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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Aforismos sobre o desenvolvimento espiritual

Ao invés de fazer esforços para aprofundar a concentração, empenhe-se em prolongá-la.  A natureza fará o resto.

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Explicada de outro modo, a Morte do Ego pode ser definida como uma atrofia, pelo desuso, dos estados mentais e emocionais negativos.

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Se você estiver meditando em uma floresta e de repente experimentar a visão de um jaguar (onça) ou de uma serpente, essas visões fazem parte do seu lakshya. Se você estiver meditando no mar e experimentar a visão de um navio, você também não terá se desviado do seu lakshya. 

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Aprenda a desviar o caminho muito antes que o desejo cresça e se torne incontrolável.

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A meditação será uma aliada da Morte em Marcha se a utilizamos para analisar um defeito com o intuito de compreendermos por onde o alimentamos. O indicado é refletir a respeito dos caminhos pelos quais o defeito adquire força.

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Quando você estiver sonolento e quiser concentrar-se em uma imagem com os olhos fechados, visualize a imagem e procure enxergá-la com o terceiro olho como se este fosse um olho físico. Não entendeu? Explico melhor: procure literalmente VER com os olhos da imaginação. Mantendo os olhos fechados, VEJA o objeto que você está imaginando. Sua percepção clarividente se tornará assim cada vez mais clara.

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Há uma diferença entre desviar intencionalmente os sentidos (indryas) e a vida das tentações que nos perseguem e isolar-se geograficamente das tentações. No primeiro caso, elas estão por perto, mas nos isolamos delas voluntariamente e não somos afetados. No segundo caso, elas estão distantes e inacessíveis, motivo pelo qual estamos involuntariamente isolados das mesmas e não somos afetados. O primeiro caso é o da Morte do Ego. O segundo caso corresponde mais à meditação. Precisamos equilibrar as duas formas de isolamento.

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Seja seu próprio instrutor, esteja sempre aprendendo algo novo, estabeleça metas. Ao refletir sobre suas próprias práticas em busca da correção de erros e problemas, você está ensinando a si mesmo. Ao ensinar a si mesmo, você está, na verdade, dando oportunidades às Partes Superiores do Ser para que te instruam, te guiem, te levem e te orientem. Seu poder de refletir sinceramente e compreender, assim como as conclusões e aspirações que daí advém, provém do Alto. 

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Saibam vocês, que estão lendo estas linhas, que o mundo físico em que vivem não é o único e nem o mais real mundo existente. Os mundos espirituais apresentam impacto realístico mais intenso que este mundo fenomênico de relatividades. Os mundos internos, apenas postulados pelos físicos como multiversos, são universos materiais muito reais, que coexistem paralelamente a este.


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Pequenas alterações, leves, sutis, quase imperceptíveis, ocorrem a todo momento e não são notadas, a menos que as estejamos observando intencionalmente: são os detalhes do Ego.

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Não espere as catástrofes emocionais começarem para correr atrás delas. Aprenda a trabalhar com o mínimo e com o que antecede. Aborte o furacão antes que se instale.


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A luxúria aumenta seu poder quando contemplamos imagens e cenas luxuriosoas em nossa mente (imaginação) ou com os nossos olhos (sentido da visão).


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Ore várias vezes ao dia e não somente nos seus horários habituais.


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O problema está nas pequenas concessões que fazemos ao desejo a cada instante.


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Nem sempre os resultados da meditação se fazem sentir no momento exato da prática. A meditação pode apresentar resultados indiretos, posteriores e nem sempre perceptíveis. Pode dar-se o caso de alguém praticar muito a concentração, não ver resultados imediatos mas, posteriormente, tornar-se consciente durante os sonhos, ter sonhos com conteúdos elevados ou experimentar um alívio emocional. 

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O ideal é a neutralidade em relação às coisas. Pequenos desgostos ou, ao contrário, pequenas atrações ou paixões, são sutis manifestações de defeitos. Uma pequena e inofensiva reação de desagrado a algo sem importância é um detalhe que pode resultar em uma grande catástrofe no futuro. 

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Um mínimo pensamento é suficiente para iniciar um intenso processo luxurioso do qual não possamos nos livrar. Vigie os pensamentos e não permita os mínimos pensamentos luxuriosos. 


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Após uma cairmos em tentação, o melhor a fazer é refletirmos a respeito do caminho percorrido até aquele resultado. Temos que nos perguntar: quais foram as pequenas concessões que fizemos ao vício ou defeito, até ficarmos tomados e satisfazê-lo? Onde estão as causas horizontais?

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Durante a meditação, a impaciência dos músculos por movimentos pode estar indicando a necessidade de relaxá-los mais.

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O melhor a fazer, durante a paralisia do sono, é aprofundar o relaxamento e a concentração. 

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Quem se deixa guiar pelo Ser faz rápidos progressos. Aprenda a não sabotar e a não ignorar as orientações do seu Íntimo. Se você prestar atenção, Ele te mostrará exatamente onde está errando. Após cada fracasso, medite e pergunte-se: "qual foi o erro que cometi desta vez?" Revise sua conduta, procure pela resposta e a resposta virá. Assim, os degraus da escada do ascenso vão sendo construídos. Sua inteligência, discernimento e poder de intuição são virtudes do seu Íntimo. Ele te guiará através da tua própria inteligência e discernimento.

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Por mais afundados e perdidos que estejamos, há momentos em que a mente repousa e desfrutamos de uma pureza temporária. Se soubermos como não voltar para a masmorra da identificação, podemos prolongar esses momentos indefinidamente.

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Não entre no mundo da identificação com os prazeres e dores mundanos, mantenha-se longe. Se você está dentro, não retorne depois que conseguir sair.

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O progresso na meditação requer acumulação de virtudes sáttwicas. A acumulação das virtudes sáttwicas requer que se medite várias vezes por dia. Aqueles que, após uma sessão de meditação, correm para se identificar com os problemas e atrativos do mundo, estão dissipando as poucas virtudes que acumularam.

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Pense com leveza no objeto da concentração. Busque sempre a leveza nas práticas.

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Os mínimos sinais corporais que se sente durante o relaxamento devem ser tomados como indícios favoráveis de avanço na meditação.

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Quem cai sexualmente, após ter se mantido casto por alguns meses, semanas ou mesmo dias, tende a cair nos dias seguintes. Quem cai após alguns anos de castidade ininterrupta, tem lutar muito para recuperar o perdido, pois tende a ficar escorregando a cada vez que tentar levantar-se. Por tais razões, é melhor lutar para não se deixar cair do que apoiar-se na possibilidade de cair e se levantar. É mais fácil manter-se em pé e não cair do que levantar-se após cair. Por outro lado, as caídas, por mais numerosas que sejam, devem ser tomadas como meros acidentes naturais do percurso. Aprender a manter-se em pé, caminhando, leva muito tempo.

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A imaginação determina o que sentimos diante das coisas. Se imagino que uma formiga é perigosa, tremerei diante dela, ainda que faça todos os esforços para não temer. Se imagino que meditar é impossível, tal imaginação atuará como um freio que sabotará a minha prática.
Temos muitas imaginações inconscientes, das quais não suspeitamos nem de longe que existam. Temos que corrigi-las ou não avançamos.
Se imagino que sou incapaz de vencer a luxúria, a gula, o medo ou a ira, me debaterei inutilmente contra tais tentações, por toda a vida, e não experimentarei sucesso algum.
Temos que descobrir as imaginações inconscientes equivocadas e corrigi-las.
Quando um sacerdote fica dizendo constantemente para os fiéis que as tentações são impossíveis ou muito difíceis de vencer, está condicionando a imaginação de seus adeptos ao fracasso.

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Uma chave indispensável, durante a prática do arcano, é manter a mente sem imagens de mulheres e de atos sexuais de quaisquer tipos ou naturezas. A mínima imagem erótica é suficiente para desencadear um processo de excitação descontrolado.

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Mantenha a mente, a fala e a conduta constantemente limpos de quaisquer traços sutis do defeito que almeja eliminar. E descubra novos traços sutis constantemente utilizando o ginásio como espelho para você se enxergar e se descobrir durante a auto-observação.

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Quando sentimos um impulso violento, vindo desde dentro, para satisfazer um desejo, o que se passa é que o Ego correspondente está pressionando para se alimentar.

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Aquilo que experimento diretamente faz parte da realidade em que vivo e constitui meu mundo. O que vivencio de forma direta e crua no mundo físico, no mundo astral ou em outro mundo, é um conhecimento que não me pode ser arrancado por nenhuma teoria.

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Ao tentarmos discernir se estamos no mundo físico ou no mundo astral, podemos incorrer no erro de tentar fazê-lo artificialmente, buscando uma espécie de natureza extraordinária e espantosa neste último. Como tal natureza não existe no mundo astral e nem no mundo físico, pois ambos são simplesmente mundos materiais (cada um à sua maneira) e nada mais, essa preocupação atrapalha ao invés de ajudar. Procure discernir sem artificialismos.

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Seu Ìntimo te dá lições diariamente, sob a forma de inspirações, insights e ganhos de compreensão. Esteja atento, seja obediente e as siga. Seu Ìntimo te orienta no trabalho interior.

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Quando estiver concentrado em algo (um mantram, um koan, uma oração ou uma tarefa cotidiana), sinta-se o mais lúcido e consciente que puder.

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A morte de um defeito é uma cura espiritual realizada pela Mãe Divina. Do mesmo modo o são a cura de quaisquer enfermidades emocionais e mentais.
As curas, físicas ou psíquicas, são realizadas pelas Partes Superiores do Ser.
As curas efetuadas pelo Ser sempre são realizadas de acordo com a lei do karma e jamais a violam. Portanto, não basta somente pedir, é necessário realizar boas obras.

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Peça, aguarde e observe os resultados continuamente. Então você verá o defeito enfraquecendo com o passar dos dias, meses e anos.

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A morte de um defeito é gradativa: a cada dia retiramos um pouco mais.

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Fusione o sono com o profundo relaxamento consciente e entrará facilmente do outro lado sem perder a lucidez.
Muitas vezes, ao estar profundamente relaxado, você pode já estar do outro lado e não se dar conta disso, pois continua deitado na cama.

