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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Desenvolvendo a contemplação

Desenvolvemos a concentração quando aprendemos a contemplar. Aprender a contemplar é aprender a estudar algo, a observá-lo.

Há várias formas de observar. Podemos observar um objeto físico ou psíquico, estático ou móvel. Não é possível uma observação consciente sem concentração. A concentração é a própria observação, o próprio ato de observar. Se estou observando algo detidamente, sem deixar de observá-lo e sem desviar minha atenção, estou me concentrando.

Se contemplo um objeto material, exterior, estou focando a atenção e a percepção, mantendo-o em meu campo de consciência. Se o objeto material em questão for móvel (ex. as ondas do mar batendo nas rochas), poderei observar seus movimentos, acompanhá-lo para ver onde irá, em que resultará, não importando se o mesmo seja animado ou inanimado. Se o objeto for fixo, porém mutável, posso acompanhar suas mutações para descobrir em que resultarão, como às vezes fazemos com as mirações da ayahuasca. Se, entretanto, o objeto for imóvel e, além disso, não apresentar mutações perceptíveis, resta-nos somente analisar suas múltiplas características ou facetas inerentes, caso queiramos utilizá-lo como alvo de nossa concentração.

As múltiplas facetas de um objeto material fixo e imutável englobam seus detalhes anatômicos, funções, empregos, material constitutivo, entre outras. Dar-se conta de tais características, fazer-se consciente das mesmas, equivale a concentrar-se no objeto e tal tarefa pode nos ocupar por vários minutos. De todas as maneiras, trata-se de um trabalho perceptual, pois estamos nos ocupando sensorialmente com o objeto e não supra-sensorialmente.

Ocupar a atenção com um objeto exterior é ocupar-se sensorialmente, uma vez que o objeto é acessado pelos sentidos.

Podemos, ainda, nos ocuparmos com objetos internos, imaginais. Neste caso, estaremos exercitando a supra-sensorialidade. Se vocalizo um mantram mentalmente, estou exercitando a clariaudiência e a concentração. Se me concentro na imagem de uma cachoeira, estou exercitando a clarividência, embora aí exista também um menor emprego e ativação da clariaudiência. Em todo caso, contemplar uma imagem mental é trazer à consciência informações sobre o objeto correspondente.

Quando um objeto fere nossos olhos físicos, sua correspondente contraparte interna nos atinge supra-sensorialmente, criando uma imagem mental correspondente ao mesmo. Ao fecharmos os olhos, podemos prosseguir concentrados na imagem mental, desligando-nos dos sentidos físicos e apreendendo informações sobre a mesma, informações antes inconscientes. Assim, contemplar uma imagem interna é recebê-la supra-sensorialmente, compreendendo-a. A recepção compreensiva do conteúdo de uma imagem pode ser facilmente conseguida quando se aprende a observar as coisas discernindo em silêncio, sem o recurso da tagarelice interior.

Se experimentarmos observar um pássaro em ação por alguns minutos, constatamos que somos capazes de receber várias informações a respeito do mesmo sem necessidade de usar o palavreado interno. Podemos "sentir" sua cor, seu tamanho, seus movimentos etc. em silêncio. Somos capazes de perceber o pássaro sob vários aspectos ou perspectivas, de forma direta ,sem necessidade de raciocinarmos e nem sequer de analisarmos. Essa percepção direta é a contemplação. E assim como podemos contemplar um pássaro físico exterior, podemos igualmente contemplar um pássaro imaginativo ou o aspecto interior do pássaro. O pássaro que saltita aqui e ali à procura de alimento, bisbilhotando as folhas etc. existe fora de nós, mas existe também dentro de nós, sob a forma de uma imagem interior. Temos, em nosso interior, uma imagem do pássaro que pode ser recebida e observada pela consciência. Se a concentração for profunda e houver sonolência, o pássaro interior será percebido objetivamente e com um impacto realístico idêntico ao de um pássaro exterior ou até mais intenso (o que corrobora a afirmação de certos físicos de que as imagens do mundo exterior existem dentro de nós mesmos). A imagem interior corresponderá à realidade do pássaro exterior na mesma proporção em que nossa consciência estiver objetivada pela Morte do Eu. Quanto mais o Ego estiver vivo, tanto mais subjetiva será nossa percepção do pássaro (lembrando que o pássaro em si mesmo não é exterior e nem interior, pois transcende este par de opostos - o pássaro absoluto está além das percepções e conceitos).

Conclui-se, até aqui, que podemos observar objetos exteriores e interiores, fixos e móveis, mutáveis ou imutáveis (cuja mutação não pode ser percebida na escala espaço-temporal em que atua nossa consciência); que a partir da observação de um objeto exterior, podemos fechar os olhos e prosseguir observando-o interiormente, imaginativamente; e que a observação é um ato receptivo que pode ser realizado sob silêncio mental.

O principiante não consegue receber silenciosamente o objeto observado, necessita falar consigo mesmo interiormente, para capturar as características ou informações do objeto. Pode, entretanto, exercitar a receptividade silenciosa e desenvolvê-la rapidamente, caso comece a utilizar tal faculdade.

O poder de receber informações de forma silenciosa e exclusivamente perceptual é o estágio embrionário da faculdade conhecida como Percepção Instintiva das Verdades Cósmicas. Seu desenvolvimento não possui um limite conhecido. É uma faculdade da consciência.

Para ser contemplado, um objeto qualquer necessita ser acessado pela consciência, seja por via sensorial ou supra-sensorial. A contemplação por via sensorial objetiva a atenção mas não exercita os sentidos internos. Se quisermos exercitar os chakras e desenvolver os sentidos internos, temos que usá-los e os usamos quando contemplamos um objeto supra-sensorialmente.

A contemplação supra-sensorial requer desligamento das faculdades sensoriais, o que se consegue por meio do sono. O sono é o caminho através do qual ocorre o desligamento dos sentidos e a imersão da consciência nos mundos internos, os quais existem paralelamente ao físico.

Afastando as lembranças

Escute-me, você que luta para libertar sua alma das amarras do desejo: nos frágeis momentos em que sua alma está pura e livre, ela repousa sobre a palma gigantesca da mão do Budha. Basta um simples pensamento ou recordação para que você caia dali e volte novamente à escuridão do desejo.

Quem quer libertar-se de um desejo tem que descobrir quais são os elementos que constantemente o evocam em sua vida e erradicá-los de si mesmo. Tudo aquilo que, de modo direto ou indireto, se relacione com o desejo tem que ser retirado, dissolvido.

A morte de um desejo perigoso (altamente prejudicial) requer que afastemos de nossas mentes e de nossas vidas tudo o que esteja a ele relacionado. Qualquer elemento levemente vinculado a um desejo atua como um agente de recordação que evoca lembranças adormecidas.

O candidato que almeja livrar-se de um determinado desejo, precisa retirar de si e de sua vida tudo o que possa lembrar esse mesmo desejo, tudo o que o trouxer à recordação, pois tais elementos são sua nutrição e sua própria vida.

O afastamento corresponde ao trabalho de descobrir e dissolver inúmeros "detalhes" (V.M. Rabolú) do desejo, sem reprimi-los. A morte dos detalhes está inserida no próprio ato de apartar-se. Os detalhes correspondem a tudo aquilo que nossa mente possa associar ao desejo, direta ou indiretamente.

Uma pessoa poderia tentar apartar-se dos agentes evocadores mediante a mera repressão e este seria um procedimento equivocado. Propomos que o afastamento seja por meio da observação, descoberta, oração e morte, jamais do mero recalque. Os múltiplos elementos que recordam e evocam um desejo são seus detalhes e necessitam ser dissolvidos e não meramente reprimidos.

Quando tudo o que recorda um desejo é erradicado de nossas vidas, o mesmo deixa de existir em nós.

Limpar a vida de tudo o que se relacione com um defeito ou desejo não é evadir-se de confrontá-lo, como pode parecer à primeira vista. É, antes, afrontá-lo diretamente para retirar-lhe a fonte de vida. A fonte de vida de um desejo são os vários elementos que o recordam e a ele se associam.

Um erro a ser evitado, no trabalho de Morte, é o de estimular um desejo (identificando-se) enquanto se tenta estudá-lo mediante a observação. Trata-se de uma armadilha na qual se enfraquece e se fortifica o desejo simultaneamente. Quem quer libertar-se não pode se deixar enganar desta maneira. O desbloqueio e a não-repressão aos quais sempre nos referimos diferem totalmente do ato de identificar-se com um impulso, estimulá-lo e fortificá-lo. Propomos a Morte (do Ego) e não a vida.

O trabalho exigido é o de, primeiramente, afastar de si, mediante o livre arbítrio (vontade), os elementos que constantemente evocam o desejo e, secundariamente, dissolver as resistências encontradas no caminho, mediante a Morte em Marcha.

Suponhamos que alguém queira se libertar do pernicioso vício da fornicação. Tal pessoa não terá êxito se apenas ocupar-se em eliminar o ato da fornicação em si, negligenciando os outros elementos que a recordem, evoquem ou estejam, de algum modo, a ela relacionados. Tais elementos (características psicológicas e comportamentais) são a nutrição e a própria vida do destrutivo vício. A libertação da pobre alma viciada somente será um fato se forem erradicadas da personalidade (mediante a Morte) TODAS as lembranças, fantasias, pensamentos, falas, hábitos, olhares, movimentos, formas de vestir, leituras, diversões, piadas, brincadeiras, conversas etc. que estejam relacionados ao vício de um ou outro modo. E tal limpeza não é questão de mera repressão, mas sim de observação, descoberta e oração.

Uma vez descoberto e eliminado um detalhe, não devemos, de modo algum, tornar a cometer novamente o pequeno ato que lhe correspondia ou perderemos o pequeno avanço conquistado.

Há um inimigo principal (o desejo em si) e há inimigos secundários que lhe dão força e o alimentam. Os inimigos secundários correspondem a tudo aquilo que possa recordar o desejo, a começar pelos pensamentos.

Portanto, mudamos as atitudes, utilizando a pequena margem de livre arbítrio (vontade descondicionada ou liberdade comportamental) que possuímos e dissolvemos as resistências encontradas no caminho por meio da Morte em Marcha. Não tentamos simplesmente atravessar as resistências à força: as observamos, pedimos e constatamos os resultados.

Sempre que alguém tenta mudar sua conduta, depara-se com as resistências do Ego, sejam detalhes ou desejos principais. Quando, em tais situações, observamos e oramos pela Morte, somos presenteados com muitas constatações.

