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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Concentração e esforço

Primeiramente, vamos dissociar totalmente a concentração do esforço. Concentração é atenção pura e/ou pensamento direcionado, sem esforços (1).

Agora, vamos diferenciar a concentração da atenção e a concentração do pensamento. Há uma diferença entre ambos.

Concentrar a atenção é algo sensorial, está relacionado à percepção (embora possa também ser algo supra-sensorial). Se percebo algo de forma prolongada e contínua, estou com a atenção concentrada sobre aquilo. Concentrar o pensamento é algo mental: trata-se de fazer com que o fluxo da mente, normalmente aleatório e subjetivo, assuma uma forma unidirecional, ou seja, volte-se para um único tema ou objeto. Se penso tudo o que sou capaz de pensar sobre uma vela e o faço de forma plena, espontânea e natural, estou mentalmente concentrado nessa vela.

A concentração do pensamento depende da concentração da atenção pois, durante a concentração mental, os pensamentos sobre o lakshya são o objeto da atenção. Concentrar a atenção é algo que vem primeiro, concentrar o pensamento é algo que vem depois e demora um pouco mais para ser aprendido. Em ambos os casos, deve haver descontração progressiva e não contração.

Se estou prestando atenção, com os olhos abertos, nos detalhes anatômicos de uma planta, estou com a atenção concentrada, recebendo sensorialmente suas características. Se começo a refletir sobre a planta, estou com a mente concentrada na planta (pensamento único). A reflexão sobre a planta exige o recurso da imaginação, que é uma forma assumida pela mente. Quando fecho os olhos, imagino e reflito sobre a planta, sem me desviar para outros temas, estou percebendo os conteúdos imaginativos supra-sensorialmente e não de forma meramente sensorial. Se, mesmo com os olhos abertos, obtenho insights e revelações sobre a planta na qual estou prestando atenção, estarei concentrado mentalmente nela.

Portanto, podemos passar da mera concentração da atenção em um objeto exterior para a concentração do pensamento sobre o mesmo objeto, isto é, podemos passar do mero ato de perceber o objeto com os olhos físicos para o ato de pensar de forma profunda e objetiva naquele mesmo objeto. Podemos também realizar as duas coisas simultaneamente: ver o objeto e refletir nele enquanto continuamos a vê-lo. Podemos, ainda, somente refletir no objeto com os olhos fechados, sem percebê-lo com os olhos físicos.

Quando contemplamos o objeto com os olhos físicos, o estamos recebendo sensorialmente. Quando refletimos no objeto com os olhos fechados, estamos capturando supra-sensorialmente imagens que criamos a respeito e imagens que não criamos a respeito, mas que foram criadas pela própria natureza. Estas últimas correspondem à contra-parte supra-sensível do objeto. À medida que abandonamos as imagens que criamos, vamos acessando as imagens que a natureza criou e nos aproximando da essência supra-sensível do objeto que nos interessa.  Logo, todo objeto possui uma parte sensível e uma contra-parte supra-sensível. A parte sensível é acessível sensorialmente (aos olhos físicos). A parte supra-sensível é acessível supra-sensorialmente (aos sentidos internos). A alma possui sentidos. A visão espiritual é um dos sentidos da alma e seu princípio é a imaginação humana. A faculdade imaginativa é a visão espiritual atrofiada e que pode ser desenvolvida.

O excessivo materialismo atrofiou a visão espiritual da humanidade e por isso vivemos aprisionados na sensorialidade, no mundo físico.

A concentração e a meditação desenvolvem a imaginação até o ponto de transformá-la em uma visão espiritual perfeita, pela ativação e exercício constante dos chakras. Também desenvolve a emoção superior até o ponto de transformá-la em intuição. Mas, para serem executadas corretamente, requerem que sejam praticadas na ausência de conflitos, tensões, contrações, preocupações e esforços.

Se aprofundarmos o relaxamento, libertando-nos das múltiplas desatenções(2), que são forças que nos prendem, e permitirmos que a atenção pura se instale em um alvo único, cairemos na concentração.