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Nas práticas de concentração/meditação, o esquecimento deve ser absoluto: esquecer-se do ego, da meditação, das teorias, dos livros e de tudo, concentrando-se unicamente no objeto da prática. Deve-se esquecer inclusive das coisas boas e sublimes. A prática é um desligamento total, absoluto, somente existe o objeto, o alvo.

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Se presto atenção em mim mesmo, descobrirei coisas sobre mim mesmo. Se presto atenção no mundo que me rodeia, descobrirei coisas sobre o mundo que me rodeia. Para discernir se estou no mundo astral ou no mundo físico, tenho que prestar atenção na realidade circundante, pois se prestar atenção somente em mim mesmo, estarei estudando meu ego, ainda que dentro do mundo astral, e compreenderei coisas sobre este ego, mas não necessariamente discernirei que estou em astral. Convém não confundir ambas observações.

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Posso me contemplar enquanto me movimento, enquanto sinto e enquanto penso. E posso continuar me contemplando enquanto observo o mundo ao meu redor para discernir se o mesmo é físico ou astral. Assim como sou capaz de observar meus movimentos, posso também observar meu discernimento, ver a mim mesmo procurando discernir sobre o mundo em que estou.

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A capacidade de compreender objetivamente os fatos exteriores a nós esbarra no condicionamento sensório-cognitivo imposto pelo ego. O ego é um elemento subjetivante das percepções, um agente distorcedor que nos impede de enxergar a realidade. Por mais que queiramos objetivar nossa percepção de algo (ex. uma bela mulher nua ou um insultador irritante), esbarraremos nos limites da subjetividade da percepção egóica. Por tal motivo, não adianta somente tentarmos refletir sobre as situações tentadoras, como todo mundo quer. Temos que refletir sobre os elementos que impedem a compreensão das situações tentadoras, os quais são as causas secretas (psicológicas) do caráter tentador dos fatos externos.
Os fatos externos não são tentadores por si mesmos: adquirem este caráter porque sobre eles projetamos significados de tentação. É sobre tais significados que temos que trabalhar, conscientizando-nos ao máximo dos seus inúmeros detalhes e nexos causais.
Eliminar os desejos e paixões não é algo assim tão fácil e controlá-los, como todo mundo tenta, é impossível.

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Quando sentimos conscientemente uma emoção, a estamos percebendo. Ao percebê-la, a estamos observando. Ao observá-la, rompemos com a identificação pois não é possível observar uma emoção com a qual se esteja identificado. Quem se identifica com uma emoção, fusiona-se a ela, tornando-se indistinto e se indiferenciando. É assim que a pessoa passa a sentir a emoção como se fosse parte de si mesmo. Identificada, a pessoa "goza" da emoção e não se recorda de ela e a emoção são distintos. A perda da noção de distinção é a marca característica da identificação e o fator que impede que a observação verdadeira ocorra.

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A Mãe Divina é a arma do estudante na Morte do Ego. É a Mãe Divina que mata os nossos inimigos interiores. Peça e Ela os matará.

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Eliminar a luxúria é normalizar o instinto e não infligir moralismo sobre si mesmo. A luxúria é o instinto sexual desviado.

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Aqueles que dizem ser a morte do Ego impossível nem sequer sabem do que estão falando.

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Observe todos os seus atos inocentes e verifique se os mesmos não alimentam algum defeito sem que você perceba.

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Observe-se sob a orientação do Íntimo.

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Encare a auto-observação como uma prática de concentração.

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Reaja à aproximação do desejo com a morte em marcha.

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Polarize-se do lado da castidade.

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Use as doenças e o sofrimento como ginásio psicológico. Acalme a mente perante ameaças de desencarnação. Em outras palavras: as dores existem para serem esquecidas, deixadas de lado, e não para ficarmos nos ocupando com elas.

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Cultive sentimentos superiores intensos e confira à frieza seu papel correto.

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Há uma boa e uma má fé. Cultive a primeira e dissolva a segunda.
A má fé é uma fé ruim, é a crença absoluta na onipotência do mal, na soberania da sentença desfavorável de um médico, na nossa incapacidade de nos disciplinarmos, na impossibilidade de nos concentrarmos, na onipotência da matéria, na inexistência do Espírito etc. Ex. crença de que um remédio irá falhar.

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O homem resiste em aceitar a realidade por medo.

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A morte do eu é a correção das incompreensões.

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A compreensão conduz à total rejeição consciente da característica indesejável compreendida.

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A parcela incompreendida da realidade insiste até a ignorância ser reconhecida.

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Pressupostos, critérios e parâmetros equivocados mantém inacessíveis aspectos incompreendidos do real. Ex. materialismo.

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Desordem na dialética, mescla de múltiplos problemas e o não-isolamento de partes para análise são formas de defender teorias inconsistentes e absurdas como se fossem algo sensato e bem fundamentado.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Concentração: aprendendo a pensar sem palavras

"Palavras e dizeres também são enganadores; calmo, descanso minha mente no estado sem esforço." (Milarepa, A Canção dos Doze Enganos)


Em uma fase inicial do aprendizado da concentração, o praticante pensa por meio do recurso de sua linguagem nativa, usa mentalmente seu próprio idioma (português, inglês, guarani, karib, mandarim, cantonês, árabe, persa etc.) para pensar. Sua mente aprendeu a pensar idiomaticamente e não é capaz de fluir sem recorrer à linguagem interna.

Ao exercitar a imaginação consciente, a mente vai se desprendendo da necessidade de recorrer ao idioma e passa a pensar de maneira mais imaginativa. A pessoa, durante suas práticas, deixa de conversar consigo mesma e visualiza (internamente) os processos nos quais se concentra de forma cada vez mais clara. Também poderá ouvir sons relacionados àquilo em que está se concentrando. Caso tente analisar as visões e sons que começam a se desenvolver em sua imaginação, deterá o seu fluxo.

A imaginação fluente em torno do lakshya é aquilo que as pessoas chamam de pensamento único ou mente concentrada. É uma imaginação objetiva, que não muda de tema a todo instante como ocorre com a imaginação comum. 

Se o praticante estiver se concentrando em uma cachoeira, não precisará dizer para si mesmo "esta água é cristalina, cai sobre as rochas e se esvai ao longo do curso do rio". Simplesmente visualizará o processo, escutará os sons da água, mas sem dizer nada para si mesmo, em silêncio interior. Esse esvaziamento do falatório interior assinala o princípio da aquietação da mente.

Não é muito fácil atravessar esta primeira etapa, pois a mente foi acostumada durante toda a vida a tagarelar e quer insistir em seus velhos hábitos. Nossa função imaginativa está atrofiada, pois não a utilizamos senão da mesma forma mecânica, subjetiva e superficial de sempre. A imaginação comum, mecânica, é superficial porque não se aprofunda em nada, mariposeia aqui e ali, mudando constantemente de objetivo. É uma imaginação subjetiva, pois não se detém em nada por mais de alguns segundos. O poder imaginativo está atrofiado devido ao desuso, entretanto, pode ser perfeitamente desenvolvido se o exercitarmos diariamente.

Podemos pensar silenciosamente de forma concreta ou de forma abstrata. A visualização das partes e dos detalhes anatômicos de uma planta é um exemplo de pensamento concreto. A reflexão sobre as virtudes espirituais, como a compaixão, é algo mais abstrato. É muito mais fácil pensar silenciosamente de forma concreta do que de forma abstrata. Um principiante não conseguirá pensar de forma abstrata sem recorrer às palavras, será impelido a conversar consigo mesmo. No entanto, dizem os mestres que o adepto, à medida que se desenvolve na meditação, vai aprendendo a pensar de forma cada vez mais abstrata e silenciosa, pois vai desenvolvendo seus sentidos internos e adquirindo progressiva experiência. Em outras palavras, aquilo que para nós é exageradamente abstrato, para o adepto desenvolvido é algo concreto e palpável, que ele vivencia de forma direta por meio de seus sentidos internos, assim como nós vivenciamos o mundo físico de forma sensorial.

A aprendizagem do pensar sem palavras requer, então, que exercitemos inicialmente a capacidade de pensar (imaginar) silenciosamente sobre algo concreto. Detalhes anatômicos, funcionamentos, funções, estrutura interna e constituição físico-química de objetos sensíveis (plantas, rochas, nuvens, rios etc.) servem como ponto de partida para a prática da imaginação. Saberemos que a imaginação está mais ou menos desenvolvida quando formos capazes de visualizar o objeto com certa nitidez supra-sensorial. Quando, sentados em nosso quarto e imaginando uma cachoeira, começarmos a "ver" e a "ouvir" a cachoeira, com os olhos fechados, isso indicará que a imaginação está se desenvolvendo.

Por mais sofisticada que seja a linguagem utilizada na conversa que alguém tenha consigo mesmo, será tão somente um indício de que a concentração não se aprofundou, ainda está em um nível superficial.

Quando as imagens e sons internos começam a fluir, o praticante deve deixar que fluam livremente e tomem o seu curso, sem tentar controlá-las. Aqui reside uma dificuldade, pois o praticante tende a analisar constantemente se o seu curso imaginativo está se desviando do lakshya ou não. Tal análise racional interrompe o processo. O mais indicado é não preocupar-se com tal desvio, esquecê-lo completamente. Dúvidas e checagens a respeito de se estar ou não fazendo as coisas corretamente matam o curso da prática e a sabotam. Portanto, ao mesmo tempo em que buscamos desenvolver o pensamento sem desviá-lo, tampouco devemos nos preocupar em não desviá-lo. Neste nível, começamos a sair da lógica e do racional: queremos nos manter focados no lakshya sem nos preocuparmos em estar focados no lakshya. É normal que a mente considere isso uma contradição e fique confusa. A confusão assinala dúvidas. Se corrermos atrás das dúvidas, voltamos para trás e não avançamos. 

Não há necessidade alguma de entrarmos em conflito com a tagarelice interior, com o intuito de calá-la à força. O mais indicado é abandoná-la, esquecê-la, e nos focarmos completamente em nosso trabalho de imaginar o objeto de forma cada vez mais clara. Quaisquer preocupações que surjam irão atrapalhar, incluindo preocupações bem intencionadas de não nos desviarmos.

É muito fácil pensar aleatoriamente e um pouco difícil pensar de forma específica, ainda mais se o quisermos fazer imaginativamente e sem recorrermos à fala mental.

Conforme exercitamos nossa capacidade de pensar sem palavras, vamos nos libertando do condicionamento racionalista idiomático.  

