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quinta-feira, 15 de março de 2012

Sobre o silêncio mental

No capítulo 3 do livro "A Revolução da Dialética", o V.M. Samael nos dá preciosas informações a respeito dos pensamentos que atrapalham a meditação. Informações sobre este mesmo tema também estão dispersas em outros capítulos do mesmo livro e em outras obras.

No capítulo em questão, intitulado "Mo Chao", nos é ensinado que a mente não se aquieta pela força e sim pela compreensão. Tentarei aprofundar alguns pontos do capítulo aqui. Não tratarei agora da concentração, da meditação. Estarei me referindo aos pensamentos invasivos que atrapalham tais práticas e insistentemente voltam mesmo quando nos desviamos deles e focamos a atenção em nosso lakhsya (o alvo da concentração).

Tentar aquietar a mente violentamente, arbitrariamente, origina conflito interior. A quietude da mente não resulta do conflito mas da aplicação do correto procedimento silenciador. Aquele que tenta silenciar os pensamentos pelo mero esforço bruto, está entrando em conflito com a mente e, havendo conflito, não haverá paz. Buscamos a paz mental e não o conflito com a mente. Não queremos um aumento dos conflitos interiores.

Buscamos a paz interior e o silêncio mental. O silêncio resulta espontaneamente da aplicação do procedimento correto e é possível somente quando o Ego se ausenta. O silêncio não resulta de um esforço repressor sobre os pensamentos, como muitos principiantes acreditam.

Normalmente, o primeiro impulso daquele que se dá conta da necessidade de acalmar os pensamentos é tentar amarrá-los arbitrariamente. Este é um procedimento equivocado porque é repressor. Reprimindo-se a mente não se consegue aquietá-la. O procedimento correto e silenciador é outro, totalmente distinto. O caminho para a quietude é completamente diferente da mera e arbitrária repressão.

Reiteradas vezes o V.M. nos diz que os pensamentos silenciam quando os compreendemos. E o que é compreender um pensamento? Compreender um pensamento é, entre outras coisas, compreender o seu conteúdo e suas metas.

Cada pensamento possui uma meta própria (carga de libido), sendo, portanto, tendencioso. Se analisarmos a meta de cada pensamento, vemos que aponta para um lado, para uma direção específica. Como a toda direção existe uma direção oposta, resulta então que o processar dos pensamentos é um batalhar de antîteses. Todo pensamento tem o seu contrário e o silêncio advém quando nos damos conta de ambos os lados.

Se estudarmos o conteúdo e as metas de um pensamento, chegaremos inevitavelmente à conclusão de que o mesmo, no fundo, é absolutamente desnecessário. O pensamento desaparece quando compreendemos sua inutilidade.

Conforme os pensamentos vão surgindo, devemos contemplá-los, empenhando-nos por compreendê-los. Compreender um pensamento não é raciocinar a respeito do mesmo, é simplesmente fazer-se consciente do que ele traz, do que contém, do que quer, do que almeja, do que deseja e muito mais. É recolher informações sobre o mesmo. Quanto mais informações se tenha, maior compreensão se conseguirá. Quando se compreende profundamente um pensamento, conclui-se que o mesmo é inútil, desnecessário. Neste momento, o pensamento nos abandona.

Ao invés de rechaçarmos o pensamento, temos que recebê-lo, porém sem identificação. Se ficarmos identificados com o pensamento, saboreando-o e curtindo-o, o fortificaremos ainda mais.

A postura diante dos pensamentos deve ser imparcial: nem os rechaçamos e nem nos identificamos. Temos que alcançar uma postura neutra, em que não os rejeitamos e nem os adotamos, simplesmente os observamos enquanto fluem e os vamos compreendendo.

Esta é a prática do pratyara, que conduz à total abstração dos sentidos, ao desligamento sensorial. Aplicar um pratyara é praticar a auto-observação sobre o centro intelectual.

Uma vez em postura correta (asana) e profundamente relaxados, passamos a contemplar os pensamentos e a nos fazermos conscientes de cada um. Os pensamentos passam em procissão, um após o outro. À medida que desfilam, simplesmente nos damos conta dos mesmos: em que estamos pensando? Após um pensamento passar, virá outro e depois outro, todos encadeados.

Os pensamentos formam cadeias, por associação. Se os vamos compreendendo, começam a surgir rupturas momentâneas em tais cadeias, até um momento em que o desfile das formas mentais se esgota.

O silêncio interior que buscamos é o esgotamento do processo racional e não a paralisação mental pela força.

O hábito de rechaçar e reprimir os pensamentos não conduz à compreensão e nem ao silêncio, simplesmente oculta e submerge a atividade mental nas profundidades do inconsciente. Melhor que isso é tomarmos consciência do que estamos pensando. Durante a prática, temos que descobrir em que é que estamos pensando, perguntar-nos: "Em que estou pensando agora? Em minha irmã? Em minha noiva? Em meu carro? Em meu trabalho?"

Saber em que se está pensando é fundamental para se conseguir alcançar a quietude.

Não se compreende algo quando se o rechaça. Quem quer compreender um pensamento rechaçando-o, está cometendo auto-sabotagem.

Todo pensamento é dualista, pois é tendencioso. Se é tendencioso, opta por um polo, por um lado de um par de opostos. Se penso em minha noiva, meu pensamento com certeza estará carregado de valor, positivo ou negativo. Pode ser que eu sinta raiva, ciúmes, saudades, desejo, orgulho ou vergonha. O que essa noiva está significando para mim neste momento? Seja qual for o sentimento embutido no pensamento, será uma polarização. E o seu contrário será o seu pólo oposto. À medida que compreendo um pólo, o ultrapasso e minha compreensão chega ao pólo oposto. Quando compreendo ambos os pólos, chego à síntese e me liberto da tendenciosidade. Então, o pensamento se esgota, se retira, pois o ego que o emitia se aquietou.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O que é "identificar-se"?

Os Veneráveis Mestres Samael e Rabolú nos falam constantemente sobre o problema da identificação. Ensinam que não devemos nos identificar com as coisas da vida e nem tampouco com os egos. É um tema que merece maior explicação pois muitas pessoas não o compreendem bem.

O que é "identificar-se com algo"? Temos que analisar a questão etimologicamente. A palavra "identificar" significa "encontrar". Portanto, "identificar-se" significa "encontrar-se" e "identificar-se com algo" significa "encontrar-se naquilo". Ora, "encontrar-se em algo" significa perder a noção da distinção entre sujeito e objeto, significa confundir-se com o objeto. Quando nos identificamos com alguma coisa, deixamos de perceber o que somos e não nos separamos do objeto da identificação. Quem está identificado, está unido. Quem não está identificado, está separado, dissociado. Identificar-se é misturar-se, confundir-se. Identificar-se é, também, entrar em sintonia, entrar na frequência, sintonizar-se, vibrar em consonância com algo.

Podemos nos identificar com objetos externos (pessoas, fatos, problemas, corpo físico, doenças etc.) ou com objetos internos (pensamentos e emoções), podemos nos identificar com objetos físicos ou psicológicos.

A identificação ocorre sempre pela fascinação. O que é fascinação? É o sono hipnótico da consciência. Fascinar-se é deixar-se hipnotizar, ficar deslumbrado, atraído irresistivelmente por algo a ponto de esquecer-se de si mesmo. Quando nos esquecemos de nós mesmos, nos identificamos com o objeto.

Nos identificamos com as coisas da vida porque nos deixamos fascinar. A fascinação e a identificação estão intimamente relacionadas mas não são a mesma coisa. A fascinação provém da força hipnótica emanada do órgão kundartiguador e que confere um caráter atraente e irresistível aos objetos. A identificação é a indistinção, a perda da noção de diferença entre o que somos e aquilo que nos fascina. A fascinação é o deslumbramento e a identificação é a indistinção. Ambos coexistem intimamente o tempo todo.

O meio de resistir à fascinação é a prática da recordação de si. A recordação de si rompe a identificação entre sujeito e objeto. Quando nos recordamos de nós mesmos, recuperamos a compreensão da diferença entre o que somos e o que é o objeto da fascinação. Quem está identificado, está obrigatoriamente esquecido de si mesmo, não se recorda da distinção. Recordar-se de si é romper os fios de fascinação que nos mantém unidos aos objetos.

Recordar-se de si não é recordar-se do Ego e sim recordar-se da Essência (e, por extensão, do Ser), é sentir o que temos de mais elevado dentro.