A ansiedade por concentrar-se é um paradoxo contra-producente: quanto mais ansiosos estivermos por nos concentrar, menos focada estará a atenção.

A atenção contínua e direcionada é observação. Concentrar-se é observar algo conscientemente. Pode-se observar um objeto estático ou móvel, mutável. Também pode-se observar um objeto físico ou psíquico (mental). Um pensamento é um objeto que pode ser observado.

Uma verdadeira observação nunca é ansiosa e nem tensa. A tensão e a ansiedade nos impedem de ver o objeto que queremos. Aquele que tenta observar ansiosamente um objeto, vê somente sua própria ansiedade e não o objeto que almeja ver. O esforço, a tensão e a ansiedade se interpõem entre o observador e o objeto da concentração, quando o primeiro faz esforços por concentrar-se.

Concentrar-se é somente acompanhar algo conscientemente, como quando se presta atenção em um lindo quadro. Quando prestamos atenção a algo que nos interessa, estamos concentrados ali. Exemplos banais, porém verdadeiros de atenção direcionada: um ladrão concentrado em abrir um cadeado sem fazer barulho, um homem contemplando luxuriosamente o corpo de uma bela mulher.

Se podemos usar a concentração para fazer coisas ruins, por que não usá-la para fazer coisas boas, que nos elevem espiritualmente? E se fazemos isso inconscientemente o tempo todo, por que não fazê-lo conscientemente?

A observação de um objeto estático, fixo, causa confusão aos principiantes. O que é observar verdadeiramente um objeto fixo? É observar tudo o que faça parte dele, que lhe seja intrínseco, que exista ou se processe nele, dentro dele e não fora dele. Não é observar outras coisas, distintas do objeto, ainda que tais coisas se relacionem ao mesmo. E quando todas as características, traços, processos etc. que se dão no interior do objeto se esgotam? Temos que passar a um nível imaginativo e prosseguir, observando agora a imagem interior que criamos do mesmo objeto. Então podemos dar continuidade á exploração: explorar o objeto por dentro, seus átomos e tudo o que for possível. Até que ponto? Até o ponto em que se possa dizer que se tem um único pensamento. O objetivo da concentração é alcançar o pensamento único. Então, descarta-se esse pensamento único.

O que é um pensamento único? Um pensamento a respeito de um único objeto. O pensamento único não é estático, é dinâmico, porém focalizado, direcionado e dirigido. Ele se altera, porém sempre dentro do mesmo elemento ou tema.

O esforço tenta travar o pensamento, tenta congelá-lo. Ao tentar travá-lo, impede que flua e sabota o desenvolvimento da concentração.

Concentrar-se é contemplar ininterruptamente. Contemplar não é fazer força, é ser receptivo. Ser receptivo é "dar-se conta" de algo, daquilo que nos interessa. Nada disso se relaciona a qualquer tipo de tensão.
Quando algo nos interessa, nos tornamos receptivos àquilo.

A atenção pura prescinde de qualquer tipo de tensão. Atenção e tensão são completamente distintos e não apresentam interdependência. A pessoa tensa não está mais atenta que a pessoa relaxada. Estar atento não é estar ansioso, é simplesmente estar receptivo, contemplativo.

Quando se diz que devemos nos manter concentrados, está-se dizendo simplesmente isso: que devemos nos manter contemplativos, que temos que aprender a contemplar algo de forma prolongada e sem interrupções.

O ato psicológico de tornar-se receptivo a algo não é um ato de esforço, é um ato de entrega. Aquele que se torna receptivo ao objeto de sua concentração entrega-se, acaba-se, desaparece no objeto, conscientemente.

Entregar-se conscientemente à concentração, manter-se lúcido, é algo que exige dedicação, exercício. O iniciante se perde, faz força, tensiona o entrecenho e cria conflitos com sua mente. Quando aprendemos a nos concentrarmos de fato, compreendemos que a concentração é um prolongamento do relaxamento e muito semelhante a este.