Pensando silenciosamente no abstrato


Quando queremos pensar sem palavras em algo concreto, que faz parte de nossa experiência sensorial, basta imaginarmos silenciosamente o objeto e tudo o que seja intrínseco ao mesmo. Porém, se queremos pensar em algo abstrato sem recorrer à linguagem, é normal nos sentirmos confusos, como se estivéssemos perdidos, pois faltam-nos imagens. É difícil prescindir das palavras quando queremos pensar em algo abstrato; é muito fácil fazê-lo ao pensarmos em algo concreto.


Se tentarmos descartar as palavras ao pensarmos em um bambu, podemos fazê-lo com certa facilidade, bastando para isso imaginar o bambu, sua cor, textura, forma etc. mas não podemos fazer o mesmo se quisermos concentrar o pensamento no Atman. O motivo é que o bambu faz parte de nossa experiência sensorial enquanto o Atman não faz, pois, devido ao nosso adormecimento, não temos cotidianamente experiências diretas, conscientes e objetivas com o Atman. Se quisermos nos concentrar e refletir silenciosamente na frase "Sou o Atman", teremos que apelar para o sentir, pois não há formas físicas que correspondam ao sentido de tal frase e sirvam para refletir silenciosamente na mesma. O sentir é uma espécie de faculdade cognitiva silenciosa, distinta do intelecto e dos raciocínios, que permite diferenciação, discriminação e discernimento. Podemos sentir, por exemplo, a diferença entre os sabores da laranja e da mação, ainda que não consigamos conceituá-los com exatidão; podemos sentir o sabor da água pura, que escapa totalmente às definições, o sabor do vento e do calor, entre outros. 


Quando percebemos algo no mundo físico, uma pessoa ou um cavalo por exemplo, sentimos um "algo" específico em relação àquilo. Esse "algo" possui um teor qualitativo indefinível e corresponde a uma forma interna de sensorialidade. É exatamente este "sentir" específico que pode ser usado para nos concentrarmos em algo abstrato sem nos valermos do recurso da palavra, da linguagem e dos conceitos.


Obviamente, imaginações conscientes espontâneas podem acompanhar o processo. Quem trata de adormecer concentrando totalmente sua atenção na sensação interior provocada pela frase "Sou o Atman", experimentará visualizações, "closed eyes visions" e experiências semelhantes a sonhos relacionadas ao tema em que se concentrou. Neste caso, o lakshya é a sensação interior de que se é o Ìntimo.


Em si mesmo, o  Atman não é abstrato, mas nossa experiência atual com o Atman, por ser subjetiva, é abstrata.   

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Os problemas são criações artificiais da mente

No fundo, o sofrimento não existe.

No Mundo Real, fora da mente, não há significados. Os significados são atribuídos pela mente. Quando escapamos da mente, transcendemos os significados e, então, vida e morte, dor e prazer, alegria e tristeza perdem sua distinção. 

A própria dor física é, no fundo, psicológica e um significado atribuído. Prova disso é que muitas vezes nos ferimos e somente passamos a sentir dor após nos darmos conta do ferimento.

No mundo real, além da mente, não existem problemas. Problemas são significados que atribuímos a certos fatos, ou seja, uma forma de entendê-los. Nenhum fato, por cruel que seja, é um problema em/por si mesmo, nenhum fato é problema sozinho, sem a presença humana. Os fatos se tornam problemas apenas quando existe alguém para sofrer por causa deles.

Não adianta tentar forçar essa compreensão, não é possível obtê-la pela força bruta. Somente a meditação profunda pode nos conduzir a ela.

Existem formas condicionadas, sólidas e cristalizadas de entender as coisas. São formas de entendimento mais rígidas que o aço e que não cedem ao mero esforço. Somente a reflexão constante e profunda a respeito das mesmas e dos fatos exteriores que elas distorcem pode removê-las aos poucos. As formas do entendimento,em última instância, sempre distorcem a realidade, são equivocadas. Precisamos transcendê-las, o que é possível por meio da reflexão e observação constantes e absolutamente sinceras. Quanto mais meditamos em algo, mais profundamente o compreendemos. Quanto mais profundamente o compreendemos, mais nos distanciamos do entendimento equivocado inicial.  O que importa é ser cada vez mais objetivo, realista. Se nos aprofundamos demais, nos tornamos tão realistas que já não podemos dizer que "entendemos" e sim que experimentamos de forma direta, além da lógica (ou daquilo que as pessoas costumam de chamar de lógica). 

Nem sempre é bom meditar em um problema, isso depende do caso. Se a tentativa de meditar em um problema faz com que ele se torne maior e cada vez mais significativo, é melhor ocupar-se com outra coisa.  Porém, em certos casos, meditar em um problema nos liberta. Em nossas práticas de meditação, devemos nos ocupar com aquilo que nos faz bem e não com o que nos provoca mal estar. Se nos ocuparmos com aquilo que nos faz mal estar, fracassaremos e não realizaremos meditação alguma. Esta é a minha opinião.

Quem destrói o Ego e se liberta da mente, vive no plano da realidade objetiva (o Absoluto), além de todo sofrimento e problema.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Morte do Ego: corrigindo impressões equivocadas

Você está andando na rua e de repente alguém ri da sua cara. Você então fica bravo. O que isso indica? Entre outras coisas, que você não enxergou a realidade do riso. Sua visão está "enviesada" pelo eu da ira. A ira está "colorindo" e subjetivando sua percepção do fato.

Em si mesmo, como coisa em si, nenhum riso é irritante. No entanto, nós atribuímos ao riso significados variados, conforme os contextos em que ele se dá. Se possuíssemos uma percepção absolutamente objetiva, não consideraríamos o riso como uma provocação, mas apenas como um som, pois é isso o que ele é. Nossa mente, então, não reagiria. Teríamos o estado mental dos budas, os quais são impenetráveis ao escárnio e não necessitam "resistir" à ira, pois não a possuem, a desarmaram dentro de si mesmos. 

Portanto, nossa percepção do riso como escárnio é equivocada, é uma percepção falsa, pois o riso, em si mesmo, é apenas um som. Por mais escarnecedora que seja a intenção de quem ri, seu riso será somente um som, ainda que com intenções de provocar. No entanto, as tentativas de provocação se tornam vazias quando não temos a ira, pois é a ira que faz a provocação ressoar em nosso interior como ofensa. Em outras palavras, a provocação não existe para aquele que eliminou a ira de si mesmo pois sua visão do mundo, da realidade, é distinta da visão que seria proporcionada pela ira.

Ao andar na rua e perceber o riso, você se enfureceu porque não transformou a impressão, permitiu que a impressão entrasse em seu psiquismo sem ser transformada. A visão errônea do riso teve livre curso e se cristalizou em sua psique sob a forma de ira, raiva ou algo assim. Por mais estranho que pareça, você não percebeu o riso de forma objetiva e exata, mas de forma equivocada e tendenciosa. Você não percebeu o riso em si mesmo, mas sim uma imagem do riso, moldada por suas imaginações e crenças. Sua mente atribuiu ao riso o significado de uma provocação ou desafio, o rotulou como tal, por ter sido condicionada a isso no passado. O riso causou uma impressão de ira por não ter sido compreendido tal como é. Ao permitir que a impressão ocorresse sem participação da consciência, houve um impacto inconsciente do riso em seu psiquismo. Se houvesse um impacto ou choque consciente, o riso teria deixado uma impressão distinta. Se você pensasse a respeito e imaginasse o riso de outra maneira, uma impressão ou marca distinta teria sido deixada em seu interior, mas você o recebeu como provocação. 

Para modificar a impressão que os acontecimentos deixam em nós, temos que refletir sobre os mesmos até o ponto em que a reflexão modifique a forma como os encaramos. Tentando olhá-los de forma cada vez mais objetiva, exata e profunda, vamos corrigindo os equívocos e recebendo as impressões de outro modo. 

Transformar as impressões que os acontecimentos nos causam é algo muito bom e útil, mas requer sinceridade absoluta. Transformar as impressões é corrigir as impressões equivocadas que entram e causam desastres e prejuízos em nosso interior a todo momento. Não é demais dizer que tudo isso precisa ser feito em sintonia com a Morte em Marcha sobre cada detalhe ou faceta dos defeitos. Os detalhes ou facetas não são outra coisa senão impressões equivocadas que estão vibrando e necessitam ser desarmados pela compreensão. A compreensão corrige as impressões equivocadas, restabelecendo uma melhor conexão com a realidade.

Ampliação em 21/05/2014

Cada objeto que percebemos nos impressiona de uma forma específica, ou seja, fere o nosso psiquismo e deixa uma impressão. A impressão corresponde ao viés pelo qual tomamos o fato.

Transformamos a impressão quando refletimos sobre o objeto que nos impressiona. Ao fazê-lo, mudamos nossa forma de pensar a respeito e, consequentemente, nossa forma de percebê-lo e senti-lo. 

Portanto, no trabalho de Transformação das Impressões, refletimos sobre o objeto e, no trabalho de Morte do Ego, refletimos sobre o sujeito. O objeto é aquilo que percebemos (o fato que nos impressiona, qualquer que seja) e o sujeito somos nós mesmos.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Super-esforço e negligência


Temos que diferenciar o esforço intenso do esforço correto. Um esforço intenso, se for incorreto, não dará resultados bons. Um esforço correto, se não for intenso, também não dará resultados bons. Um super-esforço e correto, se for realizado sem tensões e nem desesperos, nos conduzirá a resultados bons.

Um esforço sem tensão é um esforço sereno e, ao mesmo tempo, desprovido de negligências. É o esforço sem qualquer abertura para sermos relapsos, um esforço com tolerância zero à negligência. Esse é o super-esforço do qual falam os mestres.

Temos que estudar e meditar em nossas próprias experiências constantemente, para que nosso esforço seja cada vez mais acertado.

O super-esforço está relacionado com a persistência e a dedicação plenas. O esforço comum não apresenta persistência e nem dedicação contínua. No esforço comum, há uma dedicação temporária. Por isso o esforço comum não serve para o espiritual.

