Translate

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Pensar: grave erro que cometemos!

O V.M.R. orienta-nos a não "levar a mente ao sexo oposto" durante a prática do arcano (maithuna), caso contrário, será impossível evitarmos uma ejaculação. O que se entende por "levar a mente ao sexo oposto"? Pensar na mulher (ou no homem) e em tudo o que estiver direta ou indiretamente relacionado a ela, absolutamente tudo. E o que é pensar? Pensar é imaginar (mecanicamente), ver na tela da mente, lembrar, raciocinar, analisar, fantasiar e também duvidar. Tudo isso enquadra-se na expressão "levar a mente ao sexo oposto". Em outras palavras, no arcano, sentimos e praticamos, mas mantemos a mente parada, sem projetar.
Entendo que esta orientação pode ser estendida para todos os âmbitos do desenvolvimento espiritual.
Um dos vários erros que podemos cometer consiste em pensarmos nas práticas, na morte em marcha, nos problemas da vida e em tudo o mais. Pensamos em demasia e acreditamos que pensando poderemos resolver as situações. Pensamos buscando soluções, mas elas muitas vezes surgem de onde não estamos esperando e sem que houvesse necessidade alguma de pensarmos.
Quando temos um problemas, ficamos martelando-o mentalmente, em busca da soluções. Quando alguém que amamos falece, ficamos pensando, como se o pensamento resolvesse ou melhorasse a situação.
Observando os animais, me dei conta de que eles não sofrem tanto quanto nós por que não possuem a mesma capacidade de pensar. Isso lhes protege do sofrimento em grande medida.
Mesmo o sofrimento físico fica atenuado quando não se pensa nele e, após ter passado, não deixará sequelas ou, se as deixar, serão poucas. Não pensar é um dos segredos para libertar a alma do sofrimento, por isso é que costumo dizer que a morte do Eu é o esquecimento.
Entretanto, somos viciados no pensar. Acreditamos que o pensar é imprescindível. Nossa capacidade de pensar, indubitavelmente, nos conferiu o poder de manipular a matéria, desenvolver a ciência e a tecnologia, mas o preço que pagamos foi alto: nos tornamos criaturas sofredoras. Sofremos com o passado que se foi, com o futuro que tememos. Tudo porque somos muito mentais.
No que se refere às práticas que queremos tanto desenvolver (Morte do Ego, concentração, meditação, viagens astrais, magia sexual), podemos afirmar que o pensamento é absolutamente desnecessário e prejudicial. Ficar pensando no trabalho interior é não realizá-lo.
Não necessitamos pensar para nos observarmos, nem para levantar da cama e sair em astral. Tampouco necessitamos pensar para orar. A meditação é a busca do não-pensamento, pois Deus, a Grande Verdade, está muito além do corpo, dos afetos e... da mente!
Entendo que o desenvolvimento interior resulta, entre outras coisas interessantes, na capacidade de enfrentarmos as situações mais aterradoras da vida sem levarmos a mente ao negativo, ao desastre, sem pensarmos no pior. É uma capacidade que somente alguns poucos homens possuem e que se consegue somente com a morte do Ego. Por isso a Morte é tão importante.
Limpemos a mente continuamente, a todo momento. A auto-observação não pode ser realizada se a mente estiver suja. Se ficarmos pensando, como poderemos enxergar? Descobrir novas facetas do ego no cotidiano requer lucidez, observação atenta, as quais não são possíveis se estivermos pensando. O trabalho sobre a mente é, portanto, fundamental.
Na origem de todos os problemas psíquicos e emocionais está a mente. Na mente está a origem do ego. Se alguém quiser descobrir detalhes do Eu, terá que domar a mente para poder focar a atenção sobre si mesmo. Surge aqui então um problema: como silenciar a mente?
Todos temos uma capacidade relativa de silenciá-la pela vontade, de suspender o pensar, ainda que seja por alguns poucos instantes. A capacidade se desenvolve com o exercício. É esta capacidade que exercitaremos e, à medida que formos morrendo, a iremos aumentando. Aqui não se trata de silenciar todos os níveis subconscientes, como se busca na meditação, pois não estamos tentando dissociar a essência livre dos pensamentos e sim observar os defeitos que afloram durante as relações sociais ou mesmo quando estamos sós. A meta, aqui, não é meditar e sim morrer. Na meditação, esquecemos completamente do eu, nos dissociamos dele para mergulhar no real. Na morte, da qual trata esta explicação que estou dando, observamos o eu para conhecê-lo. Então são dois casos distintos: em um caso nos esquecemos do eu e no outro nos ocupamos com ele, em um caso viramos as costas ao eu e no outro nos voltamos para ele. Mas em ambos os casos a mente irá tentar atrapalhar e impedir.
Observemos a nós mesmos de fora, como observaríamos uma outra pessoa, buscando compreender o que fazemos cada vez com mais clareza.

Fiquem com Deus

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O erro de adotar posturas negativistas

Um erro cometido por muitos de nós, estudantes gnósticos, a meu ver, foi tomar o ensinamento de modo negativista. A Gnosis não é, de modo algum, algo negativo e não cultiva a negatividade. Entretanto, muitos estudantes a tomaram sob esta perspectiva, abordando-a de modo pessimista. Ao invés de se ocuparem com a castidade, se ocuparam com a luxúria, ao invés de se ocuparem com o despertar, ocuparam-se com a inconsciência. Criamos o vício de prestar atenção no mal, de nos ocuparmos com ele e, desta forma, o energizamos.
O ensinamento dos Veneráveis Mestres é um ensinamento de regeneração e não um ensinamento derrotista. Eles nos ensinaram que existe uma Mãe Divina que liberta nossa alma dos pecados, que há um Pai que nos guia e contra o qual a escuridão não tem poder, que existem hierarquias que nos defendem quando estamos trabalhando. Também ensinaram que o desenvolvimento espiritual é perfeitamente possível ao homem, mesmo que se tenha um carma grave, desde que se mude de conduta, o que é perfeitamente possível quando se quer e se conhece os meios.
Entendo que a Gnosis é algo positivo, superior e otimista, sem ser alienante. Uma das razões pelas quais não avançamos é porque focamos a atenção no que não queríamos, ao invés de focá-la no que queríamos. Sempre demos muita importância ao que não deveria e, assim, energizamos o indesejável. Ficar pensando nos defeitos, ainda que com a boa intenção de estudá-los, é atraí-los e dar-lhes força. Damos forças ao mal quando nos ocupamos desnecessariamente com ele.
A Gnosis ensina que existe um Deus Único (Unidade Absoluta), de onde se origina toda a criação, todos os mundos, todas as hierarquias e todos os Eons. Esta Grande Origem tem o nosso Real Ser como uma de suas múltiplas manifestações. O caminho para o retorno é amoroso: temos que amar a Deus sobre todas as coisas. O que é amar o Divino? É querer unir-se, estar junto, em comunhão, fazendo a Sua vontade. É querer fazer a vontade do Pai e não a nossa. Amar a Deus é chorar por Sua presença, é não aceitar Sua distância. É sentir com todo o coração e com toda a alma um ardente desejo de Ser. É o caminho da emoção superior. Amá-lo sobre todas as coisas é amá-lo mais do que amamos a este mundo de vãs ilusões que passam, é amá-lo em sua Eternidade, porque Ele é o Eterno, o Imutável, o Ser. Quem ama a Deus mais que a tudo, deseja ir embora deste mundo e viver com Ele para sempre. Estou usando termos masculinos (Deus, Ele), mas Deus está além dos gêneros, é Andrógino: Alfa e Ômega, duas polaridades em uma. Sua manifestação feminina é a Mãe Divina, que vemos em todos os cultos ancestrais da Terra.
Amar a Deus é também confiar, pedir e descansar na confiança. Se confiamos em nosso Pai Interno e em nossa Mãe Divina, não poderemos de modo algum ter uma visão pessimista da vida, não há espaço para o desespero, não importa o que esteja acontecendo. Se amarmos sinceramente nosso Ser, Ele nos salvará, resgatará nossa alma do pecado, a atração fatal da matéria, se comunicará conosco por diversos sinais e não seremos obrigados a acreditar nas pregações de líderes religiosos, pois estaremos bebendo da água da vida na fonte. Ele nos dará a comprovação e a experiência direta, e não teremos que acreditar em homens. Teremos uma fé verdadeira, apoiada na experiência espiritual direta, e não uma simples crença ou crendice.
O conhecimento espiritual e a fé verdadeira estão ao alcance de qualquer pessoa que os busque sincera e corretamente. Uma simples oração é respondida de diversas formas, mas, por sermos sempre tão negativos, pessimistas e céticos, simplesmente não vemos as respostas, já que focamos nossa atenção no mal e não no bem. É claro que aqui na Terra o mal existe e não podemos negligenciá-lo, mas tampouco devemos dar-lhe forças ocupando-nos com ele desnecessariamente.
Por muito tempo, cometi o erro de ser pessimista e ressaltar a negatividade, sob a justificativa de "tentar melhorar". Na verdade, tal postura tem o efeito de atrair e reforçar justamente o que não queremos.
Quanto mais exercitarmos a fé em Deus, mais ela se desenvolverá e é somente por meio da fé que podemos avançar espiritualmente.
Para sermos socorridos por nossa Mãe Divina e por nosso Pai que estão nos céus, é imprescindível amá-los e nEles confiar.
Os efeitos prejudiciais do derrotismo é bem apontado pelo V.M. Samael neste texto:
"O animal intelectual, falsamente chamado homem, tem a idéia fixa de que a aniquilação total do Ego, o domínio absoluto do sexo e a Auto-Realização Íntima do Ser são coisas fantásticas e impossíveis, e não se dá conta de que esse modo de pensar tão subjetivo é fruto de elementos psicológicos derrotistas que dirigem a mente e o corpo daqueles que não despertaram a consciência.
As pessoas desta época caduca e degenerada carregam em seu interior um agregado psíquico que é um grande estorvo no caminho da aniquilação do Ego: o Eu do derrotismo.
Os pensamentos derrotistas incapacitam as pessoas de elevar sua vida mecânica a estados superiores. A maioria das pessoas consideram-se vencidas já antes de iniciar a luta ou o trabalho esotérico gnóstico.
Temos que nos auto-observar e auto-analisar para descobrir dentro de nós mesmos, aqui e agora, essas facetas que constituem isso que se chama derrotismo.
Sintetizando, diremos que existem três atitudes derrotistas comuns:
1) Sentir-se incapacitado por falta de educação intelectual.
2) Não sentir-se capaz de iniciar a Transformação Radical.
3) Andar com a canção psicológica: nunca tenho oportunidades de mudar ou triunfar.