A quietude da mente, seja na concentração ou na meditação, não é algo forçado:

"Contudo, não devemos auto-enganar-nos e confundir gato com lebre. O Eu também ambiciona e cobiça esses silêncios e até os fabrica para si mesmo artificialmente.
Durante a meditação profunda necessitamos de quietude e silêncio total da mente, mas não necessitamos dessa quietude e desse silêncio falsos, fabricados pelo Eu. Não devemos esquecer que o Diabo rezando missa pode enganar às pessoas mais astutas.
É lógico dizer que se queremos silenciar a mente à força, na marra, se queremos aquietá-la torturando-a e amarrando-a, motivados pela cobiça de experimentar o Ser, o Íntimo, só conseguiremos silêncios artificiais e quietudes arbitrárias produzidas pelo Eu."

(V.M. Samael Aun Weor, Música, Meditação e Iluminação. Cap. 9)

Portanto, o silêncio mental na meditação é algo que nos advém quando aprendemos a provocá-lo e não algo que impomos.

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Suponhamos que eu queira me concentrar em uma cachoeira, na ausência desta.

Fecharei meus olhos e a verei com a imaginação (que é o princípio da clarividência). Sem necessidade de analisar intelectualmente e sequer de utilizar um idioma internalizado, começo a me dar conta de muitas características desta cachoeira.

A imagem da cachoeira possui muitas características: o fluxo da água, o som da queda, as espumas, os reflexos luminosos, as rochas, liquens e musgos etc. Conforme vou prosseguindo na concentração, vou me tornando consciente de tais características e de muitas outras.

Não faço esforço algum, somente contemplo e observo a imagem, tomando consciência de seus detalhes. Não existe tensão, apenas contemplação.

Nada mais existe para mim, somente a cachoeira. Me desligo do resto do mundo. Estou no presente, penetro e me perco completamente no agora, me entrego à prática.

No início, a imagem da cachoeira é algo vago e distante, "apenas imaginação". Porém, se o desligamento do mundo for realmente profundo, a cachoeira se torna mais e mais vívida, até adquirir um impacto realístico idêntico ou maior que o proporcionado por uma cachoeira física aos meus olhos. É assim que se exercita e desenvolve o sentido da clarividência.

Quando um objeto quaLquer fere os nossos sentidos físicos, nos atinge também supra-sensorialmente, apesar de não termos consciência de tal fato. Os objetos são multidimensionais. Todas as cachoeiras que vi em minha vida me atingiram a alma não só sensorialmente, mas também supra-sensorialmente, o que significa que possuo dentro de mim muito mais informação sobre as cachoeiras do que suponho. Possuo conhecimentos inconscientes sobre a cachoeira e, ao me concentrar, trago tal conhecimento à tona e o torno consciente.

Portanto, concentrar-se é extrair informações sobre o objeto que nos está interessando. A classe de conhecimento que adquirimos com a concentração é interior e não exterior. O que pouca gente sabe é que a via interior do conhecimento nos fornece informações não somente sobre nós mesmos, mas também sobre elementos do mundo exterior. Temos, dentro de nós, conhecimentos sobre os oceanos, as rochas, as plantas, os animais, os planetas. Temos que aprender e extraí-los.

Nota:

(1) a palavra "esforço" e usada aqui como sinônimo de tensão/contração e não de um empenho dedicado a algo.

(2) que são atenções no que não interessa.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O livre arbítrio na Morte do Ego