A recordação de si é indispensável para a auto-observação pois, se não nos recordamos de nós mesmos, não conseguimos nos dissociar dos fatos fascinantes para observá-los. Observar é contemplar, como poderíamos contemplar o que vai se processando dentro de nós se nos mantivéssemos distraídos, fascinados, com os fatos da vida ou com nossas emoções e pensamentos? Quem está distraído não está observando, a observação requer que não haja distração.

Passamos os dias fascinados e esquecidos de nós mesmos. Vemos algo interessante e deixamos que arraste nossa atenção para aquilo. Esse é o sono da consciência. Nosso percentual de essência livre está passivo, sujeito aos 97 por cento de Ego, devido à fascinação. Conforme aperfeiçoamos a prática da recordação de nós mesmos, vamos recolhendo os percentuais dispersos de essência livre para utilizá-los nas práticas de meditação e de Morte do Ego. Na meditação, os reunimos e exercitamos, para que se tornem mais resistentes, robustos e eficientes.

Podemos nos identificar com uma briga, com pessoas sexualmente atraentes, com alimentos saborosos, com roupas caras, com programas de televisão, com filmes etc. Podemos nos identificar também com nossos defeitos, com os pensamentos, com os desejos, com os impulsos, com lembranças, com fantasias, com medos etc. O ideal seria que nos separássemos de tudo isso e os percebêssemos de fora, com algo distinto de nós e alheio ao Ser.

Não estamos conscientes da maior parte das fascinações que sofremos. Percebemos, conscientemente, apenas uma pequena fração das identificações. Vivemos identificados com as coisas de dentro e de fora e não sabemos disso. Acreditamos, em nossa ingenuidade, que estamos despertos.

Quem se identifica com o Ego não pode eliminá-lo porque está lhe fornecendo energia. O Ego colhe energia dos centros da máquina por meio das identificações. Os detalhes do Ego são milhares de identificações pequenas e sutis, às quais não conferimos importância por nos parecerem inocentes, inofensivas e até necessárias.

Sintonizar-se com um defeito é algo parecido com sintonizar uma estação de rádio. Aquele que entra na frequência dos seus defeitos não consegue livrar-se dos nefastos resultados. Uma vez sintonizados, o defeito nos "prende" à sua forma de ver o mundo, nosso ponto de vista adquire um colorido específico que condiciona nossa consciência.

Tenho visto alguns psicólogos sugerirem às pessoas que se identifiquem "um pouco" com seus desejos, com o intuito de "conhecê-los melhor". A pessoa deveria "deixar-se atingir" pelos desejos sem deixar-se dominar por eles. O pressuposto equivocado nessa idéia é o de que é possível identificar-se sem perder a consciência, o que é totalmente falso. Remover a repressão não é mesmo que deixar-se tomar pelo desejo. 

Esses conceitos não devem nos confundir e nem perturbar nossa prática, destinam-se apenas a um melhor entendimento e visualização concreta do que é ensinado.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O Ego é uma masmorra

O Ego é análogo a uma caverna prisional ou masmorra.

A Morte do Ego é parecida com o ato de sair de uma masmorra ou caverna prisional escura, húmida e fria. Dentro da caverna nos sentimos mal e quando saímos dela nos sentimos bem, porque há luz, pássaros, ar fresco, liberdade etc. Não podemos desfrutar a beleza de fora enquanto estivermos dentro da caverna. Quem está morto em si mesmo, está fora da luxúria, da ira, da cobiça etc. Quem está morrendo, está dando passos para fora da caverna.

Imaginar que se possa dissolver o Ego mantendo-se identificado com ele é tão absurdo quanto supor que alguém possa estar fisicamente livre sem sair da prisão. Quem está morrendo, passa a ver os atrativos da luxúria, da ira, do ódio etc. como algo estranho, que não lhe pertence, pois não se identifica com aquilo. As tentações atraem, mas aquele que está morrendo vê as tentações como algo que lhe é estranho e não como algo que lhe pertence. Ainda que se sinta atraído, verá as atrações como algo invasivo, algo que se intromete em sua vida e, à medida que avança na compreensão, cada vez mais se dissocia daquilo para não voltar. Neste sentido, a Morte é um abandono.

Imagino que um anjo ou uma hierarquia celestial talvez nos vejam com total estranhamento, horror e piedade, como criaturas nas quais eles não gostariam de se converter de modo algum. Eles estão fora da caverna.

Muitas pessoas querem eliminar o Ego sem abandonar o prazer da identificação. Estão agindo como se quisessem viver fora da caverna mas se recusassem a sair dela, estão agindo contraditoriamente.

A identificação causa um certo prazer: prazer de vingar-se quando sentimos ódio, prazer mórbido quando sentimos luxúria, prazer de ter dinheiro quando sentimos cobiça. O prazer resulta da identificação. Quem está identificado, não pode sair da caverna. Estar identificado, é estar dentro da caverna. A identificação aprisiona. Não é possível eliminar o Ego e ao mesmo tempo continuar desfrutando dos prazeres da luxúria, da cobiça, do ódio, da preguiça, da gula...

O Ego é algo sensorial, proporciona prazeres sensoriais. Manter-se desfrutando das sensações do Ego é fortificar as correntes que nos prendem à caverna.

Estamos presos à caverna do Ego quando nos identificamos com os processos psicológicos.

Se você não entrou em certas cavernas, sugiro que não entre, pois será difícil sair. Se você já entrou, sugiro que saia, pois isso e perfeitamente possível quando se conhece a forma.

Entrar em processo de identificação com pensamentos, sentimentos ou algo físico é entrar na masmorra.

Sofremos porque nos identificamos com os fatos desagradáveis.

Aquele que vai morrendo em si mesmo, vai deixando de se envolver com fatos tentadores ou perturbadores, passando a tratá-los como algo distinto de si mesmo, algo alheio, distante e que não lhe diz  respeito. Se apartará das tentações e problemas e os perceberá como algo distante. Ao ver as pessoas envolvidas em confusões, brigas, fornicações, orgias e festins, não se identificará e nem se misturará. Não sentirá mais curiosidade em conhecer ou experimentar as sensações provocadas por tais fatos. Dirá para si mesmo: "Não quero sentir o mesmo que eles estão sentindo e nem quero mais me recordar das sensações que se tem em tais situações".  Compreenderá, cada vez mais, que as pessoas estão em estado de alucinação e loucura, fascinadas pela mentira do mundo ilusório de maya. A identificação estará sendo rompida.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Fixar-se no trabalho de não alimentar

Aquilo que estimulamos e cultivamos em nossa alma, toma força e se desenvolve, seja bom ou mal.

Atos e pensamentos insuspeitados cultivam valores e tendências, virtuosos ou defeituosos.

Convém aplicar a auto-observação sob a perspectiva do reforço, perguntando-nos: "o que estou reforçando agora, com este ato, fala ou pensamento?". Quando nos mantemos em expectativa contínua a respeito do que podemos estar alimentando, descobrimos milhares de detalhes dos nossos defeitos. Todo defeito se alimenta pelos detalhes da conduta.

Quando pensamos em algo, visualizamos imagens na tela de nossa mente. As imagens visualizadas, quando nos identificamos, poderão reforçar desejos. Os pensamentos são a principal, mas não a única, forma de darmos energia aos egos.

Estarei reforçando um desejo se me entreter "curtindo" o prazer de contemplar a imagem física do objeto ou a imagem mental do objeto. Reforço a luxúria quando fico olhando para mulheres lindas e desejáveis, mas também quando penso nelas. Em ambos os casos há um certo prazer mórbido, uma sensação prazeirosa que vicia e nos torna impotentes.

Se fico pensando em determinada situação, identificado com as múltiplas imagens que desfilam em minha mente, reforçarei alguns defeitos relacionados àquilo. Se cultivo pensamentos a respeito de meu inimigo, reforçarei o ódio, a ira e outros defeitos aparentados.

Temos que nos fixar na compreensão de que o fundamental, na Morte do Ego, é suspender a nutrição. Quem medita em determinado defeito com o intuito de compreendê-lo, mas não deixa de alimentá-lo em outros momentos, está andando em círculos, não pode avançar, pois está sabotando o seu próprio trabalho.

As formas de alimentarmos um defeito são inúmeras, mas não as vemos todas porque são inconscientes. A auto-observação permite jogar luz nas trevas da inconsciência.

Podemos reforçar um defeito por meio de pensamentos, mas também por meio de falas, atitudes, movimentos, formas de vestir, olhares, tons de voz etc.

Vejamos um exemplo. Você estará reforçando a luxúria quando:

  1. contemplar as mulheres desejáveis;
  2. conversar maldosamente sobre sexo com um amigo;
  3. pensar em sexo;
  4. assistir filmes pornográficos;
  5. cultivar fetiches e fantasias sexuais.

