regra, escapamos de um pensamento, ao menos temporariamente, quando compreendemos seu caráter inútil e falso (inútil porque não serve para nada e falso porque não corresponde à realidade a respeito da coisa pensada). O questionamento sincero nos leva a tal compreensão. Na concentração, vamos escapando de todos os pensamentos até o momento em que apenas reste o pensamento único, do qual também nos libertamos posteriormente.

sábado, 29 de setembro de 2012

Concentração: dissociando a atenção dos pensamentos

A consciência vincula-se indissociavelmente à atenção. Onde estiver nossa atenção, ali está nossa consciência. Atenção e consciência são quase sinônimos.

Quando realizamos uma tarefa perigosa, dissociamos a atenção de todos os pensamentos e de todos os acontecimentos que não estejam implicados na realização da tarefa. Nossa consciência está focada, direcionada. Se a concentração é profunda, chegamos a perder a noção de tempo.

Quando nos distraímos prestando atenção nos pensamentos, nossa atenção se dispersa, a consciência é absorvida pelos pensamentos e nos tornamos desatentos à realidade.

Os milhares de pensamentos têm o poder de roubar a atenção e sequestrar a consciência, apagando-a e deixando-nos anestesiados. É então que atuamos mecanicamente, como robôs.

Absortos nos pensamentos, passamos a maior parte do tempo agindo sem nos darmos conta do que estamos fazendo. 

Na correta prática de concentração, dissociamos a atenção dos sentidos e de todos os pensamentos que não sejam intrínsecos ao tema. Concentrar-se é abandonar tudo em favor de uma meta, um alvo. 

A mente é a substância componente dos pensamentos (manas). Quem quer escapar da mente, tem que escapar dos pensamentos. Para escaparmos dos pensamentos, é necessário prestar atenção em um alvo (lakshya). A observação contínua de algo nos dissocia de tudo o que não faça parte daquilo. 

A atenção dispersa é a atenção repartida entre muitos alvos. Saltar de alvo em alvo é o oposto de concentrar-se.

O que importa é aprender a observar, seja o lakshya interno ou externo, e dissociar-se de tudo o mais.

Assim como nos dissociamos dos pensamentos quando observamos um alvo físico, nos dissociamos dos sentidos e dos pensamentos quando observamos um alvo mental (o pensamento único).

A chave para dissociar-se não é entrar em conflito com os pensamentos indesejáveis. A chave está na atenção consciente, que é uma virtude da nossa Essência ou Alma. É a Essência que presta atenção e possui consciência.

Compreendamos que:

  • O corpo físico não é a essência;
  • Os sentimentos não são a essência;
  • Os pensamentos não são a essência.
Nossa essência ou alma, portanto, está além do corpo, dos afetos e da mente.


Quando os pensamentos tentarem atrair sua atenção, não lute com eles, simplesmente confira mais importância ao tema e se aprofunde.




Morte do Ego: descobrindo as causas horizontais


Em nossa vida, fatos indesejáveis e destrutivos repetem-se incessantemente, atormentando-nos. Os fatos indesejáveis resultam de múltiplas causas, combinadas e sequenciadas em diversos níveis horizontais: algo que fazemos agora desdobra-se em um efeito daqui há pouco, que se desdobra novamente e assim por diante. Tudo o que fazemos tem múltiplas e prolongadas consequências, tanto internamente como externamente.

Um ato impulsivo qualquer se origina, horizontalmente, de outros atos cometidos, os quais se originam de outros que, por sua vez, se originaram de outros e assim sucessivamente. Os atos formam cadeias de eventos sucessivos. 

Vejamos um exemplo. Alguém que tenha brigado em um bar, primeiramente se desentendeu com o rival, mas antes de se desentender já havia cometido inúmeros atos que o levaram àquela situação. A pessoa originou sua própria tragédia de inúmeras e insuspeitadas maneiras. Se jamais houvesse frequentado bares, não teria conhecido o inimigo. Se não houvesse conhecido o inimigo, não teria entrado em conflito. Portanto, sua desgraça começou a se gestar muito antes do acontecimento trágico em si. Se detalharmos ainda mais as causas, descobriremos um sem número de frases, posturas, olhares, pensamentos, movimentos, deslocamentos, caminhadas etc. que originaram e nutriram aquela situação até o dia fatídico. A briga foi o resultado indesejável da combinação de múltiplos fatos anteriores. 

Quando removemos de nossa vida as situações que conduzem a um resultado indesejável, o resultado deixa de acontecer.

Em grande medida, nós mesmos somos os autores de nossas desgraças, mas não nos damos conta.

Cometer um delito é como caminhar por uma estrada rumo a um grande perigo, quanto mais caminhamos em direção àquele objetivo, mais difícil é retornar, quanto mais longe, mais fácil. Melhor é não dar os primeiros passos naquela direção.

Não é tão fácil deter a fornicação, mas não é tão difícil manter-se distante da mulherada. A fornicação, uma vez provocada, dificilmente retrocederá. Aprendemos o Morrer quando aprendemos a evitar as situações que desencadeiam os atos que queremos eliminar de nós mesmos. O que importa é antecipar-se à compulsão, agir antes. 

Na Morte, ao invés de nos ocuparmos com tolas tentativas de fazer retroceder resultados desastrosos, trabalhamos sobre as causas desses resultados. Investigamos as sequências causais até onde nosso entendimento alcance e as eliminamos. Então o monstro invencível tomba.

As causas dos atos compulsivos devem ser buscadas na mente (pensamentos, lembranças, raciocínios, imaginações e fantasias) e nos movimentos (tudo o que fazemos e dizemos). Um ato, fala ou pensamento inofensivos podem ter desdobramentos desastrosos. Esses são os "detalhes" ou fonte de alimentação dos defeitos.

O desejo se torna despótico quando tentamos combatê-lo diretamente, ao invés de irmos aos fatores que o nutrem, às suas causas.

Quando queremos nos livrar de um vício, temos que nos afastar de tudo o que esteja a ele relacionado. Tudo o que lembre ou conduza ao vício tem que ser removido. Mas, para remover os fatores do vício, temos primeiramente que descobri-los.

Por trás de cada pequeno e inofensivo ato, fala ou pensamento que conduz a uma posterior situação de satisfação do desejo há um pequeno ego. Temos, portanto, milhares de pequenos elementos psíquicos que convergem rumo à satisfação de um dado desejo poderoso e violento. Um desejo violento não atua sozinho, mas por intermédio ou facilitação de inúmeros desejos menores, sutis e quase imperceptíveis.

Um homem que fique andando com mulheres, marcando encontros, correspondendo-se, que tenha uma agenda cheia de números de telefones de parceiras, que assista a filmes pornográficos, que frequente danceterias, boates, prostíbulos, que mantenha conversas luxuriosas com amigos, que aprecie se distrair com pensamentos morbosos etc. jamais conseguirá livrar-se do vício da fornicação por uma simples razão: o estará nutrindo com tais atos. Os referidos atos são as causas (horizontais) do seu vício. E cada ato possuirá uma causa vertical ou interior: um ego respectivo. O mesmo princípio vale para quaisquer outros defeitos que tenhamos: a ira, o medo, a preguiça, a gula e muitos outros.

Portanto, aprendamos a evitar aquilo que nos levará a situações das quais não poderemos retornar. Aí está uma das chaves para a Morte.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Perguntas importantes


1. O que é uma concentração intensa?

Quando ouvimos a expressão "concentração profunda" ou "concentração intensa", imaginamos imediatamente alguém franzindo o entrecenho enquanto faz um terrível esforço para concentrar-se. A palavra "intensa" é equivocadamente associada à palavra "tensa" e a palavra "concentração" é erroneamente associada à palavra "contração". Ao ser traduzida para o português e línguas próximas, a palavra original "dharana" perde seu sentido verdadeiro e suas traduções originam confusões. Na verdade, "dharana" deveria ser traduzida por uma expressão composta, algo assim como "atenção contemplativa ininterrupta", e não por uma palavra simples. Por pertencerem a culturas muito materialistas, as línguas ocidentais não possuem palavras simples que equivalham exatamente a "dharana".

Particularmente, defino a concentração intensa como sendo um fluxo de pensamentos que não sofre interrupção por um tempo prolongado e é contemplado conscientemente, acompanhado com atenção tranquila. A intensidade é definida pela ininterrupção do fluxo.

Sabemos que atingimos o pensamento único e a concentração intensa quando formos capazes de pensar longamente, de forma livre e profunda sobre o objeto, sem nos desviarmos. O pensamento prolongado, livre, ininterrupto, contínuo dentro do tema proposto é o que buscamos. Almejamos a fluidez do pensamento. 