Quando, em certas postagens, critico o esforço, não estou de modo algum louvando a negligência. O esforço que critico é o desespero da tensão, o qual intensifica o nosso estresse e trava o desenvolvimento. Não nos ocupemos com o desespero e sim com a seriedade, a dedicação e a disciplina.

sábado, 27 de abril de 2013

Concentrar-se é também aprender


Concentrar a mente em algo é, entre outras coisas, aprender a respeito daquilo. Aprender algo pela concentração da mente inclui extrair informações do inconsciente, trazendo-as à consciência.

Quando queremos muito resolver um problema importante, pensamos nele constantemente. Isso é uma forma de concentração da mente, a qual se ocupa com a questão problemática, procurando saída. Embora nem sempre seja algo saudável, pois a mente, em tais casos pode ficar obsessionada pelo problema e provoca um sem número de reações emocionais e corporais negativas, além de nos distrair no cotidiano, tal ocupação mental contínua serve como exemplo para entendermos melhor o que é a concentração do pensamento. Concentrar a mente é pensar continuamente em algo, sem interrupção, pelo que tempo que dispormos para nos dedicarmos exclusivamente a essa tarefa, sem nos desviarmos e nem nos distrairmos com outras coisas. 

Podemos dizer, portanto, que existe uma forma de concentração boa e outra má ou prejudicial. Quando você está obsecado por algo, está concentrado naquilo, embora tal concentração possa ser prejudicial. O ideal proposto pelo ensinamento espiritual é que nos concentremos em temas edificantes, que nos façam bem, estimulem emoções superiores e nos deixem absolutamente em paz. Usei, portanto, o exemplo da má concentração da mente apenas como um exemplo para melhor entendimento do que é uma boa concentração da mente, pois ambos os tipos de concentração, embora sejam contrários, são também similares.

Quando nos concentramos em um koan, é recomendável que tentemos compreender profundamente aquela frase propositalmente sem sentido, até que possamos “atravessá-la” e cair do outro lado, no reino onde a lógica que conhecemos não funciona. Se tivermos uma questão filosófica ou um problema que nos importuna, podemos usá-lo como lakshya em nossas sessões de meditação, desde que os mesmos não provoquem emoções negativas. Se uma pessoa se concentrasse em cenas pornográficas ou de terror, por exemplo, é claro que seria assaltado pelas emoções inferiores correspondentes, as quais seriam qualitativamente muito diferentes das emoções estimuladas pela concentração nos céus, nas nuvens, em uma cachoeira, em uma floresta, na Mãe Divina, no Cristo ou no Senhor Buda.

É de grande valia, durante o exercício da concentração (dharana), pensarmos para aprender. Aprender é descobrir o que não sabíamos, aprofundando-nos no tema. Sivananda chama esse tipo de prática de meditação analítica.

Em dharana, a mente, isto é, os pensamentos e a imaginação, devem fluir com a mesma naturalidade com que fluem quando a mente está dispersa, com a diferença de que seu fluxo ocorre dentro de um tema, aprofundando-o, ao contrário do funcionamento comum da mente, em que seu fluxo abrange muitos temas infinitamente, passando de um para outro, e não se aprofundando em nenhum. Em dharana, a infinitude do funcionamento mental se dá em profundidade, não em abrangência.

Quando você estiver muito preocupado com um problema grave, sua mente se concentrará com facilidade naquilo que está lhe causando preocupação, mas você não deve fazê-lo, pois o seu sofrimento aumentará até níveis insuportáveis. Ao invés disso, procure um tema contrário que lhe seja muito atraente e lhe faça bem, proporcione emoções superiores, e concentre-se profundamente nele. Deste modo, através da dualidade, o tema superior suplantará os efeitos do tema inferior. Caso sua concentração seja profunda, você se libertará completamente do sofrimento emocional ocasionado pelo problema. O ideal é atingir um estado em que o problema não exista para você.

Se, no entanto, o problema não for algo que provoque emoções inferiores e violentas, você pode usá-lo como objeto de sua concentração. Neste caso, simplesmente pense e pense naquilo pelo tempo disponível para a sua prática, mas não o faça fora das sessões de meditação, quando estiver trabalhando, dirigindo ou andando na rua, pois nessas situações a sua atenção deve estar naquilo que você está fazendo e não e um tema abstrato fora da realidade presente.

Se você se concentrar em um problema, por exemplo, em uma questão filosófica ou científica, muitas idéias e insights surgirão, e sua compreensão sobre o assunto será cada vez mais profunda. Sua mente fluirá e você construirá cada vez mais associações de idéias direcionadas dentro do tema proposto. Uma questão estratégica relacionada a algum tipo de trabalho também pode ter o mesmo resultado. Suponhamos que você tenha que consertar uma parte difícil do telhado de sua casa e não saiba como. Você poderá dedicar alguns minutos para pensar naquilo e aprender algo a respeito. Assim você poderá aprender melhor o que é a concentração e como aplicá-la na resolução de problemas do cotidiano.

A concentração analítica é especialmente útil na análise de nós mesmos, de nossas emoções e problemas psicológicos, promovendo a melhor compreensão dos nossos egos.

A prática da concentração em plantas, por outro lado, serve mais para desenvolvermos a capacidade de penetrá-las com a imaginação, mas não tanto para desenvolvermos a capacidade analítica, pois costuma haver um ponto além do qual a imaginação se esgota e não conseguimos extrair mais informações sobre a planta com que nos ocupamos. No entanto, quando plenamente desenvolvida, também termina resultando em aprofundamento da compreensão pois, em última instância, imaginação e cognição são interdependentes e não se dissociam.

O aprender e o compreender se dão pela concentração da atenção e do pensamento. Isso deveria ser levado em conta pelas ciências da educação.

domingo, 7 de abril de 2013

Morte do Ego: transformando as impressões por meio da Dualidade.

Aprendemos, em passadas reflexões, que devemos controlar os sentidos (Indryas), evitando as percepções daquilo que reforça os egos. Aprendemos também que devemos nos antecipar aos defeitos, removendo suas causas. No entanto, algumas vezes somos inevitavelmente atirados em certas situações das quais não podemos escapar. Quando isso ocorre, somos impactados emocionalmente pelos eventos de forma brusca e repentina, sem chance de nos anteciparmos aos mesmos para evitá-los ou desviarmos as percepções, fechando as portas às impressões destrutivas e negativas. Em tais situações, a prática da transformação das impressões é uma adicional ferramenta de trabalho que nos ajuda a modificar a maneira de recebermos e percebermos os eventos da vida que nos atingem emocionalmente. Vamos analisá-la mais de perto.

Por que Kaspar Hauser era insensível a ofensas e ameaças? Porque sua mente não processava as ofensas como ofensas e nem as ameaças como ameaças, não havia aprendido a entendê-las como tal. Certa vez um estudioso golpeou violentamente a parede logo acima de sua cabeça e Kaspar Hauser não moveu sequer um músculo e nem esboçou a menor reação. O estudioso então exclamou: "Totalmente insensível!". 

Por ter crescido isolado do contato social, a mente de Kaspar Hauser não aprendeu a reagir aos fatos externos. Sua mente era, num certo sentido, semelhante à mente que gostaríamos de ter. No entanto, Kaspar Houser não possuía consciência disso, ou seja, seu caso não se tratava de um processo consciente e voluntariamente adquirido.

As reações da mente aos fatos são, em grande medida, resultado de aprendizagem. Aprendemos a reagir a cada fato de determinada maneira e a maneira como reagimos corresponde à forma como os entendemos, como os processamos por meio da mente. Reagimos às ameaças com medo porque as processamos mentalmente como perigos, reagimos aos insultos e provocações com ira porque os processamos mentalmente como agressões contra nossos pontos fracos. Quando alguém nos ofende em um idioma que não entendemos, nossa mente não processa o ataque como tal e nada sentimos. Nossas reações correspondem à forma como entendemos as coisas e, se as entendemos de uma maneira distinta, as reações também mudam. Nesse sentido, as emoções guardam estreita relação com a mente: sentimos em consonância à maneira como entendemos. Se entendo um fato como ofensa, reagirei com ira, mas se entendo o mesmo fato como um elogio, reagirei com vaidade ou ficarei orgulhoso. Esse é o motivo pelo qual não adianta tentar corrigir as emoções sem corrigir o entendimento e é também a razão pela qual os mestres instruem os discípulos a começarem o trabalho interior pela mente. A mente é a guarida do desejo.

Nossa forma de entender os fatos é equivocada, o que nos leva a reagir com emoções negativas àquilo que percebemos. Aquilo que chamamos de "fatos desagradáveis" não são mais que formas tendenciosas de compreender o mundo. O caráter desagradável não está no fato exterior em si, mas em nossa forma de entendê-lo, de recebê-lo e processá-lo mentalmente. Um mesmo fato pode ser desagradável para uma pessoa e agradável para outra, o que prova o caráter subjetivo de tais percepções. 

Desde crianças, ao longo de nossa vida (das muitas existências), aprendemos a processar interiormente os acontecimentos de determinadas maneiras. O resultado atual é que estamos condicionados mentalmente a entender o mundo de muitas maneiras equivocadas. O trabalho de compreensão dos defeitos abrange a correção desses pontos de vista equivocados que nos fazem sofrer.

Vejamos o exemplo do dinheiro. Desejamos loucamente mais e mais dinheiro simplesmente porque o entendemos como o melhor bem de todos. Achamos que o dinheiro irá comprar felicidade e tal entendimento equivocado nos leva a desejá-lo intensamente. O mesmo se dá com todos os demais desejos, os quais são originados por formas de entender. 

Há, assim, uma estreita relação entre os desejos e emoções sentidos e as formas de entender o mundo, a qual é processada pela mente e aprendida. Temos, portanto, que "desaprender" o que foi erroneamente aprendido.

A forma pela qual a mente processa as percepções exteriores guarda estreita relação com a imaginação. Se nos apontam uma arma de brinquedo e acreditamos que a mesma seja real, sentiremos as emoções correspondentes. O motivo é que nos imaginamos em perigo. Entre imaginar e entender há grande interdependência. O que acontece quando uma pessoa, ao ser insultada, não entende direito o que está se passando e imagina que o insultador está brincando, fingindo insultá-la? Ela não reage com ira, pelo menos não antes de entender o insulto como tal. O motivo está na imaginação: a pessoa se imagina em uma situação diferente do insulto. 