Os fracassos no maithuna e na transmutação da energia resultam do cultivo anterior da luxúria, são o seu produto final. Tentar reverter o produto final sem modificar os fatos que o originam é infrutífero. Os sintomas servem para chegarmos às causas, assinalam a origem, mas não devemos nos ocupar com os sintomas e nem tentar revertê-los, temos que atuar sobre as causas (estou me referindo agora às causas de manifestação neste mundo tridimensional e não ao Eu-causa). Atuamos sobre as causas quando aplicamos a Morte em Marcha.

Mas para atuarmos sobre as causas temos primeiramente que descobri-las e as descobrimos por meio da auto-observação. Neste texto, causa é sinônimo de canal de alimentação, os canais de alimentação são as causas às quais estou me referindo.

Quando nos mantemos receptivos, percebemos se determinados atos ou pensamentos estão ou não reforçando algum defeito. Não basta simplesmente descobrir um defeito, temos que descobrir por onde o alimentamos, como o cultivamos.

Cultivamos o Ego sem nos darmos conta, pois vivemos distraídos com as coisas mundanas e não prestamos atenção em certos pormenores cruciais da nossa vida psicológica.

Sofremos muito com os diversos desejos, emoções negativas e defeitos mas, paradoxalmente e de forma absurda, os alimentamos a todo momento.

Há defeitos violentos, muito fortes, que nos sacodem e arrastam, parecem todo-poderosos. São defeitos que estão exageradamente arraigados em nossa personalidade porque foram alimentados de forma intensa e descomunal. De nada adianta nos debatermos, o indicado é suprimir a alimentação e aguardar o enfraquecimento.

Embora reprimir seja contra-indicado, temos que aprender a viver "fora do Ego" e não dentro dele. Vivemos dentro do Ego quando estamos identificados. Quando nos identificamos com o Ego, nos tornamos indistintos. Em tais situações, ou o satisfazemos ou o reprimimos. É, porém, uma ilusão acreditar que os desejos reprimidos não se satisfarão por canais alternativos. Em casos extremos, os desejos reprimidos se satisfarão através da somatização de doenças.

O trabalho com os canais de alimentação (que são os detalhes do Ego) é fundamental e não pode ser abandonado. Aquele que almeja morrer e abandona este trabalho, se desvia para os labirintos da confusão. Nos momentos de desorientação e tentação rigorosas, temos que nos recordar deste trabalho, que é o nosso guia fundamental.

Há pessoas sinceras que gastam o tempo correndo atrás dos seus próprios defeitos, sem se darem conta de que assim os estão fortalecendo.  Quem almeja se libertar dos próprios defeitos, deve deixar de alimentá-los, o que inclui não pensar nos mesmos, ainda que seja para condená-los e recriminá-los. Podemos pensar em um defeito de forma favorável ou desfavorável, para justificá-lo ou para condená-lo. Em ambos os casos estaremos identificados e o alimentaremos.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Estabelecer-se no Ser e na Essência

Os momentos de fracasso, as noites espirituais, são momentos em que nos afastamos de Deus, do nosso Ser.

Quando deixamos de viver em Deus, de orar, de buscar, de nos preenchermos com pensamentos divinos, sobrevém a noite como consequência do afastamento.

O desenvolvimento espiritual requer envolvimento constante com nossas partes superiores. O fascínio pela matéria nos afasta de Deus.

Momentos de alegria mundana, pecaminosa, nos iludem e nos confundem. Então acreditamos que a felicidade está na matéria, nos sentidos, nos prazeres terrenais e nas tentações.

Quem quer desenvolver-se necessita envolver-se constantemente com Deus. Os momentos de maior alegria mundana são justamente os momentos em que mais necessitamos dEle. E os momentos em que mais necessitamos dEle são aqueles em que O esquecemos.

As falhas, brechas, na devoção correspondem a aberturas por onde o fascínio da matéria penetra. Quem quer espiritualizar-se não pode ter brechas, não pode dar aberturas.

Ser devocional a todo momento nada tem a ver com reprimir a natureza mundana, são coisas distintas. A não-repressão do ego não serve como desculpa para sermos desleixados na devoção. A não-repressão também não serve como desculpa para a fascinação e nem para alimentarmos pensamentos pecaminosos. Sim, devemos observá-los de forma imparcial, deixando que aflorem espontaneamente, mas de modo algum reforçá-los em nossa natureza. Recusar alimento ao Ego não é reprimi-lo e é algo que deve ser levado até as últimas consequências.

Todos aqueles que fracassam, fracassam porque reforçam o inimigo que almejam enfraquecer. Enfraquecer e reforçar são coisas antagônicas. Quem quer enfraquecer o Ego não pode reforçá-lo.

Se a suspensão da alimentação não for levada até as últimas consequências, o Ego ressurge das cinzas e triunfa. Recusar alimentos ao Ego não é conflitar com os desejos, é adotar uma estratégia distinta da repressão.

Muitas vezes alimentamos os defeitos sob a desculpa de que não devemos reprimi-los.

Temos que entender que reprimir é tentar controlar ou deter o desejo com o qual estamos identificados. Quando rompemos com a identificação e nos observamos para descobrir por onde o estamos alimentando, cortando a fonte de alimentação em seguida, não o estamos reprimindo mas sim enfraquecendo. Enfraquecer é diferente de reprimir. A repressão não enfraquece, apenas desvia e represa.

A morte dos detalhes ou facetas dos defeitos não é realizada por nós e sim pela Divina Mãe Kundalini. Nós os descobrimos e Ela os mata. Quem os enfraquece é a Mãe Divina e não a essência e nem tampouco a mente.

Isso deve ser fixado e ficar gravado definitivamente em nossa consciência: a suspensão da nutrição de um defeito deve ser levada até às últimas consequências.

Não é possível combinar a Morte com o hedonismo. Não é possível morrer enquanto se satisfaz os desejos. Um defeito que está sendo constantemente satisfeito não morrerá. Por meio da satisfação, os desejos colhem energia. A não-repressão não é desculpa para satisfazer.

A confusão do Ego

O ego confunde e atrapalha a compreensão. Muitas vezes não entendemos como se morre e não sabemos o que fazer, nem porque estamos errando, onde estamos falhando. Há momentos em que absolutamente não entendemos como se realiza corretamente a Morte. Em tais momentos, abrimos as brechas e alimentamos os defeitos.

Quando cortamos a alimentação, pode se dar o caso de acharmos que estamos reprimindo o desejo e que devemos satisfazê-lo um pouco, "para não engolir". A confusão é um mais mecanismo de sobrevivência do Eu.

Impotência da ciência

Nem os neurocientistas, nem os filósofos da mente, nem os psicólogos e nem os psiquiatras sabem o que fazer com as emoções e desejos. Entre eles não há sequer um consenso a respeito do que sejam as emoções, os desejos e a mente. Eles sabem que reprimir é mau e que satisfazer é igualmente mau, mas não conhecem o terceiro caminho.

Desligar-se

Cortar a alimentação é retirar de nossa vida tudo o que se relacione ao desejo. Contemplar mentalmente ou fisicamente o objeto de desejo é a forma mais comum de alimentá-lo. Pensar em algo é alimentar aquilo dentro de nós.

Por meio da auto-observação, descobrimos as múltiplas formas de alimentar o desejo e as retiramos de nossas vidas, sempre por meio da oração à Mãe Divina.

O poder do pensamento

Aquilo em que pensamos constantemente toma força em nossa vida. Se pensamos em mulheres e sexo, nos tornamos fornicários. Se pensamos em vingança, no mal que nos fizeram etc. nos tornamos agressores. Do mesmo modo, se pensamos em Deus, nos tornamos devotos. Aqueles que pensam na castidade, e não na luxúria, se tornam castos e puros. Não pensemos na luxúria, nem mesmo para maldizê-la ou dela reclamar. Nos ocupemos com a castidade. Não pensemos no ódio, nos ocupemos com o amor, com o altruísmo.

Embora tenhamos que compreender o Ego, nosso centro de gravidade deve estabelecer na Essência.

A mente, em si, não é boa e nem má. É uma força que pode nos conduzir para cima ou para baixo, conforme a utilizemos. Quem quer ir para cima deve pensar em coisas elevadas, quem pensa em coisas degradantes vai para baixo.

De nada adianta entrarmos em conflito com os pensamentos maus, melhor é desenvolvermos em nós os pensamentos bons, por meio da concentração e da meditação.