2. Por que um perigo ameaçador não existe?

Porque o perigo ameaçador que tememos existe somente dentro de nossa cabeça e não fora de nós. Se deixássemos de existir, o perigo deixaria de existir para nós, "escaparíamos" do perigo. Um mesmo fato que ameaça uma pessoa pode ser visto como inofensivo ou até um fator de proteção para outra. Portanto, o caráter ameaçador de algo é uma qualidade que lhe atribuímos mentalmente. Mesmo os perigos universalmente ameaçadores não meterão medo em ninguém se não houver ninguém para ser ameaçado. Não estou dizendo que o fato da ameaça, em si mesmo, não existe, mas sim que seu caráter terrível é subjetivo, atribuído pela mente. Uma barata, por exemplo, pode amendrotar uma pessoa e não despertar medo algum em outra.

3. Por que uma bela e desejável mulher não existe?

Porque a linda imagem de uma fêmea humana desesperadamente desejável é uma criação da mente do macho. Prova disso é que esta mesma mulher não desperta desejo algum em outra mulher heterossexual ou em um animal cuja espécie seja muito distante da espécie humana. Em si mesmas, as criaturas não são belas ou feias, apenas existem. Você, muito provavelmente, não sente atração alguma pela fêmea de um lagarto, apesar dela ser sexualmente atrativa para ele, concorda?

Não estou afirmando que as mulheres em si não existam, mas sim que a beleza/fealdade são atributos mentais que estão na mente de quem as contempla. Uma mulher não é bonita "em si mesma", mas sim aos nossos olhos.

Toda excitação, seja sexual, nervosa ou de outra índole, é algo mental. Se retirássemos a mente de um ser humano, não haveria excitação de espécie alguma. Nos excitamos porque imaginamos mil coisas relacionadas ao objeto excitante. Até mesmo o orgasmo é algo mental, que não pode ocorrer sem a excitação correspondente.

4. Por que os problemas não existem?

Porque estão dentro da mente e não fora dela. Não estou afirmando, com isso, que o mundo exterior seja mais real que o mente e sim que ambos, mente e matéria, não correspondem à realidade última das coisas. Os problemas não existem objetivamente, mas sim subjetivamente. O que existe objetivamente são alguns fatos que em essência são neutros mas aos quais atribuímos um caráter problemático. Um problema é um problema porque assim o entendemos e assim o entendemos porque nele pensamos deste modo. As coisas, em si mesmas, não são boas e nem más, apenas existem, se processam na natureza rumo a determinados fins, às vezes inevitáveis, mas, ainda assim, naturais.

5. Se todas as coisas que vemos não existem, por que acreditamos e sentimos tão fortemente que existam tal como as percebemos?

Porque cristalizamos solidamente formas tendenciosas e parciais de entendê-las e, por extensão, de percebê-las. Aprendemos a pensar obstinadamente nas coisas de determinadas maneiras e tais formas se consolidaram em nossa percepção. Por tais razões, mesmo que queiramos entendê-las de outras maneiras não somos capazes. Para recebermos o mundo de outra maneira, teríamos primeiramente que destruir as formas mentais condensadas e cristalizadas que criamos ao longo de várias existências. A Morte do Ego tem justamente esse resultado. 

6. Por que a mente costuma não fluir quando tentamos concentrá-la em algo superior?

Por que a acostumamos excessivamente a pensar somente dentro de determinados eixos ou trilhos. Se você focar sua mente em algo imprestável (não faça isso!) ela rapidamente se concentrará naquilo e te levará aos nefastos resultados. Mas se você focá-la em algo superior, ela imediatamente tentará se desviar. Temos que acostumar a mente a pensar nas coisas superiores e desacostumá-la de pensar no que é mundano. 

Passamos a vida toda pensando no que não presta, por isso é tão fácil concentrar o pensamento negativo e prejudicial. Os pensamentos prejudiciais fluem com facilidade e levam muita gente à desgraça e ao crime. Não flerte com os pensamentos maus, mas também não conflite com eles, simplesmente abandone-os, substituindo-os por pensamentos elevados.

Quando um pensamento maligno e vergonhoso te assaltar, não se assuste e nem se preocupe, mantenha-se neutro e simplesmente aplique a Morte em Marcha ao ego que o emitiu.

7. Se todas as coisas não existem, então não há perigo algum em jogar-se de um prédio?

Sim, há. Eu não faria isso...As coisas não existem tal como as percebemos (tal como nos parecem ou se nos afiguram), mas isto não significa que não possuam realidade em si mesmas. Quando digo que as coisas não existem, estou me referindo à aparência que assumem ante nossos olhos (não existem da maneira como as imaginamos ou entendemos) e não ao aspecto absoluto que as permeia. Elas existem como coisas em si, inacessíveis aos nossos sentidos. A rocha que você vê na sua frente não existe, o que existe é outra coisa distinta do que você vê, mais completa. A rocha que você vê é uma imagem parcial (e portanto falsa, pois não corresponde à realidade). Por outro lado, a rocha completa (absoluta) é invisível, mas pode perfeitamente ferir o crânio de alguém, por isso...não a jogue em ninguém!

8. Quem são os inimigos da Gnosis?

Os inimigos do conhecimento espiritual gnóstico pertencem a várias correntes de pensamento. Entre os principais difamadores existem espiritualistas, ateus, materialistas e religiosos (embora nem sempre os representantes desses grupos sejam anti-gnósticos). De um modo geral, os detratores se incomodam com a idéia de uma ciência espiritual que faça alegações passíveis de comprovação. Neste sentido, embora existam entre eles grandes divergências, os anti-gnósticos estão em acordo em um ponto: negam a possibilidade de se conhecer os mistérios espirituais de forma objetiva e comprovável, sem o recurso das crenças e teorias. Esses grupos sentem-se ameaçados pela possibilidade das massas chegarem conhecer o Além de forma direta.

sábado, 22 de setembro de 2012

Libertando-se da ilusão dos opostos

Compreendendo o caráter ilusório do mundo

Milarepa e outros santos mestres relataram que compreendiam o caráter ilusório de tudo, incluindo dos objetos do desejo e de temor. Ensinaram que o desinteresse pela matéria advém da compreensão de seu caráter ilusório. Mas o que significa a expressão "compreender o caráter ilusório do mundo"?

Compreender o caráter ilusório dos elementos que nos rodeiam, do mundo em que vivemos e daquilo que desejamos ou tememos é compreender que os mesmos não passam de formas mentais criadas pela mente, desprovidas de realidade. São artifícios que não existem em si mesmos. A essência de um pássaro não é o que vemos, assim como não o é a essência de um belo carro ou de uma linda mulher. As características que percebemos nas coisas são atribuídas por nossa mente. Uma mulher desejável não é desejável em si mesma, se o fosse, seria desejável para todos os seres, todos criaturas a veriam como desejável. Um objeto qualquer (ex. um tênis) é desejável apenas para algumas pessoas, sendo desinteressante ou detestável para outras. Se as coisas não são desejáveis em si mesmas, então o são para alguém, ou seja, em relação a alguém. E, se o são somente em relação a alguém, isso significa que o caráter desejável da coisa está dentro e não fora, além de ser subjetivo. Em suma: aquilo que vemos e consideramos desejável não existe, é somente uma forma mental, uma maneira de entender e de perceber as coisas.

O boneco de vidro que está enfeitando a sala não é, em si mesmo, exatamente como o vemos. Vemos uma imagem forjada pela mente, através dos sentidos. O mesmo objeto pode ser percebido de formas distintas por outras pessoas ou por animais de outras espécies. Se o olharmos com o microscópio, através de câmeras de raios X, infravermelho ou ultravioleta, o veremos de forma distinta, pois entre os sentidos e a consciência está a mente, dando às percepções o seu tom e sua nota tendenciosa. Como a coisa em si mesma não é percebida, pois é infinita e sua infinitude escapa à mente, o que percemos é uma imagem ilusória. Não vemos os objetos do mundo de forma integral, mas de uma forma parcial, muito limitada. Esta é a ilusão da qual escapamos durante a meditação.

Quando desejamos ou tememos de forma intensa alguma coisa, isso deve à uma sólida impressão de realidade conferida ao objeto pela mente. Acreditamos piamente, sem sombra de dúvida, na realidade daquilo. Não é o objeto em si que desejamos ou tememos, mas sim uma forma criada por nossa mente.

Compreender o caráter ilusório do mundo é compreender que o mesmo não existe, tal como o vemos. Aquilo que desejamos inexiste e aquilo que tememos é falso, pelo simples fato de que não correpondem ao que imaginamos. 

Quando meditamos, escapamos temporiariamente da ilusão e, quando o Ego morre, as ilusões deixam de existir de forma definitiva.

Libertando-se dos opostos

Dizem também os veneráveis e santos mestres que estamos presos aos opostos. Que opostos são esses? 