Insultar ou ameaçar alguém é uma forma de ferir sua imaginação. A pessoa que grita e ofende quer ferir a imaginação do outro. Quando a imaginação da vítima é atingida, ela passa a pensar constantemente naquilo, sua mente é invadida por maus pensamentos relacionados ao problema e assim permanece por um tempo relativamente longo, de acordo com a intensidade da identificação da pessoa com o fato. 

Quando alguém tenta refrear suas emoções negativas sem corrigir o entendimento equivocado que lhes corresponde, cria um conflito entre a imaginação e a vontade, ou seja, entre a mente e as emoções, originando uma neurose. O resultado é a intensificação do sofrimento. Se constantemente penso e ocupo minha imaginação com um problema, não poderei deixar de sentir as emoções correspondentes. 

Assim, temos que corrigir os entendimentos equivocados, mas como fazê-lo? Antes de mais nada, corrigindo a imaginação. Se, no momento em que somos impactados por um fato, o imaginamos da maneira oposta, desarmamos o ego naquele instante. Isso se chama "transformar a impressão". Há que se entender claramente isto.

Todo entendimento dos fatos possui um entendimento contrário que o anula. Quando encontramos a antípoda de um entendimento tendencioso e colocamos na mente, o anulamos e chegamos a uma síntese, isto é, à neutralidade. Em última instância, os fatos não são, em si mesmos, bons e nem maus, simplesmente existem, são processos naturais. Por pior e mais traumático que seja um fato, o será somente do ponto de vista subjetivo, isto é, do ponto de vista de quem o percebe assim. O Ego faz com que sempre vejamos as coisas como boas ou más, desejáveis ou detestáveis. Passamos a vida entre tais opostos, os quais são subjetivos, e não enxergamos a realidade objetiva. 

Diz o V.M.R. que podemos transformar a impressão que os fatos ocasionam aplicando a Dualidade. Isso significa, no meu entender (pobre adormecido que sou!) que temos que encontrar um modo de imaginar o fato que seja oposto ao modo como o estamos imaginando naquele momento: se estou diante de uma mulher linda que me perturba, devo imaginar algo que se encaixe perfeitamente naquela situação e anule a fascinação por sua beleza. Não é qualquer coisa que serve e isso varia de uma pessoa para outra. Para alguns, pode dar resultado imaginar que aquela pessoa é um simples ser humano, um mero animal racional como todos somos, um mamífero bípede. Para outros, imaginar o corpo da mulher envelhecendo e se desintegrando na sepultura pode dar o mesmo resultado (não se trata de desejar que ela morra e sim de enxergar o outro lado da questão). Isso varia. O que importa é ir além dos opostos e chegar à sintese, que é a neutralidade, passando além do desejo e da aversão. Estamos em um pólo do entendimento e, para ir além dos pólos, temos que encontrar o entendimento oposto, para confrontar ambos. Após o confronto, nos liberamos (temporariamente) daquele tormento mental e das emoções correspondentes. Essa é a forma como entendo a prática da transformação das impressões. 

Transformar as impressões é, de certa maneira, algo assim como enganar a mente, a qual, por sua vez, já nos mantinha previamente no engano. Não se trata de enganarmos a nós mesmos (nossa consciência), pois isso já o fazemos a todo momento, mas sim de enganarmos a mente, para convencê-la a entender os fatos de outro modo. Enganamos a mente para reverter o engano ou erro no qual ela incorreu, que é o de tomar os fatos de uma forma que nos prejudica e ocasiona emoções negativas e destrutivas.

Diante de um insultador, podemos imaginar (silenciosamente) que o mesmo não está nos insultando, somente encenando uma representação teatral. Essa imaginação seria o pólo oposto da imaginação comum (mecânica), à qual já estamos previamente condicionados, estejamos conscientes disso ou não. Mediante a imaginação oposta, corrigimos o erro, obtemos uma compensação e, ao atingirmos o equilíbrio entre as duas imaginações, por meio do incremento da imaginação que estava descompensada, escapamos da polaridade.

Quando uma pessoa nos ridiculariza ou tenta nos trapacear, podemos anular o efeito emocional provocado se procurarmos entendê-la (ou imaginarmos, se você preferir assim) como alguém que se encontra em um estado lamentável, muito pior que aquele em que estamos. Essa imaginação fornecerá o pólo contrário necessário para a correção da percepção tendenciosa equivocada. Então, se estivermos práticos, a ira poderá se transformar em piedade e não sofreremos. A irritação diante do escárnio provém da idéia, ainda que inconsciente, de que o escarnecedor está em condições superiores às nossas (e, portanto, em condições de nos ridicularizar), o que é um equívoco, pois o escárnio, em si mesmo, não é bom e nem mau, simplesmente é um fato que existe, mas que a ira não nos permite perceber objetivamente. Tampouco o escárnio, de um ponto de vista objetivo, coloca o escarnecido em uma posição inferior ao escarnecedor, somente o faz desde um ponto de vista subjetivo, pois, objetivamente, a vítima, em si mesma, não perde e nem ganha nada ao ser escarnecida (prova disso é que, quando o escárnio não é compreendido como tal, não atinge a pretendida vítima). Portanto, o ponto de vista da ira de quem é vítima do escárnio é subjetivo, tendencioso e equivocado, necessitando ser corrigido. Uma pessoa como o Buda é completamente imune ao escárnio e não necessita fazer força alguma para tanto, porque simplesmente vê o mundo de forma objetiva, sem os equívocos tendenciosos da dualidade.

Quando a alma escapa da mente, durante a meditação, se liberta também da dualidade e já não vê o mundo como uma soma de coisas boas e más, desejáveis e detestáveis. Vida e morte, doença e saúde, velhice e juventude, pobreza e riqueza perdem seu sentido. Escapar da mente é perder a noção daquilo que entendemos ordinariamente como lógica, coerência e sentido, para adquirirmos uma superconsciência onde tudo é resignificado. Porém, na meditação, tal estado é temporário e nós queremos algo mais: almejamos cristalizar definitivamente tal estado em nós, o que somente é possível mediante a Morte do Ego.

A prática de imaginar os fatos como sendo o contrário do que normalmente imaginamos que sejam não provoca a morte dos defeitos que estão por trás das imaginações mecânicas e emoções negativas, porém os desarma temporariamente, o que é de grande valia. Esta é a prática da Transformação das Impressões, que faz com que recebamos os acontecimentos de outra maneira e impede a criação de novos defeitos. Esta prática não substitui de modo algum a Morte em Marcha e nem tampouco lhe é incompatível. É uma arma ou chave adicional que os Veneráveis Mestres nos entregaram para a Morte. Obviamente, quem pratica a Morte em Marcha está corrigindo os entendimentos equivocados e imaginações tendenciosas, pois do contrário perderia todo o trabalho alcançado.

Diante de um fato, o primeiro cuidado deve ser o da recordação de nós mesmos (Recordação de Si), para evitar que a fascinação nos "apague", mas isso não basta. O segundo cuidado deve ser a Auto-observação, para verificarmos se estamos sendo atingidos em algum centro da máquina ou não. Se estivermos sendo atingidos, o próximo passo é aplicar a Morte em Marcha e a Transformação das Impressões entra aí como um trabalho fusionado. O resultado dessas práticas é o aumento cada vez maior da compreensão.

Transformamos as impressões compreendendo as situações. Ao compreendê-las, modificamos a forma de pensar e imaginar a respeito das mesmas. É claro que aprofundar a compreensão sobre algo equivale e a modificar os pensamentos e imaginações que tenhamos a respeito. Ninguém poderia aprofundar a compreensão e continuar com as mesmas idéias pois o compreender exige uma modificação no entendimento. Compreender é descobrir o novo e descobrir o novo é deixar a velha concepção. Quanto mais compreendo algo, mais modifico minhas concepções a respeito daquilo e, por extensão, meus pensamentos e imaginações relacionados.

A transformação das impressões não é uma análise dos defeitos, mas sim das situações que os evocam. A análise dos defeitos pertence a uma outra instância do trabalho interior. Transformamos as impressões no momento de entrada, no instante em que os acontecimentos exteriores nos impactam e chocam o nosso psiquismo. A impressão deve ser transformada imediatamente, por me, meio da compreensão. Transformar a impressão é "mudar a forma de ver", modificar o ponto de vista, alterar o significado do fato que nos impacta ou choca. Os acontecimentos sempre nos têm chocado sem que os percebamos conscientemente, mas agora temos que nos tornar conscientes desses choques. Quando começamos a perceber conscientemente o impacto dos eventos da vida, experimentamos o Primeiro Choque Consciente (pois até então os eventos nos chocavam inconscientemente, ou seja, tínhamos somente choques inconscientes).  O choque consciente é o choque modificado pela compreensão.

Quando compreendemos algo, modificamos a impressão que aquilo nos causa e passamos a vê-lo de outra maneira, mas para tanto é necessário refletir sobre a situação impressionante até o ponto de irmos além da forma como sempre a vimos. No entanto, há um obstrução para essa reflexão, para tal compreensão: os condicionamentos passados do Ego.

A única forma de modificarmos as impressões no momento de sua entrada, antes que causem danos, é por meio da Morte em Marcha. A Morte em Marcha modifica a impressão que os fatos provocam. Quando transformamos uma impressão, os egos correspondentes não se alimentam e não surgem novos egos ou novas facetas egóicas em nosso psiquismo. Assim, podemos interromper o processo de decadência espiritual.

Os defeitos existentes são impressões que não foram transformadas no passado e agora vibram intensamente em nosso psiquismo, originando formas equivocadas de ver, perceber, pensar e imaginar os fatos da vida.

A visão que temos do mundo, da vida, dos problemas, dos prazeres etc. são falsas e mentirosas, mas acreditamos que sejam reais, pois estamos enganados pelas impressões equivocadas que fortificamos no presente e no passado. E Ego nos engana e nos faz ver o mundo de determinada maneira condicionada, a qual nos leva a temer a dor e desejar os prazeres, pois estamos presos na dualidade. E isso está diretamente ligado à imaginação pois imaginamos as coisas de acordo com a impressão que delas tenhamos.  

Portanto, quem quer modificar seus estados internos, necessita transformar as impressões que os fatos externos lhe causam. E quem quer transformar as impressões necessita compreender melhor e de forma mais objetiva tais fatos, receber de forma consciente o choque ou impacto que os mesmos ocasionam no psiquismo, não nutrir impressões equivocadas com respectivas imaginações equivocadas e também, é claro, aplicar a Morte em Marcha em cada pequena alteração que os acontecimentos provoquem em seus centros, pois tais alterações não são mais que impressões não transformadas. Uma impressão não transformada é uma impressão equivocada, errônea e falseante.