Devemos abandonar o mal, para isso existem a auto-observação e a Morte em Marcha. Quem pensa constantemente no mal, seja para censurá-lo ou não, o está nutrindo dentro de si. Por meio da auto-observação, descobrimos todas as formas pelas quais estamos ligados ao mal, os canais por onde o alimentamos. Por meio da oração, cortamos o vínculo, pois deixamos de alimentá-lo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Receptividade aos detalhes na auto-observação

Estar em auto-observação é simplesmente estar receptivo a si mesmo, ao que se sente, se pensa e se faz no presente. Estar receptivo é não ter resistências, é ser capaz de contemplar o que se passa, sem tentar “congelar” os processos.

É comum que, durante a auto-observação, tentemos interferir nas manifestações do Ego, repelindo-as por as considerarmos perigosas ou prejudiciais. O ato de repeli-las impede sua clara percepção.

Reprimir é um ato automático, resultante de muitos condicionamentos passados, aplicados por aqueles que se desesperam diante das ameaças de seu próprio psiquismo. Apesar da boa intenção, o ato de reprimir não resulta em enfraquecimento do desejo.

Em auto-observação, temos que permitir que os defeitos passem, que cheguem e partam, que tomem o seu rumo. Somente assim os compreenderemos.

Não devemos nos identificar com os defeitos e nem tampouco bloqueá-los, temos que simplesmente observá-los. Quem se identifica com os defeitos os fortifica. Quem tenta bloqueá-los, os represa. Quem quer enfraquecê-los, deve aprender a contemplá-los de forma objetiva, sem adotar uma postura favorável e nem contrária. O enfraquecimento resulta da compreensão, não da satisfação e nem tampouco da repressão.

Quem satisfaz o defeito está identificado, assim como quem resiste. Ambos os extremos são prejudiciais.

Uma coisa é condenar um defeito a posteriori, concluindo algo após tê-lo observado. Outra coisa é condenar um defeito a priori, tirando conclusões precipitadas.

Se você se observar com cuidado, verá que reage continuamente a fatos externos aparentemente sem importância. Em tais reações sutis se escondem os detalhes ou facetas do Ego que necessita compreender. Observar as pequenas reações é a chave para trazer à consciência as partes ocultas do iceberg do Ego.

De nada adianta tentar enfraquecer um desejo se não removemos seus sutis canais de alimentação.

Fazer-se consciente de algo é dar-se conta do que antes não era percebido. Não nos tornamos conscientes das partes ocultas dos defeitos se não as observamos em ação. As porções ocultas do Ego não estão inativas, estão em atividade, atuam no dia a dia, apesar de não as percebermos. E não as percebemos porque o holofote de nossa consciência não está direcionado aos detalhes, não está focado nas manifestações pequenas, evocadas pelos fatos sutis e sem importância do cotidiano.

A chave para a Morte não é reprimir e nem satisfazer, é observar o desimportante, os detalhes.

Se somos sacudidos por manifestações violentas e brutais, é simplesmente porque anteriormente permitimos que manifestações sutis, tênues e leves tomassem corpo e se fortificassem. O fato está indicando que nossa consciência não detectou as manifestações sutis correspondentes ao desejo violento. Nelas está a chave para derrubarmos o inimigo. De nada adianta tentar derrubar o gigante, melhor é prestar atenção em suas vias de alimentação. Sejamos como o Leão que, ao invés de olhar para a madeira que foi lançada, como faz o cão, procura imediatamente quem a lançou. Não corramos atrás da madeira.

As pessoas temem estar receptivas ao Ego, acreditam que ficarão tomadas e perderão o controle. Na verdade, a perda do controle sobrevém quando nos identificamos ou quando reprimimos.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Como relaxar e entrar no pratyahara

Nem sempre relaxar os músculos é algo tão fácil como parece.

Uma linha de ação interessante consiste em acomodar-nos em decúbito dorsal e tornar-nos receptivo às tensões e sensações corporais. Vamos percebendo conscientemente as tensões, dores, coceiras etc. sem resistir-lhes nem tentar controlá-los, deixando apenas que entrem no campo da consciência e nos deixem espontaneamente. Vamos percebendo, uma após outra, as sensações corporais, começando a partir dos pés e gradativamente nos dirigindo até a cabeça.

Não devemos reagir contra as sensações, devemos somente percebê-las. O relaxamento é uma entrega e a soltura vai se estabelecendo à medida que vamos nos tornando conscientes do que se passa com o corpo.

Muitas vezes acreditamos estar relaxados, mas nada nos acontece porque existem tensões inconscientes, das quais não estamos nos dando conta. Temos que nos conscientizar de tais tensões para nos libertarmos e aprofundarmos o relaxamento.

Tomar consciência das tensões é pré-requisito para relaxar.

Uma vez que tenhamos alcançado o grau de relaxamento satisfatório, podemos passar à meta de nos libertarmos dos pensamentos. Aqui começa o pratyahara.

Assim como tomamos consciência das tensões musculares com o fim de nos libertamos delas sem nos opormos, temos agora que tomar consciência do que está se passando na mente. Passamos a observar a mente, nos dando conta do conteúdo de cada pensamento, sem entrar em conflito e nem fazer esforço algum para silenciá-los.

Cada pensamento possui seu conteúdo particular, seu tema ou assunto. Tomar consciência do mesmo promove seu silenciamento. A procissão de pensamentos vai passando e não tentamos interrompê-la à força, deixamos que passe, sem nos identificarmos e nem tampouco entrarmos em conflito. Ambos os extremos são desnecessários e atrapalham.

Quem se identifica com os pensamentos, sonha, fascina-se e adormece normalmente, perdendo a oportunidade. Quem tenta calá-los à força, envolve-se em um conflito e fica estancado, preso ao conflito. A mente não silencia pela força e sim pela compreensão, pela conscientização. O caminho do silêncio é o caminho do meio. Em um extremo está a fascinação pelos pensamentos, no outro está o conflito com a mente. Não queremos nenhum dos dois, queremos o silêncio. Não queremos reforçar os pensamentos e nem tampouco entrar em conflito com eles.

Um obstáculo comum no pratyahara são as reações do observador. Aquele que observa (a consciência) tende a reagir com agrado ou desagrado aos pensamentos que vão passando. As reações interrompem o fluxo da prática e a estancam, paralisando-a. O que necessitamos é simplesmente nos darmos conta e mais nada. Há certa forma específica de perceber os pensamentos e que consiste em os vermos sem dar-lhes muita importância, em simplesmente sabermos que estão ali. Se o observador se preocupar além disso, sua prática irá travar. Observe a mente de forma descontraída e despreocupada, sem reagir contra e nem a favor das imagens que vão surgindo.

Cada pensamento que vai sendo percebido conscientemente vai nos deixando, até um momento em que a mente fica calma e pode então se ocupar com o pensamento único da concentração. Nesta etapa, estaremos totalmente desligados do mundo exterior, receptivos e abertos somente ao mundo interior. Esse é o pratyahara.

Temos que entender o que é perceber conscientemente um pensamento. Perceber conscientemente algo é simplesmente dar-se conta, receber sem reação analítica ou racional, como quando escutamos o som do trovão ou o canto de um pássaro. As reações analíticas ao pensamento ("Que pensamento é esse? É um pensamento bom ou mau? Está certo ou está errado? Devo suprimi-lo? Essas imagens pertencem ao lakshya ou são um desvio?") tomam o seu lugar no fluxo mental e não permitem a sua passagem, congelando o desenvolvimento da prática. Nesta prática, não é necessário nos preocuparmos, é suficiente nos darmos conta do que pensamos.


No pratyahara, o observador não reage ao que presencia, apenas testemunha.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A singularidade de cada relação

Na vida, temos relações de diversos tipos e com muitas pessoas, coisas e objetos. Com cada pessoa temos uma relação distinta, que necessita ser trabalhada especificamente.

As pessoas provocam em nós diversos sentimentos, pensamentos e reações. Temos que investigar e descobrir o que sentimos em relação a cada uma das pessoas com as quais nos relacionamos. Uma pessoa me provoca ira, aquela outra me provoca inveja, outra me faz rir e outra talvez me provoque desejo.

Minha mãe evoca em mim determinados sentimentos, minha irmã outros sentimentos, meu irmão, meu pai, meus amigos etc. provocam em mim distintas emoções, reações e comportamentos. Mediante a reflexão, tenho que descobrir o que cada pessoa provoca em mim.

Nos relacionamos também com acontecimentos, fatos, objetos, animais, dinheiro, emprego e outras coisas. Todas as relações que tenhamos na vida devem ser exploradas, analisadas, em busca das reações que provocam em nós. Tudo isso é parte da compreensão do Eu.

A análise do Ego, visando a compreensão, não deve pautar-se somente pela procura do que é "feio", "errado", "mau" ou "moralmente inaceitável". Aquilo que parece "bom" ou inofensivo também necessita ser assimilado, compreendido, pois o delitos se disfarça muito bem e engana até os mais cuidadosos.