Os opostos aos quais a mente está presa são as características que percebemos nas coisas. Quando achamos algo bonito, temos a fealdade como referencial, quando consideramos algo bom, temos a maldade como referência, quando sentimos prazer, temos a dor como referência e assim por diante, ainda que não estejamos conscientes disso. 

É pelos opostos que os objetos do mundo adquirem suas qualidades (para nós). Nosso modo de entender as coisas oscila entre os opostos: para nós, as coisas são boas ou ruins, belas ou feias, agradáveis ou desagradáveis, grandes ou pequenas etc. Entendemos e percebemos o mundo dentro das polaridades. Esse é o batalhar das antíteses.

Reflita sobre um tipo de mulher que você deseja e descobrirá que a deseja em oposição outro tipo, que possui características contrárias. Analise algo que você teme ou detesta e descobrirá que teme aquilo em oposição a alguma outra coisa, considerada desejável ou inofensiva. Você se sente seguro em certas situações em oposição a outras situações, que provocam insegurança. Aquilo que nos irrita ou incomoda sempre terá o seu oposto, algo que nos proporciona agradáveis sensações de bem estar. Vivemos oscilando entre os opostos.

A mente presa nos opostos é o próprio Ego, uma vez que é o Ego que confere características às coisas. As qualidades dos objetos são aprendidas ao longo da vida, não nascemos sabendo as diferenças. As coisas se tornam o que são (para nós) à medida que o Ego se desenvolve. É pelo contraste que achamos e sentimos que as coisas são boas ou ruins.  Nossa visão de mundo atual resulta de experiências passadas.

Quando meditamos, perdemos a noção dos opostos. Então não há diferença entre dia e noite, doença e saúde, vida e morte, velhice e juventude, antes e depois. Nos libertamos desses opostos e, então, aquilo que nos perturbava deixa de nos perturbar.

A primeira noção que costumamos perder quando praticamos a meditação é a noção do tempo. Perdemos a noção e não sabemos se passou muito ou pouco tempo. Podemos ter a impressão de que se passou  bastante tempo e, ao olhar o relógio, apenas alguns minutos se passaram. Isso ocorre porque escapamos do par de opostos "breve" e "demorado", nossa consciência escapa do tempo por um breve período.

Em seguida, com o avanço da prática, pode ser que escapemos do par de opostos "aqui" e "acolá" ou do "próximo" e do "distante". Então perdemos a noção de onde estamos e deixamos de saber se estamos meditando em casa ou em outro lugar. É comum que, ao voltarmos da meditação, nos surpreendamos por acharmos que estávamos em outro lugar. Nossa consciência escapou temporariamente do espaço.

Essas perdas de noção não fazem mal algum e não são patologias mentais. As noções são imediatamente recuperadas assim que terminemos a prática.

Praticantes avançados e experientes vão se desvencilhando de todas as noções de opostos até o ponto de escaparem completamente desta realidade fenomênica. Escapar dos opostos é libertar a essência da prisão da mente, pois é a mente que entende as coisas de forma dual. Quando escapamos completamente dos opostos, não discernimos entre o alto e o baixo, o feio e o belo, o grande e o pequeno e outras dúadas, pois o nosso discernimento estará funcionando de outra maneira, em sintonia com realidades que estão além do compreensível.

O escape dos pares de opostos não é algo que se consiga por meio da simples força. E, antes, o resultado natural do aprofundamento do pensamento concentrado e do posterior abandono do mesmo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Milarepa: ensinamento em vídeo

Este  vídeo contém alguns ensinamentos importantes do Santo Milarepa sobre a meditação (é a segunda parte de uma sequência de três vídeos):


"Para testar a conquista e experiência de Rechungpa e também para descobrir o quão forte era o seu espírito de renúncia, um dia Milarepa casualmente cantou para ele a 'Canção dos Doze Enganos':

A Canção dos Doze Enganos 

'Afazeres mundanos são todos enganadores; então procuro a verdade divina.

A excitação e distração são ilusões; então medito na verdade não dual.

Companheiros e servos são enganadores; então permaneço em solidão.

Dinheiro e posses também são enganadores; então se eu os tenho, dou para os outros.

Coisas do mundo externo são todas ilusões; a mente interna é a que observo.

Ensinamentos vagantes são todos enganadores; então só trilho o caminho da sabedoria.

Enganadores são os caminhos da verdade oportuna; a Verdade Final é aquela em que medito.

Livros escritos em tinta preta são todos enganadores; apenas medito no âmago das instruções da Linhagem Sussurrada.

Palavras e dizeres também são enganadores; calmo, descanso minha mente no estado sem esforço.

Nascimento e morte são ambos ilusões; observo somente a verdade do Não Elevar.

A mente é, em todos os meios, enganadora; então pratico como animar a consciência.

A prática de segurar a mente é enganadora e leva a caminhos errados; então descanso no Reino da Realidade.'

Rechungpa pensou:

'Meu Guru é o próprio Buda, não há idéia ilusória em sua mente. Mas, por minha incapacidade de devoção e também a dos outros, ele cantou para mim, esta canção.'

E Rechungpa cantou em resposta para explicar ao seu guru sua compreensão sobre o ensinamento da visão, prática e ação:

'Ouça-me, por favor Pai Guru, minha mente escura é cheia de ignorância, segure-me com a corda de sua compaixão.

Na encruzilhada onde Realismo e Nihilismo encontram-se, perdi meu caminho, ao procurar a visão dos Não Extremos, então não tenho segurança no conhecimento da Verdade.

Sonolento e distraído a toda hora, alegria e Iluminação ainda não são minhas e assim não conquistei todo o apego.

Não consigo me libertar de tomar e abandonar e, sem necessidade, continuo em meus atos impulsivos, então ainda não destruí todas as ilusões.

Fui incapaz de afastar todos feitos de fraude e observar os preceitos tântricos sem falha, ainda não conquistei todas as tentações.

A distinção ilusória entre o Samsara (ciclo da reencarnação) e o Nirvana (Felicidade Eterna) ainda não percebi na própria mente do Buda, então ainda tenho que encontrar meu caminho ao Darmakhaya.

Não fui capaz de equalizar esperança com medo e a minha própria face para contemplar, então ainda tenho que ganhar os Quatro Corpos de Buda.

Eu fui protegido por sua Compaixão no passado, agora, colocando-me inteiramente em tuas mãos, rezo; dê-me ainda mais de tuas bençãos.'

Assim Milarepa, mandou sua Graça compassiva para abençoar Rechungpa e disse a ele, fingindo:

'OH, Rechungpa, você tem mais conhecimento e experiências que aqueles que acabou de me contar. Não deveria esconder nada de mim. Seja franco e cândido.'

Quando Milarepa disse isto, Rechungpa se tornou iluminado e ele cantou as 'Sete Descobertas'.

Canção das Sete descoberta

'Através da Graça do meu pai guru, o sagrado Jetsün, agora percebi a Verdade nas Sete Descobertas.

Em manifestações, descobri o Vazio, agora não tenho pensamento de que nada exista.

No Vazio encontrei o Dharmakaya, agora não tenho pensamento da ação.

Em miríades de manifestações o Não Dual encontrei, agora não tenho pensamento de reunir ou dispersar.

Em elementos de Vermelho e Branco descobri a essência da igualdade, agora não tenho pensamento de aceitar ou rejeitar.

No corpo da ilusão descobri Grande Felicidade, agora em minha mente não há sofrimento algum.

Na Auto Mente descobri o Buda, agora em minha mente Samsara (ciclo da reencarnação) não existe mais.'

Milarepa então disse a Rechungpa:

'Sua experiência e compreensão estão próximos da real iluminação, mas ainda não são o mesmo. Experiência Real e compreensão verdadeira deveriam ser assim; e ele cantou 'Os Oito Reinos Supremos':

Canção dos Oito Reinos Supremos

'Aquele que vê que o mundo e o vazio são o mesmo, alcançou o reino da Verdadeira Visão.

Aquele que não sente diferença entre sonho e despertar, ele alcançou o Reino da Verdadeira Prática.

Aquele que não sente diferença entre Alegria e Vazio, atingiu  o Reino  da Verdadeira Ação.

Aquele que não sente diferença entre 'agora' e 'depois', atingiu o Reino da Realidade.

Aquele que não vê que a mente e o vazio são o mesmo, atingiu o Reino de Dharmakaya.

Aquele que não sente diferença entre dor e prazer, atingiu o reino do Verdadeiro Ensinamento.

Aquele que vê os desejos humanos e a sabedoria de Buda como iguais, atingiu o Reino da Suprema Iluminação.

Aquele que vê como a própria mente e o Buda são semelhantes, alcançou  o Reino da Verdadeira Realização.'