Após a leitura deste post, sugiro a você que estude profundamente esta conferência, sob a perspectiva da Morte em Marcha e dos Detalhes:


Ao estudar a conferência, você descobrirá que o ensinamento sobre a Morte em Marcha e os Detalhes  converge completamente com o ensinamento sobre a Transformação das Impressões.



sexta-feira, 15 de março de 2013

Morte do Ego: como aprofundar a compreensão


Quando concentramos analiticamente o pensamento em um tema, é comum que, após alguns minutos, as idéias se esgotem e, ainda assim, a mente não se aquiete e não experimentemos nada espiritualmente transcendente. O motivo para tanto é o condicionamento do parâmetro analítico: estamos analisando o objeto somente sob algumas perspectivas e outras perspectivas não nos ocorrem. O problema pode se verificar também no ato de observar: ao observamos o objeto, levamos em consideração somente alguns de seus aspectos e a observação estanca, não percebemos nada novo.

Quando a concentração analítica é aplicada a um defeito com o intuito de compreendê-lo, durante a prática da meditação, pode ocorrer o mesmo problema do estancamento do processo. Então, sentimos que não conseguimos ir além e não conseguimos aprofundar a compreensão, por mais que tentemos. Lutamos para compreender mais, para descobrir o novo, mas não somos capazes. Sentimos perfeitamente que ainda não compreendemos o defeito, mas não somos capazes de obter mais informações além das que já temos. Rodamos dentro do círculo vicioso das informações conhecidas e não avançamos, o trabalho da compreensão fica estancado. Sentimos que existem informações ocultas, mas não somos capazes de acessá-las. 

O aprofundamento da compreensão, em tais casos, somente é possível se adotarmos novos parâmetros analíticos e observacionais, o que se consegue quando se busca analisar e observar o defeito desde outros pontos de vista, ou seja, considerando-se aspectos ainda não levados em conta.

Um mesmo defeito pode ser analisado segundo múltiplos critérios. Podemos estudá-lo no que se refere aos danos que ocasiona, aos centros da máquina pelos quais se manifesta, às suas metas, aos seus padrões recorrentes de manifestação diária, aos conteúdos de suas fantasias no pensamento, aos fatores externos da vida horizontal que o evocam, às formas sutis como principia a se manifestar, às suas causas psicológicas ocultas, às justificativas inventadas pela mente para desculpá-lo etc. Não há um limite definido para as facetas de um defeito e, portanto, não há um limite definido para os critérios a serem levados em consideração. Ao analisar um defeito, podemos levar em consideração múltiplos critérios, o que significa, em outras palavras, que podemos analisá-lo, durante a concentração e a meditação, segundo múltiplos pontos de vista. 

Quando adotamos um critério novo para analisar um defeito, descobrimos informações novas. Quanto mais informações tenhamos, maior será a compreensão. Quanto maior for a compreensão, mais a Mãe Divina poderá enfraquecê-lo. A compreensão aumenta com o aumento das informações que tenhamos. Temos que buscar descobrir o novo, novas facetas do defeito que almejamos enfraquecer.

Muitas pessoas tentam compreender melhor os fatos exteriores que as afetam, buscam olhá-los de forma diferente, mas não buscam compreender os defeitos que ocasionam a visão condicionada e distorcida desses fatos. Elas tentam mudar a forma de ver os acontecimentos, as dificuldades, mas não tentam ver seus egos de múltiplos pontos de vista. Como são os egos que condicionam nossa visão de mundo, tentar ver o mundo de outra maneira sem primeiramente compreendê-los resulta inútil. Nossos defeitos nos obrigam a ver as coisas de determinadas maneiras, ainda que não queiramos. Se queremos chegar ao verdadeiro estado de Apatheia (ausência de paixões), temos que compreender as causas da visão condicionada que temos do mundo, dos eventos e das coisas.

Cada defeito tem uma forma particular de ver os fatos do ginásio psicológico, uma ótica pessoal. O defeito da luxúria vê o corpo feminino de determinada maneira, o defeito da gula vê os alimentos de outra, o defeito da ira vê os insultos e gracejos de outra maneira e assim por diante. Não poderemos ver os elementos exteriores de outra forma, ou seja, desde outro ponto de vista, se não eliminarmos os defeitos correspondentes. Quem quer ver e sentir as coisas de outro modo, tem que compreender e eliminar os defeitos que condicionam sua visão e percepção. E a compreensão se consegue por meio da concentração e da meditação sobre os defeitos. Aqui, concentrar e meditar significa refletir a respeito sem desviar-se e nem distrair-se com mais nada.

O campo de nossa consciência é limitado e, além dele, se sucedem infinitos fenômenos físicos, psicológicos e espirituais (o psicológico é o início do espiritual). Além dos desejos que alcançamos enxergar, temos muitos outros que nem sequer suspeitamos. Isso significa que aquilo que alcançamos e compreendemos sobre um defeito não é tudo, é uma ínfima parte. Se quisermos ampliar e aprofundar a compreensão, temos que explorar e penetrar o defeito com a consciência, nos tornando conscientes de aspectos ainda insuspeitados. Por trás de determinado desejo ou temor sempre existem outros desejos e temores ocultos. Somente a reflexão absolutamente sincera permite penetrar nessas regiões obscuras de nós mesmos.

Entre os vários critérios analíticos utilizáveis no trabalho de compreensão de um defeito, considero de grande importância a procura por suas causas psicológicas (os "porquês" das manifestações). Por trás de um desejo visível há outros desejos, ocultos e em relação sinérgica com o desejo visível, que atuam como suas causas psicológicas. Debater-se contra o desejo visível ao invés de buscar suas causas psicológicas ocultas limita a pessoa a esforços sem resultados. Quando descobrimos as causas psicológicas ocultas, normalmente o desejo fica desarmado. Caso não desarme, isso significa que ainda há outras causas psicológicas a serem descobertas.

Os desejos podem formar grupos que apresentam relações sinérgicas entre si. Por relação sinérgica entenda-se uma relação não conflitante e de reforço mútuo. Quando vários desejos diferentes apontam exatamente na mesma direção, para o mesmo objetivo, estamos diante de uma relação sinérgica. Os grupos concordantes de impulsos são chamados pela psicologia de "complexos" ou "agregados psíquicos". Normalmente, um defeito não é constituído somente por um desejo, mas por vários desejos agregados, sendo a maior parte deles ocultos: sentimos os impulso para a satisfação, mas não sabemos exatamente o "porquê".  O "porquê" está nos desejos ocultos, que atuam como causas psicológicas.

As causas psicológicas ocultas necessitam ser reveladas e esclarecidas, o que se consegue mediante a concentração e a meditação analíticas direcionadas às mesmas. Quem não sabe concentrar o pensamento e refletir analiticamente em profundidade, não poderá explorar o defeito para descobrir tais causas.

Suponhamos que você esteja apaixonado(a) e sua libido esteja fixa em determinada pessoa. Você está sofrendo uma obsessão, quer se livrar e não consegue. Ao olhar para si mesmo, à primeira vista, verá somente um impulso cego e louco. No entanto, se você for prático na concentração/meditação e se perguntar a respeito dos motivos de tal impulso ("Por que a desejo tanto?"), descobrirá desejos, emoções, temores e valores escondidos. Concentre-se na pergunta e busque as respostas com a máxima sinceridade e coragem possível. Você verá que, além do desejo visível de ter aquela pessoa para si, há outros desejos que o reforçam. Pode ser que você a deseje tanto porque simplesmente ela se negou a você, originando o desejo de vencer sua resistência; pode ser que você a deseje porque deseja uma pessoa como aquela para exibir como um troféu para seus amigos e parentes; pode ser que você a deseje porque ela se pareça com alguma pessoa parecida do passado que você desejaria ter de volta; pode ser que você a deseje porque esteja curioso(a) por saber se ela irá lhe proporcionar prazeres inimagináveis etc. As causas psicológicas ocultas de um desejo variam de um caso para outro. 

Um homem pode gostar exageradamente de determinada prática sexual. Ao explorar seu vício, poderá descobrir que valoriza tal prática por outros desejos ocultos (os quais variam de uma pessoa para outra) ou até por temores. Explorando-se e interrogando-se, ele poderia descobrir muita informação útil sobre o defeito e compreendê-lo cada vez mais.

A despeito da crença freudiana na impossibilidade de realização de uma auto-análise solitária, o fato é que a descoberta das causas ocultas costuma trazer alívio e foi realizada por filósofos e ascetas espirituais desde a antiguidade.

Há, porém, outro aspecto nesse problema da compreensão: a necessidade de enxergar cada vez mais objetivamente os fatos exteriores que nos afetam. Se descobrirmos as várias facetas de um defeito, mas não nos preocuparmos em também trabalharmos a compreensão dos fatos exteriores que os criam e os reforçam, perdemos os resultados conquistados. De nada adianta descobrir facetas se continuamos a recriá-las e alimentá-las. Portanto, além de compreender os egos, temos também que modificar as impressões que os fatos deixam em nós. Falarei um pouco mais profundamente sobre isso em outros posts.

Que fique claro, porém, que, no trabalho da Morte dos Egos, a compreensão não é tudo. A compreensão é metade do caminho. A outra metade é completada pela devoção intensa à Mãe Divina, que é quem realmente decapita e mata os nossos defeitos. Sem a Mãe Divina, não haverá Morte. A psicoterapia, por exemplo, não alcança a Morte porque exclui a Mãe Divina. A Morte somente se concretiza quando oramos e suplicamos intensamente à Mãe Divina.

Que essas palavras cheguem exatamente àqueles que estiverem delas precisando.  

quinta-feira, 14 de março de 2013

A dissolução dos egos que almejam virtudes


Que este conhecimento chegue aos desesperados que estão perdidos na luta pela superação de seus próprios defeitos e estejam necessitando das informações que seguem.