A primeira e fundamental mudança a ser efetuada é na cabeça, na mente. Um mero pensamento ou lembrança é mais que suficiente para acender um desejo. À mudança na forma de pensar devem seguir-se mudanças em outras esferas da vida.

Morrer é esquecer. De nada adianta tentarmos mudar nossas ações se continuamos evocando o desejo através do pensamento. E os pensamentos não são erradicados pelo mero conflito repressivo.

Para ser mais claro: se você está querendo se libertar de um desejo nefasto qualquer, tem que começar por afastar toda lembrança e retirar de si tudo o que possa recordá-lo. Todo comportamento que, de um modo ou de outro, apresentar alguma relação com o desejo em questão, tem que ser abandonado. Empenhe-se em retirar de sua vida, mediante a Morte, tudo o que possa levá-lo de volta às garras do vício e verá que os resultados serão bons.

Sobre esses múltiplos canais de alimentação e agentes de recordação deve incidir a auto-observação. São centenas e milhares os elementos associados a um desejo e que evocame sua recordação. Se não os observarmos em nós mesmos, jamais os descobriremos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Satisfazer os detalhes do Ego é dar passos equivocados

Eliminar os detalhes do Ego é como caminhar por uma vasta região desconhecida. Vamos prestando atenção no caminho e evitando as trilhas que possam nos conduzir para lugares que não queremos. Cada ato realizado, cada atitude tomada, apresenta múltiplas e infinitas consequências. A um ato se seguem muitos fatos, externos e internos. Identificar-se com uma pequena manifestação do Ego, satisfazê-la, equivale a entrar por um caminho que resultará em alguma forma de escravização. Morrer é caminhar rumo à liberdade da alma e enveredar por caminhos que conduzem à escravidão é errar o curso.

A região desconhecida por onde caminhamos é vasta, infinita e obscura, mas o Sol está no horizonte. O único ponto de orientação que temos é o Sol, é para lá que queremos ir. Se erramos o caminho, entramos na escuridão.

Cada pensamento, desejo, impulso, atitude apresenta resultados interiores, em uma sequência encadeada. Quando eliminamos um detalhe do Ego, interrompemos uma cadeia. Quando suprimo um ato, deixando de fazer algo, suprimo também as consequências que seriam provocadas, e deixo de enveredar por aquele caminho.

Há muitos atos equivocados na escuridão, inconscientes, dos quais não suspeitamos a existência. Temos que descobri-los para não enveredar pelos que caminhos que lhes correspondem.

Evitar os caminhos para os quais nos arrastam os detalhes do Ego não é evadir-se do confronto, pois o confronto se dá na encruzilhada.

Se, por engano, trilhamos longamente um caminho equivocado e estamos escravizados na escuridão, resta-nos ainda a possibilidade de encontrar outro caminho que nos leve novamente à luz. À medida que caminhamos corretamente, a escravização diminui de intensidade e é assim que podemos saber se estamos indo pelo caminho certo.
Os atos do nosso dia a dia são caminhos. Alguns nos conduzem à escuridão, nos escravizam mais ainda, outros nos levam à libertação. Temos que aprender a discernir antes, pois o Morrer equivale a antecipar-se, eliminando os fatos psicológicos e comportamentais que antecedem e resultam em problemas maiores.

O problema está em começar, em dar o primeiro passo. Temos que aprender a não começar: não começar a fazer as besteiras, a cometer as diabruras. O primeiro passo para cada diabrura é a satisfação de um detalhe. Evitamos o primeiro passo, não pela repressão, mas pela verdadeira Morte.

Observemo-nos e descubramos, no dia a dia, quais são os primeiros passos que sempre damos para a fortificação dos defeitos que nos escravizam. Essas iniciativas são muitas, manifestam-se aos milhares, como formigas, e não as vemos. Estão em nossa fala, em nossos olhares, em nossos sorrisos, em nossa forma de vestir, naquilo que sentimos diante de acontecimentos "bobos" e, aparentemente, sem significância, em nossas reações emocionais ao que nos rodeia, ao que presenciamos, em nossos pensamentos etc.

Um relativo silêncio mental faz-se necessário quando queremos descobrir as facetas sutis em nosso comportamento. Se ficarmos pensando, nada veremos de interessante, nada novo descobriremos, veremos somente os nossos próprios pensamentos, além de fortificar muitos defeitos por esta via.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Como o Ego desgasta os centros da máquina humana

O corpo físico humano viveria indefinidamente e não ficaria desgastado e nem tampouco envelheceria se não existissem agentes extressores físicos e psicológicos. O ego e os impactos destrutivos do mundo físico provocam o desgaste e envelhecimento do corpo.

Nossos egos provocam utilização excessiva de cada um dos cinco centros inferiores e a subutilização dos centros superiores. Os “eus” provocam pensamentos, emoções, movimentos, atividades sexuais e instintivas de forma exagerada e intensa, sobrecarregando cada um do cinco centros.

Ao sobrecarregar os centros, pelo excesso de atividade, os mesmos ficam carentes de energia para trabalhar e manter máquina, o que os leva a “roubar” a energia de outros centros que estejam disponíveis. Deste modo, uma pessoa pode desenvolver um desequilíbrio emocional mesmo sem desgastar diretamente seu centro com baixas emoções, ou seja, mesmo que não seja um tipo passional que aprecie intensas emoções inferiores, uma pessoa pode apresentar complicações de saúde relacionadas com o desgaste do respectivo centro.

É importante analisar como o Ego (ou egos, no plural) atua para desgastar cada centro e provocar um desequilíbrio geral na máquina.

O uso prolongado e também o uso intenso de um único centro resulta em sobrecarga e desgaste. O que deve ser evitado, caso queiramos nos equilibrar, é o desgaste. Evitamos o desgaste quando não usamos um determinado centro por muito tempo e nem de forma muito intensa, o que se consegue à medida que o Ego vai morrendo, pois é o Ego o agente destruidor dos centros, são os nossos defeitos que nos levam a agir de forma exagerada e a cometer excessos.

O Ego pode nos levar a tecer exaustivas análises, raciocínios, discussões, cálculos, estudos, leituras, teorizações e, com isso, “queimar” a energia do centro intelectual. Ao se ver com carência de energia, o centro do pensamento irá roubar energia de outro centro, geralmente o sexual. Portanto, temos que evitar o uso excessivo da mente. O ideal é pensar o mínimo necessário, mantendo a cabeça leve e fresca.

Ao mesmo tempo, o Ego pode provocar intensas emoções inferiores (emoções negativas): preocupações, medos, sofrimentos, paixões e muitas outras formas de emoção. Todo defeito possui uma manifestação emocional e, ao atuar sobre o centro emocional, provoca o seu desgaste, seja pela intensidade das emoções que ocasiona, seja pela duração do tempo e da freqüência que as mesmas perduram. Quem vive o tempo todo curtindo, cultivando e saboreando emoções inferiores, está desgastando o seu centro emocional. São exemplos de emoções inferiores todas as emoções provocadas pelo Ego, tais como o ódio, a raiva, a ira, a vingança, o medo, a tristeza, os ciúmes, o apaixonamento, o amor emocional (inferior), as emoções da fornicação, da masturbação, as emoções dos jogos, das touradas, dos filmes de ação etc. São tantas que não seria possível enumerar todas aqui. Eliminando-se o ego, elimina-se tais emoções. Por meio da Morte, damos um descanso ao coração e equilibramos o centro emocional. O equilíbrio deste centro não é questão de simplesmente “pararmos as emoções” e sim de morrer. Não basta simplesmente tentar “ser frio”. O recalque das emoções não as elimina e não reequilibra o centro.

Se nos observarmos com cuidado, descobriremos que estamos continuamente pensando e sentindo inutilmente. Os pensamentos ocorrem em nossa cabeça e as emoções no coração e é aí onde temos que descobri-los, observá-los e pedir por sua eliminação. Boa parte dos problemas que temos decorre do desequilíbrio destes dois centros.

O centro intelectual é o centro da mente, da atividade mental. A mente é como um asno teimoso e não adianta entrar em conflito com ela. Se quisermos silenciar a mente, temos que conhecer o procedimento correto. Entrar em conflito e tentar silenciar a mente à força é inútil e prejudicial. O correto é observar e compreender o que se está pensando. O pratyahara do Raja Yoga conduz a uma atenuação do pensar excessivo. Compreendemos os pensamentos quando os contemplamos conscientemente e nos damos conta do que estamos pensando. Tratar de perceber conscientemente os próprios pensamentos, observando-os ao invés de reprimi-los, é muito interessante (é uma prática que se pode realizar na meditação, após o relaxamento e antes da concentração). Os pensamentos surgem em procissão na mente e, quando contemplados conscientemente, aos poucos vão se esgotando. O que nos interessa é isso: esgotar os pensamentos. Se os pensamentos invadem e interferem quando estamos tentando nos concentrar em nossas tarefas diárias, temos que perceber a interferência ou nem sequer nos daremos conta de que nos distraímos. Não devemos procurar os pensamentos e nem estimulá-los, mas quando eles interferem temos que percebê-los ou permaneceremos distraídos. Para tanto, não necessitamos de uma grande análise, mas somente de uma percepção direta apurada, relacionada com o teor do pensamento, com seu conteúdo: que pensamento é este que entrou na minha frente agora? Trata-se somente de perceber e não de raciocinar a respeito. Aplicar o pratyahara não é procurar os pensamentos, ir atrás deles e nem ficar se recordando dos mesmos. É tão somente dar-se conta dos pensamentos que nos invadem, quando isso acontece. Se estamos conscientes do que estamos fazendo, concentrados no que nos interessa, não há motivo algum para nos recordarmos dos pensamentos. O que queremos é o esquecimento, a quietude mental, e não a recordação dos pensamentos.

É claro que, se estou dirigindo um carro ou realizando um trabalho perigoso ou delicado, não posso me desligar desligar das percepções sensoriais para me por a contemplar meus pensamentos, isso seria absurdo e perigoso. Porém, se não perceber meus desvios de atenção, não serei capaz de recolocá-la no objeto que me interessa no momento, no aqui e no agora. Quem não percebe os desvios de atenção (os pensamentos intrusos), se distrai e pode até se acidentar fisicamente.