PRIMEIRA ATITUDE

Quanto a sentir-se incapacitado por uma falta de educação, temos de nos lembrar que todos os grandes sábios como Hermes Trimegisto, Paracelso, Platão, Sócrates, Jesus Cristo, Homero, etc, nunca foram à universidade. Na realidade e de verdade, cada pessoa tem seu próprio Mestre, sendo este seu próprio Ser, “isso” que está além da mente e do falso racionalismo. Não se confunda educação com sabedoria e conhecimentos.

O conhecimento específico dos mistérios da vida, do cosmos e da natureza é uma força extraordinária que nos permite conseguir a revolução integral.

SEGUNDA ATITUDE

Os robôs programados pelo anti-Cristo - a ciência materialista - sentem-se em desvantagem porque não se sentem capazes. Isto deve ser analisado. O animal intelectual, por influência de uma falsa educação acadêmica que adultera os valores do Ser, fez com que em sua mente sensorial existam dois terríveis eus que devem ser eliminados: a idéia fixa: “vou perder”, e a preguiça para praticar as técnicas gnósticas a fim de adquirir os conhecimentos necessários para emancipar-nos de toda a mecanicidade e sair, de uma vez por todas, dessa tendência derrotista.

TERCEIRA ATITUDE

O pensar do homem-máquina é: nunca me dão oportunidades...
As cenas da existência podem ser modificadas. É a pessoa mesmo que cria suas próprias circunstâncias. Tudo é resultado da Lei de ação e consequência, mas com a possibilidade de que uma lei superior transcenda uma lei inferior.
É urgente, é improrrogável, a eliminação do eu do derrotismo. Não é a quantidade de teorias o que conta e sim a quantidade de super-esforços que se façam no trabalho da Revolução da Consciência. O homem autêntico fabrica no momento que quiser as ocasiões propícias para o seu adiantamento espiritual ou psicológico."

(A Revolução da Dialética, cap. 7, "O derrotismo")

As experiências da vida condicionam o inconsciente. Se tenho pavor de batatas, imagino que sejam perigosas. Se imagino que sejam perigosas, sonho com batatas ameaçadoras e monstruosas. Se tenho tais sonhos, é porque me condicionei inconscientemente a vê-las de tal modo. E me condicionei porque tive experiências desagradáveis com batatas. Para descondicionar-me, tenho que repassar conscientemente todo o processo para resignificá-lo.
Se me considero um fracasso na meditação e na morte do Ego, minhas práticas não terão resultado algum devido a tal condicionamento inconsciente. Experiências passadas necessitam ser acessadas e corrigidas.
Nosso inconsciente foi programado para acreditar que o desenvolvimento espiritual é impossível, que não existem tais possibilidades no homem, que a realidade se limita ao sensorial etc.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tarefas práticas

Para quem ainda não entendeu a morte do ego, algumas propostas práticas que podem ajudar:

1. Primeira proposta:

Observe-se durante um dia inteiro ou durante algumas horas, à procura dos pensamentos, atos, frases, movimentos etc. que de algum modo alimentarem um defeito (por exemplo, a ira). Anote-os e depois releia. Esses canais de alimentação que você descobriu são os detalhes ou facetas do defeito observado. Rasque ou queime as anotações depois, pois isso não é da conta de ninguém.

2. Segunda proposta:

Observe, durante outro dia, as pequenas reações de todo tipo que você tem perante as situações, pessoas etc. Anote essas reações e releia depois. Aí estão vários detalhes descobertos.

Entendeu? É simples assim: apenas olhar para si mesmo e ver.

O que se faz com esses detalhes, uma vez descobertos? Pede-se por sua morte à Mãe Divina. Você deve pedir instantaneamente, no mesmo instante em que os vê, e não esperar para depois. Peça pela morte deles em plena manifestação, sem reprimí-los mas também sem satisfazê-los.

3. Outra proposta: corte toda alimentação de um defeito por um tempo, com esse procedimento da Morte em Marcha, e observe os resultados. Você comprovará que ele se enfraquece, perde o poder sobre você.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ego e distorções cognitivas

Todo defeito corresponde a uma visão distorcida da realidade. Por isso se diz que os egs são "os elementos subjetivos das percepções" (V.M.S.).
Um defeito é uma cognição condicionada, distorcida, que resiste às simples tentativas voluntárias de corrigí-la. Um homem pode compreender intelectualmente que um vício o prejudica, mas ainda assim, este vício permanecerá atormentando-o, pois a porção de sua psique correspondente ao vício (a parte que sente o desejo) entende as coisas de modo diferente.
O ego correspondente a um vício considera este mesmo vício algo maravilhoso. Daí a necessidade de compreendermos o defeito, se quisermos eliminá-lo. Quando se trabalha com a morte em marcha, esta compreensão vai se configurando naturalmente, como resultado da observação constante.
Se prestarmos atenção, perceberemos que os defeitos distorcem nossa percepção da realidade. Por exemplo: um luxurioso não vê o sexo e nem as mulheres tal como são, de forma objetiva, mas sim de forma subjetiva e distorcida, os vê de acordo com a ótica do eu da luxúria. É uma visão condicionada da qual o luxurioso não escapará a menos que dissolva a causa do problema: o ego. O mesmo se passa com a ira, a inveja e os demais defeitos que tenhamos.
O Ego não permite ao ser humano enxergar a realidade, distorce tudo e faz com que vivamos em um mundo de ilusões e mentiras. Por isso é tão importante destruí-lo.