Na análise e observação do Eu, nada pode ser descartado, nada é depreciável. Todas as reações que os acontecimentos nos provocam merecem ser descobertas, conscientemente percebidas.

Temos que nos perguntar: "O que sinto diante desta pessoa? E diante dessa outra? E diante daquela?". Temos que nos tornar conscientes das reações mentais, emocionais, motrizes, instintivas e sexuais que TODOS os fatos da existência (pessoas, objetos, acontecimentos, problemas etc. ) desencadeiam em nossa pessoa. Nos detalhes, no sutil, está a chave. Um complexo sistema resulta sempre da associação de múltiplos elementos sutis, pequenos. Observando os detalhes, compreendemos paulatinamente todo o sistema complexo. Teorizações não adiantam, importa perceber fatos. Os fatos são concretos e definitivos.

Quanto mais nos observamos, mais material teremos para refletir. A reflexão sobre o Eu deve ser o mais objetiva possível, pautada em fatos reais, vividos, verificados diretamente, e não em meras elocubrações estéreis.

Portanto, não desprezemos as diversas relações da vida. Cada relação é uma oportunidade de aprendizado, contém informações que precisamos extrair.

Subaproveitamento do ginásio psicológico

As relações constituem um ginásio psicológico mediante o qual podemos nos conhecer e descobrir facetas do Ego. Cada situação que nos acomete provoca reações psicológicas grosseiras e pesadas ou leves e sutis. As situações são como espelhos que refletem o que somos: a cada fato que nos sucede, determinadas facetas dos defeitos emergem, aparecem.

Normalmente, desperdiçamos tais oportunidades de auto-conhecimento porque nos identificamos com o ginásio psicológico e deixamos de perceber o que se passa em nosso interior. O comum é que os fatos nos aconteçam e passem, sem que os aproveitemos para descobrir algo novo sobre nós mesmos. Se estamos receptivos ao Ego, entretanto, percebemos conscientemente que a cada fato exterior sucedem-se em nós múltiplas reações interiores.

As reações sutis são as mais importantes, do ponto de vista da Morte, pois escondem aquilo que normalmente não vemos. Quem quer descobrir o novo em si mesmo, deve observar as reações sutis. Em um ônibus, por exemplo, há muitas reações sutis às situações e acontecimentos presentes: reações ao motorista, aos demais passageiros, ao estado em que se encontra o ônibus etc. Em casa, no lar ou no trabalho, temos múltiplas reações ao que cada pessoa diz ou faz. Normalmente, as múltiplas reações passam despercebidas porque não lhes damos importância, não as consideramos dignas de observação cuidadosa. Ao não serem observadas conscientemente, processam-se de forma inconsciente, reforçam os defeitos, causam muitos danos e percebemos somente as consequências, quando já estão bem graves. É assim que ficamos nos debatendo contra a ira, o medo e a luxúria, tentando reprimi-los e controlá-los ao mesmo tempo em que os reforçamos sem nos darmos conta.

O que sentimos, pensamos e como reagimos perante cada fato ou pessoa precisa ser percebido conscientemente, de forma sincera, imparcial e sem preconceitos. Se não procedemos assim, não avançamos no auto-conhecimento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Problemas graves que assolam a mente

A mente é teimosa e pensa constantemente no que não presta.

Quando temos um problema grave, seja uma paixão intensa não correspondida, um perigo grave que nos ameaça ou algo assim, nossa mente se torna obcecada por aquilo. A mente pensa de forma intensa no problema e o torna monstruoso. As tentativas de pensarmos em outras coisas falham, a mente se torna teimosa e pensa violentamente no problema.

Uma das razões para tal fixação teimosa da mente é a crença de que tais pensamentos são, de algum modo, úteis ou necessários. A mente crê que, ao pensar no problema, irá melhorar a situação. Falta à pessoa, em tais momentos, viveka (discernimento entre o real e o falso).

O fato de pensarmos constantemente em um perigo quando estamos sob ameaça ou no objeto de nossa paixão quando estamos apaixonados deve-se a uma falta de percepção de que tal identificação piora a situação. A realidade é justamente o contrário do que a mente acredita: quanto mais pensarmos no problema, pior ficará nossa condição. Mas a mente não crê assim. A mente supõe que pensar seja a solução e que, por meio do pensar, irá se livrar do sofrimento. Reside aí a primeira causa da identificação: acreditar que tais pensamentos sejam importantes, úteis e necessários, ao invés de inúteis, prejudiciais e perigosos. A possibilidade de melhorar a situação ao abandoná-la mentalmente não é compreendida pela mente, que carece de viveka.

Mediante a meditação, podemos inverter esse processo: nos concentramos, não no problema em si, mas na concepção equivocada da mente, na absurda valorização do pensamento obsessivo, refletimos e compreendemos, por fim, que ficar sem pensar ajuda ao invés de prejudicar.

Uma pessoa gravemente doente pensará constantemente em sua doença, impedindo ou dificultando sua cura; outra sob ameaça de um processo judicial pensará constantemente em seus acusadores, imaginará mil coisas relacionadas com aquilo, se verá na prisão, nos tribunais etc. ficará louco e não conseguirá elaborar com qualidade sua defesa; alguém que esteja loucamente apaixonado, sofrendo de amor, pensará de mil formas diferentes em seu problema, traçará planos para conseguir seu intento, perderá o juízo etc. Tudo porque a mente acredita que pensar no problema seja a solução.

Em tais estados graves de identificação, torna-se difícil concentrar a mente em algo distinto do problema, mas é justamente isso que se necessita alcançar. A capacidade de pensar em algo elevado e não desviar o pensamento daquilo por nada é o que buscamos e pode nos ajudar muito a enfrentar perigos e situações adversas.

Quem desenvolve o poder de concentrar sua mente em Deus ou algo sublime, a despeito de tudo o que o ameace, torna-se invulnerável. Perigos, ameaças, tentações e doenças podem assolá-lo, mas ele estará imune. Nem mesmo a morte o atemoriza, pois ele aprendeu a não pensar nela. Tal pessoa não permite que nada penetre em sua mente e faça morada ali, a não ser Deus.

Deste modo, os problemas existem para que aprendamos a não pensar neles, não nos ocuparmos. Entram em nosso caminho para que exercitemos a capacidade de não permitir que penetrem em nossa mente. Em certos casos, nem sequer devemos tomar consciência de que o problema existe.

Há alguns poucos casos em que vale a pena tomar consciência dos problemas, mas na maioria das vezes isso é prejudicial. Somente a reflexão sincera proporcionará tal discernimento.

Bem, estamos tratando de uma disciplina mental, mas podemos ir além. Podemos, mediante o poder da Mãe Divina, chegar a matar aquele que pensa dentro de nós. Então estaremos mortos para aquele problema.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Retirar da vida as situações que alimentam o desejo

Os problemas existem para que aprendamos a não nos ocupar com eles. Entram em nossa vida para que aprendamos a neles não pensar, a deixar de percebê-los, de dar-lhes importância e de prestar-lhes atenção.

Por meio dos problemas da vida horizontal, podemos fortificar nossa capacidade de não permitir que a mente se desvie dos objetivos maiores e mais elevados. Se os problemas mundanos não existissem, a concentração e outros atributos, como a Morte, não se desenvolveriam. Portanto, os problemas são necessários àquele que quer se elevar espiritualmente.

Deste ponto de vista, retirar problemas e situações da vida não é fugir do ego, mas parte do trabalho de eliminá-lo. Tirar o alimento dos defeitos inclui não ocupar-se com situações que lhes são favoráveis e retirá-las da nossa vida.

Não é possível contemplar um objeto de desejo sem desejá-lo e sem alimentar o ego correspondente, não há tal coisa.

Se você quer matar um desejo, não olhe para o objeto. O objeto do desejo não deve existir para você. Não preste atenção no objeto fisicamente e nem mentalmente, retire-o completamente de sua vida e de sua cabeça. Como poderia alguém desejar algo que desapareceu de sua vida, de suas percepções, de sua mente e de suas lembranças?

Uma pessoa bem desenvolvida é capaz de atravessar circunstâncias perigosas e tentações insuportáveis sem permitir que as mesmas entrem em sua vida ou em sua mente. A chave consiste em isolar-se psicologicamente, enquanto, fisicamente, a pessoa se expõe a tais problemas. O isolamento psicológico (não-identificação) é conseguido excluindo-se os objetos da mente e até das percepções. Por isso é importante aprender controlar os sentidos: não ver e nem ouvir aquilo que nos prejudica.