Temos que cultivar, no dia a dia, a calmaria mental. Não estou dizendo que um principiante como nós deva viver em êxtase contínuo, mas sim que temos que minimizar a atividade mental o quanto pudermos no dia a dia para nos tornarmos mais lúcidos. Para tanto, basta nos concentrarmos naquilo que estamos fazendo agora, no presente. Procedendo assim, se algum pensamento intruso aparecer, o perceberemos. Perceber a intromissão de um pensamento, dar-se conta da distração, é algo análogo à prática do pratyahara, embora não tenha a mesma profundidade, porque não podemos desligar os sentidos físicos no dia a dia, durante o trabalho ou na rua.

Se a mente, que se manifesta fisicamente pelo centro intelectual, é como um asno teimoso, o centro emocional é como um elefante louco. Não é fácil acalmar este elefante. O ideal é praticar a Morte em Marcha constantemente, para não permitir que o elefante enlouqueça. Mas se, por motivos que alheios à nossa capacidade, o elefante saiu do controle, então convém apelar para alguns procedimentos apaziguadores. Um meio é acalmar o centro motor, por meio do relaxamento, e o centro intelectual, por meio do pratyahara. Outro meio é substituir as emoções inferiores pelas emoções superiores. Pode ser que, em casos extremos, precisemos tomar algumas plantas calmantes, para ajudar. É claro que a combinação de todos esses procedimentos pode ser muito útil em casos graves.

Simplesmente reprimir as emoções, tentando “não sentir nada”, costuma ser o pior dos caminhos. O elefante louco não se deixa controlar e se torna cada vez mais furioso. O que se requer é estratégia. Antes de tudo, temos que sentir conscientemente as emoções. Tentar não sentir as emoções e ao mesmo tempo querer compreendê-las é um contra-senso. Quem quer se livrar de uma emoção ruim deve senti-la conscientemente e não tentar fazê-la retroceder pela força, assim de qualquer maneira e violentamente. Assim como a mente, as emoções reagem às tentativas de controle arbitrário.

Além de desgastar os centros intelectual e emocional, o ego desgasta o centro motor com movimentações musculares intensas, desnecessárias, prolongadas e freqüentes. Excessos de exercícios físicos, de trabalhos braçais e de esforço muscular desgastam o centro do movimento. O relaxamento dos músculos permite o descanso do centro motor. Pessoas tensas e que se movimentam desnecessariamente e sem parar, estão abusando deste centro. Trabalhadores, dançarinos e atletas que cometem excessos estão igualmente caindo no abuso. O ideal é desenvolver qualitativamente as capacidades motrizes, sem desgastes.

Há ainda o desgaste do centro instintivo pelo Ego, o qual me parece ser o centro de acesso mais difícil à auto-observação. O desgaste do centro instintivo se verifica por excesso de processos corporais indispensáveis à sobrevivência e à manutenção da vida. O ego provocará o desgaste deste centro ao provocar exageradamente processos digestivos (comendo muito), impedir o descanso e recuperação (dormindo pouco), processos excretores, processos de regeneração (ingerindo substâncias prejudiciais) e todos os processos corporais relacionados com a manutenção da vida biológica.

E, por último (ou talvez em primeiro lugar) temos o desgaste do centro sexual, o qual provavelmente é algo muito claro para todo mundo. A atividade sexual excessiva, tão comum e incentivada hoje em dia, sob todas as suas formas, provoca este desgaste. Toda vez que sentimos uma excitação morbosa na parte sexual, estamos utilizando a energia deste centro. Se o utilizarmos em demasia, “queimaremos o seu combustível”. Após um orgasmo, podemos perceber certa sensação mórbida de vazio. Tal sensação assinala falta de energia neste centro.

O problema não é o uso, mas sim o abuso de cada um dos referidos centros. Os centros existem para serem usados. O erro está somente em usá-los em demasia, seja por fazê-los trabalhar por longas horas seguidas, seja por fazê-los trabalhar de forma intensa, seja por fazê-los trabalhar com uma freqüência exagerada.

Uma primeira forma de reequilibrarmos os centros é descansar o suficiente. Quem não dorme, não descansa e não abaixa o seu metabolismo, está usando os centros em excesso. Por tal razão, é indispensável aprender a meditar e a dormir profundamente. Temos que sair do corpo para que os centros descansem. O Ego deve ir para a quinta dimensão e deixar o corpo físico temporariamente para que haja recuperação.

Uma segunda, mas não menos importante, maneira de reequilibrarmos os centros é aprender a usá-los somente o necessário, para o que for necessário e não mais que o necessário. Temos que usar os centros levemente, aprender a economizar energia, viver na leveza, dentro do possível. É importante não usar um único centro por muito tempo (ex. ler, discutir ou exercitar-se por várias horas seguidas) e nem obrigá-los a trabalhar de forma pesada, mais do que suportamos. O ideal é trocar continuamente de centro: caminhar um pouco, depois ouvir uma música, depois alimentar-se, depois pintar um quadro, depois trabalhar, depois estudar etc. Aprender a variar o uso dos centros é de suma importância: usa-se cada centro por tempo não muito longo e então passa-se a usar outro centro, isto é, adota-se outra atividade distinta, que ponha outro centro em funcionamento.

Temos que evitar o cansaço. O cansaço é um indicador de desgaste.

Não é demais lembrar novamente que o desgaste de um centro específico pode provocar o desgaste de outro centro que não é muito usado. Um atleta poderá desequilibrar seu centro sexual ao abusar dos movimentos, pois seu centro motor irá roubar do centro sexual a energia que lhe faltar. E o centro sexual poderá roubar a energia do centro emocional, desequilibrando este centro e assim por diante. Os centros, quando sobrecarregados, passam a utilizar a energia de outros centros e provocam uma desordem total no organismo.

Portanto, se você não é emotivo, não pense que, por tal motivo, você está livre do desequilíbrio emocional ou, se você é sedentário, que está livre do desequilíbrio do centro motor. Quem quer equilibrar-se, deve eliminar o desgaste excessivo de todos os centros e isso não será possível sem a Morte, pois são os egos que provocam atuações excessivas.

Outro ponto que merece nossa atenção é o desgaste inconsciente. Podemos usar os centros sem nos darmos conta. Nossos comportamentos inconscientes também desgastam os centros. Pensamentos de luxúria que passam sem serem notados não deixam de usar a energia dos centros intelectual e sexual. Todo ego, ao atuar, utiliza as energias dos centros, ainda que não os estejamos observando. O fato de um dado comportamento ser inconsciente não significa que o mesmo não esteja consumindo energia. Não somente os comportamentos conscientes, mas também os comportamentos inconscientes necessitam da energia dos centros para se processarem. A Morte do Ego, ao trazer à consciência e promover a eliminação de comportamentos prejudiciais, abusivos e desnecessários que antes se processavam inconscientemente, permite deter tais desgastes.

Sentindo conscientemente

Sentir algo conscientemente é também uma forma de conhecer. Sentir uma emoção conscientemente é o caminho para conhecê-la.

Quando sinto conscientemente uma brisa, estou conhecendo as sensações que ela provoca em meu corpo. Posso conhecer, também, as emoções que a brisa evoca em meu coração pois, quando sinto conscientemente uma emoção, a estou conhecendo.

Sentir algo conscientemente é permitir que aquilo nos chegue à consciência pela via do coração.

O conhecer não vem somente pelo pensar, como supõe a educação acadêmica formal. O pensar nos leva a conclusões, mas o sentir também nos leva a conclusões. Posso chegar a conclusões por meio de associações lógicas de idéias ou por meio do saborear consciente de minhas emoções.

Quando sinto que a presença de uma pessoa me causa mal estar, não estou conhecendo a pessoa em si, mas estou conhecendo a emoção que tal pessoa provoca em mim.

O conhecimento das emoções não resulta de meras especulações teóricas e associações entre pensamentos. Se quero conhecer e compreender minhas emoções, tenho que senti-las conscientemente. Sentir conscientemente uma emoção é algo semelhante a senti-la de propósito, intencionalmente, ainda que sem identificação.

Quando estamos identificados com uma emoção, a sentimos inconscientemente, mas, quando não nos identificamos, podemos senti-la conscientemente. Quando sinto conscientemente uma emoção, identifico (mas não me identifico com) seu teor qualitativo.

O teor qualitativo de uma emoção não pode ser definido e nem descrito com exatidão, pois escapa à linguagem e ao intelecto. Mas pode perfeitamente ser saboreado pela consciência, o que se consegue quando a mesma é sentida de forma consciente.

O problema das emoções e sentimentos obsessivos pode ser aliviado mediante o sentir consciente (mas isso não é tudo, pois a superação requer que se deixe de alimentá-las a todo instante).

Em outros termos, sentir as emoções conscientemente é praticar a auto-observação no centro emocional. Ilógico, absurdo, desproposial e sem sentido seria tentar observar as próprias emoções enquanto se as bloqueia, como alguns estudantes gnósticos tentam fazer. Não poderei observar e compreender os movimentos de um dançarino ou o comportamento de um pássaro se o imobilizo. Do mesmo modo, não poderei capturar o sentido (teor qualitativo) de uma emoção se a bloqueio.

Compreender as emoções difere de compreender os pensamentos. Compreendemos os pensamentos quando observamos o que se passa dentro de nossa cabeça (como se faz durante o pratyahara) e compreendemos as emoções quando observamos o que se passa no coração. Por "observar" entenda-se: receber conscientemente, sem rejeição.

Temos sido condicionados, desde a infância, a tentar imobilizar as emoções que consideramos ruins. O resultado é que praticamos muitos recalques inconscientemente. A cultura ocidental é a cultura do recalque cultivado há milênios, daí a oscilação constante entre o moralismo e o hedonismo. Precisamos transcender este par de opostos.

Nossa consciência pode perceber o que se passa no mundo que nos rodeia e o que se passa em nós. Quando praticamos a auto-observação, estamos "recebendo o ego na consciência", ou seja, recebendo nossa pessoa, quem somos, de forma aberta, para investigá-la e conhecê-la. Observar-se é receber os próprios pensamentos, os próprios movimentos e as próprias emoções. Quando nos recusamos a receber uma emoção conscientemente, ela se torna obsessiva ou extravasa por meio de doenças psicossomáticas. Se queremos a tranquilidade emocional, temos que aprender a "sentir o que estamos sentindo", sentir conscientemente. A serenidade assombrosa dos Budas não é algo que se consegue simplesmente querendo. Não basta somente querer e nem tentar ser calmo. A serenidade dos Budas resulta de um longo trabalho ao longo de existências. Forçar ou fingir serenidade é perigoso e prejudicial. A verdadeira serenidade não é forçada.