O livre arbítrio é a capacidade de decidirmos consciente e voluntariamente o que faremos e as situações pelas quais passaremos. Ter livre arbitrio é ter o poder de decidir e conduzir.
O livre arbítrio pode ser considerado do ponto de vista exterior ou interior. De um ponto de vista exterior, temos livre arbítrio para falar, andar e atuar. Porém, quando consideramos a questão do ponto de vista interior, nos damos conta de que não temos liberdade para comandar os processos interiores que resultam no comportamento exterior e visível.
Normalmente, temos apenas uma pequeníssima margem de livre arbítrio interior (comparável à mobilidade de um violino dentro do seu estojo). A grande maioria dos processos emocionais e mentais não obedecem ao comando consciente. Nossos processos interiores se sucedem sem que tenhamos o poder de decidir a respeito.
Schopenhauer esclarece bem esse aspecto em sua obra "O Livre Arbítrio". Não temos o poder de deixar de desejar algo simplesmente por um esforço de vontade. Como os psicólogos demonstraram muito bem, os impulsos volitivos não deixam de existir quando são recalcados. Os desejos, sentimentos, emoções, pensamentos e lembranças estão lá, em nosso interior, e se processam de forma autônoma, não nos obedecem. Desejamos ou sentimos o que não gostaríamos de desejar ou sentir. Quando tentamos silenciar a mente, os pensamentos prosseguem, independentes e por si mesmos. Conclusão: o psiquismo humano é rebelde, não se submete aos nossos ditames, não temos o livre arbítrio que imaginamos ter.
Se não temos o livre arbítrio de decidir ou não o que iremos sentir e pensar, não podemos ser culpados pelo que pensamos e sentimos, pois são processos involuntários. Entretanto, temos um princípio, uma pequena margem de livre arbítrio interior que pode ser aumentada pela morte dos tiranos interiores. Uma vez que compreendamos como se realiza a morte do Ego, passamos a ser capazes de decidir se aumentaremos ou não nossa margem de livre arbítrio interior. Aí começa nossa responsabilidade.
Nos campos em que não temos livre arbítrio, seria uma perda de tempo tentar reprimir, controlar, recalcar, bloquear, sufocar ou resistir aos impulsos, pois estes atravessam as barreiras cedo ou tarde. Porém, nos campos em que já possuímos ou conquistamos a liberdade interior, podemos e devemos exercê-la, controlando nossas atitudes e atividades mentais, deixando de dar abertura e estímulo aos nossos defeitos. Em suma, não devemos reprimir os defeitos, mas não devemos reforçá-los. É tão errado resistir a um desejo, quanto provocá-lo, estimulá-lo ou "dar-lhe corda" em situações já superadas, nas quais o mesmo já está enfraquecido ou não se manifesta.
Diz o V.M.R. que devemos permitir que os defeitos aflorem mas não que atuem. A observação sem identificação associada à oração impedem que o defeito atue e o enfraquecem. A remoção dos bloqueios permite que ele aflore.
Uma coisa é permitir que um defeito aflore livremente, para ser observado. Outra coisa é permitir que atue livremente, para ser alimentado e fortificado. Permitimos que o defeito atue quando nos identificamos. Então perdemos a (pouca) consciência, adormecemos fascinados e nosso inimigo interior se fortalece.
Por meio da identificação, o ego atua livremente. A pessoa se sente sendo o próprio ego (daí o termo "identificar-se"), sente que é o próprio desejo e vive as cenas dos pensamentos como se fossem reais. Esta é a via pela qual o Ego atua e se enraiza mais e mais.
Por outro lado, se bloqueamos os defeitos e impedimos que aflorem, eles continuarão atuando fora do campo de nossa consciência, em outros níveis, e permanecerão causando dano. Bloquear um defeito não o impede de atuar, pois sua atuação prossegue em níveis inconscientes. O Ego bloqueado não deixa de agir, atua sem que o percebamos, simplesmente se oculta aos nossos olhos e atua de forma invisível. Quem resiste aos desejos não está deixando de alimentá-los, os está alimentando por canais insuspeitados, sem dar-se conta. A resistência não é, portanto, o caminho para impedir a atuação dos egos. Quem imagina que está impedindo um desejo de se alimentar porque lhe resiste está cometendo um grande erro.
O livre arbítrio interior que temos que empregar em tais casos corresponde à aplicação prática das orientações que recebemos sobre a morte do ego, as quais são muitas e não caberiam todas aqui, mas poderiam ser sintetizadas no seguinte:

1. romper a identificação com o ego (recordar-nos de nós mesmos);
2. observar os detalhes do ego em ação sem reprimi-los;
3. tomar as providencias eliminatórias (oração à Mãe Divina) imediatamente após detectá-los.