Um pouco sobre o medo

O medo é um sentimento/emoção poderoso que invade a alma e vincula-se, assim como os outros defeitos, a um condicionamento da cognição. A pessoa atemorizada está com o entendimento distorcido e não consegue recobrar a lucidez. No fundo, subconscientemente, acredita que o medo poderá alterar favoravelmente a situação, o que é falso.
A pessoa atemorizada não compreende, em profundidade, que o medo, em si mesmo, não a beneficia em nada e não melhora o problema que o origina. Mesmo que tente fazê-lo, não conseguirá, visto que seu entendimento está condicionado, ou seja, sua consciência está embotelhada. O medo não salva e nem transforma o problema para melhor. Ele é, portanto, inútil. Ainda assim, o atemorizado acredita inconscientemente na necessidade do medo. Essa crença é algo autônomo, não obedece à simples vontade e não adianta simplesmente determinar-se a não temer.
Explorando o medo, descobriremos vários canais que o alimentam: muitas atitudes, movimentos, falas, pensamentos etc.
A eliminação do medo requer a morte do defeito psicológico que o origina e a transmutação da energia sexual, visto que o descarregamento energético do corpo leva a pessoa a se sentir exposta, vulnerável.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Tranquilidade na concentração

O relaxamento é uma das partes mais importantes da meditação e não deve ser negligenciado. Aperfeiçoar a meditação não é somente aperfeiçoar a concentração, é também aperfeiçoar o relaxamento.

Por meio do relaxamento, damos início ao processo de "desligamento" do corpo físico e do mundo exterior. Ao aprofundá-lo, começamos a rumar em direção ao vazio.

A concentração/meditação não é algo que acontece pela oposição e nem pelo empenho de ser contrário ao seu oposto (a desconcentração e a atividade mental dispersa dos vários pensamentos). Não se trata de ir contra nada. A concentração é simplesmente uma continuidade do relaxamento, sua continuação além do nível muscular. Há, entre o relaxamento e a concentração, um continuum.

São palavras que exprimem mais ou menos a correta concentração: esvaziar, acabar, relaxar, desfazer, sumir, cair no vazio, tranqüilizar-se, morrer (por que não?) e sumir, sumir, sumir... Ainda assim a consciência é preservada, ela não se vai, a percepção continua. São palavras que exprimem o que se sente no processo: relaxar, desfazer-se, desprender-se, desaparecer, desligar-se de tudo, até o fim...

Concentrar-se não é criar conflitos com os pensamentos. A concentração não é uma oposição aos milhares de pensamentos que nos distraem, é uma continuidade do relaxamento, a qual nos faz cair ao pensamento único, nos leva para dentro dele. E a meditação não é nenhum trabalho de esforço mas, pelo contrário, um trabalho de não esforço, de entrega e de desprendimento total.

Concentrar-se é desprender-se da mente, dos milhares de pensamentos e distrações e não envolver-se com os mesmos em uma luta. É um abandono.

Quando os mestres se referem ao esforço, estão se referindo ao empenho e à dedicação, à disciplina de fazer algo sempre, com constância e continuidade, mas não, de modo algum, à tensão. Eles não se referem a nenhum tipo de tensão, portanto o esforço não deve ser entendido como sinônimo de tensão.

Concentrar-se não é forçar a atenção, é dirigi-la. Dirigir a atenção não é forçá-la, é escolher um alvo e voltá-la para o mesmo.

Quanto mais concentrados estivermos, mais soltos e vazios estaremos.

Concentração não é tensão mental de nenhum tipo, é uma questão de escolha. Escolher não é sinônimo de tensionar-se.

Conforme a concentração se aprofunda, o relaxamento atinge níveis sub/inconscientes. A concentração é acompanhada pelo descanso cada vez maior dos centros emocional e intelectual.

Um monge que atinge profunda e intensa concentração seguiu um caminho contrário ao do esforço e da tensão mental.

Não é correto falar de relaxamento mental porque temos muitas mentes. Mas podemos definir a concentração profunda como relaxamento, descanso e inatividade dos centros emocional e intelectual.

Não se consegue reduzir a atividade dos centros mediante o esforço, mas sim mediante o não-esforço. O trabalho de concentrar-se é o trabalho de acabar com os esforços para concentrar-se.

Direcionar a atenção é mantê-la de forma "plena, natural e espontânea em algo que nos interessa, sem artifício de espécie alguma"(1). O esforço e a tensão são artifícios que bloqueiam a concentração, por não permitirem que a atenção seja plena, natural e espontânea.

A palavra "esforço" tem duplo sentido. Em seu sentido usual no ocidente, evoca a idéia de tensão e ansiedade. Entretanto, há também outro significado: dedicação, empenho. Quando os V.V.M.M. se referem ao esforço e ao super-esforço, estão se referindo à dedicação, à constancia, à tenacidade e à disciplina e não à teimosia, à tensão, ao desespero por resultados, à ansiedade.

É necessário buscar a concentração de forma tranquila, intensificando a sensação de tranquilidade. Precisamos ter a tranquilidade como um caminho a ser seguido, como um guia: se a tranquilidade se perturba, estamos nos desviando do curso.

A concentração é a atenção plena, natural e espontânea (V.M.S.). O fio condutor desta atenção plena no objeto não é o esforço e sim a tranquilidade; quanto mais concentrados, mais calmos estaremos.

O esforço é perturbação. A mais leve perturbação ou ansiedade tem que ser evitada. Ansiedade por concentrar-se, por ter êxito na prática, é perturbação.

Nossa cultura ocidental, infelizmente, associa idéias de esforço, preocupação e tensão às palavras "alerta", "atenção" e "concentração". Isso conduz ao erro de acreditar que concentrar-se é fazer esforço e lutar contra os múltiplos pensamentos em favor de um só pensamento. A concentração que conduz à meditação, entretanto, é o aprofundamento do relaxamento.

Quando alguém vê um monge em concentração e meditação profundas, imagina que ela está fazendo intensos esforços. Na verdade é contrário: todo seu empenho é em não realizar esforço algum. Ele eliminou todos os esforços, todas as tensões, todas as preocupações, caiu no esquecimento.

O relaxamento é a soltura total no nível muscular. A concentração é a continuidade desta soltura no plano psíquico. É por isso que o V.M. Samael, referindo-se à concentração no mantram Fa - Ra - On, diz:

"Evitad toda la tensión mental y adormeèzcase" (2)

Portanto, concentrar-se é aprofundar a soltura, entregando-se ao pensamento único. É deixar-se levar, sumir-se, acabar-se naquele pensamento, viajar nele. Em tal processo não se perde a lucidez, muito pelo contrário: a lucidez aumenta.

Notas:

(1) V.M.Samael Aun Weor. O Mistério do Áureo Florescer
(2) V.M.Samael Aun Weor. Meditación y Gnosticismo Práctico. Conf. "Naturaleza practica del mensaje de acuario"

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Impulso de variação

O impulso de variação (trocar de mulher constantemente, experimentar mulheres novas) difere do impulso copulatório em si mesmo. Não é o impulso de acasalar-se mas sim de experimentar sensações proporcionadas por mulheres desconhecidas. É uma espécie de "curiosidade sexual". Trata-se de um ego que necessita ser eliminado como todos os outros.

Alimentamos os defeitos diariamente

Alimentamos os defeitos a todo instante, sem nos darmos conta. Através de pensamentos, imaginações, falas, atitudes etc. reforçamos a nossa prisão interior.

Com uma simples frase, expressão facial, forma de andar ou se vestir, podemos estar fortificando algum defeito. O simples fato de imaginarmos uma mulher desejável proporciona, por exemplo, energia ao defeito da luxúria.

Se quisermos nossa liberação, o caminho a seguir é: não fortificar os defeitos de nenhuma forma.

É ilógico e absurdo tentar destruir um defeito ao mesmo tempo em que o alimentamos. Fortificar o inimigo do qual queremos nos livrar é um contra-senso.

Muitas pessoas lutam contra seus defeitos mas não vigiam os detalhes por meio dos quais os alimentam e reforçam. Fazem esforços em vão, fortificam o inimigo interior, como se pisassem no freio e no acelerador simultaneamente.

Somente com pensar, recordar ou mencionar algo, podemos estar alimentando defeitos correspondentes.
Quando queremos acabar com um defeito, temos que retirar de nossa vida tudo o que o alimente. Todos os canais de alimentação devem ser cortados, a começar pelos pensamentos. Nenhum pensamento que alimente o defeito deve ser deixado vivo. Além dos pensamentos, toda conduta e fala que o alimentem também devem ser eliminados. Dito em outros termos, TUDO o que se relacione, direta ou indiretamente, com o defeito que almejamos eliminar tem que ser cortado de nossa vida. Se algo for permitido, o defeito não morrerá.