Consequentemente, através da Misericórdia e Benção de seu Guru, Rechungpa gradualmente aprimorou em compreensão e realização. Ele então, compôs a 'Canção dos Seis Bardos', no qual ele apresentou a Milarepa seu insight e compreensão final:

'Eu me curvo diante dos Santos Gurus. 

No Bardo (estado de existência entre a morte e o renascimento), onde o Grande Vazio manifesta-se, não há visão realista e nem niilista, eu não compartilho o pensamento dos sectários humanos.

Além de toda a apreensão está a Não Existência agora. Da visão esta é minha firme convicção.

No Bardo do Vazio e da Alegria não há objeto no qual a mente possa meditar, então não preciso praticar a concentração.

Descanso minha mente sem distração no estado natural. Esta é minha compreensão da Prática. 

Não me sinto mais envergonhado diante dos amigos iluminados. No Bardo, com luxúria e sem luxúria, eu não vejo felicidade samsárica, e então, não sou mais um hipócrita, eu não encontrei má companhia alguma.

Tudo o que eu vejo diante de mim tomo como minha companhia. Esta é minha convicção na ação. 

Não sinto mais vergonha diante de um encontro de grandes yogues. Entre vícios e virtudes, não discrimino mais; os puros e impuros são agora para mim iguais. 

Assim eu nunca devo ser falso ou pretensioso. Agora conquistei totalmente a maestria da Auto-Mente. Esta e minha compreensão de Moralidade. 

Não sinto mais vergonha diante da assembléia dos Santos. No reino recém descoberto do Samsara e Nirvana, seres senscientes e os Budas são para mim o mesmo. 

Então, não espero e nem anseio pela qualidade de Buda. Neste momento, todo o meu sofrimento tornou-se um prazer. Esta é minha compreensão de iluminação. 

Não sinto mais vergonha diante dos seres iluminados. Tendo me libertado das palavras  e significados, não falo mais a linguagem de todos os estudiosos. 

Não tenho mais dúvidas em minha mente. O Universo e todas as suas formas agora não aparecem senão como o Dharmakaya. Esta é a convicção a que cheguei. 

Não sinto mais vergonha diante de uma reunião de grandes estudiosos.'


Milarepa estava em grande prazer e disse:

'Rechungpa, esta é de fato a Experiência Real e o Conhecimento. Você pode realmente ser chamado de Discípulo Bem Presenteado. Agora existem três formas nas quais alguém pode agradar seu Guru: Primeiro, o discípulo deve empregar sua fé e inteligência para gratificar seu Guru; então, através do aprendizado inequívoco e da contemplação, ele deve entrar no portão do Mahayana e do Vajrayana e praticá-los com diligência e grande determinação. Então, ele finalmente pode agradar seu Guru com suas experiências reais de Iluminação, que são produzidas passo a passo através de sua devoção.

Eu não gosto do discípulo que fala demais; a prática real é muito mais importante. Até a completa realização da Verdade ser obtida, ele deve fechar sua boca e trabalhar em sua meditação. Meu Guru, Marpa, disse para mim: Não importa o quanto e se alguém sabe grande coisa sobre Sutras e Tantras. É preciso não apenas seguir as palavras e livros, mas a pessoa deve fechar sua boca, seguir sem erro as instruções verbais de seu guru e meditar. Assim, você deve também seguir seu conselho, não esquecendo e colocando-o em prática. Se você puder deixar todos os assuntos samsáricos para trás, os grandes méritos e realizações serão todos seus.'

Rechungpa replicou:

'Querido Jetsün, por favor seja bom o bastante para dizer o que Marpa disse.

Milarepa então cantou 'As Trinta Admoestações do Meu Guru':

'Querido filho, estas são as palavras que Ele me disse :

De todos os Refúgios, o Buda é o Melhor.

De todos os amigos, a fé é a mais importante.

De todos os males, Nhamdog (pensamento perturbador) é o pior.

De todos os demônios, o orgulho. De todos os vícios, difamar.

Ele disse: Aquele que não purifica seus pecados com os quatro poderes, estará atado a vagar no Samsara.

Aquele que, com diligência, não acumula mérito, nunca ganhará a Benção da Liberação.

Aquele que não refreia cometer os Dez Males está atado a sofrer as dores junto ao Caminho.

Aquele que não medita no Vazio e na Compaixão, nunca atingirá o estado do BUDDHADO.' "



Se você gostou, pode assistir também outros vídeos onde Milarepa compartilha seu conhecimento.

Milarepa instrui as Dakinis e aos patronos:

http://www.youtube.com/watch?v=w7RLNBFKiPw&feature=relmfu

Aqui há a estória inteira: (três vídeos)

http://suprememastertv.com/pt/bmd/?wr_id=763&url=link1_2&page=4#v




Boa reflexão.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Meditação e paralisia do sono


Quando estamos meditando, podemos ser assaltados pela paralisia do sono. A paralisia costuma aparecer quando, durante fase do relaxamento profundo, a pessoa tenta se mover por alguma razão.

O melhor a fazer quando somos assaltados pela paralisia é esquecê-la e continuarmos concentrados em nosso lakshya. Se a pessoa não tiver medo e prosseguir concentrada, terá logo experiências muito interessantes. A paralisia do sono indica que se está no limiar das experiências supra-sensoriais. As chamadas "alucinações hipnagógicas" são na verdade percepções do universo supra-sensorial.

sábado, 25 de agosto de 2012

Imaginação e emoção


Comportamento e imaginação estão diretamente vinculados. O comportamento costuma corresponder às emoções e as emoções são direcionadas pela imaginação.

Se me fizerem acreditar que estou em perigo, imaginarei mil riscos e ameaças, sentirei medo e agirei em consonância com tal emoção. Se me fizerem acreditar que estou em segurança, imaginarei que não há problema algum, ainda que eu esteja sob grande risco, e sentirei tranquilidade. Quando um homem aponta uma convincente arma de brinquedo para outro, fere sua imaginação, fazendo-o crer que a arma é real, e nele provoca emoções correspondentes, fazendo-o sentir medo, insegurança e vulnerabilidade. Quando um homem imagina que uma mulher lhe dará mil prazeres indescritíveis, sentirá desejo intenso. Uma pessoa que tenha uma grave doenças e não o saiba, não sentirá as emoções correspondentes, por não estar ferida em sua imaginação e não se imaginar sob risco. Uma pessoa saudável que, por um erro de exame, se acredite gravemente doente, sentirá as emoções negativas correspondentes, pois imaginará a si mesma piorando cada vez mais. Se um ladrão imaginar que há grande soma de dinheiro em uma casa, sentirá o desejo de invadi-la para roubá-lo.

Quando uma pessoa faz ameaças diretas a outra, o faz com o intuito de ferir sua imaginação, induzindo-a a imaginar-se em perigo. Se a imaginação da vítima for ferida como deseja o agressor, ela sentirá medo, ficará intimidada e retrocederá. Quando um homem exibe um carrão ou sinais de riquezas e poder para uma linda mulher, o faz com o intuito de ferir-lhe a imaginação, induzindo-a a imaginar que ele pode lhe dar conforto, segurança e proteção sem fim.

As diversas situações da vida provocam emoções em consonância qualitativa com as imaginações que provocam. Sentimos de acordo com o que imaginamos. Se eu imaginar que um homem é o meu pior inimigo, sentirei raiva, ódio, medo e tentarei prejudicá-lo, ainda que o infeliz nem sequer saiba de minha existência.

Quem tenta controlar as emoções diretamente, sem redirecionar o curso da imaginação, está cindindo-se interiormente e desencadeando uma neurose.  O elefante louco das emoções não se deixa dominar.

A emoção é rápida como um tiro, mas a imaginação é a mão que direciona o cano da arma. A mente não é mais rápida que a emoção, mas é o fator que a direciona. E não podemos controlar a mente entrando em conflito com os maus pensamentos e más imaginações, mas sim reforçando os seus contrários. Somente deixarei de pensar em um perigo se preencher minha mente com pensamentos e imaginações de segurança.
A concentração serve para preencher a mente com os pensamentos que queremos, redirecionando a imaginação. Ao imaginarmos algo em um rumo que desejamos, modificamos o funcionamento mental (sanskaras) e alteramos as emoções.

O Ego resulta da imaginação equivocada que vai se nutrindo e sendo reforçada ao longo de toda a vida desde a infância. Como Freud acertadamente se deu conta, é na infância que começa tudo. Os vícios e deformidades que temos hoje se originaram na infância e, indo além de Freud, em passadas existências. Quando, em um passado remoto, adquirimos a mente e o poder de imaginar, começamos a dar vida aos desejos.  

A imaginação não é ruim e nem boa, é dual. Podemos nos afundar ou nos salvar através da imaginação. Educar a imaginação é fundamental em toda disciplina espiritual.