Deste modo, aplicamos corretamente o incipiente e quase inexistente livre arbítrio interior que possuímos e o aumentamos gradativamente.
Provas de que não temos livre arbítrio interior existem aos montes. Não temos o poder de não nos enfurecermos diante do insultador, de não nos entristecermos nas desgraças, de não temermos frente a ameaças, de não desejarmos o objeto da tentação. Quem duvida do que afirmei, que se submeta ao teste.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Orientações dos mestres sobre o vício de resistir aos desejos

Muitos gnósticos cometeram o grave erro de confundir a verdadeira morte do ego com o simples ato de resistir aos desejos. Levaram a resistência até os extremos perigosos da neurose, como qualquer religioso da mente intermediária.

Resistir aos desejos é o mesmo que reprimir, bloquear, sufocar: uma falsa morte que ocasiona doenças emocionais, como vimos na fileiras gnósticas.

Vejamos o que dizem os V.V.M.M. Samael e Rabolú sobre esse vício de reprimir/resistir aos egos:

"Pergunta – Deve-se reprimir o ego?

VM. – Não, se o reprime então não pode chegar a eliminá-lo, há que deixar que aflore, para ver, não deixa-lo atuar, senão que aflore.

Pergunta – Por exemplo, deixamos de ver televisão, deixamos de escutar todo o que não seja música clássica, todos nossos hábitos que temos trazido, deixamos de uma vez.

VM. – É melhor eliminar os defeitos. Que lhe gostou a música essa que chamam modiva ou moderna, você pode por um disco desses e auto-observar-se por seus centros.
Eliminar os defeitos é o que importa, fazer as coisas consciente." (V.M. Rabolú, Fragmentos de entrevista ao Mestre Rabolú, pelo grupo de Andaluzia, 10 de junho de 1981, transcrição literal)

Ou seja, fazendo as coisas conscientemente, você as vai compreendendo por meio da auto-observação e eliminando, por meio da oração à Mãe Divina. Se você é viciado em músicas horríveis, continue a escutá-las, porém em auto-observação. Então, gradativamente, compreenderá múltiplos detalhes daquilo e começará a se desinteressar. É claro que se você simplesmente ouvir mecanicamente, como sempre fez a vida toda, irá simplesmente reforçar o vício e afundar-se ainda mais! Isso é faca de dois gumes: se você observa o ato, enquanto o comete, e ora, o enfraquece; se você o comente identificado, sem auto-observação e nem oração alguma, se afunda ainda mais no vício. E se você o reprime e perde o tempo resistindo, recairá nele novamente, um milhão de vezes ou somatizará alguma doença. Isso vale não somente para o vício de ouvir alguma música imprestável, mas para qualquer outro vício, como a masturbação, a fornicação, a gula etc.

Há uma diferença entre atuar e aflorar. Devemos deixar o defeito aflorar, mas não atuar. Deixamos que aflore, mas impedimos que atue. Como deixamos que aflore? Removendo os bloqueios e resistências. Como impedimos que atue? Observando e pedindo pela Morte. E quando é que permitimos que o defeito atue? Quando nos identificamos, ficamos "gozando", curtindo e saboreando o desejo, ou seja, quando nos fascinamos. Isso é o que não se deve fazer: dar-lhe alimento, o que acontece quando nos identificamos e deixamos as coisas à deriva.

É uma perda de tempo "dar o contra" nos desejos:

"¿Se le debe llevar la contraria al Ego? Ejemplo: si tengo ganas de estar sentado, digo: 'No, me pongo a caminar'.

Eso lo puede hacer con la pereza, pero no con todos los elementos psíquicos.

¿Es otro ego el que actúa ahi?

Claro, es otro ego el que actúa, va creando otro elemento ahí, contradictorio al otro. Si te quieres quedar sentado, pues quédate sentado" (V.M. Rabolú, Orientando al Discipulo, p. 7, cap. 1 - "El Trabajo")

Portanto, o que se opõe a um ego é outro ego, o que significa que o mero esforço equivocado para "ir contra" um impulso é provocado por um ego contrário. São os egos contrários que promovem a repressão, o recalque, a resistência. E muitos gnósticos supõem que isso seja o Morrer!

Sobre a resistência e as disciplinas equivocadas para resistir aos desejos, nos diz o V.M. Samael:

"A resistência é a força opositora. A resistência é a arma secreta do ego.