Não poderei eliminar a luxúria de modo algum se manter conversas morbosas com meus amigos, se assistir filmes pornográficos ou ficar fantasiando sexo de várias maneiras. Não eliminarei o medo se ficar assistindo a filmes de terror, pensando no perigo, comentando sobre o perigo com as pessoas todo o tempo (o que difere de alertá-las). Um determinado ego pode colher energia e alimentar-se de diversas maneiras, por muitos canais, como fazem os capilares das raízes de uma árvore. A auto-observação consiste em descobrir os muitos canais por meio dos quais um defeito se alimenta, os quais estão escondidos em nossa vida, se processam na sombra, sem que os vejamos. Lançando a luz da auto-observação a todo instante, os descobrimos. Nisso consiste a descoberta de si mesmo, o auto-conhecimento e a compreensão dos defeitos.

Se, mesmo aplicando esta técnica de retirada dos “capilares”, o defeito que você quer eliminar não enfraqueceu, isso significa que você continua lhe fornecendo alimentos sem dar-se conta, que há muitos outros “capilares” que você não está vendo, ou seja, há muitos outros canais de alimentação escondidos em sua conduta.

A estratégia

A estratégia, em qualquer guerra, consiste em atacar o inimigo em seus pontos vulneráveis. Tentar vencer um inimigo atacando-o em seus pontos invulneráveis é falta de inteligência.
Na guerra contra o ego, as facetas sutis que lhe dão alimento a todo instante são os pontos vulneráveis a serem atacados. Enfrentá-lo frontalmente é certeza de fracasso por ir contra a estratégia.

Diferenciando os esforços

Estudantes gnósticos que confundem a verdadeira morte com o recalque giram em círculos por tempo indefinido, oscilando entre a sufocação dos desejos e o desenfreio. Por um tempo, controlam seus impulsos e, em seguida, os mesmos irrompem violentamente. Somente é possível sair deste círculo vicioso quando se compreende as diferenças entre a morte verdadeira e as várias simulações de morte. Na autêntica morte, a pessoa não realiza o esforço interior visando sufocação dos impulsos, típica do vício de recalcar desejos. O esforço interior correto corresponde principalmente a:

1. não identificar-se com os defeitos;

2. observar os detalhes dos eus em ação;

3. pedir por sua eliminação;

Além disso, há também empenho em manter a vigilância constante, em antecipar-se às obsessões, em não pensar e em descobrir se algum defeito está sendo reforçado (alimentado) por este ou aquele ato inocente.
Não faz parte do esforço correto a tentativa de segurar as emoções ou de controlá-las.
Para sabermos o quanto um "eu" está sendo enfraquecido, temos que deixar de tentar controlá-lo e, em um certo sentido, até deixá-lo meio "livre", para ser observado sem identificação.

Trabalhando nas causas

Sabemos que não devemos ejacular nosso precioso sêmen. Saber disso, contudo, não é suficiente para deter o compulsivo processo de ejaculação. Muito sofremos, com remorsos e medos, por não termos a verdadeira castidade.
Ocorre que tudo tem uma causa e não se pode deter a ejaculação (fornicação, masturbação e polução noturna) sem atingirmos suas causas. Quando perdemos o sêmen, esta triste perda se deve a processos interiores que ocorreram antes da perda, por baixo da nossa zona de percepção consciente. Talvez os tenhamos percebido superficialmente ou de forma vaga. Um defeito somente se "carrega" de força porque não aplicamos a morte, antes, sobre pensamentos, emoções e ações que o alimentam. O segredo é ir à causa. E onde está a causa? No "antes", nas manifestações que o antecedem. Sobre essas manifestações é que temos que direcionar o poder de fogo da Mãe Divina, e queimá-las sem recalque, apenas pela observação e oração.
Vigiar antes é o segredo.
Nós, principiante, não podemos ir conscientemente até o mundo das causas naturais, na sexta dimensão, para "desligar a tomada" que carrega os defeitos de energia, mas podemos, muito bem, remover as causas aqui no mundo tridimensional, que são os primeiros resultados (efeitos) físicos dessas causas que estão bem além, no mundo causal. No causal está a "causa causorum" e aqui estão as causas físicas. As causas físicas são efeito das causas que se encontram na sexta dimensão e, ao mesmo tempo, a origem da fortificação dos defeitos aqui.
O ato infeliz de ejacular deve, portanto, ser encarado como mero resultado de processos anteriores de fortificação, processos esses que se dão sem serem vistos claramente pela consciência, por ela não estar vigiando ativamente. Se você perde continuamente seu sêmen, saiba que essa perda resulta de processos psicológicos que você deveria ter observado em ação e que foi por não observá-los direito que isso está te acontecendo. Encare sua perda como resultado (efeito) de uma causa a ser conhecida. Qual causa? As manifestações dos detalhes. Vários detalhes se manifestaram através de você e você não os viu, não os observou e nem pediu pela dissolução. O resultado foi que de repente sentiu uma tremenda vontade de ejacular, ficou tomado por aquilo e não resistiu, obviamente. E como poderia ter resistido se deu alimento e forças ao inimigo?
Portanto, não fique se lamentando por fracassar, chorando ou duvidando de sua capacidade, da Gnosis ou dos Veneráveis Mestres. Há algo melhor para fazer: descubra o que te acontece antes de ficar louco de desejo. Caso se observe, verá que bem antes de ficar doido (minutos ou horas antes) você deixou que muitos pensamentos, frases, movimentos, lembranças, fantasias e emoções passassem em branco. Foi lá que você errou. Você negligenciou as causas, a origem. Corte um rio e a represa seca, arranque a tomada e maquinário se desliga. O ato de ejacular resulta de um erro de estratégia: tentar segurar o desejo ao invés de atacá-lo em suas origens. E onde estão as origens? Estão no cotidiano. Observe-as lá, procure-as e verá. São milhões de coisas aparentemente inocentes que te conduziram a isso. Tire-as de si e ficará livre dos seus efeitos nefastos. Não perca tempo fazendo esforços à toa, medindo forças com o gigante: acerte-o logo no ponto fraco. Não queira se mais forte que seu inimigo, seja mais astuto. Empregue toda a força que possui de maneira correta e verá os resultados interessantes que surgirão daí.
Sabemos que precisamos da castidade, não somente para tomar ayahuasca (se você for um gnóstico ayahuasqueiro, já que nem todos são) mas principalmente para fortificar o kundalini e o poder da Mãe Divina e do Cristo dentro de nós, aumentando a efetividade da morte do ego. Quanto mais casto formos, mais rapidamente o ego morrerá.
Pensemos na masturbação e nas poluções noturnas. Em ambos os casos, o sêmen é perdido porque a pessoa fantasia coisas "maravilhosas" com mulheres. Em que mulheres você pensou antes e durante o ato masturbatório? Com quais beldades você sonhou? O que imaginou estar fazendo com elas? Falarei claramente. Talvez você tenha imaginado sexo oral ou anal, múltiplas posições, rostos lindos, peitos redondos, peles lisas e depiladas, bocas gulosas e ávidas, lábios carnudos, traseiros empinados e loucuras. Com que mulheres você fantasia? Atrizes pornôs? Colegas de trabalho? Adolescentes? Sua vizinha? A esposa do seu amigo? Quem mais? Descubra, torne-se consciente disso e de tudo o mais que houver escondido aí no baú da sua mente.
Essas fantasias "maravilhosas" são, na verdade infernais, te fascinam e te arrastam pro fim. São fantasias que te tornam impotente sob todos os pontos de vista e acabam com a tua vida. Aprenda a enfraquecê-las em suas origens, antes que tomem força, e assim não ficará idiotizado.
Sócrates dizia que o vício da sensualidade deixava o homem estúpido. A experiência nos mostra que ele estava correto. Desta forma de estupidificação estão surgindo todas as aberrações que estamos vendo: pedofilia, zoofilia, necrofilia, coprofilia etc. e tudo ficará ainda pior, já que o humanóide está sempre insatisfeito e se lança desesperado em busca de novas sensações eróticas. Nessa busca infernal não há fim, é a queda de cabeça em um precipício sem fundo.
Pois bem, meu amigo, se você quer mudar, estou do seu lado e quero te ajudar. Se quer se livrar dessas maldições, descubra o que te acontece antes de ficar louco de desejo e remova tudo isso.
Você falha uma e outra vez, fracassa e cai novamente na fornicação ou na masturbação? Não importa! Continue pois, como disseram os Veneráveis Mestres, ninguém se ergue reto como um pinheirinho, o que importa não são as caídas mas sim a falta de coragem de nos levantarmos e continuar. O que importa é continuar, assim a experiência se acumula. Lembre-se: para o Espírito não há tempo, Ele é imortal.