Os corajosos que não temem o inimigo e se expõem no campo de batalha não se imaginam em risco, ainda que conscientemente saibam que estejam se arriscando. Os insensatos que se arriscam tolamente também não se imaginam em perigo, por falta de discernimento, e não sentem medo. São pessoas que não pensam na morte e nem na vulnerabilidade (aqueles por terem aprendido e estes por serem estúpidos). Os covardes que vivem intimidados com tudo possuem uma imaginação vulnerável ao perigo e se imaginam constantemente em risco.

Uma pessoa que sofra cronicamente com emoções ruins deverá procurar, dentro de si, as imaginações e pensamentos que as provocam.

Uma das funções da auto-observação é revelar as reações mentais (imaginativas) que vamos tendo aos diversos fatos que vamos presenciando, para que possamos eliminá-las. Os acontecimentos fazem a mente reagir de determinada maneira, ocasionando emoções inferiores. Temos que descobrir as imaginações equivocadas antes de corrigi-las. Como eu poderia corrigir algo cuja existência desconheço?

Um funcionamento imaginativo equivocado é nutrido e reforçado por falas e atitudes que desconhecemos e necessitamos descobrir ao vivo. Corrigindo a fala, os comportamentos e as imaginações que reforçam uma emoção ruim, a enfraqueceremos. 

Portanto, a correção da imaginação destrutiva se obtém por dois trabalhos simultâneos: a concentração/meditação e a auto-observação/Morte em Marcha.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Morte do Ego: a correta relação com o mundo exterior

Todos os defeitos e sofrimentos estão relacionados a algum tipo de desejo. A preguiça é o desejo de não fazer nada, de evadir-se do esforço, a ira resulta do desejo insatisfeito, o ódio é o desejo de que alguém seja prejudicado e arruinado, o medo relaciona-se com o desejo de sentir-se seguro, a salvo do perigo, a gula é o desejo de comer algo para sentir seu sabor, a inveja é o desejo de ter o mesmo que outra pessoa possui. Existem muitos tipos de desejo e não somente o desejo sexual.

Todas as formas de desejo provocam sofrimento. Quando o desejo morre, o sofrimento acaba. É muito importante entender como fazemos para enfraquecer gradativamente o poder do desejo.

Quem nunca tomou consciência da existência de algo desejável, não pode desejá-lo. Quem toma consciência da existência de algo desejável, passa a desejá-lo. Quem renuncia voluntariamente à percepção dos objetos de desejo, após ter consciência da existência dos mesmos, volta a não desejá-los mais. Há, portanto, três estágios no desenvolvimento da alma: 

1) inconsciência da existência do objeto; 
2) consciência da existência do objeto; 
3) esquecimento intencional da existência do objeto. 

Uma é a felicidade dos seres inocentes, que nunca se deram conta ou não compreendem a existência dos objetos de desejo. Outra é a felicidade daqueles que sofreram desejando os objetos mas conseguiram esquecê-los, renunciando aos mesmos. Tormentosa é a existência daqueles que estão na fase intermediária, percebendo os objetos e os desejando continuamente, afogando sua consciência na embriaguês da matéria. 

Quem nunca viu ouro ou jóias, não poderia desejá-los. As crianças não desejam dinheiro, porque neles não pensam e não “entendem” o seu valor. Alguém que tenha contato com ouro ou jóias, passará a entender, com o tempo, que os seres humanos os valorizam em demasia, desenvolverá um entendimento enviesado ou distorcido a respeito e então irá desejá-los. Porém, se tal pessoa decide aprofundar a compreensão a respeito do desejo que sente e, por extensão, do verdadeiro ou essencial valor do ouro e das jóias, chegará a compreender que o valor atribuído aos mesmos é tão somente uma ilusória criação mental, ou seja, o valor não existe objetivamente, somente subjetivamente (as pessoas o inventaram). Caso tal pessoa se divorcie do ouro e das jóias, os abandone, esqueça e deixe de percebê-los, estará, de certo modo e em um certo sentido, retornando ao estado inicial de desconhecimento. Após a compreensão, a pessoa estará “desconhecendo intencionalmente” o objeto de desejo. Para tanto, a pessoa terá que deixar de ocupar-se fisica e mentalmente com aquilo. 

Retornar conscientemente ao estado de inocência original ou à infância espiritual perdida é ocupar-se somente com as coisas do céu, renunciando às coisas da Terra. Entretanto, após estarmos aprisionados no mal, tal retorno não será possível senão após tomarmos consciência de cada prisão. Cada desejo é uma prisão que encarcera uma parte de nossa alma.

O esquecimento intencional daquilo cuja existência não temos consciência é um absurdo. Como eu poderia esquecer algo cuja existência me é desconhecida? O esquecimento intencional ou abandono voluntário requerem a consciência prévia daquilo que nos prende. Não é possível esquecer intencionalmente um objeto de desejo se não estamos conscientes de que o desejamos. E não estaremos conscientes se não nos observarmos em plena relação com o mundo. Portanto, tomamos consciência para nos desligarmos. Quem quer libertar-se do desejo por jóias, deve primeiro dar-se conta de que as deseja e tal consciência não ocorrerá senão pela auto-observação das próprias reações perante a percepção das jóias.

Mas se aquele que percebe que deseja as jóias, ao vê-las, as continua contemplando após tê-lo compreendido, estará, a partir deste ponto, alimentando seu desejo ao invés de enfraquecendo, por uma simples razão: o desejo se nutre pela fascinação, intencional ou não.  Estejamos ou não conscientes da fascinação, ela alimentará os desejos e os reforçará. Este é o motivo pelo qual aqueles que se entretém fascinando-se pelo que desejam jamais se libertam. Temos que descobrir os processos fascinatórios inconscientes e interrompê-los, caso queiramos nos libertar.

A finalidade da auto-observação é levar-nos a descobrir os infinitos processos fascinatórios que se processam inconscientemente durante o dia, enquanto estamos em contato com os objetos da vida. Os objetos desejáveis do mundo físico são uma faca de dois gumes: servem para descobrirmos nossas reações inconscientes a eles mas também promovem a fascinação e podem nos lançar mais profundamente no desejo. Tudo depende da forma como nos relacionamos. Quem se identifica com as coisas do mundo, ao invés de usá-las para o auto-descobrimento, fortifica suas próprias prisões interiores.

Temos que saber como nos relacionar com as coisas desejáveis da Terra. Podemos usá-las para tomarmos consciência de que as desejamos, mas também podemos, caso nos relacionemos equivocadamente, usá-las para nos prejudicarmos, alimentando os desejos que elas provocam e nos afundando cada vez mais no lodo da miséria espiritual.

O que se passa é que um certo fato exterior qualquer do mundo físico que provoca um dado desejo serve para que o mesmo desejo seja descoberto em plena ação. O mérito das almas vitoriosas consiste justamente em não se identificar com tais fatos mesmo que estejam se dando a seu redor a pleno vapor. Por esta via, as almas vitoriosas alcançaram uma pureza semelhante à das almas inocentes, com a diferença de que isto foi conquistado de forma consciente, intencional e voluntária. As almas vitoriosas são crianças porque querem sê-lo. 

As almas vitoriosas não se entretém contemplando  os fatos evocadores do desejo, evitam a fascinação, porém o fazem por vontade deliberada. Elas decidiram não mais olhar para o mal. Já as almas desgraçadas, por outro lado, estão aprisionadas pelo olhar fascinante da medusa, presas espiritualmente ao mal, porque não sabem ou não querem desviar o olhar, não querem abandonar os atrativos mundanos. 

Não podemos explorar o Ego senão através dos fatos que nos acontecem, nos acometem e nos ferem. Não é possível explorar o Ego através de teorizações, conjeturando a respeito do que somos ou sentimos. Temos que vê-lo em ação e tal percepção é possível exclusivamente em contato com os fatos da vida, do mundo exterior. É algo muito interessante: temos que aprender a nos isolar dos fatos do mundo, mesmo estando eles acontecendo ao nosso redor, e fazemos isso após percebermos as reações que provocam em nós. Se você percebeu que sua vizinha está dançando de calcinhas na laje, melhor é não ficar espiando porque senão ficará tomado por um desejo desesperador, se você percebeu que a carta ou mensagem enviada por alguém é negativa e malcriada, melhor é não abri-la e jogá-la na lixeira ou então ler somente as primeiras linhas para se certificar de que se trata de algo prejudicial. Assim vamos cortando os canais de alimentação dos desejos. Tudo isso, é claro, tem que ser realizado através da Morte em Marcha.

O que estamos aqui descrevendo vale para todos os tipos desejo, todos os tipos de defeitos, emoções inferiores ou negativas. Quem teme ser assassinado e fica contemplando assassinatos, seja em filmes ou livros, está alimentando o seu medo. Quem teme fantasmas e assiste a filmes de terror, ficará ainda mais atemorizado. Aquele que alimenta um defeito, torna-se incapaz de libertar-se do mesmo. 