A resistência é a força psíquica do Ego, que se opõe à que tomemos consciência de todos os nossos defeitos psicológicos.

Com a resistência, o Ego tende a sair pela tangente, postulando desculpas para calar ou tapar o erro.

Por causa da resistência, os sonhos tornam-se difíceis de interpretar e o conhecimento que se quer ter sobre si mesmo torna-se nebuloso.

A resistência atua como um mecanismo de defesa, que trata de omitir erros psicológicos desagradáveis, para que não se tenha consciência deles e se continue na escravidão psicológica.

Mas, na realidade e de verdade, tenho de declarar que existem mecanismos para vencer a resistência e são os seguintes:

1 - Reconhecê-la.
2- Defini-la.
3- Compreendê-la.
4- Trabalhar sobre ela.
5 - Vencê-la e desintegrá-la por meio da super-dinâmica sexual.

Mas o Ego lutará durante a análise de resistência para que não sejam descobertas suas falácias, o que põe em perigo o domínio que ele tem sobre a nossa mente.

Nos momentos de luta com o Ego, há que apelar a um poder superior à mente: o fogo da serpente Kundalini dos hindus." (Samael Aun Weor, A Revolução da Dialética, cap. "A Resistência")

A coisa chegou ao ponto de traçar-se disciplinas para a resistência no Movimento Gnóstico, desconsiderando que uma escola que almeje ser esotérica deveria ser a primeira a seguir essas orientações:

"Os professores de escolas, colégios e universidades dão muita importância à disciplina e nós devemos estudá-la neste capítulo detidamente.

Todos nós que passamos por escolas, colégios e universidades sabemos bem o que é a disciplina: regras, palmatórias, repreensões, etc.

Disciplina é isso que se chama cultivo da resistência. Os professores de escola ficam encantados em cultivar a resistência.

Ensinam-nos a resistir, a erguer algo contra alguma coisa. Ensinam-nos a resistir às tentações da carne, a nos açoitarmos e a fazermos penitência para resistir. Ensinam-nos a resistir às tentações que traz a preguiça: tentações para não estudar, para não ir à escola, e a brincar, rir, zombar dos professores, violar os regulamentos, etc.

Os professores e professoras têm o conceito equivocado de que, mediante a disciplina, poderemos compreender a necessidade de respeitar a ordem da escola, a necessidade de estudar, de guardar compostura diante deles, de nos comportarmos bem com os demais alunos, etc.

Existe entre as pessoas o conceito equivocado de que quanto mais resistirmos, quanto mais repelirmos, mais nos tornaremos compreensivos, livres, plenos e vitoriosos. Não querem se dar conta de que quanto mais lutarmos contra alguma coisa, quanto mais a repelirmos, quanto mais resistirmos a ela, menor será a compreensão.

Se lutamos contra o vício da bebida, este desaparecerá por um tempo, mas como não o compreendemos a fundo, em todos os níveis da mente, ele retornará mais tarde, quando nos descuidemos da guarda, e beberemos de uma vez por todo o ano.

Se repelimos o vício da fornicação, por um tempo seremos aparentemente bem castos, porém, em outros níveis da mente, continuamos sendo espantosos sátiros, como bem podem demonstrar os sonhos eróticos e as poluções noturnas.

Depois, voltamos com mais força às nossas antigas andanças de fornicários irredentos, devido ao fato concreto de não termos compreendido a fundo o que é a fornicação.

Muitos são os que rechaçam a cobiça, os que lutam contra ela, os que se disciplinam contra ela seguindo determinadas normas de conduta. Mas, como não compreenderam de verdade todo o processo da cobiça, terminam no fundo cobiçando não ser cobiçosos.

Muitos são os que se disciplinam contra a ira, os que aprendem a resisti-la, mas ela continua existindo em outros níveis da mente subconsciente, mesmo quando aparentemente tenha desaparecido de nosso caráter. Ao menor descuido, o subconsciente nos atraiçoa e trovejamos e relampejamos cheios de ira. E quando menos esperamos e talvez por algum motivo sem a menor importância.