Por que não avançamos na busca da castidade?

Nós, os aspirantes espiritualistas, temos sofrido muito com os defeitos, principalmente com a luxúria em suas muitas variações (adultério, fornicação, masturbação, promiscuidade etc.), às quais podem chegar até mesmo a perversões e aberrações. O vazio que se sente após as caídas é terrível e costuma ser acompanhado por medo e preocupação a respeito de nosso destino e futuro no campo espiritual.

Pensemos agora especificamente na luxúria. A luxúria, tal como costumamos concebê-la,isto é, como um "Eu" único ou defeito único, não existe. O que existem são milhões e milhões de facetas luxuriosas que se associam formando um gigantesco bloco composto por partes diminutas e ao qual chamamos de "defeito da luxúria". Por uma simples questão de comodidade e facilidade de expressão, dizemos "o eu da luxúria", mas em verdade não há tal coisa, não há um "eu da luxúria" e sim muitíssimos "eus da luxúria".

O motivo pelo qual não conseguimos nos livrar deste defeito terrível é exatamente este: porque o alimentamos a todo momento sem nos darmos conta. Reforçamos a luxúria ao longo de todo o dia através de pensamentos, falas, atitudes e olhares. Se nos observarmos= em plena relação com as pessoas, perceberemos atos, falas, olhares, pensamentos, movimentos etc. aparentemente inocentes mas que, em realidade, fortificam este defeito.

A interrelação com os semelhantes é imprescindível para que haja este descobrimento. Embora também possamos alimentar a luxúria sozinhos, através da imaginação morbosa, em contato com o sexo oposto muitas outras manifestações surgem e podem ser flagradas. É um erro, portanto, evitar o contato social. E é outro erro identificar-nos com as mulheres enquanto travamos o contato social. O ideal é: travar o contato social com mulheres sem nos identificarmos com elas para que possamos nos observar e descobrir as muitas facetas da luxúria em plena atividade. Se não for por este caminho, não conseguiremos nos livrar.

Outro erro consiste em tentar aplicar a Morte em Marcha nos defeitos já "carregados" (reforçados com energia), sem deixar de alimentá-los. Isso equivale a pisar no freio e no acelerador: por um lado os enfraquecemos mas por outro os reforçamos. Muitas pessoas sinceras aplicam a Morte nos desejos intensos, mas não prestam atenção nas muitas maneiras pelas quais os alimentam. Por exemplo: o estudante reforça a luxúria o dia todo e, à noite, tentar conter os impulsos fornicadores/ejaculatórios. Preocupam-se, sinceramente, em combater tais impulsos, mas não se preocupam em retirar os comportamentos que os reforçam. É por isso que não avançam.

A libertação da luxúria e a conquista da castidade resultam naturalmente da eliminação das pequenas facetas detectáveis no dia. Não é algo que se conquiste diretamente pela força, mas sim pela estratégia. A castidade é um resultado e não propriamente uma meta, pois a meta é enfraquecer o impulso sexual irrefletido e despótico. Não se preocupe, você não ficará eunuco e nem perderá o instinto ou potência, apenas irá adquirir maior controle sobre si mesmo e aumentará a margem do seu livre arbítrio nesse campo.

O fundamental é aprender a nos vermos enquanto estamos em contato com elas, em plena relação social com o sexo oposto. Na presença delas, evitemos os identificar e olhemos para nós mesmos, verificando se o que estamos fazendo ou dizendo, num dado momento, está ou não reforçando este nefasto defeito. Em outras palavras, temos que vigiar o que estamos fazendo, buscando em nosso comportamento as formas de reforço.

O que tenho feito, seguindo as diretrizes deixadas pelos V.M.s em seus livros, é o que explicarei a seguir.

Observando-me em plena presença de mulheres, costumo me perguntar: "Isto que estou fazendo agora, neste momento, está reforçando a luxúria ou não?". Faço a pergunta sinceramente e busco a resposta com mais sinceramente ainda através da observação direta, sem teorizar. Deixo a mente passiva, procuro não pensar e nem raciocinar a respeito, e vou observando e me dando conta. É claro que um principiante raciocinará um pouco, mas com a prática ele aprenderá que não precisa pensar na questão, bastando apenas olhar.

Essa indagação pode ser aplicada a qualquer outro defeito. Funciona com a ira, com a gula e com todos os outros egos. O que importa é vigiar, buscando detectar qualquer coisa que possa reforçar o defeito. Durante a vigilância, temos que buscar o que está por trás dos comportamentos, atos, diálogos, formas de se vestir etc.

Nossos comportamentos, por mais comuns que nos pareçam, podem ter consequências psicológicas. Temos que nos inquirir a respeito dessas consequências psicológicas do que fazemos. Nesse sentido, podemos dizer que nossa forma de agir, pensar e sentir constituem "causas" (no nível tridimensional) cujas consequências são a fortificação dos agregados psíquicos, defeitos ou complexos.

Suponhamos, por exemplo, que você esteja segurando um livro com a mão direita. Será que por trás deste ato há alguma intenção excusa escondida? Observe-se sinceramente. Caso você detecte alguma intenção secundária vinculada a algum defeito, você o estará alimentando.

Se quisermos eliminar a luxúria, nenhuma frase, pensamento ou expressão deve passar "em branco". Todas devem ser percebidas em flagrante e eliminadas no mesmo instante.

O trabalho de morte em marcha resolve o problema da compreensão, pois nos fornece um entendimento progressivamente mais profundo dos defeitos, e também impede que defeitos enfraquecidos ressucitem.

Todos temos, com certeza, muitas dificuldades nesse campo específico, por isso, sugiro a leitura do livro "A Prática do Brahmacharia", de Sri Swami Sivananda. É um livro com muitas orientações esclarecedoras e pode ser obtido aqui:




sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Eus bons e eus inofensivos

Entendo que os detalhes são os eus bons e os eus inofensivos, para os quais não damos importância por terem o caráter prejudicial sutil e de difícil detecção. Para detectá-los, necessitamos de "olho clínico", como disse o V.M.S. em "Dialética da Razão Objetiva". Tais eus muitas vezes não causam dano visível algum e, apesar disso, alimentam elementos psíquicos perigosos.

O caráter prejudicial dos detalhes é sutil, nos escapa à observação superficial. Por serem inofensivos em aparência, acreditamos que não sejam defeitos e não lhes damos importãncia. Damos-lhes livre curso por acharmos desnecessário dissolvê-los, já que não nos parecem prejudiciais.

Portanto, temos que observar nossos comportamentos inofensivos com o intuito de verificarmos se não alimentam defeitos.

******

O Ego a ser observado não é somente aquela parte nossa que comete delitos, é tudo o que designamos por "Eu". Inclui tudo o que fazemos, dizemos, sentimos e pensamos, não se limitando àquilo que a moral e a cultura definiram como "errado" ou "feio". O Ego a ser compreendido vai muito além do que a cultura considera "imoral" ou impróprio.

Se não for assim, se a observação não romper com os limites da moral, não se chega aos fundamentos dos defeitos mais perigosos. Os defeitos mais prejudiciais alimentam-se a todo momento por meio de manifestações "inocentes" que são perfeitamente aceitáveis dos pontos de vista social, cultural e moral. Atos e pensamentos que acreditamos ser inofensivos e até benéficos podem estar nutrindo elementos psíquicos altamente prejudiciais e perigosos. O eu da fornicação, por exemplo, se alimenta a todo momento sem que o percebamos. O mesmo se dá com o eu do medo, da gula etc. Somente a observação rigorosa detecta as manifestações que os alimentam.