O segredo, a chave da Morte, está no processo de nutrição dos egos. É o que diz aquele conto indígena dos dois cachorros em conflito que existem dentro do ser humano. Qual dos dois cães irá ganhar a luta? Aquele que alimentarmos.

Tenho medo de não estar sendo claro. O que quero transmitir neste texto é a necessidade de tomarmos consciência dos fatos físicos para, em seguida, nos isolarmos (psicologicamente) dos mesmos e não para nos fascinarmos ainda mais. Quero que compreendam que os mesmos fatos que servem para descobrir os defeitos podem servir para alimentá-los. Temos que saber usar esses fatos em nosso favor e não contra nós. Quero que compreendam que os fatos da vida são facas de dois gumes, podem servir para o nosso bem ou para o nosso mal, são males necessários. Não devemos fugir deles, nos isolando para sempre nas montanhas ou em cavernas, e nem tampouco mergulhar nos mesmos. Quem mergulha nos fatos da vida se afoga e é arrastado por suas correntezas. Os fatos da vida constituem um ginásio psicológico mas também uma porta para o abismo, tudo depende do modo como nos relacionamos.

Como nos isolamos psicologicamente dos fatos, de modo a não perdermos os resultados conquistados com a Morte em Marcha? Controlando os sentidos, evitando ver, ouvir e sentir aquilo que fortifica o mal em nós.  Aquilo que faz o mal aflorar também o alimenta. É importante que o mal aflore para que seja visto, mas alimentá-lo é desnecessário e prejudicial.

Quem quer realmente morrer deve evitar todos os estímulos externos e internos aos desejos. As situações exteriores que os evocam e excitam necessitam ser descobertas e evitadas, assim como os pensamentos, falas, recordações e atos. Toda excitação deve ser removida da vida. Isso se aplica à gula, à ira, ao ódio, ao medo, à luxúria, às preocupações e a quaisquer outros defeitos. A excitação passional deve ser substituída pelas emoções superiores e pelo êxtase espiritual.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Concentração: como lidar com os pensamentos indesejáveis

Em primeiro lugar, não se incomode com os pensamentos invasivos que surgem durante a prática, seja indiferente, de modo algum reaja contra e nem a favor. Não se identifique e nem corra atrás dos pensamentos para silenciá-los, seja neutro e volte-se para o lakshya.  Os pensamentos invasivos e desviantes são meras tentativas de atraí-lo. Lembre-se das tentações que Mara enviou ao Buddha Gautama para desviá-lo. Como o Buddha reagiu a elas? Ele não se deixou afetar, simplesmente continuou meditando embaixo da árvore.

Em segundo lugar, se um pensamento for muito insistente, aplique a dualidade: coloque um pensamento que lhe seja oposto e que o anule. Exemplo: se o pensamento for sobre algum mal que lhe fizeram, pense nos prejuízos físicos, psicológicos e espirituais que o ressentimento irá lhe causar, encontre algo que o anule.

Em terceiro lugar, interrompa por um instante sua concentração e analise o conteúdo do pensamento invasor, com a intenção compreendê-lo. Procure compreender, principalmente, qual é a (in)utilidade daquele pensamento para aquele momento, o que se consegue perguntando-se "para serve este pensamento?" e buscando sinceramente a resposta.

Em quarto lugar, aplique a Morte em Marcha no ego teimoso que está emitindo o pensamento intruso. 

Em quinto lugar, realize a Dança dos Derviches.

Se nada disso funcionar, deixe sua prática por um instante e a retome dali há pouco.

Aprenda com o Santo e Venerável Mestre Milarepa:

"A prática de segurar a mente é enganadora e leva a caminhos errados; então descanso no reino da Realidade." (Milarepa, A Canção dos Doze Enganos)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sobre a necessidade de controlar os sentidos

Gostamos de nos entreter prestando atenção naquilo que desejamos, detestamos, tememos ou simplesmente naquilo que nos altera ou perturba. Trata-se de um vício de má utilização dos sentidos. Temos que exercitar o controle dos sentidos. Permanecer vendo, ouvindo e percebendo aquilo que não presta é escravizar-se voluntariamente pelo mal.

Existem egos visíveis e egos ocultos. Há uma parte de nós que enxergamos e da qual temos consciência, porém há outras partes do Eu que não alcançamos enxergar e nem sequer suspeitamos que existem. Apesar de não serem percebidas conscientemente, a parte oculta do Ego está ativa, atua. O ego oculto atua na escuridão, sem ser visto, e em várias dimensões, não somente no mundo físico. Portanto, temos defeitos que atuam no mundo físico, nos centros da máquina, sem que o saibamos. São muitos os pensamentos, emoções, movimentos e ações que temos mas desconhecemos. Não percebemos a totalidade do que somos e do fazemos neste mundo e nem, muito menos, nos mundos paralelos. 

Não estamos conscientes da maior parte dos nossos defeitos, mas tal inconsciência não os impede de atuar livremente, de se alimentarem e colherem energia. Estamos constantemente criando e alimentando defeitos sem nos darmos conta.

A alimentação dos egos acontece por meio da identificação (fascinação). A identificação ocorre por via sensorial e extra-sensorial. Quando contemplamos fisicamente um objeto de desejo, estamos alimentando o desejo por via sensorial. Quando contemplamos mentalmente um objeto de desejo, estamos fortificando o desejo por via extra-sensorial (a extra-sensorialidade existe de forma germinal em todos os seres humanos).
Perceber o objeto de desejo é alimentar o desejo, perceber o objeto do ódio é alimentar o ódio, perceber o objeto do medo é alimentar o medo. 

Quando se tem o Ego vivo, não é possível olhar para uma linda mulher desejável sem desejá-la, não é possível olhar para o inimigo sem detestá-lo, não é possível olhar para o perigo sem sentir medo. Similarmente, não é possível pensar em tais objetos sem sentir as emoções correspondentes. Quem tenta eliminar os defeitos sem renunciar aos pensamentos que lhes correspondem, está se partindo, se despedaçando interiormente, pois fortifica o inimigo e ao mesmo tempo faz esforços para matá-lo. A pessoa, em tal caso, faz dois esforços contrários, que se anulam: esforço para matar e esforço para dar vida. A infeliz pessoa girará em círculos por tempo indefinido, a não ser que se dê conta do equívoco e se defina em uma única direção, em um único objetivo.

Por meio da auto-observação no ginásio psicológico, vamos descobrindo novas manifestações do Ego, antes desconhecidas. Cada manifestação descoberta é uma forma de alimentação, antes insuspeitada. Ao descobri-la e a eliminarmos, por meio da oração (Morte em Marcha), nos tornamos capazes de descobrir novas manifestações, ainda ocultas. Deste modo, descobrimos sucessivas manifestações dos egos e, portanto, sucessivas formas de alimentação dos mesmos. Como a manifestação se dá por meio da identificação, podemos dizer que a manifestação é a própria alimentação dos "eus". O "eus" se nutrem durante as manifestações. Descobrir uma manifestação é descobrir um canal de alimentação.

A todo momento os egos estão se nutrindo, colhendo energia de nosso corpo. Não percebemos o processo porque não nos mantemos receptivos ao mesmo. E não nos mantemos receptivos porque vivemos distraídos com os objetos do desejo.

O Ego é algo sensorial, busca as sensações. Qualquer ego se fundamenta nas sensações. O controle dos sentidos é indispensável pois os objetos exteriores provocam emoções negativas. Se me distraio percebendo os objetos evocadores das emoções inferiores, as fortifico e me torno mais e mais escravizado.
Contemplar os objetos evocadores das emoções causa um certo prazer mórbido. Isso vale para o medo, o ódio, a ira, a cobiça, a luxúria e tantos outros egos. Quando controlamos os sentidos, experimentamos um grande avanço.

O ginásio psicológico é faca de dois gumes: pode ser usado para enfraquecer os defeitos ou para fortificá-los. Quem se identifica, fortifica.

Conforme avançamos, vamos despertando consciência e nos tornando mais conscientes nos mundos parelelos. Então, praticamos a auto-observação durante os sonhos e descobrimos que também ali, nos outros mundos, temos o hábito de alimentar os defeitos. Também ali, nos envolvemos com os egos, tentamos controlá-los, nos identificamos, nos amarramos e perdemos tempo. Ao tomarmos consciência, temos a chance de superar aos poucos o problema. É assim que vamos despertando nos vários mundos.
Inconscientemente, olhamos para as mulheres, para alimentos saborosos, para pessoas antipáticas, ouvimos vozes e sons etc. Tudo isso alimenta vários defeitos sem que nos demos conta. 

Quando olhamos para nós mesmos e não vemos defeito algum, isso não significa que os egos não estejam atuando ou que a Morte tenha terminado, significa somente que os defeitos estão agindo fora do alcance de nossa consciência.