Sentir conscientemente uma emoção é senti-la na consciência, não é identificar-se com ela, para desfrutar do seu sabor, nem evocá-la em sua ausência e nem tampouco procurá-la quando não está nos molestando. Quando nos identificamos com uma emoção, a fortalecemos mais e mais e nos tornamos ainda mais escravizados. Há que se diferenciar o sentir consciente do sentir identificado. Sentir conscientemente é "sentir o que se está sentindo".

Sentir as emoções conscientemente não é o mesmo que estar alimentando-as a todo instante por meio da identificação, nem ficar todo o tempo lembrando daquela emoção, nem procurá-la quando estiver ausente e nem tampouco provocá-la quando não estiver nos molestando. O sentir consciente não é entrar na frequência das emoções negativas, dos desejos, medos e tristezas, não é sintonizar-se com o Ego. É algo distinto: percebê-lo em ação, dar-se conta.

O sentir consciente se aplica às emoções invasivas e compulsivas, que já estão fazendo estrago e das quais não podemos escapar (ex. o nervosismo em uma discussão que já está sendo travada).

Temos que identificar a emoção, mas não nos identificarmos com ela. Identificar uma emoção difere de identificar-se com a emoção. Identificar uma emoção é discernir qual é a emoção que está no assaltando. Identificar-se com a emoção é misturar-se com a emoção, encontrar-se na emoção, confundir-se com a emoção, considerar que a emoção não é algo alheio, estranho à consciência e ao Ser.

Enquanto percebemos conscientemente uma emoção que nos invadiu (porque anteriormente a alimentamos e lhe demos espaço), é claro que temos que orar à Mãe Divina para que a mesma seja dissolvida. O ideal, entretanto, é não permitir que as coisas cheguem a esse ponto, atuando bem antes sobre a manifestação do ego correspondente. Observando-nos, descobriremos pequenas e sutis reações emocionais a todo instante, no dia a dia. Se as sentirmos conscientemente e orarmos, elas são dissolvidas ali mesmo e não abrirão as portas para outras emoções mais violentas. Mas, se nos identificamos previamente, por descuido, e já estamos invadidos, não há remédio além de observá-las, orar e contemplar os resultados. A aplicação da dualidade aos pensamentos insistentes que as acompanham também é de grande ajuda.

domingo, 11 de setembro de 2011

Para onde vão as pessoas quando sonham

Ninguém negaria que todos os seres humanos dormem e sonham.

Certamente, há algo mais além do corpo físico das pessoas, pois é sabido que temos emoções, pensamentos e percebemos. Quem, dentro do sonho, atua? Quem anda, fala e vivencia as cenas dos sonhos? Não pode ser o corpo físico, pois o mesmo não entra no sonho, permanece na cama, adormecido. Há, portanto, algo mais que necessita se definido e elucidado. Quem sente, fala e experiencia o sonho de forma direta? Qual porção da pessoa? Qual é a parte da pessoa que adentra ao sonho, enquanto o corpo físico permanece desfalecido?

Se estou sonhando que escalo uma montanha, certamente meu corpo físico não estará escalando a montanha com a qual estou sonhando, pois estará deitado. Quem, em mim, então, estará escalando a montanha? Quem, dentro de mim? Qual parte de mim?

Se não existisse nada além do corpo físico, o ser humano não poderia sonhar.

Todas as pessoas dormem e sonham. Se todas as pessoas sonham, todas as pessoas viajam para dentro de si mesmas, para as regiões do inconsciente.

Se todas pessoas que dormem e sonham viajam para as regiões do inconsciente, então nós e as pessoas que amamos também viajamos para lá.

Porém, onde se encontra tal região do inconsciente? Em que parte do universo estão as pessoas enquanto sonham. Onde se encontra o mundo dos sonhos?

O mundo dos sonhos não se encontra em nenhum local físico do planeta, em nenhum país. Não se encontra ao leste, ao oeste, ao norte e nem ao sul, porém continua existindo, pois sonhamos. Onde está?

O mundo dos sonhos não é visível fisicamente e não se encontra parte alguma do universo visível. Então, somente pode haver uma explicação: o mundo dos sonhos é um mundo real, porém invisível e intangível para o corpo físico, mas não para a parte de mim que experimenta o sonho diretamente. E onde se encontra? Dentro do ser humano e paralelamente ao mundo físico sensível, em um multiverso imediatamente próximo a este. O mundo dos sonhos está na quinta dimensão do Planeta.

Quando sonho, caio para dentro de mim mesmo e, quando outras pessoas sonham, fazem o mesmo, caem para dentro de si mesmas. O mundo dos sonhos é o mundo interior e psíquico da Terra.

Assim como cada pessoa possui um mundo interior e psíquico, o nosso planeta também o possui. É para lá que vamos quando dormimos e sonhamos. Nos sonhos, contatamos as pessoas que também estão dormindo mas, como não temos consciência, não nos damos conta do processo.

Sobre não pensar em perigos inevitáveis

Há uma crença corrente de que, para enfrentar problemas e perigos, temos sempre que neles pensar. Isso é algo questionável.

Obviamente, em certas situações, pode ser útil raciocinar para encontrar a solução. Mas há situações em que a solução já foi encontrada ou é impossível e, ainda assim, nossa mente insiste em tentar imaginar soluções.

Se, mesmo sem ter (outra) solução para um problema, eu insisto em procurá-la, estou procurando algo inexistente. Tal insistência indica que não estou aceitando a realidade e indica, também, que não acredito que a solução, se existir, possa chegar por vias não racionais (ex. maçã de Newton e outras sincronicidades). A insistência teimosa em pensar em um problema, grave ou não, contra toda possibilidade de solução, assinala confiança cega e extrema na faculdade racional. Isso não significa, entretanto, que nunca se possa procurar soluções raciocinando e nem que sempre seja útil renunciar ao intelecto.

Vemos, então, que pensar às vezes é bom e às vezes é ruim.

Quando há um problema ou perigo onipotente, contra o qual é inútil lutar, a solução mais sábia é a aceitação. Porém, os centros emocional e intelectual reagem furiosamente e se debatem contra o inevitável. No fundo, está o Ego reacionando contra a realidade, por medos ou por desejos intensos. A mente é como um asno teimoso, que esperneia sem parar, e o centro emocional é como um elefante louco.

Se queremos que os centros intelectual e emocional se acalmem, temos que aprender primeiramente a não pensar nos perigos e problemas inevitáveis. Desviar o pensamento daquilo que nos ameaça é uma faculdade a ser obtida por meio do desenvolvimento da concentração.

Se me detenho pensando em um perigo inevitável, emoções negativas vão crescendo dentro de mim, fazendo o problema assumir um significado cada vez mais monstruoso.

Pensemos na morte (desencarnação), por exemplo. Se refletirmos um pouco, veremos que a morte, em si mesma, não é algo terrível, é simplesmente um processo natural a mais, ao lado do nascimento e do crescimento. Os animais e as plantas incessantemente morrem, as rochas, planetas, estrelas e galáxias são constantemente destruídos no céu. No entanto, nossa mente não aceita tal processo natural e luta para escapar. O motivo é o significado desesperador e monstruoso atribuído à morte, o qual é algo completamente psicológico, interior. O significado sombrio da morte é algo atribuído por nós e não existe por si mesmo, inerentemente ao processo de destruição. Em outras palavras: se nossa mente lhe atribuísse um significado oposto, todos teríamos pressa em morrer e seriam necessárias leis para impedir que as pessoas apressassem a morte.

Tememos a morte e sofremos ante sua aproximação porque nos condicionamos a nela pensar como algo ruim. E tal condicionamento está longe de ser mera questão de opção e livre arbítrio. Não tememos a morte porque queremos, a tememos porque estamos condicionados. Ainda que queiramos pensar nela de outro modo, os pensamentos sombrios voltam, pois são valores vivos e autônomos dentro de nós.

Se queremos ser capazes de enfrentar ameaças e perigos sem nos perturbarmos, temos que primeiramente aprender a não pensar neles, mesmo estando dentro e diante deles. E isso não se consegue pelo mero esforço intenso, mas pelo esforço estratégico correto e intenso. Não conseguirá esta capacidade aquele que simplesmente se expor ao perigo e tentar não pensar. Há que se conquistá-la gradualmente, dissolvendo todos os detalhes do medo que afloram no cotidiano. Toda dificuldade, perigo, ameaça tem que ser usada como ginásio psicológico para se estudar os detalhes e facetas do medo, da sensação de sentir-se vulnerável. Quem simplesmente se expõe a perigos e tenta nada pensar e nada sentir, está reprimindo o Ego e, cedo ou tarde, a corda irá arrebentar.

Seria muito interessante atingirmos um estado de serenidade como o do Buda diante das ameaças de Mara, mas isso não se consegue pelo mero esforço bruto. A serenidade dos mestres resulta de longo trabalho de Morte do Ego ao longo de toda a vida. Se quisermos este estado, teremos que trilhar este caminho.

Nós, pessoas normais, temos uma relativa e pequena capacidade de não pensar em problemas menores, menos ameaçadores. Se tivermos que enfrentar ameaças terríveis, podemos apelar aos seguintes recursos:

1) oração (conectando-nos às nossas Partes Internas obtemos força);
2) relaxamento (acalmando o centro motor, facilitamos a calmaria dos centros emocional e intelectual);
3) emoções superiores (colocando o centro emocional para trabalhar de forma oposta);
4) reflexão na dualidade (todo pensamento insistente possui um pensamento contrário que o anula);

Creio que os quatro pontos acima merecem maior aprofundamento, mas pretendo fazê-lo em outra oportunidade.

Até logo

sábado, 3 de setembro de 2011

Em que consiste a concentração nos koans

Um koan é um problema insolúvel que propomos à mente, para que ela encontre a solução. Por "propor" um problema à mente entenda-se: quebrar a cabeça para solucioná-lo através do pensamento.

Quando nos concentramos em um koan, o koan escolhido passa a ser o objeto de nossa concentração. Nosso pensamento, poder analítico, reflexão e racionalização são focados no problema, na tentativa de resolvê-lo.

Concentrados no koan, buscamos a resposta. Buscar a resposta de um koan é pensar no problema proposto, procurando solucioná-lo, até que nos convençamos completamente que a mente e os pensamentos, mesmo que concentrados, não podem resolver tal problema.