A sensação de que se está evitando o confronto

No trabalho da morte em marcha, podemos ser tomados pela sensação de que estamos evitando o confronto com o Ego ou de que estamos fugindo dele. Tal sensação procede do fato de que nos ocupamos exclusivamente com os detalhes que circundam o defeito e evitamos o confronto direto com o núcleo.

Quem é observado

Quando nos observamos, é importante não esquecermos que o "Ego" é nossa própria pessoa, embora não seja nossa essência, e corresponde a praticamente tudo o que nos proporciona a sensação de "Eu".

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Eus que se reforçam

Aquele que reprime o Eu não consegue observar o enfraquecimento que
vai acompanhando as petições por sua morte.
Muitas vezes um defeito se fundamenta em valores aparentemente
distintos e até opostos à sua meta . Ex. uma forte excitação sexual
pode se fundamentar (ou ser reforçada) no medo ou até no ódio. Cada ego possui sua
lógica própria que necessitamos descobrir e compreender. É um
sentido ou lógica que costumam diferir do que entendemos por
coerência. Uma situação perigosa, por exemplo, poderá excitar
sexualmente algumas pessoas cujo defeito associe perigo ao valor
sexual do ato. Os exemplos e variações desta tendência são
infinitos.
Um desejo pode estar apoiado em outro com o qual não tenha nenhuma
relação aparente.

domingo, 15 de novembro de 2009

Compreendendo os prejuízos dos defeitos

Compreender um defeito é dar-se conta de sua ridicularia e de seu caráter absurdo. Sob estado de identificação, consideramos os defeitos úteis, benéficos e até indispensáveis, apesar de todos os seus efeitos destrutivos sobre nossa vida e nossa alma. Os prejuízos ficam excluídos do campo de nossa pobre e adormecida consciência, durante o estado de identificação. Identificados com os desejos e pensamentos, nos tornamos ignorantes a respeito dos danos ocasionados pelos defeitos. À medida que avançamos na compreensão, mediante a auto-observação rigorosa e a morte em marcha, vamos nos dando conta de quão ínúteis e perigosos são os egos.Identificar-se com um defeito equivale a distorcer a cognição, a perturbar o entendimento. O entendimento, sob a ótica dos egos, se torna enviesado, tendencioso e condicionado. Tal classe de entendimento nos leva a concluir que os agregados psíquicos são importantes.Uma pessoa obsessionada por um desejo ou sentimento negativo não pode ser considerada sã. Está louca, pois perdeu a capacidade de julgar com clareza. Por isso o V.M.S. diz que "sua consciência se processa em função do seu próprio embotelhamento". De fato, a consciência, ou inteligência, do adormecido se processa de modo condicionado, isto é, tendencioso, subjetivo e unilateral. Aquele que está obsessionado pela luxúria, inveja, ódio etc. acredita, em tal estado lamentável, que os pensamentos, impulsos, comportamentos e desejos que está tendo lhe trazem benefício, satisfação etc.Quando aprendemos a retirar as causas (detalhes) que originam as manifestações mais pesadas dos egos, aos poucos os vamos compreendendo e percebemos, de fato e não por simples associações intelectuais, seus prejuízos sobre a nossa vida.

Rompendo a cadeia de manifestações

Antes que um defeito "se carregue" (V.M.R.) sobre algo ou alguém (uma dama, por exemplo), outras manifestações, com menor gravidade, o antecederam e se encadearam em uma sequência que conduziu até aquele estado. A partir de manifestações sem gravidade alguma, originam-se outras manifestações, com gravidade maior. As várias manifestações, em sequência, formam uma cadeia cujo término é a manifestação do defeito propriamente dito (obsessão), cuja gravidade pode ser alta e do qual almejamos nos livrar. Um erro comum que nós, estudantes e aspirantes, cometemos consiste em não darmos importância às manifestações antecedentes e em tentar enfrentar o defeito "já carregado", isto é, já fortificado e em plena manifestação. Tal erro se deve à ausência de gravidade das manifestações comuns, do ponto de vista kármico. Como essas manifestações não nos parecem tão graves e não nos preocupam, não lhes damos importância e lhes damos curso livre. O resultado é, então, a fortificação dos defeitos considerados "perigosos" e nossa consequente impotência ao tentar enfrentá-los.Comportamentos que consideramos inocentes, inócuos e desprovidos de quaisquer relações com os defeitos propriamente ditos podem, na verdade, ser facetas pelas quais os mesmos se nutrem. A estratégia correta consiste em identificar essas múltiplas facetas, flagrando-as em plena manifestação. Ignorá-las e tentar enfrentar diretamente o defeito poderoso é um erro estratégico pois isso seria o mesmo que tentar enfrentar um inimigo sitiado que está recebendo munições e provisões diariamente. O que pensaríamos de um estrategista de guerra que quisesse tomar uma fortaleza, mas permitisse que seu inimigo recebesse provisões, armas e homens constantemente, não dando importância para tal fato por considerá-lo de "pouca gravidade"? Certamente, o consideraríamos estúpido. Ao permitir que armas, provisões e guerreiros entrassem constantemente na fortaleza, o desventurado estrategista estaria fortificando o inimigo que almejaria combater. Seus esforços seriam inúteis. E é exatamente isso o que muitos de nós fazemos quando queremos tomar posse de nossa fortaleza, isto é, de nossa casa interior. Tentamos desalojar os invasores, mas permitimos que eles recebam reforços.Uma coisa é a gravidade kármica de um ato. Outra coisa, completamente distinta, é a estratégia para dissolver um defeito. Atos sem nenhuma gravidade kármica aparente podem ser o caminho para fortificação e manifestação de atos de altíssima gravidade. Tentar reprimir os atos graves, quando já estão "carregados" de energia, é anti-estratégico. O que se deve fazer é despotenciá-los ou, melhor ainda, evitar que se "carreguem", dissolvendo os comportamentos inocentes que os energizam.Evitamos que um defeito altamente prejudicial e perigoso se carregue com energia quando dissolvemos os atos inocentes e inócuos que lhe abrem caminho. É sobre tais atos que a auto-observação deve se dar rigorosamente.Tudo aquilo que fazemos, pensamos e sentimos deve ser vigiado rigorosamente. Entendo que nos comportamentos inócuos está a chave. Comportamentos inócuos podem consistir em canais de reforço energético que fortificam comportamentos perigosos e indesejáveis. E tais canais são insuspeitados, motivo pelo qual os V.M.s os qualificam acertadamente como "sutis". Por isso dizem que "o mal se refina". Os comportamentos inócuos, isto é, aparentemente inocentes, devem ser alvo de um escrutínio rigorosamente sincero que nos permita descobrir se os mesmos fortificam comportamentos perigosos. Por "comportamento", estou me referindo à manifestação do ego em todos os cinco centros, pois quem não o observa em todos os cinco centro não descobre nada ou descobre muito pouco.Dissolvendo os comportamentos inócuos condutores de reforço, rompemos a cadeia de manifestações que vai abrindo passagem para a invasão dos defeitos perigosos.Um exemplo específico ajudaria muito aqui. O desejo violento de um homem por uma mulher (ou por todas as mulheres bonitas que lhe passem na frente!) possui um núcleo, constituido pelo desejo de fornicar propriamente dito, e algo que poderíamos comparar a uma "periferia", constituída por múltiplas manifestações, aparentemente não luxuriosas ou pouco luxuriosas, que energizam o núcleo. Os psicólogos chamam a este conjunto de "complexo", por ser um amplo sistema, ou de "agregado psíquico", por constituir um agregado de energias. Embora pareçam não causar prejuízo algum, as manifestações não luxuriosas estão voltadas para o núcleo e para ele conduzem suas forças, robustecendo-o cada vez mais. Debater-se contra o núcleo é uma perda de tempo porque, ao fazê-lo, deixamos de nos ocupar com a periferia, que é por onde realmente fluem as forças que o robustecem. No caso específico da luxúria, que é o nosso exemplo, do núcleo poderiam fazer parte: o desejo de copular, de beijar, de pegar nos cabelos e também tudo aquilo que a imaginação morbosa for capaz de conceber. Da periferia poderiam fazer parte: atos amistosos, elogios, gentilezas e tudo o que, aparentemente, for desprovido de sentido luxurioso, mas que se revelam voltados para a luxúria quando examinados mais de perto. A gama destes últimos comportamentos é quase infinita. O interessante é que os mesmos não opõem muita resistência ao poder da Mãe Divina, sendo rapidamente incinerados por Ela, às vezes imediatamente. Em alguns casos, entretanto, requerem um fogo mais poderoso: a petição durante o maithuna.
A morte de um defeito é, portanto, a resultante natural (e não forçada) da adoção de uma linha de trabalho correta. É por isso que se diz que morrer não é reprimir. Como posso reprimir aquilo que está morrendo? Se algo está morrendo, não se faz necessário reprimir.
Imaginemos que você, leitor, esteja agora mesmo com uma mulher para fornicar. Como as coisas chegaram até este ponto? Se você revisar os acontecimentos, verá que houve uma sequência de atos que se associaram no tempo, um após o outro, até você chegar ao deplorável ponto em que está. Se retroceder bastante, constatará que os "primeiros passos" que o conduziram a esta situação eram desprovidos de caráter delituoso ou luxurioso. Os atos, pensamentos e sentimentos vão se sucedendo e se articulando em uma corrente temporal, até culminarem no problema propriamente dito. Evitamos o problema evitando os fatos que o antecedem, cortando o mal pela raiz.