Um alcoolátra não resistirá à tentação de beber caso se entretenha contemplando garrafas. Um fornicário não resistirá à tentação de fornicar caso se detenha percebendo as formas corporais das mulheres. Quando prestamos atenção no objeto de desejo, estamos permitindo que o mesmo invada nossa mente. Isso de tentar observar algo desejável sem identificar-se é um absurdo, pois o ato de contemplar já implica em identificação, pelo menos no que concerne a seres humanos adormecidos, perversos e degenerados como nós. Quando não nos identificamos com algo, aquilo não existirá para nós.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O fluxo mental na concentração

Deixar a mente fluir

Quando a mente atua, pensando em alguma coisa, dizemos que ela está fluindo. O fluir da mente é a reflexão a respeito de algo.

A mente volúvel interrompe o curso de seu fluxo constantemente, pensa um pouco em algo e depois pensa em outra coisa. Quando trocamos o objeto de nossa reflexão constantemente, nos tornamos superficiais.

O pensamento concentrado é o pensamento que flui profundamente, de forma contínua e não descontínua, sem interromper a reflexão, sem alternar seu objeto. O pensamento concentrado não é o pensamento estático, é um pensamento dinâmico, que se aprofunda e se afunila cada vez mais. O pensamento único da concentração é a soma de várias idéias a respeito de um único e mesmo tema. Se não houver uma sequência de idéias, não haverá fluência no pensamento. Se não houver fluência, não haverá pensamento concentrado, haverá tão somente um pseudo-silêncio mental, forçado e superficial, acompanhado por violenta tempestade mental inconsciente, nas zonas submersas da psique.

Se queremos a concentração verdadeira, para sairmos em astral e meditarmos, necessitamos compreender corretamente o que é o pensamento único. O pensamento único é a reflexão sobre um único tema. Não é um pensamento estático, como supõem muitas pessoas interessadas na meditação.

O pensamento não será único se permitirmos que o fluxo mental sofra constantes interrupções, que mude constantemente de objeto, de tema. O papel da atenção consciente é perceber o que se está pensando e dar pequenos "tapas" para "balizar" (direcionar) a reflexão, caso a mesma se desvie do assunto em pauta.

Concentração não é ausência de pensamento e sim ação mental direcionada.

Há duas formas de fluxo mental: o fluxo consciente e o fluxo inconsciente.

O fluxo mental inconsciente acontece automaticamente no cotidiano. É a atividade mental sem objetivo, aleatória. Todos vivemos pensando à toa, mariposeando de assunto em assunto. Esse é fluxo mental inconsciente, no qual a pessoa sequer se dá conta de que está pensando e em que está pensando.

O fluxo mental consciente possui duas características: não é aleatório e não se dá sem participação da consciência. A consciência o acompanha, o percebe. No fluxo mental consciente há contemplação do que acontece na mente. A consciência observa o trabalho da mente, contempla o desenvolvimento da reflexão, do pensamento único. Além disso, não há troca do tema da reflexão, a mente não mariposeia de tema em tema. Portanto, no fluxo mental consciente pensa-se conscientemente em uma só coisa, até onde se alcance. O fluxo mental consciente é a própria concentração mental.

Pensar sem palavras

Podemos pensar usando uma linguagem ou idioma interiorizado (a "vozinha" interior") ou pensar sem recurso idiomático algum. Quando avançamos no desenvolvimento da concentração, conseguimos pensar e compreender silenciosamente e sem nenhuma tagarelice interior.

Deixar a mente trabalhar

Deixar a mente fluir é permitir que trabalhe, porém sob nossa vigilância. A mente trará as informações sobre o objeto.

Contemplar sem interferir

Se a mente está trabalhando dentro do tema proposto, não há porque interferir. O conteúdo das imagens mentais que vão surgindo não é escolhido por nós, a não ser que a mente nos traga algo que nos desvie do objetivo proposto. Se quero me concentrar nos raios do sol, não escolherei as informações que a mente trará, apenas acompanharei o processo. A interferência somente se justifica quando a mente se desvia do objetivo proposto, que é compreender o tema.

Reunindo informações

Quando concentramos o pensamento em algo, estamos reunindo todas as informações conscientes e inconscientes que dispomos na mente a respeito daquilo. Quanto mais profunda é a concentração, mais informações obtemos. O conhecimento já existe previamente no interior do homem.

Concentração do pensamento e concentração no que se faz

Assim como, no dia a dia, temos que contemplar conscientemente o que fazemos para não cometermos erros, não nos acidentarmos etc. do mesmo modo temos que contemplar os pensamentos quando, durante a prática da concentração, todas as atividades motrizes cessam.

Se estou dirigindo um carro, tenho que estar contemplando conscientemente tudo o que esteja relacionado ao que estou fazendo, para evitar acidentes. Do mesmo modo, quando estou com olhos fechados, em relaxamento profundo, tenho que contemplar conscientemente em que estou pensando, pois a única atividade que resta neste momento é a mental.

Não há sentido algum em tentar concentrar o pensamento se estamos com o centro motor ativo. Neste caso, temos que concentrar a atenção no que estamos fazendo para não sofrermos acidentes, não tropeçarmos, não ferirmos ninguém. Tudo tem o seu momento correto.

Não devemos confundir, portanto, focalização da atenção com concentração do pensamento. A atenção pode ser focalizada na atividade motriz, mas pode também ser focalizada na atividade mental. São duas coisas distintas e cada uma tem o seu momento. Quando estou com o corpo físico ativo, tenho que prestar atenção no que estou fazendo. Quando meu corpo físico está em repouso (e, portanto, nada estou fazendo), tenho que prestar atenção no pensamento que estou desenvolvendo. Quando estamos trabalhando, passeando etc. o foco da atenção é o que fazemos, quando estamos deitados ou sentados para meditação, o foco da atenção é o pensamento único.

A natureza do pensamento único

Muitos pensaram que o pensamento único fosse um pensamento estático. Confundiram pensamento único com pensamento congelado.

O fato de um pensamento ser único não significa que seja composto por uma única idéia ou que não flua. Também não significa que as informações não fluam para a consciência.

O pensamento único é o mesmo pensamento que se tem durante uma distração comum, porém com a diferença de ser prolongado, consciente, profundo e não alternante.

Pensamento único e esquecimento

O pensamento único exige o esquecimento e abandono total de tudo o que não seja o lakhsya (objeto de concentração). O abandono (vairagya) é algo que pode ser exercitado e desenvolvido indefinidamente. Vairagya é o desligamento, o abandono, o desapego, o esquecimento do mundo.

Pensamentos maus

Quando pensamos em coisas mundanas e pecaminosas, nossa mente flui facilmente. Quando tentamos pensar de forma concentrada em algo sublime, o pensamento não flui com a mesma desenvoltura. A mente flui com facilidade na direção dos desejos mundanos porque foi adestrada para isso, mas flui com dificuldade em direções sublimes porque não foi treinada durante a vida.

O pensar concentrado em algo superior é uma função atrofiada, que necessita ser desenvolvida. O pensar concentrado no mal é uma função hipertrofiada, que necessitamos deixar de exercitar. Degenerar-se, depravar-se e afundar no lodo da miséria é algo muito fácil de ser conseguido.

Quando um malvado está pensando detidamente em coisas ruins, está concentrado. Não é essa concentração que buscamos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ego: o perigo de encarar a Medusa

Dedico este texto aos irmãos de todas as religiões que sempre lutaram para se libertar da luxúria e sofrem por terem fracassado. É para vocês que estou escrevendo agora.

Quero detalhar um erro que comumente cometemos em nossa incansável busca pela pureza da alma: o equívoco de enfrentar o inimigo do qual queremos nos libertar.

Enfrentar, literalmente, significa encarar de frente. Muitos acreditam que podem mirar os objetos de desejo e resistir ao seu poder hipnótico. A meu ver, trata-se de um grave equívoco que pode nos atrasar por anos ou décadas.

O Ego é a Medusa da mitologia: seu olhar petrifica. Se você o olha nos olhos, inevitavelmente se transformará em pedra. O que isso significa? Que não temos capacidade de afrontar o Ego em bruto, de contemplar suas emanações sem sermos afetados. Transformar-se em pedra significa adormecer a consciência. Olhar a Medusa nos olhos significa enfrentar e contemplar os objetos de desejo, estejam eles na mente ou no mundo exterior sensorial.