Quando nossa parte mental se convence de que não pode resolver o problema, isto é, que a via racional não dá conta do mesmo, ela se aquieta e se retira, deixando a consciência, temporariamente, pura e livre.

O pensamento único que se tem quando se está concentrado em um koan é o pensamento a respeito do problema proposto. A solução está além deste pensamento único e concentrado.

Qualquer problema insolúvel da vida pode funcionar como koan e não somente os koans propostos pelos sábios chineses e tibetanos. Enigmas científicos, filosóficos ou problemas insolúveis do cotidiano também podem ser usados como koans.



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aplicando a dualidade aos pensamentos

Para cada fato ao qual damos grande importância há alguns fatos contrários que o anulam. Quando estamos exageradamente preocupados com um problema, outro problema ainda pior ou uma alegria imensamente superior podem torná-lo imediatamente insignificante. Quando estamos envolvidos com alguma modalidade de prazer, outro prazer muito maior ou uma dor exagerada poderão torná-lo sem sentido. Os valores que conferimos são relativos. Algo valerá muito ou pouco de acordo com o referencial adotado. No mundo fenomênico em que vivemos, os objetos, os fatos, as coisas, não possuem valor absoluto. Estamos aprisionados na relatividade.

O mesmo princípio vale para os pensamentos. Todo pensamento corresponde a um valor, traz um valor embutido. Um pensamento insistente relacionado com algum problema sério em que tenhamos nos metido perde seu sentido no momento em que conjeturamos a possibilidade de que um outro problema distinto e ainda pior, e que nada tenha a ver com o primeiro, nos afete. Portanto, o pensamento em um problema é anulado pelo pensamento em outro problema, o que significa que ambos possuem, entre si, uma relação de polaridade: um conduz à compreensão da nulidade e inutilidade do outro. Neutralizar um pensamento mediante o seu oposto é o que se chama de "aplicar a dualidade".

O que é aplicar a dualidade a um pensamento? É encontrar um fato que, ao ser considerado (pensado, conjeturado), torna sem sentido o fato no qual estávamos pensando, esvaziando-o de importância. Todo pensamento, bom ou mal, está em nossa mente por identificação. E se nos identificamos com um pensamento, estão estamos lhe conferindo importância, seja positiva ou negativa. Se fico pensando na discussão hostil que tive com um colega de trabalho, estou conferindo importância a essa discussão. Se fico pensando na mulher nua que vi em algum lugar, estou conferindo-lhe importância. Conferimos importâncias boas ou más aos conteúdos dos nossos pensamentos. Se queremos anulá-los, temos que encontrar os seus contrários.

A maior parte dos pensamentos surgem na mente e nos deixam ao serem simplesmente percebidos. Mas há pensamentos renitentes, teimosos e insistentes como, por exemplo, uma música que fica tocando na cabeça ou um problema que fica martelando. Neste caso, temos que encontrar os fatos opostos que, ao serem levados em consideração (pensados) os inutilizam. Que valor atribuímos à música teimosa que se repete infinitamente? Será um valor positivo (gostamos dela) ou negativo (a detestamos tanto que não a esquecemos)? E o que tornaria aquela música sem importância? Outra música ainda melhor ou uma música tão detestável que a tornaria sem valor algum?

Aplicar a dualidade não significa deixar uma identificação por outra, simplesmente trocando-a. Não é identificar-se com algo novo. É aprender a anular ambas as identificações, uma pela outra. O fato contrário anulante é evocado somente com o intuito de cancelar a identificação com seu contrário e não de gerar uma nova identificação. Caso isso ocorra, temos que apelar para um terceiro que irá anular o segundo. O ideal, no entanto, é evocar o segundo fato sem, entretanto, nos identificarmos com o mesmo. Como previamente estamos em recordação de nós mesmos e não fascinados pelo fato a ser evocado, torna-se mais fácil evitar a identificação.

Esta prática, normalmente, deve ser empregada somente nos pensamentos teimosos, que não nos abandonam mesmo após serem contemplados e insistem em atrapalhar a concentração/meditação.

Buscar a dualidade é uma forma de abandonar os pensamentos intrusos:

“P. – Mestre, quando se está concentrado num Koan, se cruza um pensamento… que é que se vai fazer amanhã, coisas do trabalho. Que se faz com esse pensamento?

V.M. – Não, seguir o Koan, a concentração no Koan. Deixar isso que chegou à mente. Abandoná-lo. Dizer: ‘Veja, eu não estou buscando isto, estou numa concentração’. E abandona isso.

P. – Verbalmente?

V.M. – Não, mentalmente. Abandona-se, despreza-se esse pensamento ou se lhe busca a dualidade. ‘Amanhã tenho que fazer um trabalho’. Qual é a dualidade desse trabalho? Não fazer nada. Essa é a dualidade.

P. – Se buscamos a dualidade, não nos evadimos do Koan?

V.M. – Não, porque se coloca a dualidade, o positivo e o negativo; coloca-se e se segue com sua concentração.” (1)

Buscar a dualidade não é evadir-se do koan, que, no caso acima, é o objeto da concentração. Logo, buscar a dualidade não é evadir-se da concentração.

Buscar o oposto de um pensamento é buscar outro pensamento que o anule. Todo pensamento possui um contrário que o anula, o deixa sem sentido. Quando se alcança encontrar tal oposto, chega-se a uma síntese de ambos e se os descarta. A síntese é a neutralidade, fusão dos opostos. Antes de se chegar à síntese, se está preso à tese ou a antítese. Cada pensamento que tenhamos é uma tese ou antítese, pois é imbuído de valor tendencioso.

A dualidade pode ser aplicada tanto a pensamentos insistentes e teimosos que atrapalham a prática como ao único pensamento que restou após a concentração bem sucedida. A busca do oposto de um pensamento é um meio de esgotá-lo, neutralizá-lo.

Se temos um pensamento luxurioso, qual seria o pensamento contrário que o anularia? Isso pode variar de uma situação para outra, bem como de uma pessoa para outra. O contrário de um pensamento luxurioso pode ser um pensamento de morte, de fealdade ou de doença, entre outros. Se, durante a imaginação morbosa, me recordo que irei envelhecer, adoecer e morrer, tal pensamento poderá inutilizar o pensamento luxurioso. O que importa é encontrar mentalmente um fato que torna o objeto do pensamento sem importância, que altere o seu significado.

"Porque, vejam, para a meditação necessitamos concentrar-nos primeiro, que haja um só pensamento.

Então, de repente lhe aparece outro pensamento… a dualidade. Então se descartam juntos e se entra para a meditação.

Para a dualidade se busca a síntese ou o oposto. A síntese e se descarta. Então, a mente vem a ficar em branco." (1)

Na concentração, começa-se pensando sobre os múltiplos aspectos inerentes e intrínsecos ao objeto de nosso interesse (e não sobre outros elementos que, embora relacionados, não lhes sejam intrínsecos e nem inerentes) e desenvolve-se assim o pensamento único até se chegar a uma síntese de todos os pensamentos sobre o objeto. Penetra-se imaginativamente o objeto em todos os seus aspectos possíveis, até onde se alcance:

"P. – Diz-se que a concentração é fixar a mente num só pensamento. Porém, temos que entender que, por exemplo, vamos concentrar-nos neste aparelho, podem vir distintos pensamentos relacionados com esse aparelho e estaríamos concentrados. Por exemplo, penso: É feito de plástico, serve para gravar, é um aparelho que se compra nas lojas eletrônicas… Tudo isso seria o mesmo? Não é um só pensamento?

V.M. – Sim. Por exemplo, você, para se concentrar, tem que olhar a forma, de que material é feito, para que foi feito, e você vai penetrando dentro desse aparelho, até ver por dentro como é, tudo, para poder chegar a uma síntese, a um só pensamento. Do contrário, a nossa mente então começa a trazer cinqüenta coisas aí, referentes ao mesmo aparelho. Então, tratar de penetrar dentro do próprio aparelho." (1)

Neste caso, os múltiplos pensamentos (forma, do que está feito, para que está feito etc.) sobre o objeto são partes do pensamento único que está se desenvolvendo. Quando se chega à síntese do objeto, atinge-se um pensamento único envolvente (dharana), no qual se está a um passo do estado em que, no Raja Yoga, se diz que foi alcançada a união com o objeto e sua essência foi capturada pela consciência (dhyana). Esta captura da natureza essencial e íntima do objeto segue imediatamente após estado que o V.M.R. descreve como “chegar à síntese”. Para se alcançá-la, há que se aplicar a dualidade ao pensamento síntese que restou (buscar o seu oposto neutralizante), pois este ainda não é a realidade, mas tão somente um pensamento sobre a realidade, ainda que dirigido e concentrado.

Um pensamento luxurioso pode ser anulado pela recordação das consequências negativas da luxúria (ex. doenças venéreas, enfraquecimento do corpo etc.), um pensamento de gula, pela recordação das consequências negativas do ato de gula desejado (ex. obesidade, doenças etc.), um pensamento de ira, pela recordação das consequências negativas do ato correspondente (vingança posterior do inimigo, encrencas com a polícia etc.). É claro que, a cada pensamento específico, há consequências contrárias também específicas.

Assim, se você está identificado com algo, pode anular esta identificação recordando-se de algo que seja o seu contrário, que o esvazie de sentido. O que pode ser considerado o contrário daquilo que está te fascinando? Que fato o tornaria sem sentido algum? Se você está identificado com uma mulher linda, o que tornaria sua beleza totalmente desprovida de sentido?

O que importa é compreender a inutilidade do pensamento ao qual damos tanta importância. E o confronto entre o fato no qual estamos pensando e um fato que o torne nulo é um bom meio de lográ-lo. Deste modo, tomamos consciência da inutilidade do pensamento que estamos alimentando.

Ao aplicar a dualidade, você inutilizará o pensamento correspondente, mas não eliminará o ego que o criou, o qual continuará vivo em sua psique. No entanto, se livrará do mesmo temporariamente, o que significa muito durante a concentração/meditação.

Esta é uma medida paliativa para uma necessidade momentânea e não pode ser confundida com a morte do ego emissor do pensamento. Anular temporariamente um pensamento é muito diferente de eliminar o "eu" que o criou.