domingo, 8 de novembro de 2009

Morte do Ego - recomendações

Reagindo aos primeiros pensamentos

Na morte em marcha, corta-se a ação do defeito ao primeiro pensamento, sentimento ou ação sutil, não dando-lhe tempo de apoderar-se de nós.
Corta-se a ação do defeito pela súplica e não pelo mero "esforço para deixar de sentir o que se está sentindo", como todo mundo pensa e apregoa por aí. O defeito tem sua ação interrompida pela força atuante da Mãe Divina e não pelo emprego direto de nossa (débil) vontade no sentido de não desejar, não pensar ou não agir. O emprego da vontade nesse sentido apenas se destina ao uso dos percentuais livres de essência nos âmbitos em que se tenha livre arbítrio. Não há lógica em tentar fazer o uso do livre arbítrio (capacidade de não fazer, não pensar ou não sentir) em circunstâncias dentro das quais há condicionamento. Neste último caso, o mais sensato é empenhar-se primeiramente em adquirir a liberdade interior, para somente então fazer uso da mesma.
Aquele que tenta reprimir seus defeitos, moldando-se à força bruta, está tentando desfrutar de uma liberdade que em realidade não possui. É correto moldar-se, porém mediante a estratégia correta e não mediante esforços equivocados.
Especificamente, a vigilância sobre os pensamentos é indispensável, visto que "a mente é a guarida do desejo" (não me lembro a fonte desta citação).

Sobre "não começar"

Se realmente vigiarmos os nossos pensamentos, podemos prolongar por tempo indefinido os raros momentos de paz interior e pureza espontâneas.
Um dos segredos, na morte dos defeitos, é "não começar": não começar a pensar, não começar falar e não começar a fazer as besteiras.
Na morte do ego, um dos segredos fundamentais é esse de "não começar": não começar a pensar e não começar a fazer o que não se deve. Sempre que "começamos", não conseguimos mais nos livrar daquilo que acordamos. É mais fácil evitar dar a partida do que parar o carro a cem quilômetros por hora.
Corte todas as formas de alimentação do desejo que você quer eliminar. Toda lembrança, toda fala, todo ato, todo olhar, tudo! Morra! Que aquilo não exista mais para você!
Nos casos mais graves, você deve mesmo evitar totalmente a presença e a proximidade do objeto desejado. Isso não é fugir do enfrentamento e nem reprimir. É descobrir canais de alimentação que antes eram inconscientes, é encontrar formas inconscientes de nutrir o defeito e removê-las.
Corte absolutamente tudo e nos conte os resultados. Preste atenção nos detalhes pequenos do seu comportamento, formas disfarçadas e sutis de nutrir defeitos.

Ver e não teorizar

Olhemos para nós mesmos e não pensemos sobre nós mesmos. Se não enxergarmos nada, que não preenchamos a lacuna cognitiva com elocubrações e teorizações a respeito do ego.
Observar as emoções é tentar enxergar seus conteúdos e não racionalizar ou teorizar sobre os mesmos. As conclusões devem advir a posteriori.

Evitar ginásios insuportáveis

Convém evitar o contato com ginásios que não suportamos. Há graus e graus de dificuldade nos distintos ginásios. Ginásios que não suportamos atualmente devem ser encarados somente no futuro, quando estivermos preparados. Portanto: evitemos ginásios extremos.
Não procuremos ginásios difíceis: deixemos que as hierarquias e as partes internas nos guiem para eles.

Não enveredar pelos caminhos do erro

Fracassamos porque enveredamos diariamente pelos caminhos propostos pelos egos (pensamentos e imaginação mecânica). E enveredamos por tais caminhos porque subestimamos os perigos psíquicos. Acreditamos que pequenos erros não fazem mal.

Intenções por trás dos atos

Todo grande defeito se alimenta por comportamentos que parecem ser inocentes e aparentam não ter nenhuma relação com ele. Atos aparentemente desprovidos de qualquer caráter delituoso podem se revelar como meio de nutrição de defeitos quando suas intenções são melhor investigadas.
Um mesmo ato poderá estar ou não alimentando um defeito, tudo dependerá da intenção oculta com que é realizado. Os atos que reforçam os egos são os atos facilitadores de sua satisfação. Qualquer ato que facilite a realização das metas de um ego o estará fortificando, ainda que de forma não intencional. O trabalho consiste em encontrar esses atos facilitadores (os "detalhes" do V.M.R.) e eliminá-los, não com o esforço repressor, mas sim com a força da Mãe Divina.
Os defeitos se fortificam pela satisfação. Quanto mais satisfeitos, mais fortes se tornam e mais nos tiranizam. Qualquer ato, por mais "bobo" que seja, pode estar facilitando ou conduzindo à satisfação de um defeito e precisa ser dissolvido enquanto vai sendo observado.
A pessoa que passa a remover os detalhes pode ter a sensação de que está "fugindo" ou "evitando se confrontar" com os defeitos. Tal idéia é equivocada e tem sua origem nos mecanismos repressores da cultura, os quais nos levam a tentar nos opor aos desejos (enfrentar "em bruto", como diria o V.M.R.). Na verdade, a pessoa que se ocupa em descobrir e remover os detalhes está conhecendo o defeito grande pouco a pouco, já que tais detalhes são as múltiplas facetas do ego que alimentam.

Identificando sutis manifestações do Ego

Ações insuspeitadas podem estar alimentando defeitos, daí a necessidade de observarmos o que fazemos.
A vigilância rigorosa sobre os atos permite-nos descobrir se os mesmos estão alimentando algum elemento psíquico indesejável.
Cada ato que tenhamos pode ou não conduzir ao reforço de um agregado psíquico. Temos que tomar consciência dos atos que reforçam defeitos. Os vários atos relacionados a um defeito são as múltiplas facetas deste mesmo defeito.
Discernimos se um ato é ou não faceta de um defeito pelas metas, intenções, emoções e pensamentos que o acompanham. Para onde aquele ato aponta? Quais são os seus resultados? Se os resultados de um ato forem a satisfação de um ego, podemos concluir que o mesmo é um de seus detalhes. Além disso, as emoções e pensamentos que acompanham um ato também podem denunciar seu caráter egóico.
Durante o dia, temos milhares de pequenos atos inconscientes que nutrem defeitos dos quais temos consciência de que existem. De modo que não basta ter consciência da existência de um defeito: temos que tomar consciência dos múltiplos atos que o reforçam, de seus múltiplos detalhes ou facetas.
Trabalhar com os detalhes é trabalhar com as causas, no nível tridimensional, da manifestação dos defeitos. No nível físico, um defeito leva à manifestação de outros, em uma sequência cujo encadeamento necessita ser conscientemente percebido.
A auto-observação, ao realizar sobre todos os cinco centros, e não apenas sobre um ou outro, permite-nos vigiar nossos atos e descobrir emoções, pensamentos e reações instintivas que os acompanham. Permite-nos ainda descobrir como reagimos perante as circunstâncias em todos os cinco centros.