Vamos falar um pouco sobre os egos úteis e bons. Dizem os V.V.M.M que existem eus bons que, ao serem eliminados, são substituídos por partes correspondentes do Ser que desempenham as mesmas tarefas, porém de forma muito mais eficiente e sem os efeitos colaterais destrutivos dos egos que anteriormente as realizavam. Se um homem trabalha como vendedor, por exemplo, e dissolve seus egos vendedores, o ato de realizar as vendas passará a ser realizado por alguma parte do Ser que tem habilidade na área, porém o fará de forma superior. Um mesmo ato pode ser realizado por um ego ou por alguma parte do Ser. O ato de compor e executar músicas, por exemplo, pode ser um ato inferior e animalesco ou um ato superior e sublime. Quando o ego o realiza, teremos um tipo de produto e, quando o Ser o realiza, teremos outro. Se o ego que realiza um ato é eliminado, alguma parte do Ser poderá, sempre que necessário, substituí-lo na realização do mesmo ato que, a partir de então, será realizado de forma diferente. Até mesmo o ato sexual pode ser realizado pelo Ser ou pelo Ego. São os resultados que irão nos mostrar.

Há, no entanto, um tipo específico de ego bom que descreverei hoje: os egos que almejam a santidade e cobiçam a liberação dos pecados.  São egos que possuem intenções veneráveis e irreprováveis mas apresentam efeitos colaterais danosos.

Aqueles que desejam intensamente libertar a alma dos pecados sofrem muito com a lentidão natural do processo da Morte. A Morte dos Defeitos não é algo rápido, que ocorra do dia para a noite. No entanto, os egos ascetas e espiritualistas podem ocasionar grande sofrimento e graves danos emocionais aos irmãos de todas as religiões que almejem ardorosamente o estado de santidade e pureza.

Quando uma pessoa não aceita a crua realidade dos seus próprios defeitos e não se conforma com a situação em que se encontra (refiro-me a uma inaceitação e a um inconformismo doentio) pode desenvolver neuroses. Certas neuroses são típicas de religiosos e ascetas espiritualistas e se devem à atuação de poderosos egos que anseiam pelo estado de pureza e entram em choque frontal com os egos que amam os prazeres da vida mundana.

Por mais estranho que pareça, existem egos que desejam, de forma inconsciente e condicionada, a evolução espiritual e os mesmos necessitam ser eliminados como quaisquer outros. Ao serem eliminados, partes correspondentes do Ser os substituem e realizam com maior eficiência o trabalho de nos impulsionarem para cima.

A inaceitação e o inconformismo com o estado de adormecimento e pecado apresentam duas facetas, dois aspectos: o inferior e o superior, sendo um egóico e o outro átmico (originado pelo Ser). A inaceitação e o inconformismo egóico ocasionam as neuroses religiosas. O intenso sofrimento emocional que advém após a satisfação dos desejos mundanos, sejam eles a fornicação, a gula ou quaisquer outros, é o princípio da neurose religiosa e se deve a tais egos “espiritualistas”, os quais possuem propósitos nobres e resultados catastróficos. Assim, temos que nos observar e nos descobrir também nesses aspectos relacionados com os desejos de superação de nós mesmos, pois aí existirão defeitos escondidos e disfarçados de virtudes.

Se explorarmos nossos próprios complexos espiritualistas, por meio da auto-observação e também da meditação, poderemos descobrir o medo do castigo divino, a preocupação com o próprio destino após a morte, a cobiça por poderes psíquicos e por estados de felicidade espiritual, o conservadorismo arbitrário e moralista que não possui lógica alguma, o fanatismo, a auto-depreciação, o ódio a si mesmo e muitos outros defeitos, os quais podem estar por trás da vida emocional atormentada de muitos religiosos. Não importa se os egos sejam bons ou maus, no final, eles sempre ocasionam prejuízos.

É importante frisar que não estou pregando o conformismo e nem a negligência, estou somente chamando a atenção para o fato de que os egos podem tomar o lugar do Ser (e vice-versa) nos impulsos pela superação. Quando a Mãe Divina dissolve os egos espiritualistas, as neuroses espirituais são substituídas por disciplinas conscientes dirigidas pelo Ser. Nossa meta não é sofrer a vida inteira por sermos pecadores, mas de fato deixarmos de ser pecadores para sermos felizes.

É natural que queiramos a libertação dos pecados e a verdadeira pureza do coração, mas a realização da alma não é algo assim tão simples, não é simples questão de querer. Não basta querer e tentar, é preciso adquirir muito conhecimento experiencial, o que é gradativo. A alma não se desenvolve por um passe de mágica, necessita trabalhar e adquirir conhecimento, experiencia e consciência ao longo da vida, o que é um processo muito lento. Se estamos presos em vícios e erros, é por falta de compreensão. E a compreensão é algo elástico, que se alonga conforme vamos aprofundando nossas observações e reflexões durante toda a vida. O estado de pureza dos budas e dos santos não resultou do simples querer, resultou de trabalhos sem fim ao longo de existências. 

Normalmente, as pessoas não entendem corretamente a Morte do Ego. Imaginam que seja uma mera disciplina de esforços para "amarrar" emoções e desejos, como se isso os eliminasse. A Morte do Ego é uma verdadeira morte dos desejos e emoções inferiores e não o mero encarceramento dos mesmos. Encarcerar desejos e emoções negativas não nos liberta.

Bem, este é apenas o meu ponto de vista pessoal sobre o problema. Espero ter me feito entender.

domingo, 10 de março de 2013

Morte do Ego: evitando o cultivo


Enfraqueça o ódio evitando tudo o que alimenta o ódio. Enfraqueça a cobiça evitando tudo o que alimenta a cobiça. Enfraqueça a gula evitando tudo o que alimenta a gula. Enfraqueça a luxúria evitando tudo o que alimenta a luxúria. Enfraqueça o medo evitando tudo o que alimenta o medo. Enfraqueça o apego evitando tudo o que alimenta o apego.

Mediante a Morte em Marcha, evite aquilo que alimenta o defeito que você almeja eliminar de sua natureza. Muitas situações exteriores alimentam inevitavelmente defeitos específicos. Evite-as mediante a morte dos impulsos (nos cinco centros) que te impelem para elas. Retire de sua vida TUDO o que conduz ao problema psicológico. Retire de si todas as recordações, não mediante o conflito da oposição força-a-força, mas mediante a descoberta seguida da aplicação da Morte em Marcha e do esquecimento. Se não houver esquecimento, o defeito será reavivado. Se o esquecimento não for possível, por mais esforço que se faça, é porque está sendo reativado por algum canal subconsciente.

Desejo e aversão (temor) são as duas formas básicas assumidas pela natureza animal inferior. Todos os egos se enquadram em uma das duas categorias. A luxúria, o apego, a gula e a inveja são formas de desejo. O medo, a valentia e o ódio são formas de aversão. A preguiça é o desejo de não fazer nada. A cobiça é o desejo de posses. O ódio é a aversão pelo inimigo. Todos os defeitos são formas mentais que reforçamos continuamente, através de atos, palavras e, principalmente, de pensamentos e recordações.

Caímos em situações exteriores que reforçam os defeitos porque somos levados por impulsos internos. Dissolvendo os impulsos nos cinco centros, deixamos de ser arrastados para elas e os defeitos começam a enfraquecer. Querer livrar-se de um defeito sem abandonar as situações exteriores que o alimentam é um contra-senso absurdo.

Entenda-se que "evitar" ou "abandonar" situações é algo realizado após as mesmas terem sido descobertas e compreendidas como prejudiciais e reforçadoras dos defeitos. Não se trata de uma simples supressão de fatos da vida sem compreensão alguma e sem a oração pela Morte em Marcha. A renúncia é posterior a descoberta e constatação dos prejuízos.

Ampliação em 12/12/2013

Quando deixamos de usar uma função psicológica, ela sofre uma atrofia. O Ego é um conjunto de funções ou funcionamentos psicológicos mantidos vivos pelo uso constante, formas de pensar, sentir e entender continuamente exercitadas. Sinapses, sanskaras e circuitos cerebrais que se tornaram poderosos começam a se enfraquecer e a atrofiar ao deixarem de serem usados. E isso o que queremos com a Morte do Ego.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O erro de cultivar e reprimir


Cultivar e reprimir

Vamos detalhar um pouco um erro que muitos cometem no trabalho da Morte. Pode ser que você também o tenha cometido. O erro consiste em reprimirmos e cultivarmos os defeitos ao mesmo tempo.

Temos uma tendência de reprimir defeitos sem deixar de cultivá-los. Trata-se de um comportamento contraditório mas comum: cultivamos o defeito e, quando seus resultados nefastos se fazem sentir, tentamos contê-lo e reprimi-lo. Assim, passamos a vida sofrendo em um círculo vicioso, no qual damos vida e força àquilo que nos prejudica.

Geralmente, não compreendemos que é perfeitamente possível deixar de reprimir um defeito sem, no entanto, cultivá-lo. O senso comum dita a (falsa) crença de que temos sempre que optar entre reprimir e cultivar, de que ambas as coisas não podem ocorrer simultaneamente e nem podem ser abandonadas ao mesmo tempo. Na verdade, o reprimir e o cultivar não são mutuamente dependentes e nem tampouco excludentes, podendo ocorrer simultaneamente ou não. Uma pessoa pode reprimir e cultivar, assim como pode também deixar de reprimir ao mesmo tempo em que deixa de cultivar algo em sua psique. Essa última possibilidade é a que nos interessa agora.

O reprimir e o cultivar formam um par de opostos que pode ser abandonado e isso soa estranho tanto aos conservadores como aos seus antípodas, os hedonistas. 

Uma pessoa corretamente preparada pode retirar a repressão que pôs sobre os seus defeitos ao mesmo tempo em que remove todas as formas que adotou para seu cultivo. 

Não se pode reprimir aquilo que não existe, não aparece ou não se manifesta. A repressão, portanto, exige que ocorra manifestação prévia de algo. No entanto, a manifestação de um defeito é resultado de um cultivo que a antecede. Cultivamos um defeito através de lembranças, de falas, de atitudes. Se, ao invés de nos ocuparmos com a repressão, formos diretamente às causas da manifestação, não haverá defeito manifesto para ser reprimido. As manifestações se tornarão progressivamente mais fracas, até desaparecerem, sem necessidade de serem sufocadas e nem contidas. O segredo, aqui, consiste em irmos às causas e removê-las. Quando removemos as causas, não há manifestação a ser reprimida.