Nota:

(1). V.M. Rabolú. A Águia Rebelde. (Cap. IX, “Concentração e Meditação”)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Meditação - recuperando os dispersos percentuais de essência livre

Temos percentuais de essência livre e percentuais de essência engarrafada dentro de cada defeito. No entanto, os percentuais de essência livre não estão despertos, estão adormecidos, acompanhando os percentuais de essência engarrafada. Assim como cada "eu" aprisiona dentro de si frações de essência, o Ego como um todo circunda percentuais de essência não engarrafada e os sujeita ao condicionamento fascinatório. Portanto, o Ego, como um todo, é uma grande garrafa, no sentido de que atrai, envolve e prende a si, por meio da fascinação, percentuais de essência livre.

Cada "eu" é uma pequena garrafa e o Ego, como um todo, é uma grande garrafa. As porções de essência aprisionadas dentro de cada defeito ou "eu" estão em um estado de sonolência profunda. As porções de essência livre, mas fascinadas pelo Ego, estão em estado de distração e preguiça, inativas. Estão distribuídas ao longo das regiões inconscientes da psique, espalhados através dos vários níveis. Os pensamentos são o agente que mantém a essência livre fascinada, inativa, distraída.

A atividade mental é o ponto-chave. Quanto mais se pensa, mais se distrai e se adormece a essência livre. Para ativar os percentuais preguiçosos de essência, o primeiro que se requer é o silêncio mental. A mente ativa distrai a essência. A mente quieta a liberta para trabalhar. Quando os pensamentos se esgotam, o Ego se ausenta. Praticar a concentração é dar um passo rumo ao silêncio mental.

O primeiro impulso do meditador novato, ao dar-se conta da intromissão de um pensamento que lhe perturba a concentração, é tentar silenciá-lo à força, opondo-se e entrando em conflito. É um procedimento equivocado e que não resulta em verdadeiro silêncio.

Um pensamento intruso não se calará pela imposição forçada do silêncio, simplesmente se desviará, indo com sua tagarelice para outro nível da mente e ali prosseguirá atuando, agora sem ser percebido. Logo, é perda de tempo tentar aquietá-lo simplesmente à força, assim de qualquer maneira.

O procedimento que se requer para silenciar um pensamento é a contemplação consciente do mesmo, visando compreendê-lo. A compreensão promove o esgotamento dos pensamentos. Compreender é distinto de entrar em conflito.

A postura correta da consciência é a de não procurar os pensamentos e nem fugir deles, de não provocá-los e nem reprimi-los caso apareçam. É uma postura de neutralidade e imparcialidade, em que não se os valoriza positivamente e nem negativamente. Valorizar positivamente seria gostar dos pensamentos, saboreá-los e se identificar com eles. Valorizar negativamente seria detestá-los, fugir dos mesmos, tentar evitá-los, reprimi-los e criar conflitos.

Quem fica procurando pensamentos à toa, quando eles não estão presentes, os está estimulando. Cogitar um pensamento quando o mesmo não está molestando é iniciá-lo. Embora não seja correto procurar os pensamentos e seja importante reter o objeto de atenção no campo da consciência, necessitamos verificar, com certa frequência, se não há algo de desatento em nós, pois pode-se dar o caso de estarmos divididos. Quando estamos divididos, uma parte de nossa essência livre (que nos confere atenção consciente) permanece focada no objeto, enquanto outras partes ficam distraídas com os pensamentos, em vários níveis. Como queremos atenção integral, envolvimento de todas as partes da consciência, temos que verificar se estamos plenos, se há algo de desatento em nós. A consciência necessita estar plenamente focada no objeto da concentração, se estiver focada parcialmente, a prática não avançará. Os 3% de essência livre (e adormecida) devem se dissociar completamente dos 97% de Ego.

Ao longo dos 49 níveis do subconsciente estão distribuídas as frações do pequeno percentual (3%) de essência livre, que necessitam ser recolhidas e unidas. O Ego as mantém fascinadas e presas (não engarrafadas em sentido literal, pois estamos nos referindo às porções de essência livre, porém adormecida e condicionada pelos eus). Silenciar a mente em todos os 49 níveis do inconsciente significa dissociar a essência dos egos submersos, emancipando-a do efeito fascinatório dos pensamentos nesses níveis. Quando o pensamento se esgota, o ego se ausenta e algo da essência que está dispersa se torna temporariamente independente. Isso é sentido sob a forma de um aumento da sensação de leveza, do bem estar e da lucidez.

Trazer o que está desatento à atenção é acordar o que temos de alma e que está "esparramado" entre os Egos, atraído pelo poder fascinatório da mente. A essência que está ativa, incipientemente acordada, chama a atenção da essência que está livre, porém distraída, adormecida, sonhando com as bobagens, cenas mentais etc. oferecidas pelos Egos.

Quando buscamos nos concentrar, ficar lúcidos, despertos etc. uma parte de nossa essência livre se empenha neste trabalho, enquanto as outras partes da mesma, ainda que estejam livres, gozam com os sonhos e pensamentos. Temos que ser capazes de enxergar o adormecimento destas partes e trazê-las à lucidez, mas sem procurar pensamentos e nem estimulá-los.

Portanto, não são somente os percentuais de essência aprisionados em cada defeito que estão adormecidos. Os percentuais de essência livre também não estão despertos, pois estão sujeitos ao ego e terminam acompanhando os percentuais engarrafados em seus condicionamentos. Como pessoas que acompanham parentes aprisionados, permanecendo ali ao lado dos mesmos e não arredam pé, ao invés de se afastarem para negociar a soltura, os percentuais de essência livre acompanham os percentuais engarrafados em seus sonhos absurdos. Por tal razão, podemos dizer que a essência livre também está, de certa forma e em um certo sentido, engarrafada, pois os vários agregados psíquicos, com suas respectivas frações de essência engarrafada, a circundam e influenciam. Esta influência hipnótica dos múltiplos eus sobre a essência livre atua, também ela, como uma espécie de "garrafa". É desta grande garrafa que temos que retirar a essência durante a meditação e o fazemos à medida que silenciamos os pensamentos. São os pensamentos que distraem a essência com seus poderes hipnóticos. As partes adormecidas da essência (livre) necessitam ser alcançadas pela porção que está empenhada em despertar, para que sofram choques e saiam da preguiça, da inércia dos sonhos, fantasias e distrações.

Somente chegamos até estas partes adormecidas e submersas se o relaxamento e a concentração forem profundos, pois os vários níveis do sub/inconsciente se encontram nas diversas dimensões. Não podemos esgotar os pensamentos submersos se não adentrarmos conscientemente às dimensões ou mundos em que tais pensamentos estão. O processo iniciado aqui tem que se repetir de dimensão em dimensão, até o desprendimento total. Primeiramente ficamos conscientes aqui no mundo físico, nos desprendemos dele e passamos ao astral, prosseguimos aumentando a consciência no mundo astral, nos desprendemos dos pensamentos aí, passamos ao mental, nos desprendemos dos pensamentos ali e, finalmente passamos ao causal, onde não existem mais pensamentos. O processo vai assim se repetindo, desde o mundo físico até às alturas. Quando os 100% da essência livre (não da essência engarrafada) estão unidos, ela pode fazer frente ao poder fascinatório do Ego e escapar completamente à sua influência, porém não de forma definitiva. Irá adquirir plena lucidez e consciência intensa e absolutamente clara.

Ao nos depararmos com cada pensamento no caminho, seja em que mundo ou dimensão estivermos, temos que buscar a compreensão e não o conflito com o mesmo. Compreendemos um pensamento quando o observamos, o estudamos e descobrimos o que contém. A contemplação imparcial e sincera é a chave. Porém, compreender um pensamento não é entreter-se fascinado, é remover o obstáculo que nos impede de ver o objeto que nos interessa.

Enquanto estamos tentando atingir a etapa da concentração (dharana), perseguimos um único pensamento e transcendemos (por meio do pratyhara) todos os demais pensamentos que atrapalhem. Chega um momento, porém, em que este único pensamento é atingido plenamente e, também ele, se converte em obstáculo para o nosso acesso à realidade que nos interessa. Então, em tal etapa, deixamos este pensamento para trás e começamos a meditação (dhyana).

Enquanto o pratyahara está se aprofundando, ainda não se atingiu plenamente dharana. Quando dharana é plenamente atingida, aplica-se um último pratyahara e se descarta o pensamento final. Cai-se então em dhyana.

Na meditação, não corremos atrás do Ego, não perseguimos os pensamentos. Muito pelo contrário: os vamos abandonando.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Criamos os mundos em que vivemos

Toda pessoa vive aprisionada em um mundo que ela mesma criou com seus pensamentos. Este mundo é forjado pela mente, sendo composto pelas concepções, pontos de vista, idiossincrassias e ideologias pessoais. O mundo assim criado se torna um verdadeiro universo, que a segue em vigília e durante o sono. As imagens terão um colorido especial, dados pela frequência dos pensamentos em que a pessoa vive. Quem dissolve o Ego, altera radicalmente este mundo pessoal.

Uma pessoa que odeia forja para si um inferno que a perseguirá onde quer que vá. Enquanto odiar, o inferno do ódio a estará acompanhando e dará às percepções um colorido especial.

O psiquismo humano cria um mundo perceptual circundante, composto pelas emoções e pensamentos correspondentes. Bom e mau, agradável e desagradável, são criações do psiquismo, existem internamente. Dissolver o Ego equivale e alterar o mundo psíquico circundante e acompanhante.

De acordo com nosso estado emocional, podemos viver no céu ou no inferno. As emoções negativas e inferiores nos aprisionam em um inferno sem limites, enquanto as emoções superiores nos permitem viver no paraíso. As vibrações psíquicas nos vinculam a regiões do universo correspondentes. Vibrações inferiores nos vinculam às infra-dimensões, vibrações superiores nos vinculam às dimensões superiores. O homem decide se irá para o inferno ou para o céu. Existem diversos céus, com distintos graus de felicidade, e existem muitos infernos, com variáveis graus de tormento.

É recomendável nos libertarmos ao máximo dos infernos e conquistarmos os céus ainda em vida, antes da desencarnação. Então prosseguiremos em tal estado depois da morte do corpo físico.

Falando particularmente da luxúria, o mesmo princípio vale: a luxúria é algo totalmente mental, interior. O estado luxurioso é um estado de consciência adormecida, alterada e condicionada. O luxurioso vive em uma espécie de paraíso diabólico sensual e erótico, no qual o prazer sexual suplanta todas as percepções e confere um único sentido à vida. O mundo erótico que o luxurioso forja para si não existe, é irreal, mas ele ainda assim o saboreia como se existisse, pois está iludido por suas próprias percepções fantasiosas. Não compreende, o infeliz luxurioso, que o paraíso que criou para si não existe, que é mera ilusão. Somente a compreensão pode dissolver a fantasia da luxúria. Quem quer se libertar do inferno da fornicação e seus defeitos correlacionados, tem que compreender o aspecto ilusório das percepções luxuriosas.