Outras recomendações:

Contemplar-se, vigiar.
Reagir com oração (e não com tentativas de sufocar os desejos).
Refinar a observação ao extremo.
Buscar o pequeno, o sutil. Ser detalhista.
Orar todas as vezes que as sutis manifestações voltem.
Não permitir que as manifestações cresçam. Não deixar que se alimentem e nem que tomem força. Impedí-las de se arraigarem em nossa personalidade. Cortá-las tão logo comecem, assim que principiem a brotar.
Evitar que role a primeira pedra, para que não ocorram avalanches.
Não dar asas aos pensamentos e nem à imaginação mecânica.

Reprimir não é eliminar e é desnecessário

Quando se trabalha com a oração e a dissociação (não-identificação), a repressão dos desejos se torna desnecessária porque a Mâe Divina corta a ação dos defeitos, sem necessidade de que o reprimamos. Reprimir é, portanto, um sintoma de que a prática da morte não está correta. Se você necessita se reprimir e resistir aos seus desejos, isso indica que sua prática de Morte está errada e necessita ser corrigida.

Quando o V.M.S. e o V.M.R. usam as expressões "combater os defeitos", "estar em alerta contra si mesmo", "disciplinar-se", "não alimentar os defeitos", "matar o desejo e a sombra do desejo" etc. não estão se referindo a nenhuma forma de repressão e sim ao trabalho de não nos identificarmos e de apelar ao poder da Mãe Divina. Os V.M.s jamais ensinaram que o estudante deveria resistir aos desejos e sim que deveriam enfraquecê-los e matá-los por meio do poder da Mãe Divina. A tarefa de enfraquecer e matar não é nossa, pertence à Mãe Divina. Fazer esforços para "não sentir o que se sente" é tentar usurpar a função dEla. Suspeito que os gnósticos entenderam a morte do ego de forma errônea neste pormenor.

Quando deixamos de nos reprimir e observamos a nós mesmos (em nossos centros) como a um sujeito estranho, os egos começam a ser percebidos aos montes. E se pedimos à Mãe Divina, mantendo a recordação de nós mesmos e evitando a identificação com esses defeitos, vemos que rapidamente eles perdem força como por um passe de mágica, sem que necessitemos fazer mais nada. Nenhum esforço para reprimí-los é necessário pois a Mãe toma a dianteira e os mata. Os defeitos gradualmente perdem força, se enfraquecem por si mesmos sob a atuação dEla.

Embora necessários para quem não conhece a dissolução do Ego, os mecanismos repressivos atrapalham a prática da Morte.

Entendamos que o Ego a ser morto e´a nossa própria pessoa, com tudo o que nos é querido. Esta pessoa , que nos é tão cara, é múltipla e se manifesta através dos cinco centros da máquina. A transformação virá quando observarmos esta pessoa em ação, admitindo e aceitando aquilo que resistimos em admitir. Ex. um homem pode resistir teimosamente em admitir para si mesmo que possui medo de algo por ser o medo uma característica feminina e, portanto, algo vergonhoso. Quando for assaltado pelo medo, tal homem tentará sufocá-lo dentro de si, tentará resistir ao sentimento invasivo e sofrerá. Mas, se tiver coragem de admitir este sentimento indesejável, poderá imediatamente observá-lo sem identificar-se e pedir por sua morte. O resultado será um alívio que se aprofundará se ele insistir nessa prática. Uma parte dele mesmo terá sido morta, isto é, transformada pois a morte é a transformação.

Aquele que reprime seus defeitos não crê que sua Mãe Divina os está desintegrando. Se peço e tenho fé, não tenho necessidade de recalcar nada. Ao contrário: removo minhas resistências ao desejo e observo seu progressivo enfraquecimento e diminuição á medida em que suplico por sua morte.

Remover a resistência ao desejo não é o mesmo que identificar-se. Remover a resistência é tão somente não opor ao desejo um contra-desejo (o desejo de não desejar).

Aquele que remove a resistência e, ao mesmo tempo, não se identifica, protege-se da obsessão. Aquele que remove a resistência e se identifica, torna-se incapaz de livrar-se do desejo. Observar, não se identificar e orar são peças fundamentais na Morte do Ego.

A identificação fortifica o defeito, escravizando-nos mais e mais.

Os mecanismos de repressão consistem em se fazer um esforço de vontade para não desejar quando se está desejando. É uma tentativa de não sentir o que se está sentindo. Indica desconfiança em relação ao poder da Mãe Divina. Aqueles que reprimem sentimentos e desejos costumam sentir um aperto ou sensação de mal estar no peito. Impulsos reprimidos geram doenças, pois os egos recalcados não desistem de buscar suas passagens para manifestação.

Os mecanismos de repressão foram desenvolvidos por nossa cultura ocidental como forma de conter os efeitos destrutivos dos desejos que conflitam com os valores morais e regras de conduta. Entretanto, tais valores e regras também são outras formas de desejo. Os mecanismos de repressão são forjados por eus bons. São úteis para quem não trabalha na Morte e prejudiciais para quem a realiza, por não permitirem a observação dos defeitos em ação.

Se não permito a manifestação de um defeito, como irei observar sua manifestação? E se não observo sua manifestação, como irei compreendê-lo?

É correto cortar a ação de um ego mediante a não-identificação e à oração. É incorreto tentar cortar-lhe a ação mediante um esforço de resistência ou simples tentativa de "não sentir nada". Temos que diferenciar ambas as coisas. Resistir aos defeitos foi o que sempre fizemos até hoje, sem resultado algum para a Morte. Temos que ir além da resistência inútil. Pedir, observar, orar e romper com a identificação não são o mesmo que resistir e não exigem nenhum tipo de recalque.

Importante: temos que refinar a observação e cortar a ação dos defeitos muito antes que aumentem sua ação sobre nós e nos obsessionem, temos que nos antecipar às obsessões, observando-nos de instante à instante.

Esclarecimento adicional

Como deve ter ficado claro, por "reprimir" devemos entender: sufocar, bloquear, simplesmente tentar não sentir, "forçar a barra" contra as próprias emoções. O desbloqueio à repressão a que nos referimos é o desbloqueio emocional. O bloqueio a ser removido é o bloqueio das emoções e não a relutância em cometer atos. É importante que isso fique claro. Evitar reprimir não é satisfazer o desejo, pois isso nos escraviza ainda mais, é somente remover o bloqueio das emoções, para que possams vê-las com mais clareza.

Este ponto tem gerado muita confusão entre os estudantes do gnosticismo. Entendo que o auto-controle por meio da vontade somente pode e deve ser exercido nos campos em que já se conquistou o livre arbitrio, sendo uma perda total de tempo tentar exercê-lo nos campos em que ainda não se o conquistou. Neste último caso, o poder da vontade deve ser empregado de outra maneira.

Deixemos as tarefas do enfraquecimento progressivo e da morte dos defeitos com a Mâe Divina e nos ocupemos unicamente com a observação e súplica. O defeito não morre por nosso próprio esforço, mas pela atuação de um poder superior a nós. Nos limitemos a cumprir bem nossa parte: observar, encontrar, compreender, pedir com fé, sem dúvida. Deixemos para a Mãe o esforço para deter os "eus".

A verdadeira morte do Ego não é o aumento dos conflitos internos, mas sim sua diminuição. Morrer não é agredir a si mesmo, nem violentar as próprias emoções e nem entrar em conflito com os desejos.

Reprimir é bloquear, não reprimir é desbloquear. O desbloqueio não deve servir de desculpa para nos identificarmos e nem para satisfazer e alimentar os desejos.

Não reprimir significa simplesmente desbloquear as emoções para observá-las, não significa satisfazer os desejos, nem fazer o que dá vontade, sem freios.

Deixe a força avassaladora do instinto em seu curso, não se ocupe com ela, não tente revertê-la. Ocupe-se com a tarefa de retirar-lhe o alimento.
Você deseja algo proibido e moralmente reprovável? Não se ocupe com esse desejo em si, deixe-o de lado e se ocupe com seus detalhes ou facetas. Observe as formas sutis de manifestação desse desejo, as coisas pequenas que você faz, pensa, sente e que dão força ao defeito em questão. Não reprima as manifestações sutis, observe-as, descubra-as e ore pela eliminação. Ao mesmo tempo, mantenha-os separados de si mesmo e não se identifique. Delegue o trabalho da morte dos elementos descobertos a uma força maior.