São muitos os que se disciplinam contra o ciúme e por fim crêem firmemente que o extinguiram. Mas, como não o compreenderam, é claro que aparece novamente em cena, e justamente quando já o julgávamos bem mortos.

Só com plena ausência de disciplinas, só em liberdade autêntica, surge na mente a ardente labareda da compreensão.

A liberdade criadora não pode existir jamais dentro de uma armadura. Precisamos de liberdade para compreender nossos defeitos psicológicos de forma integral. Precisamos com urgência derrubar muros e romper grilhões de aço para sermos livres.

Temos que experimentar por nós mesmos tudo aquilo que os professores na escola e os pais em casa disseram que é bom e útil. Não basta aprender de memória e imitar. Necessitamos compreender.

Todo o esforço dos professores e professoras deve ser dirigido à consciência dos alunos. Devem se esforçar para que eles entrem no caminho da compreensão.

Não é suficiente dizer aos alunos que devem ser isto ou aquilo. É preciso que os alunos aprendam a ser livres para que possam por si mesmos examinar, estudar e analisar todos os valores, todas as coisas que lhes disseram ser boas, úteis, nobres; não basta meramente aceitá-las e imitá-las.

As pessoas não querem descobrir por si mesmas, têm as mentes fechadas estúpidas; mentes que não querem indagar; mentes mecânicas que jamais indagam e que só imitam.

É necessário, urgente e indispensável que os alunos e alunas, desde a mais tenra idade até o momento de abandonar as aulas, gozem de verdadeira liberdade para descobrir por si próprios, para inquirir, para compreender, a fim de não ficarem limitados pelos abjetos muros das proibições, censuras e disciplinas.

Se aos alunos se diz o que devem e o que não devem fazer e não se lhes permite compreender e experimentar, onde então está a sua inteligência? Qual foi a oportunidade que se deu à inteligência?

Para que serve passar em exames, se vestir bem, ter muitos amigos, etc., se não somos inteligentes?

A inteligência só virá a nós quando formos verdadeiramente livres para investigar por nós mesmos, para compreender, para analisar independentemente sem temor à censura e sem o castigo das disciplinas.

Os estudantes medrosos, assustados, submetidos a terríveis disciplinas, jamais poderão saber. Jamais poderão ser inteligentes.

Hoje em dia, a única coisa que interessa aos pais de família e aos professores é que os alunos façam uma carreira, que se tornem médicos, advogados, engenheiros, contadores, etc., isto é, autômatos viventes. Que depois se casem e se convertam em máquinas de fazer bebês. Isso é tudo!

Quando um rapaz ou uma moça quer fazer alguma coisa nova, diferente, quando sente a necessidade de sair dessa armadura de preconceitos, hábitos antiquados, regras, tradições familiares, nacionais, etc., os pais de família apertam mais os grilhões da prisão e dizem ao rapaz ou à moça: "não faça isso, não estamos dispostos a te apoiar nisso! Essas coisas são loucuras”, etc., etc.

Total: o rapaz ou a garota ficam formalmente presos no cárcere das disciplinas, tradições, costumes antiquados, idéias decrépitas, etc.

A EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL ensina a conciliar a ordem com a liberdade.

A ordem sem liberdade é tirania. A liberdade sem ordem é anarquia. Liberdade e ordem sabiamente combinadas constituem a base da EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL.

Os alunos devem gozar de perfeita liberdade para averiguar por si mesmos, para inquirir, para descobrir o que há realmente de certo nas coisas e aquilo que podem fazer na vida.

Os alunos e alunas, os soldados e os policiais e em geral todas as pessoas que têm de viver submetidas a rigorosas disciplinas, costumam se tornar cruéis, insensíveis à dor humana, impiedosas...

A disciplina destrói a sensibilidade humana e isto já está totalmente demonstrado pela observação e pela experiência.

Devido a tantas disciplinas e regulamentos, as pessoas desta época perderam totalmente a sensibilidade e se tornaram cruéis e impiedosas.
Para sermos verdadeiramente livres, temos de ser muito sensíveis e humanitários.