Dissolver a luxúria não é combater a sexualidade física propriamente dita, mas sim os aspectos internos equivocados da sexualidade: as formas mentais, formas de pensamento, formas equivocadas de entender e de enxergar o sexo, percepções enviesadas e subjetivas do corpo e do prazer sexual. Precisamente aí, na concepção de sexo, está o problema e a tal concepção é algo mental, encontra-se na mente. Portanto, dissolver a luxúria é alterar radicalmente um estado psíquico.

De nada adianta tentar acorrentar as ações se os elementos geradores das ações (as emoções e os pensamentos) as estão fomentando a todo instante.

Detalhes: o que são e como identificar

Tenho insistido na necessidade de observar ao invés de reprimir. Afirmei repetidamente que o recalque é inútil e que a Morte se dá por observação, contemplação e oração. Agora vou acrescentar algo mais.
Quando nos observamos, podemos perceber em nós mesmos leves alterações. São leves irritações, leves preocupações, leves temores, leves desejos, leves impulsos, leves reações emocionais às circunstâncias do dia a dia, falas e comentários levemente luxuriosos, levemente invejosos, lembranças levemente prejudiciais, imaginações levemente morbosas etc. Em suma: comportamentos levemente delituosos, cuja gravidade não nos incomoda. Esses comportamentos tênues são os detalhes aos quais se refere o V.M. Rabolú.
Os detalhes não costumam despertar interesse nos aspirantes à Morte porque não representam nenhum perigo imediato e seu caráter delituoso é tênue. Por serem tão leves, muitas vezes acredita-se que os mesmos não são egos. Justamente aí reside o erro.
Qualquer comportamento que ao estudante pareça "levemente egóico" é um detalhe e fornece energia aos egos visíveis e perigosos. O V.M. Samael chamou os detalhes de "facetas".
Se dissolvermos os detalhes, os egos terríveis perderão a força.
O empenho em observar o Ego e orar pela Morte deve ser focado sobre as manifestações diminutas dos defeitos. Todos temos pecados grandes e pequenos. Pomos cuidado nos pecados grandes e perigosos e não damos importância aos pequenos. Ocorre, entretanto, que os pequenos são a sustentação dos grandes.
O Ego possui manifestações grosseiras e sutis. As manifestações grosseiras são facilmente visíveis e reconhecíveis, são os problemas psicológicos de sempre que nos incomodam. As manifestações sutis são os detalhes, traços comportamentais difíceis de enxergar por serem muito pequenas e de difícil reconhecimento. Requerem olho clínico para serem vistos.
Os detalhes normalmente não são vistos simplesmente porque não lhes damos importância. E não lhes damos importância porque acreditamos que não são defeitos, que não apresentam prejuízo algum e que são simples comportamentos aceitáveis que não fazem mal algum a ninguém. Desconhecemos a relação entre tais detalhes e os defeitos grandes e perigosos, motivo pelo qual os negligenciamos.
Quando reitero a necessidade de contemplarmos, de forma desbloqueada, a nós mesmos e orarmos pela morte dos defeitos descobertos, não estou afirmando que devamos fazê-lo sobre os defeitos maiores e mais visíveis. Na verdade, nossa prioridade devem ser os defeitos menores, quase invisíveis ou normalmente invisíveis, que passam a todo momento sem serem percebidos.
Todo o processo de dissolução do Ego se dá a partir da dissolução dos detalhes, que são suas manifestações sutis. Quanto mais sutil, mais difícil de ser enxergada é uma manifestação. Quem quer morrer, não pode reprimir ou resistir às manifestações sutis, muito pelo contrário: deve observá-las com máximo rigor criterioso e imediatamente orar pela dissolução. Se simplesmente detectar um detalhe e em seguida se ocupar em resistir, não irá eliminá-lo. A eliminação requer que se dê espaço para a atuação da Mãe Divina e aquele que recalca está Lhe tirando espaço.
Aquele que recalca um detalhe está tentando eliminá-lo sozinho e cometendo um erro. Quem diz ou pensa "EU eliminarei este defeito" está cometendo um erro, pois o Eu não elimina o Eu. Melhor é dizer "Minha Mãe eliminará este defeito para mim, enquanto o observo e peço por sua morte", e então deixá-La atuar.
Assim, entendamos que a observação desbloqueada procura o sutil, o pequeno, o imperceptível. Quanto mais a exercitamos, mais a desenvolvemos.
Os detalhes aparecem naqueles momentos em que tudo está bem, em que estamos despreocupados e acreditando que não há nenhum problema. Se observamos melhor, veremos muitas manifestações sutis do Ego em plena ação.
Você não será capaz de descobrir seus detalhes se não se relacionar com as pessoas. Os detalhes afloram na vida social. A vida social é necessária para que eles aflorem e sejam vistos. São milhões, mas se processam fora do campo de nossa consciência, a menos que o direcionemos para captá-los.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Desbloquear a repressão sobre os detalhes

Tenho insistido na necessidade de observar ao invés de reprimir. Afirmei repetidamente que o recalque é inútil e que a Morte se dá por observação, contemplação e oração. Agora vou acrescentar algo mais.
O empenho em observar o Ego e orar pela Morte deve ser focado sobre as manifestações diminutas dos defeitos. Todos temos pecados grandes e pequenos. Pomos cuidado nos pecados grandes e perigosos e não damos importância aos pequenos. Ocorre, entretanto, que os pequenos são a sustentação dos grandes.
O Ego possui manifestações grosseiras e sutis. As manifestações grosseiras são facilmente visíveis e reconhecíveis, são os problemas psicológicos de sempre que nos incomodam. As manifestações sutis são os detalhes, traços comportamentais difíceis de enxergar por serem muito pequenas e de difícil reconhecimento. Requerem olho clínico para serem vistos.
Os detalhes normalmente não são vistos simplesmente porque não lhes damos importância. E não lhes damos importância porque acreditamos que não são defeitos, que não apresentam prejuízo algum e que são simples comportamentos aceitáveis que não fazem mal algum a ninguém. Desconhecemos a relação entre tais detalhes e os defeitos grandes e perigosos, motivo pelo qual os negligenciamos.
Quando reitero a necessidade de contemplarmos, de forma desbloqueada, a nós mesmos e orarmos pela morte dos defeitos descobertos, não estou afirmando que devamos fazê-lo sobre os defeitos maiores e mais visíveis. Na verdade, nossa prioridade devem ser os defeitos menores, quase invisíveis ou normalmente invisíveis, que passam a todo momento sem serem percebidos.
Todo o processo de dissolução do Ego se dá a partir da dissolução dos detalhes, que são suas manifestações sutis. Quanto mais sutil, mais difícil de ser enxergada é uma manifestação. Quem quer morrer, não pode reprimir ou resistir às manifestações sutis, muito pelo contrário: deve observá-las com máximo rigor criterioso e imediatamente orar pela dissolução. Se simplesmente detectar um detalhe e em seguida se ocupar em resistir, não irá eliminá-lo. A eliminação requer que se dê espaço para a atuação da Mãe Divina e aquele que recalca está Lhe tirando espaço.
Aquele que recalca um detalhe está tentando eliminá-lo sozinho e cometendo um erro. Quem diz ou pensa "EU eliminarei este defeito" está cometendo um erro, pois o Eu não elimina o Eu. Melhor é dizer "Minha Mãe eliminará este defeito para mim, enquanto o observo e peço por sua morte", e então deixá-La atuar.
Assim, entendamos que a observação desbloqueada procura o sutil, o pequeno, o imperceptível. Quanto mais a exercitamos, mais a desenvolvemos.
Os detalhes aparecem naqueles momentos em que tudo está bem, em que estamos despreocupados e acreditando que não há nenhum problema. Se observamos melhor, veremos muitas manifestações sutis do Ego em plena ação.
Você não será capaz de descobrir seus detalhes se não se relacionar com as pessoas. Os detalhes afloram na vida social. A vida social é necessária para que eles aflorem e sejam vistos. São milhões, mas se processam fora do campo de nossa consciência, a menos que o direcionemos para captá-los.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Quando bloquear a ação?

Embora seja importante desbloquear as emoções, nem todas as ações devem ser desbloqueadas. Há ações que necessitam ser bloqueadas e isso depende das circunstâncias.
As ações que necessitamos bloquear são aquelas que acarretam consequências desastrosas para nós ou para os nossos semelhantes, originam karma etc. Ações que não necessitam ser bloqueadas são as ações úteis ou inofensivas.

Começar a partir do hoje e não voltar atrás

Um único dia de castidade verdadeira (não forçada e nem tampouco simulada pela pessoa para si mesma) pode ser prolongado infinitamente, desde que se mantenha a compreensão e se aprofunde neste sentido a vigilância. Pode-se adquirir a castidade a partir de um simples e único dia, desde que se realize neste dia a morte dos detalhes de forma correta, com todo o rigor aplicado sobre TODAS as manifestações luxuriosas daquele dia. Porém, esse dia especial somente chegará depois de uma certa experiência, a qual leva algum tempo para ser conseguida. Esse dia especial, então, pode ser prolongado por tempo indefinido, desde que a pessoa se polarize cada vez mais na castidade e abandone o pólo da fornicação.

Quanto mais nos polarizamos na castidade, tanto mais firmemente nela nos estabelecemos (isso inclui pensamentos, sentimentos, ações e PALAVRAS!). Inversamente, uma simples concessão à luxúria resulta em uma cadeia sucessiva de fracassos sexuais. Por tal razão, temos lutar muito para não nos deixarmos cair, pois, uma vez caídos, é muito mais difícil, mas não impossível, subir. Logo, um dos segredos é "não começar": não começar a pensar, não começar a falar e não começar a fazer as besteiras. Temos que nos adiantar aos defeitos.

Entretanto, os irmãos que fracassarem hoje, não devem desanimar. Devem continuar tentando, pois o dia D sempre chega para aqueles que nunca desistem. Se o irmão fracassou hoje, ontem, anteontem ou nos anos e décadas que já passaram, saiba que é porque sua compreensão dos processos ainda está se configurando, amadurecendo. Esse é o seu tempo , que cada um tem o seu.