Na prática, encaramos os olhos da Medusa sempre que contemplamos algo desejável. Se fico me entretendo com imagens mentais de mulheres lindas e luxuriosas, estou olhando nos olhos do monstro. Se gasto meu tempo olhando para as mulheres ao meu redor, estarei fazendo o mesmo. Não importa se a imagem desejável está dentro, na mente, ou se está fora, no mundo físico: sempre que eu a olhar, estarei olhando nos olhos da Medusa e transformando percentuais livre de minha alma em pedra.

Portanto, contemplar imagens desejáveis, sob qualquer forma, é um primeiro erro. Quem contempla imagens desejáveis, está dando forças ao desejo, nutrindo-o e indo na contramão da Morte Mística.

Um segundo erro é não evitar situações facilitadoras das manifestações, crendo-se muito forte e resistente. Se determinada trilha terminará em uma possessão (obsessão por um desejo), por que segui-la? Tomar a dianteira ao Ego e evitar os caminhos equivocados da vida é uma eficiente forma de cortar-lhe o fornecimento de energia e enfraquecê-lo.

Mas, dirão vocês e com razão, evitar encarar a Medusa e evitar os caminhos que conduzem ao enfrentamento não é fugir do Ego? Eu direi: não! É apenas combatê-lo por outras alternativas, outros meios.

Sabe aqueles momentos em que o desejo está esquecido e não está atormentando? Aquele é o estado interior que deve ser preservado. Se verificarmos com cuidado nossas vidas, veremos que enveredamos por situações facilitadoras muito antes de sermos tomados por um desejo. Essas situações facilitadores, que antecedem a obsessão (às vezes por dias ou meses) são canais de alimentação por onde os defeitos recebem energia. Pequenos e sutis impulsos nos impeliram a enveredar por ali.

E onde entra a auto-observação nisso tudo? Na descoberta dos impulsos sutis que nos impelem a cair nas muitas situações facilitadoras e na descoberta dos muitos hábitos de contemplar os objetos de desejo. Muitas vezes, contemplamos objetos de desejo sem sequer nos darmos conta. A desculpa de "olhar sem identificação" é utópica e esfarrapada, quando se trata de defeitos poderosos como a luxúria. É uma justificativa (Pilatos) do defeito, um mecanismo de auto-engano.

Inconscientemente, a todo momento estamos mirando os olhos da Medusa e enveredando por trajetos de vida facilitadores da nutrição dos defeitos. Mediante a auto-observação, os vamos descobrindo e eliminando. Assim, nossa vida vai mudando.

Quem quer eliminar a luxúria não pode permitir que mulheres desejáveis estejam em sua mente e necessita impedir que entrem pelas portas da percepção. Mesmo que esteja no trato direto com elas, deve fazê-lo de modo a não percebê-las enquanto fêmeas desejáveis. Olhar e não desejar não é algo para mortais do lodo da terra.

Na verdade, se você quer realmente se libertar da luxúria, as mulheres desejáveis não devem existir para você, não devem sequer entrar em sua percepção, devem ser excluídas do seu mundo (não enquanto seres humanos, mas somente enquanto fêmeas desejáveis para o sexo). Não é possível ocupar-se com elas sem desejá-las.

O conhecimento e a experiência adquiridos com a morte da luxúria nos capacita a aplicá-lo na morte de outros defeitos igualmente poderosos. Depois da luxúria, um dos egos mais fortes é o do medo. Aquele que dissolveu a luxúria, saberá também dissolver o medo, o ódio etc.

Se determinada situação resultará em fornicação, adultério ou masturbação, é muito mais sensato evitá-la antecipadamente, mediante a Morte em Marcha, do que permitir que tome força em nossa vida. O impulso em ir rumo a determinada situação já é um detalhe ou faceta do desejo.

Na Morte do Ego, trabalhamos as causas ao invés de simplesmente remediarmos os efeitos. Remover as causas é ir além e antecipar-se ao desejo. Permitir que o desejo tome força para, simultaneamente ou depois, tentar enfraquecê-lo é um contra-senso, algo ilógico e absurdo.

A obsessão por um desejo resulta de uma sequência de fatos psicológicos que se desenrolam no tempo e começa a gestar-se muito antes de ser conscientemente percebida. Minutos ou horas antes de cometermos um ato luxurioso, sucederam-se livremente vários fatos psicológicos encadeados. A detecção e eliminação dos mesmos evitar os resultados desagradáveis. A Morte em Marcha interrompe a sequência de fatos crescentemente nefastos.

Quando nos deixamos arrastar pelos detalhes e enveredamos por uma situação facilitadora do desejo, não conseguimos nos livrar dos seus resultados nefastos. A identificação se instala e nossa alma é acorrentada, ainda que se debata.

Quem realmente começa a morrer para a luxúria, sente uma pureza específica que não quer perder, algo assim como um estado angelical. Evitando-se as situações nefastas que resultam em profunda identificação, podemos preservar este estado e, ao mesmo tempo, impedimos que os defeitos se alimentem.

Davi não mediu forças com Golias, não o enfrentou diretamente e nem lutou com o gigante. Davi evocou o poder de Deus e o atingiu no ponto fraco, certeiramente. Davi é a alma e Golias é o Ego, a soma dos nossos desejos. O ponto fraco do Ego são os impulsos sutis que nos impelem a enveredar por situações que resultam em identificação profunda. Tal ponto é a têmpora de Golias. Ali devemos atingir o gigante e derrubá-lo.

Se Davi houvesse tentado medir forças com Golias, teria fracassado. E se não houvesse evocado o Poder Superior, sua mão não teria sido guiada em direção ao ponto fraco do Gigante. O homem, sozinho, não pode dissolver o Ego jamais, necessita da atuação de uma força superior, não humana.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O que é compreender um defeito?

Trabalhar para compreender um ego (defeito) é observar tudo o que ele faz, sente e pensa, tratando-o como uma pessoa real, distinta de nós mesmos, apesar de habitar em nossa psique.

Um defeito qualquer faz muitas coisas, age de muitas maneiras que precisamos ver. Realiza muitos movimentos, toma muitas atitudes e diz muitas coisas. Tudo isso constitui a forma como um defeito age.

Além de agir, cometer ações, o defeito ou ego emite vários pensamentos. Os múltiplos pensamentos de um ego podem aparecer sob a forma de lembranças, planos, idéias, cogitações, fantasias, imaginações, memórias, raciocínios, imagens mentais com ou sem o recurso da linguagem mental em nosso idioma nativo (a "vozinha interior" que tagarela sem parar). Observando essas manifestações mentais, compreendemos o defeito mais profundamente.

Um ego também sente várias emoções distintas e possui seus sentimentalismos. Observando essas multiplas manifestações no coração, avançamos na compreensão. Quais são as emoções que o defeito em questão provoca? Quais são as emoções que aprecia?

Um defeito é uma pessoa completa dentro de nós. Observando esta pessoa, coletamos informações sobre sua conduta e seu perfil. Reunindo tais informações, chegamos a conclusões (sempre provisórias, pois a compreensão é algo elástico). As conclusões a que chegamos é a compreensão.

sábado, 29 de outubro de 2011

Porque muitos confundiram a repressão com a Morte

Quando começou a confusão

As normas repressoras da nossa cultura enviesaram as idéias de muitos estudantes gnósticos sobre a Morte do Ego. Nós, estudantes, confundimos a verdadeira Morte com meros mecanismos de recalque e resistência. Esse prisma fez com que, em todos os livros, "enxergássemos" recomendações à resistência. Os mestres nunca recomendaram a repressão, mas os estudantes "viam" a repressão recomendada em todas as orientações deles.

Na época do Movimento, estabeleceu-se uma verdadeira febre pelo comportamento auto-repressor. Quando os resultados nefastos se faziam sentir, ninguém se perguntava a respeito dos motivos e, à medida que os problemas emocionais e até escândalos aconteciam, simplesmente reagíamos intensificando mais ainda a resistência. Sob o argumento de "não deixar o ego agir" (assim costumávamos dizer), as pessoas faziam cada vez mais esforços para sufocar seus impulsos e emoções. Havia um desespero organizado, as pessoas temiam se tornar obsessionadas, mas caiam cada vez mais fundo nas obsessões. Nada diferente do que sempre houve no cristianismo externo desde a Idade Média...

"Eliminar", "sorrir ante o insultador", "combater", "estar em alerta contra", "lutar contra" etc. são expressões frequentemente usadas pelos mestres que não possuem nenhum significado intrinsecamente repressor, mas que foram assim interpretadas por nós, devido à ótica judaico-cristã em que nossa personalidade foi formada. Essas e outras expressões correntes nos livros e conferências foram erroneamente interpretadas como sinônimos de esforço para se auto-reprimir.