A auto-observação é para descobrir o novo. Controlar os sentidos, deixar de perceber os objetos que provocam emoções negativas, não é renunciar ao novo, não é esconder-se e nem enganar-se. É resolver um problema para ocupar-se com outros problemas que virão a ser detectados, pois há outras atuações do sentidos a serem descobertas. Aí reside um equívoco, pois muitas pessoas imaginam que devem cultivar a percepção dos objetos do desejo para descobrir os egos que evocam. Na verdade, tal cultivo prende a pessoa em um círculo vicioso, no qual ela fortifica os egos ao mesmo tempo em que tenta observá-los e compreendê-los. Se não resolvemos os problemas atuais, não podemos nos ocupar com problemas futuros.

A crença de que podemos "olhar sem nos identificarmos" com os objetos que desejamos é absurda. Se desejamos e olhamos, nos identificamos, obrigatoriamente. Somente quem está realmente morto pode olhar sem identificar-se. Quem está vivo, forçosamente se identifica.

Portanto, o Morrer equivale a ir retirando de nossa vida todas formas de identificação. E retirar as identificações é descobri-las e orar pela Morte. Eliminar um "eu" é eliminar uma forma de identificação.

Muitas formas de alimentação do Ego (detalhes) se apresentam sob uma aparência inofensiva e até virtuosa. Atitudes inocentes, desprovidas de qualquer sentido delituoso, podem estar nutrindo algum defeito. Atos comuns do dia a dia podem ser canais de nutrição dos defeitos. Mediante a auto-observação sincera e criteriosa, vamos aos poucos discernindo.


Sobre contemplar o objeto de desejo mentalmente e perceptualmente

Se não devemos contemplar mentalmente o objeto de desejos, porque desencadeia uma manifestação incontrolável do desejo correspondente, é muito claro que não devemos também contemplá-lo fisicamente, pois o efeito será o mesmo.

Pensar em algo é contemplar mentalmente. Pensar na imagem de uma linda mulher nua satisfazendo nossas fantasias sexuais é o mesmo que ver uma linda mulher fazendo o mesmo.  Pensar é ver na tela da mente.

Se fico contemplando objetos de desejo, estou fortificando o desejo do mesmo modo que se neles pensasse. 

Não contemple o objeto dos desejos fisicamente e nem mentalmente. Ainda que contemplemos o objeto dos desejos com os olhos físicos, o estaremos fazendo através de alguma forma mental.


A luxúria possui inevitavelmente um caráter imaginativo ou mental e se reforça pelos pensamentos e imaginações. É pela contemplação de imagens que a luxúria colhe força e se arraiga em nossa personalidade. Sempre que contemplamos um objeto de desejo, o desejo se torna mais forte. 


Quando imaginamos cenas eróticas, mulheres lindas, estamos contemplando o objeto de desejo mentalmente. Quando observamos as mesmas cenas no mundo físico, com os olhos físicos, o estamos fazendo fisicamente. Em ambos os casos, estamos fortificando a prisão da luxúria. A contemplação das imagens desejáveis, seja fisicamente ou imaginativamente, é o caminho para a escravização. 


Desejar algo corresponde a uma forma de entender e de perceber aquilo que desejamos. A forma de entender corresponde a um entendimento viciado, tendencioso. Quanto mais fortificamos o entendimento vicioso, mais fortificamos o desejo em nós.


O entendimento vicioso (equivocado) é reforçado por ações em todos os demais centros (que não o intelectual). As ações e reações mínimas de cada instante estão reforçando as equivocadas formas de perceber e compreender. Como resultado, desejamos o objeto por imaginarmos e acreditarmos milhares de coisas absurdas a respeito. Quando um homem deseja uma mulher, não a enxerga de forma objetiva, tal como é, mas sim através da lente da luxúria. O prisma do desejo o cega e todas as consequências indesejáveis de um relacionamento se tornam empalidecidas, apagadas. Quando removemos a lente luxuriosa, enxergamos o ser feminino com objetividade, sem exageros favoráveis ou desfavoráveis. 


O prisma do desejo é como uma lente colorida: se olhamos o mundo com uma lente vermelha ou azul, as cores dos objetos mudam. Sob a lente da luxúria, o mundo se torna repleto de erotismo e sensualidade, cada mulher passando a ser avaliada segundo seu potencial para o sexo. As mulheres se dividem entre as sexualmente desejáveis e as indesejáveis. O luxurioso não enxerga mais nada na vida. A Morte do Ego, no entanto, reverte tal situação miserável.


Três cuidados importantes na Morte

Três cuidados importantes a serem tomados na Morte são:

1. Não nos distrairmos prestando atenção ou pensando nos milhares de defeitos que temos mas sim nos mantermos atentos ao que estamos fazendo no momento;

2. Nunca "passar para o outro lado da margem", ou seja, nunca nos identificarmos com um desejo;

3. Não perder o tempo prestando atenção e/ou nos distraindo com os objetos que provocam desejo ou perturbação.

Portanto, temos que evitar o processo de identificação com os defeitos a todo custo. Identificar-se com um desejo é como passar para o outro lado da margem de um rio e transformar-se em algo completamente diferente. Quando você está identificado, você se torna outro.

Para não passar para o outro lado, temos que vigiar nossa conduta e deter as manifestações diminutas do desejo antes que cresçam. Quando as manifestações crescem, tomam conta do veículo físico e o comandam. Não basta somente resistir à identificação, é preciso evocar o poder superior da Mãe Divina e aplicar a Morte em Marcha.


Como fortificamos nossas prisões


O mal é o desejo, pois em todo sofrimento há desejo encarcerado. Os doentes desejam a cura, os famintos desejam comida, os sofredores desejam a felicidade. 

Não é possível desejar aquilo cuja existência jamais foi sequer cogitada. Essa é a felicidade dos inocentes.

Há uma diferença entre a felicidade daquele que nunca conheceu o mal e a felicidade daquele que experimentou o mal e o superou.

Uma coisa é não desejar algo cuja existência nem sequer suspeitamos, outra coisa é não desejar aquilo cuja existência já nos é conhecida.

Quando comemos do fruto proibido e tomamos consciência de sua natureza desejável, nos tornamos escravos do desejo. A superação do desejo após a consciência experiencial dos prazeres do fruto proibido nos lança em uma espiral superior de felicidade espiritual. Uma coisa são os seres inocentes que nunca saborearam a fruta e outra são as hierarquias que foram escravizadas pelo desejo no passado e o superaram. Tais seres divinos foram expulsos do Paraíso, cairam na escuridão do pecado, mas a venceram.

Retornar conscientemente ao estado paradisíaco e puro é deixar de ter consciência do mal após o mesmo ter invadido nossa consciência. Não tomamos consciência do mal (desejo) para aprisioná-lo em nossa consciência, mas para esquecê-lo, abandoná-lo com o discernimento de que o estamos fazendo. Quem retém o mal em sua consciência, permanece preso a ele por tempo indefinido. 

O mal não existe para os Budhas e os seres vitoriosos. Tais seres vivem sintonizados com frequências altíssimas, fora do alcance do mal sob todas as suas formas. O mal existe para as almas que com ele se sintonizam, por bom grado ou à força. Para a nossa infelicidade, o Ego nos aprisionou nas frequências malignas, vibramos em sintonia com o mal, queiramos ou não.

Quanto mais nos ocupamos com o mal, mais força lhe damos. O mal existe para que tomemos consciência de sua existência, nos ocupemos com ele e o abandonemos em seguida, de forma voluntária e intencional. O mal existe para ser abandonado conscientemente, para ser voluntariamente deixado para trás. Os esforços que fazemos para reprimir o mal no mundo o alimentam e o mantem vivo, torturando a humanidade.

As almas que se debatem contra o desejo, lutando pela libertação, ainda não compreenderam que o estão nutrindo por esta via. O desejo morre somente quando não é mais alimentado. De nada adianta a alma gritar, clamar, chorar, debater-se, sofrer e lutar se, ao mesmo tempo, continua ocupada com o mal, alimentando-o. A alma que pensa, fala e protesta contra aquilo que a oprime está se aprisionando ainda mais. 

As almas que se libertam do desejo são aquelas que renunciam completamente ao mundo, a todos os objetos sensíveis que evocam lembranças e pensamentos, acendendo dentro dela a chama das paixões. Libertar-se de um desejo não é possível quando não abrimos mão das formas sensíveis que o acordam e o nutrem. Enquanto o objeto evocador do desejo existir para mim, isto é, enquanto houver identificação minha com o objeto, enquanto eu o aprisionar em minha consciência, continuarei a desejá-lo, para deixar de desejá-lo, o mesmo não deve mais existir para mim.