Para muitos, o dia D pode demorar muito, seja pelo karma, seja por pactos tenebrosos de outras existências. Daí a importância de não desistir, ainda que se passe por muitos anos de fracasso. O que importa é sempre descobrir por onde se erra e prosseguir. Conforme disse o V.M.S., o problema não são as caídas, mas a falta de vontade de se levantar e prosseguir.

Jamais percamos a noção de nossa fragilidade em relação à luxúria e sempre nos lembremos de que matar um desejo não é de modo algum satisfazê-lo e nem tampouco reprimi-lo.

O péssimo hábito de checar se um defeito está morto

Algumas pessoas possuem o péssimo hábito de "checar" se um defeito sobre o qual estão trabalhando está realmente morrendo ou enfraquecendo. Tal "checagem" é realizada tentando-se "sentir", sob um pretenso controle consciente, se há algum resíduo de desejo, sentimento ou emoção correspondente ao defeito. Na verdade, tal atitude tem o efeito de acordar aquilo que estava adormecido e é uma forma de alimentar e evocar o defeito que deveria ser cada vez mais esquecido.

Algo semelhante acontece com os sintomas físicos de doenças: quanto mais atenção lhes damos, mais energia lhes conferimos. A identificação com uma doença física ou psíquica (o Ego é uma doença) atrapalha os processos de cura realizados pelo Ser.

Um segredo prático para sucesso na magia sexual

No passado, eu acreditava que a magia sexual intensa fosse adequada a nós, pessoas normais, fracas e luxuriosas. Hoje acredito que a prática do maithuna deve ser o mais suave possível, quase somente uma "carezza", e que a regeneração biopsíquica que ela promove é a mesma regeneração natural que se verifica em todo ser humano comum, somente diferindo por ser muito mais intensa e "turbinada" energicamente.

Uma dica que auxilia na magia sexual é ser capaz de retirar-se antes da satisfação plena, não prolongando o ato indefinidamente. Preserve a vontade para outro dia, não a esgote. Praticar magia sexual é como tomar banho quente em um dia bem frio: você quer sempre prolongar mais. É também similar a comer um alimento saboroso: você não quer parar até ter terminado de empaturrar seu estômago. Aí reside um dos erros, pois temos que aprender a moderar o desfrute dos prazeres. Se você não é capaz de um interromper um ato prazeiroso qualquer no momento certo, muito menos será capaz de se retirar do coito após um tempo pré-determinado. Outra dica que pode ajudar é estabelecer previamente o horário de término da prática e segui-lo a todo custo, ainda que o mundo desabe. Comunicar e pedir ajuda à parceira também costuma ser favorável.

O erro dos que fracassam consiste em tentar prolongar demais o ato, acreditando-se muito fortes.

Aprenda sentir satisfação em cheirar a maçã e não em comê-la.

Na prática do arcano, a excitação nunca dever ser alta e nem baixa, deve ser sempre média e constante. Se você estiver muito excitado, acalme-se.

O refinamento da energia sexual está diretamente ligado à santidade na prática do arcano. Quanto mais espiritual e intensa for a prática, mais evoluída estará a energia. Quanto mais animal, mais baixa estará.

Aprenda a sentir intenso erotismo espiritual e não animal.

Quebrando à resistência à conclusão de que se está em astral

O ser humano está geralmente condicionado a sempre acreditar que se encontra em corpo físico, no mundo tridimensional. Esta crença se reforça ao longo da vida, durante os estados de vigília, e se reproduz no interior dos sonhos. Trata-se de uma crença solidamente cristalizada, que guarda relação com outra crença: a de que somente existe este mundo, a de que somente o mundo físico é real. Ambas as crenças se reforçam em uma espécie de simbiose, de sinergia, resultando no adormecimento da consciência astral.

Se não sou capaz de conceber como real e concretamente existente um outro mundo, paralelo a este em que eu vivo, muito menos serei capaz de reconhecê-lo quando estiver inserido no mesmo. A crença na inexistência origina confusão, falta de discernimento. Condicionado pela crença de que somente a matéria densa é real, o materialista dorme profundamente e não reconhece as figuras astrais quando está diante delas, tomado-as sempre por objetos deste mundo e não daquele.

O despertar da consciência astral requer que se "quebre" o condicionamento do entendimento, que se abra para a existência objetiva do que está "além".

À medida que uma pessoa se desenvolve conscientemente no mundo astral, se dá conta, mais e mais, que o mesmo é real e concreto. As constatações se fixam em sua mente e se concretizam de modo a conduzir sua cognição à conclusão de que estar em um mundo paralelo não é um absurdo lógico.

A tendência comum da mente é duvidar da possibilidade de se estar em corpo astral. O ceticismo se origina do impacto realístico do mundo astral e da crença de que somente o mundo físico é real. Ambos, a crença invertida e o impacto realístico interno, se combinam e o resultado é a incapacidade de reconhecer a astralidade dos objetos percebidos.

O condicionamento da mente vai sendo revertido, à medida que a consciência vai sendo impactada pelo impacto realístico das experiências astrais conscientes. Quanto mais vezes uma pessoa sair conscientemente em astral, mais facilidade terá para se desdobrar nas próximas vezes. Cada percepção consciente do mundo astral facilita o seu reconhecimento na próxima oportunidade. É por isso que as pessoas que saem conscientemente com o uso de enteógenos com o tempo não precisam mais dos mesmos para fazê-lo.

Certos enteógenos podem despertar a consciência astral e, após essa consciência se fixar, o mesmo já não se faz necessário, uma vez que a crença na imaterialidade do mundo astral foi revertida. O que impede o discernimento é o ceticismo materialista, a crença na realidade do mundo tridimensional. É esta crença que necessita ser revertida caso queiramos discernir.

Refletindo sobre si mesmo

Podemos compreender a nós mesmos (nosso ego) por duas vias: a reflexão e a observação. A observação é mais trabalhosa e menos sujeita e erros. A reflexão é adequada a quem ainda não aprendeu a pensar psicologicamente e sente seu próprio psiquismo como algo vago e inacessível.
A reflexão deve ser rigorosamente pautada em fatos psicológicos observados, o que significa que jamais pode ser realizada sozinha, sem embasamento prático observacional. Caso contrário, se transformará em mera teorização estéril sobre o ego.

Inicialmente, realizamos reflexões intelectuais, usando a linguagem interior para as análises e pensando através do idioma que usamos para falar (inglês, português, francês etc.). Depois, aprendemos a pensar silenciosamente, sem idioma mental algum, somente capturando os fatos diretamente. Posteriormente, aprendemos a refletir sem pensamentos, captando intuitivamente a essência dos fatos. Entretanto, o iniciante usará a mente para refletir, como ponto de partida de sua aprendizagem.

A observação é algo menos sujeito ao erro e a cair no teoricismo, mas por isso mesmo, mais trabalhoso. O preguiçoso tende a ficar preso na teoria. Teorizar sobre si mesmo é perder o tempo, muito melhor é observar e descobrir. Observamos o ego como observaríamos o comportamento de qualquer pessoa ou como um psicólogo observa o comportamento do seu paciente: buscando detalhes. Quanto mais detalhes descobrimos, melhor. Não existem detalhes depreciáveis. A descoberta de inúmeros detalhes vai configurando uma compreensão em contínua construção, que jamais termina.

A observação exige desbloqueio das emoções pois emoções bloqueadas não podem ser observadas. Mas isso não significa que devamos nos entregar à fascinação e deixar de exercer controle sobre as ações. Desbloquear a emoção não é sair por aí gritando e descabelando, fazendo tudo o que dá vontade. É simplesmente não freiar brutalmente as emoções, mas também não se esquecer de observá-las.

O hedonista, aquele que vive para satisfazer todos os seus desejos, não observa nada, pois está identificado. O agente assimilador das emoções (a consciência) não está ativo no hedonista. Por isso, o hedonista não é um observador de si mesmo, é tão somente um desfrutador dos próprios desejos. Hedonistas como Marquês de Sade ou Crowley quiseram esgotar o desejo mediante a satisfação, o que é um absurdo, pois a a satisfação o fortifica cada vez mais. Queremos o enfraquecimento verdadeiro do desejo e não sua fortificação. E o enfraquecimento somente advém com a assimilação, com a compreensão.

Quando refletimos em um desejo e buscamos sua causa, encontraremos outro desejo próximo e paralelo escondido. Os desejos se associam em feixes e formam cadeias.

Quando um estudante, refletindo, se pergunta a respeito das causas de um desejo ("Por que desejo isto?"), pode muitas vezes ficar sem encontrar imediatamente uma resposta. A razão dessa frustração pode ser o parâmetro equivocado de busca. O "porquê" de um desejo é outro desejo oculto, que lhe dá fundamento. Exemplo: um homem pode descobrir que deseja um carro moderno e vistoso porque deseja as mulheres que este carro atrairá, e que deseja tais mulheres porque deseja as sensações físicas e emocionais que elas provocam ou porque deseja impressionar a sociedade; questionando-se e auto-explorando, descobrirá uma sequência de desejos encadeados. Se a concentração for profunda, poderá ir bem longe na investigação da cadeia de desejos.

Quando investigamos uma cadeia de desejos, chegamos a um limite, um ponto além do qual nossas perguntas não são mais respondidas. Este é o limite de nossa capacidade de refletir sobre a questão. Entretanto, se aprendermos a meditar em profundidade, podemos ultrapassá-lo. Nem sempre os elos da cadeia posteriores ao limite estão no mundo físico. Na maior parte dos casos, temos que buscá-los nos mundos internos. É por tal razão que os psicoterapeutas analisam os sonhos dos pacientes.

A didática gnóstica, entretanto, quando corretamente aplicada, é mais efetiva que a mera análise dos sonhos: praticar a auto-observação aqui e durante o sono é um caminho muito mais eficaz para obtenção do auto-conhecimento.

A compreensão de um defeito se amplia à medida que os desejos encadeados que o compõem vão sendo revelados. A psicoterapia é uma prática interessante, mas é limitada pela linguagem, limitação esta que a apreensão instintiva por meio da auto-observação e da meditação não nos impõe.

Compreender um defeito é descobrir a capa que encobria os vários desejos que, associados, o formavam.

A auto-observação focada sobre os detalhes resolve o problema da compreensão sem que tenhamos que quebrar a cabeça analisando o defeito. Os vários desejos encadeados vão se revelando gradativamente e uma compreensão vai se configurando. Esse é o trabalho mais rápido e efetivo para a Morte. Quem se acostuma a realizá-lo aqui, o realizará também nos outros mundos.