A verdade é que não há como praticar magia sexual, rir diante do insultador e resistir às tentações em geral se não estivermos morrendo realmente. Comportar-se como se estivéssemos mortos sem estarmos realmente é fingir, é ser hipócrita consigo mesmo, o que é outra faceta da repressão. Não há como resistir à tentação sem a Morte verdadeira e não há Morte verdadeira na repressão, apenas comportamento simulado. A resistência à tentação é algo natural para quem está de fato morto. E ninguém consegue morrer resistindo aos desejos, mas sim observando-os. Simular a Morte do Ego para si mesmo é uma forma de reprimi-lo.

Ainda hoje esse equívoco faz estragos entre os estudantes gnósticos. Os estudantes resistem e acreditam estarem assim morrendo. As disciplinas traçadas, em geral, não passam de meros cultivos sofisticados da resistência. O que muitos pensam ser a Morte do Ego é, na verdade, mera simulação, pois esses estudantes, assim que percebem uma mínima manifestação de um defeito, imediatamente a recalcam, suplicam por sua morte, e continuam recalcando-a. É assim que querem morrer, embora isso não esteja nas orientações dos Veneráveis Mestres. Eles conflitam com a mente, querem segurá-la e aquietá-la à força, e lutam com as emoções e desejos, fazendo esforços terríveis para "manter-se sem desejar". Nem sempre o esforço intenso é o esforço correto. Melhor seria que fizessem esforços corretos.

A coisa chegou ao ponto de alguns se exporem gradativamente a ginásios psicológicos cada vez piores e mais difíceis com o intuito de aprenderem a se bloquear cada vez mais. O que queriam era "ser cada vez mais forte", resistir cada vez mais.

Nem toda disciplina, empenho ou esforço é útil, como pensam esses estudantes. Se um homem se disciplinar para comer um pouco de veneno todos os dias, logo estará morto. Se alguém se empenhar com muito esforço em beber somente refrigerantes e mais nada, sem falhar um só dia, terminará encurtando sua vida. Logo, temos que diferenciar a disciplina correta da disciplina incorreta. Disciplinas podem ser inúteis e perigosas. Disciplinar-se para resistir aos desejos com todo o empenho que se possa é disciplinar-se inutilmente. A disciplina para resistir é mero polimento da personalidade, não é Morte coisa nenhuma.

Não poderei compreender os passos de uma dançarina caso eu amarre suas pernas. Quem poderia? Querer enxergar detalhes nos passos da dançarina e ao mesmo tempo imobilizá-la é algo ilógico e absurdo. É exatamente isso o que fazem os amantes da resistência.

O que os recalcadores não se deram conta é que a vivência (experiência) consciente das próprias emoções e desejos extrai compreensão e os enfraquece. Ao contrário do que pensam, permitir conscientemente o afloramento não resultará em obsessão. A obsessão somente ocorre quando a pessoa se identifica e não pede pela Morte à Mãe Divina. Não é o afloramento o fator que alimenta e fortifica os defeitos, mas a identificação com o defeito aflorado. A identificação permite manifestação livre e faz a consciência permanecer na passividade e na inatividade, sem observar e sem nada fazer.

A partir do afloramento, as coisas podem tomar dois rumos, um bom e outro mau (vamos dizer assim por enquanto). Se nos identificamos com o conteúdo aflorado, as coisas tomam um rumo "mau". Se não nos identificamos e o observamos conscientemente, as coisas tomam um rumo "bom", que é o rumo que nos interessa: o conteúdo vai sendo assimilado e compreendido aos poucos e seu poder sobre nós vai se enfraquecendo progressivamente.

O recalque é um mecanismo pelo qual bloqueamos um impulso, o que faz com que ele extravase por outro caminho ou em outro momento; o impulso não sofre nenhum enfraquecimento ou morte, somente é represado e desviado, para aflorar posteriormente sob a forma de perversões, doenças e compulsões.

Resulta curioso que os mais moralistas são justamente os mais compulsivos. Os círculos sociais mais moralistas são os mesmos em que a depravação é mais pronunciada, sempre sob as sombras, é claro. Aparentemente todo mundo é santo, mas às escondidas todos dão vazão aos desejos mais abomináveis. Todos querem apedrejar a adúltera, embora todos cometam adultério em segredo...

É óbvio que, se alguém permitir o livre afloramento de um desejo e manter-se passivo, não fazendo absolutamente nada e entregando-se à fascinação, irá fortificá-lo e ficará dominado. Permitir o afloramento sem os trabalhos complementares requeridos é perigoso. Quem permite o afloramento e não se recorda de si e nem ora, termina identificado. A manifestação livre, sem a atuação desinfectante da consciência, fortifica o poder dos defeitos sobre nós. Mas se tal pessoa se manter em recordação de si mesma, diferenciando-se do elemento manifestado, e passar a observá-lo, irá compreendendo-o progressivamente, detalhe por detalhe, e enfraquecendo-o. Nenhum afloramento sutil deve passar sem ser notado e trabalhado. Não reprima os detalhes, perceba-os conscientemente. Se você ficar tomado após o desbloqueio, é porque não fez as coisas como deveria. Ainda assim, é justamente em pleno delito que mais necessitamos de auto-observação e reflexão, para sair daquele estado.

A negligência em observar e pedir será fatal, o negligente cairá cada vez mais baixo na degeneração. O trabalho interior não é isento de riscos. O primeiro pensamento, golpe emocional ou ato reforçador do desejo ganha força se não for trabalhado imediatamente e se converte em manifestações secundárias, terciárias, quaternárias etc. cada vez mais fortes. A obsessão é o resultado de ações primárias não trabalhadas ou trabalhadas incorretamente, seja por causa da negligência, seja por causa do recalque.

O que devemos buscar é clareza. Você não será capaz de enxergar os detalhes com clareza cada vez maior se aprender a olhá-los corretamente, com interesse real e sincero em conhecê-los. Não condene e nem perdoe nada, somente observe e compreenda mais e mais. Aquilo que perceber que prejudica, peça para ser eliminado e continue a observar.

A palavra "aceitar" tem duplo significado. Aceitar pode significar passividade, aceitação da manifestação plena sem tomar atitude alguma. Mas pode também significar atividade, no sentido de render-se à realidade inevitável para compreendê-la. No último caso há atividade da consciência. Neste sentido, temos que "aceitar" o Ego, recebê-lo tal como é, sem evasivas.

Se não permitirmos que nada aflore, o que será observado, julgado, ajuizado, compreendido e eliminado? Se não permito que o animal saia da toca, como posso pretender descobrir detalhes do seu comportamento?

O afloramento é diferente da atuação livre, em que não se observa e não se faz nada.

Vivenciar conscientemente as emoções e desejos os esgota. A observação enfraquece o poder do desejo sobre nós e a oração enfraquece o poder do desejo em si mesmo, até sua morte completa. Após a petição, apenas observe os resultados e não reprima e nem se identifique.

Se você permitir que o desejo se satisfaça, ele irá embora e não poderá ser estudado. Se você se identificar com ele, irá fortificá-lo de uma forma absurda.

Tudo começa com as manifestações iniciais e sutis. Ao nos identificarmos, permitimos que tomem força e aumentem o seu poder.

O que é identificar-se?

A palavra "identificar" significa, literalmente, encontrar ou diferenciar algo. Identificar-se com algo é perder a noção da distinção entre nós e aquilo. Identificar-se com desejos e pensamentos é confundi-los com a partícula do Ser em nós (a essência). Identificados com um defeito, acreditamos que o mesmo seja parte de nós e não algo estranho, alheio ao Ser.

Quando nos identificamos com uma manifestação sutil do Ego, a mesma colhe força e se torna gradativamente mais e mais poderosa.

O que se requer para a correta auto-observação é não identificar-se e nem reprimir, somente separar-se e contemplar. Quem se debate contra o Ego o faz estando identificado, assim como aquele que se entrega à satisfação e ao hedonismo. Emambos os casos há identificação.

A prática da Recordação de Si permite que se rompa com a identificação. Recordar-se de si mesmo é diferenciar-se, permanecendo na Essência (o Ser Verdadeiro em nós).

Estaremos identificados quando ficarmos "curtindo" um desejo, emoção ou pensamento, sentindo que aquilo nos satisfaz, quando sentirmos uma emoção como parte de nós mesmos e não como algo alheio que nos invade, quando não nos diferenciarmos dos impulsos. Todo defeito possui sua emoção específica e estaremos identificados quando a vivenciarmos sem a menor diferenciação, sem a menor recordação de nós mesmos, completamente "misturados", "apagados", sem consciência ou observação alguma, fusionados com a emoção ou desejo.

Uma coisa é permitir-se sentir uma emoção, outra coisa é identificar-se com a emoção sentida.