Como removemos as causas? Por meio da Morte em Marcha. 

Muitas vezes confundimos tudo e achamos que remover as causas é o mesmo que reprimir, o que é falso. Reprimir é sufocar aquilo que está manifesto, não é despotenciar as manifestações. Despotenciar uma manifestação é algo totalmente diverso de reprimir. 

Cultivamos constantemente aquilo que nos faz mal e não nos damos conta disso, pois o fazemos inconscientemente.

As causas das manifestações devem ser buscadas nos atos comuns e inocentes do cotidiano. Alguns atos comuns e sem importância resultam em posteriores manifestações violentas de defeitos. Se os removemos, desarmamos o problema. As causas se escondem em frases, olhares, expressões, nos modos, nas vestimentas e em inúmeros detalhes do nosso comportamento. Removendo-os, deixamos de cultivar os defeitos correspondentes e não necessitaremos reprimir.

Um defeito é como um animal que você criou e continua a cuidar dele. Agora o animal cresceu e se tornou forte. Não tente brigar diretamente com a fera, simplesmente deixe de cuidar dela. Observe-se e descubra por onde você está mantendo-a viva. Você a alimenta, cuida do animal todos os dias e não se dá conta. Vá descobrindo e retirando todos os cuidados e ele aos poucos enfraquecerá e morrerá.

O cultivo pela identificação

Outra forma de cultivar um defeito consiste em tentarmos "encarar" situações perante as quais somos impotentes. Por exemplo, não há como contemplarmos algo que desejamos muito sem sentirmos ainda mais desejo. Quando o fazemos, o resultado é a fortificação do respectivo defeito. Ainda que o façamos com boas intenções, tentar "afrontar" certas situações para as quais não estamos preparados somente irá nos lançar cada vez mais para baixo. Daí a necessidade do controle dos Indryas (sentidos).

Uma pessoa que tenha fobia de aranhas, por exemplo, não poderá sujeitar-se ao perigo das aranhas sem identificar-se. O simples ato de permanecer no meio de aranhas já é uma forma de alimentar o seu medo. Quanto mais tal pessoa tentar encarar aranhas, mais medo sentirá. O medo se fortificará com o próprio medo. Quanto mais medo sentir, mais medo terá. Quanto mais a pessoa se ocupar com o objeto do seu temor, quanto mais pensar, falar, precaver-se, ver etc. o objeto em questão, pior ficará o seu problema. Para que seu medo morresse, ela deveria primeiramente deixar de alimentá-lo. Novos samskaras seriam criados em sua mente, até o dia em que a pessoa se estabelecesse totalmente em uma forma mental diversa, em um outro modo de entender os aracnídeos. Somente quando outro modo de encarar o problema se enraizasse, é que as aranhas poderiam ser encaradas de frente.

Com o desejo sexual acontece a mesma coisa. Um homem sexualmente ativo não poderá jamais tentar afrontar situações perante as quais não pode resistir. Se um sacerdote fosse pregar a Palavra do Senhor em um prostíbulo, terminaria fornicando com as prostitutas. Um homem que queira contemplar imagens de lindas mulheres altamente desejáveis não deixará de desejá-las ainda mais e de fortificar, assim, seu desejo. O ideal, nesses casos, seria controlar os Indryas: não ver, não olhar, não ouvir, não percebê-las. O simples desejo de querer percebê-las já assinala o princípio da manifestação causal, a qual deveria ser removida através da Morte em Marcha ao invés de ser reprimida.  

Acreditar que se pode enfrentar certas situações sem ser afetado pelas mesmas é ilusório. Temos que diferenciar as situações que podemos enfrentar daquelas perante as quais somos impotentes. Por "enfrentar" entenda-se: olhar, perceber, ocupar-se. Há situações que não nos afetam de modo algum, mas há outras que provocam intensa identificação, quer queiramos ou não. 

Escolhamos uma imagem qualquer, perante a qual você é impotente. Você é incapaz de perceber aquela imagem ou situação (um conjunto de imagens) sem ser afetado. A imagem ou situação te provoca inúmeras emoções negativas indesejáveis e prejudiciais. Pois bem, se você cometer o erro de tentar enfrentá-la, acreditando que poderá percebê-la sem identificar-se, estará também cometendo um auto-engano, sendo iludido por seu próprio Ego, que se nutrirá desta maneira. Quanto mais você se ocupar, pensar e perceber aquilo que te afeta, mais afetado ficará, por uma simples razão: você não tem forças para resistir, mas está tentando fazê-lo, em vão. Inconscientemente, você está preso ao problema por diversos laços, de diversas maneiras. Você se ocupa com o problema e não sabe disso. Caso queira se livrar, tem que descobrir e cortar todos esses laços. Tome consciência dos laços e os corte.

Eu, por exemplo, não tenho medo de andar em uma floresta sozinho. As serpentes e outros perigos não existem para mim. Posso andar pela floresta sem nenhum problema. No entanto, uma pessoa que tenha pavor de florestas não poderá sequer contemplar uma mata sem fortificar sua fobia. Tal pessoa necessita controlar os seus Indryas nesse aspecto, até o dia em que seu medo desapareça por completo.

O que foi dito aqui vale para todos os defeitos da personalidade humana. Morrer para algo é deixar de existir completamente para aquilo, não é ocupar-se cada vez mais. Morrer é desligar-se, abandonar. A Morte do Ego consiste em deixar tudo para trás, em romper com o passado para sempre.


Mas... e quando não há escapatória?

Provavelmente, você deve estar se perguntando: "Mas o que deve fazer a pessoa que não pode evitar um problema e se vê obrigada a enfrentá-lo, contra a sua vontade?" Este é um ponto importante a ser esclarecido.

Existem situações que realmente não podem ser evitadas. Se uma pessoa que esteja trabalhando o seu vício em doces for atirada em uma confeitaria, o que deve fazer? Minha proposta: deve fazer o mesmo que faz o equilibrista que anda sobre uma corda entre dois prédios.

O equilibrista não leva sua mente e nem os seus sentidos ao perigo, mesmo estando dentro da situação perigosa. Ele controla seus Indryas, pois não olha para baixo, e imagina estar caminhando sobre uma linha traçada no chão e não sobre uma corda. Ao imaginar que caminha no chão, o equilibrista mantém sua mente concentrada. A concentração o protege, forma uma espécie de escudo protetor que o deixa blindado contra a sensação de que está prestes a cair. A sensação de que se pode cair é o princípio do medo. Se o equilibrista olhar para baixo, sua mente se desviará do lakshya e o medo irá invadi-lo. A chave não está fora, está dentro: é a imaginação concentrada. A imaginação definirá o rumo dos acontecimentos. O que sentimos depende, em grande medida, do que imaginamos. Se nos imaginamos vulneráveis, nos sentimos vulneráveis. Se nos imaginamos protegidos, nos sentimos protegidos. Portanto, o equilibrista seleciona o que percebe e ao mesmo tempo o que imagina. Ele evita perceber e se recusa a concentrar sua mente no perigo, criando assim uma outra forma de ver a situação. Levada às últimas consequências, a correta concentração da imaginação nos permite atravessar tempestades e terremotos mantendo a serenidade do Budha.

Vejamos outro exemplo. Um praticante de tantra ioga não poderá levar sua mente à mulher no momento do ato sexual ou sofrerá uma ejaculação involuntária. Ele se concentra em seu próprio órgão sexual, procura sentir e imaginar sua energia sendo transmutada. Ao manter a imaginação assim focalizada, o iogue tântrico se torna blindado contra a luxúria e pode prolongar o seu ato por muito tempo. Ele faz o mesmo que faz o equilibrista: controla a imaginação e se recusa a perceber e imaginar o que pode conduzi-lo pelo caminho indesejável. Se o iogue concentrasse sua mente em fantasias e fetiches eróticos ou concentrasse sua atenção nas formas femininas, nos gemidos, nas sensações proporcionadas pela mulher etc. finalizaria involuntariamente o ato sexual e não atingiria a sua meta, que é retirar-se do ato antes da finalização para continuá-lo outro dia.

Mais um exemplo, para entendermos melhor. Um lutador que fique prestando atenção nos pontos fortes do inimigo e deixe de lado os seus pontos fracos, terminará acreditando que está completamente vulnerável. Ao acreditar-se vulnerável, levaria sua mente à derrota, pensaria e imaginaria mil coisas, problemas e perigos. Tal lutador estaria derrotado de antemão. Por outro lado, se prestasse atenção somente nos pontos fracos do rival, terminaria acreditando que é invulnerável (o que está em questão aqui não é quem objetivamente irá vencer a luta, mas sim o processo psicológico envolvido). Se o lutador escolher como lakshya seus próprios pontos fortes e os pontos fracos do inimigo, impedirá que sua imaginação seja ferida e não sentirá as emoções correspondentes.

Uma bailarina ou um músico que levem sua mente, sua percepção e sua imaginação à platéia poderão ser tomados pela insegurança e, então, errarão a execução do trabalho. O que eles fazem? Se concentram no que estão fazendo. Alguns usam a tática de imaginarem que estão tocando/dançando sozinhos. Quanto mais concentrados estiverem, menos ansiosos ficarão. Com o tempo, suas mentes sofrem uma modificação e não mais acreditam ou imaginam que estão vulneráveis.

Se uma pessoa apontar para você uma arma de brinquedo dizendo que se trata de uma arma de verdade, você provavelmente se sentirá em perigo. Sua imaginação terá sido ferida e provocará várias emoções negativas correspondentes.

Portanto, o que deveria fazer nosso amigo viciado em doces que caísse de para-quedas dentro de uma confeitaria? Deveria escolher algo em que concentrar a percepção e a imaginação para, assim, atravessar incólume a "tempestade de açúcar". Deveria evitar olhar para os doces e imaginar que está em um lugar distinto da confeitaria.

Se você se ver obrigado a enfrentar uma situação estressante inevitável, poderá se proteger desviando a imaginação e a percepção dos aspectos negativos do problema, focando-os e firmando-os nos aspectos positivos ou imaginando que está em uma situação parecida, porém não tão difícil assim. Recuse-se a alimentar o mal com a mente.

Que fique claro, no entanto, que esta é somente uma dica para as situações extremas. O procedimento de desviar a imaginação e a percepção, embora muito útil, não chega realmente a matar os egos envolvidos, somente nos blinda.