Os objetos do desejo pertencem ao mundo das formas sensíveis: mulheres, dinheiro, bens materiais, beleza, prazeres e tudo aquilo que nos prenda ao mundo físico. Um objeto de desejo é algo sensorial, algo que se percebe, que se vê, que se toca. Uma coisa é nunca ter tido consciência de que um objeto desejável existe, outra é voluntariamente deixar de manter a consciência focada sobre a existência do objeto. Portanto, à medida que vamos morrendo, os objetos de desejo vão deixando de existir para nós, pelo simples fato de que vamos nos sintonizando com outras frequências. Em outras palavras: viramos as costas para o mal.

A auto-observação nos permite tomar consciência de facetas do Ego, não para aprisioná-las em nossa consciência, mas para eliminá-las e esquecê-las para sempre. Tomamos consciência dos detalhes para abandoná-los e não para mantê-los conosco. Quando um defeito morre, seu respectivo objeto de desejo deixa de existir para nós, sofre uma transformação. As palavras de um insultador, por exemplo, não existe mais, se transformam em algo distinto.

Desejamos por não compreender o mal que o desejo ocasiona. O desejo entorpece, confunde, engana.

O mal do qual temos que nos libertar possui dois aspectos: o interior e o exterior. Interiormente, o mal é o desejo, sob todas as suas formas. Exteriormente, o mal são os objetos sensíveis que evocam o desejo.

A alma que, uma e outra vez, cai em tentação, sofre tais derrotas porque, sem se dar conta, continua dando vida ao desejo dentro de si. Inconscientemente, aprisionamos os objetos do desejo dentro de nossa mente, não os largamos. Somente tomando consciência de tal erro é que alcançamos nos libertar. Daí a auto-observação. Dito de outra maneira: não permitimos que aquilo que provoca o desejo, o sofrimento e a dor deixem de existir para nós, mas não nos damos conta do erro. Cometemos o erro sem saber que o estamos cometendo. Acreditamos estar fazendo tudo corretamente e, no entanto, estamos fortificando as grades de nossa prisão, a mesma prisão contra a qual nos debatemos em vão tentando escapar.     

Efeitos indesejáveis dos pensamentos


O turbilhão das emoções, sentimentos e desejos humanos é um inferno que desconcerta filosófos, cientistas, médicos, psicólogos, psiquiatras, educadores e sacerdotes. Ninguém sabe, absolutamente, o que fazer com os impulsos. Todos dizem para sermos corretos e não fazermos coisas erradas, mas ninguém tem uma fórmula que realmente faça com que não desejemos aquilo que não é conveniente. Sem pretender ter a solução final, vamos tentar encontrar uma contribuição para a solucionar esse problema.

Analise a manifestação de qualquer desejo ou emoção intensos e você descobrirá os pensamentos como pano de fundo. Pensar em algo desejável equivale a dar o ponta-pé inicial para desencadear uma avalanche. Uma vez desencadeada a avalanche, não adianta correr atrás dos prejuízos, tentando reverter os resultados. 

Em questão de Morte do Ego, o trabalho sobre a mente (os pensamentos) é prioritário. Quem não prioriza o trabalho sobre a mente jamais avançará. A mente é o principal meio de alimentação dos defeitos e das emoções negativas. Não é possível livrar-se de uma emoção ou desejo inconvenientes se houver identificação com os pensamentos correspondentes. Todos os fracassos espirituais são devidos à mente. Obviamente, há outros centros através dos quais o Ego se manifesta e que não devem ser negligenciados, mas a mente possui prioridade. Quando me refiro à mente, estou me referindo a todas as funções do centro intelectual: pensamentos, raciocínios, análises, lembranças, imaginações.

Temos que aprender a lidar com a mente. Há duas formas de lidarmos com a mente, as quais devem ser conjugadas em nossa vida: a meditação e a Morte do Ego. Não podemos negligenciar nenhuma das duas.

Temos que meditar várias vezes por dia, o mais que pudermos, para que a mente fique domada. Ao mesmo tempo, fora das sessões de meditação, temos que eliminar os funcionamentos mentais viciosos (sanskaras) pela Morte em Marcha. Na meditação, escapamos dos sanskaras temporariamente e nos fixamos na Essência. Na Morte em Marcha, os dissolvemos. 
Um simples pensamento é suficiente para desencadear toda uma avalanche de desejos e emoções dos quais não seremos capazes de nos livrar. Melhor é não dar o primeiro passo, evitando entrar na "masmorra da identificação". 

Quem medita muito e pratica a Morte em Marcha, mantém sua mente ocupada e não dá espaço para pensamentos invasivos. Em momentos de desespero e intensa tentação, busquemos o vazio mental e o silêncio interior. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Morte do Ego: não distrair-se com os defeitos


Na auto-observação, a meta não é entreter-se contemplando os defeitos, nem tampouco procurá-los quando não estão se manifestando. O objetivo da prática é perceber as manifestações concretas que ocorrem espontaneamente, evocadas pelo ginásio da vida. O ginásio da vida são as diversas situações exteriores que nos alteram e afetam psicologicamente, provocando o afloramento dos defeitos que estão ocultos. 

Quem não observa a si mesmo, não percebe quando se identifica, não vê quando se altera e nem se dá conta das manifestações que vão ocorrendo. Esquecido de si mesmo, o pobre adormecido vegeta, sem ter consciência alguma dos processos psicológicos que lhe acometem, somente percebendo os frutos desastrosos da atuação do Ego, quando os desastres já estão consumados.

Portanto, observar a si mesmo é algo muito conveniente e indispensável para quem quer alcançar a Morte. Mas há que se entender corretamente como se faz tal observação.

Observar a si mesmo não é ficar recordando dos defeitos, pensando nos erros, procurando os desejos a toda hora. Não é ficar correndo atrás do Ego, ainda que com a boa intenção de compreendê-lo. Quem fica correndo atrás do Ego perde sua existência. 

Não corra atrás do Ego, deixe que ele venha até você e esqueça-o quando não estiver aparecendo. Não se preocupe, ele surgirá no seu devido tempo. Aprenda a olhar para si mesmo sem se recordar do mal. Preste atenção no presente, no que está fazendo aqui e agora, e se esqueça de tudo o mais. Em tal estado receptivo, você perceberá quando algum defeito invadir sua personalidade, estará consciente e poderá colocar a Morte em Marcha em ação. Um dos erros que nós cometemos no passado, quando estávamos na Nova Ordem, foi nos ocuparmos com o Ego em tempo integral, motivo pelo qual não morremos. Fomos vítimas da crença errônea de que deveríamos correr atrás do Ego para eliminá-lo e compreendê-lo.

Ocupar-se com os desejos é uma forma de fortalecê-los. Não se ocupe com as coisas feias e erradas que você fez ou faz, esqueça-as. Apénas observe-se no presente, o Ser proverá o resto.

Na didática gnóstica, a Morte ocorre por conscientização e enfraquecimento. A consciêntização não consiste em reter os defeitos na consciência, consiste somente em perceber sua manifestação concreta e em esquecê-la. O movimento é o de tocar e largar, não o de agarrar e prender. Apenas vemos, nos damos conta, e esquecemos em seguida. O enfraquecimento vem pela oração á Mãe Divina. Quando os detalhes são percebidos, mortes e esquecidos, o defeito que configuravam vai perdendo força, até desaparecer. O processo é o de tirar a força e não o de fazer força contra. Quanto mais tiramos a força de um defeito, menos nos ocupamos e nos preocupamos com ele.

Aprendamos a viver o esquecimento, o desprendimento. 

Enquanto alguém corre atrás de um defeito, não se dá conta das inumeráveis alterações psicológicas que invadem sutilmente sua personalidade. Se estivesse simplesmente observando-se aqui e agora, perceberia as nuances e detalhes dessas alterações psicológicas reais que lhe afetam a todo momento.

O que buscamos é penetrar na realidade do Ego por meio da observação direta do que acontece no presente e não por meio de elocubrações teóricas e imaginações absurdas. Queremos enxergar a realidade concreta dos egos e isso não é possível fora do terreno observacional do presente. Você não pode ver o Ego ontem, amanhã, lá ou acolá, somente agora e aqui. 

Observar a si mesmo significa observar a própria pessoa que somos, a pessoa concreta. Quem observa sua própria pessoa concreta, sem distrair-se pensando sobre seus defeitos e nem procurando-os onde não estã, verá claramente as alterações que vão ocorrendo nos centros e perceberá as nuvens que vão se formando quando a identificação com algo está em curso. Isso é o que necessitamos: ser perceptivos em relação a nós mesmos.

Quando uma pessoa está se observando corretamente, percebe detalhadamente todas as alterações psicológicas e comportamentais que lhe ocorrem. Quando está distraída com algum pensamento ou desejo, não percebe nada ou percebe muito vagamente.