Nas escolas, colégios e universidades, se ensina aos estudantes que devem prestar atenção durante a aula, e os alunos e as alunas prestam atenção para evitar a censura, o puxão de orelhas, a batida com a régua, etc. Porém, infelizmente, não se lhes ensina a compreender realmente o que é a atenção consciente.

Por disciplina, o estudante presta atenção e gasta energia criadora muitas vezes de forma inútil.

A energia criadora é o tipo mais sutil de força fabricado pela máquina orgânica.

Nós comemos e bebemos e todos os processos da digestão são, no fundo, processos de sutilização, em que as matérias grosseiras se convertem em matérias e forças úteis. A energia criadora é o tipo de matéria e de força mais sutil elaborado pelo organismo.

Se soubermos prestar atenção conscientemente, poderemos economizar energia criadora. Infelizmente, os professores e professoras não ensinam aos seus discípulos o que é a atenção consciente.

Para onde quer que dirijamos a atenção, gastamos energia criadora. Poderemos economizar essa energia se dividirmos a atenção, se não nos identificarmos com as coisas, com as pessoas ou com as idéias.

Quando nos identificamos com as pessoas, as coisas ou com as idéias, nos esquecemos de nós mesmos e perdemos energia criadora da forma mais lastimável.

É urgente saber que precisamos economizar a energia criadora para despertar a consciência, e que a energia criadora é o potencial vivo, o veículo da consciência, o instrumento para despertar a consciência.

Quando aprendemos a não nos esquecermos de nós mesmos, quando aprendemos a dividir a atenção em sujeito, objeto e lugar, economizamos energia criadora para despertar a consciência.

É preciso aprender a dirigir a atenção para despertar a consciência, mas os alunos e as alunas nada sabem sobre isto porque seus professores e professoras não lhes ensinaram.

Quando aprendemos a usar a atenção conscientemente, a disciplina fica sobrando.

O estudante ou a estudante atento em sua classe, à sua lição, em ordem, não precisa de qualquer espécie de disciplina.

É urgente que os professores compreendam a necessidade de conciliar inteligentemente a ordem e a liberdade, e isto só é possível com a atenção consciente.

A atenção consciente exclui isso que se chama identificação. Quando nos identificamos com as pessoas, com as coisas ou com as idéias, vem a fascinação e esta produz o sonho da consciência.

Há que saber prestar atenção sem se identificar. Quando prestamos atenção em algo ou alguém e nos esquecemos de nós mesmos, o resultado é a fascinação e o sonho da consciência.

Observem cuidadosamente alguém que está vendo um filme no cinema. Encontra-se adormecido. Ignora a tudo e a si mesmo, está oco, parece um sonâmbulo. Sonha com o que vê no filme, com o herói da aventura.

Os alunos e alunas devem prestar atenção nas aulas sem se esquecerem de si mesmos, para não caírem no espantoso sonho da consciência.

O aluno deve ver a si mesmo em cena quando estiver prestando exame ou quando estiver no quadro negro por ordem do professor, quando estiver estudando, descansando ou brincando com seus colegas.

A atenção dividida em três partes: sujeito, objeto e lugar, é de fato atenção consciente.

Quando não cometemos o erro de nos identificar com as pessoas, com as coisas ou com as idéias, economizamos energia criadora e nos precipitamos no despertar da consciência.

Quem quiser despertar a consciência nos mundos superiores, deve começar por despertar aqui e agora.

Quando o estudante comete o erro de se identificar com as pessoas, as coisas ou as idéias, quando comete o erro de se esquecer de si mesmo, cai na fascinação e no sonho.

A disciplina não ensina os estudantes a prestar atenção conscientemente. A disciplina é uma verdadeira prisão para a mente.

Os alunos e alunas devem aprender a dirigir a atenção consciente desde os bancos da escola, para que mais tarde, na vida prática, fora da escola, não cometam o erro de se esquecerem de si mesmos.

O homem que se esquece de si mesmo diante de um insultador, identifica-se com ele, fascina-se e cai no sono da inconsciência. Então, fere ou mata e vai para a prisão inevitavelmente.

Aquele que não se deixa fascinar com o insulto, aquele que não se identifica com ele, aquele que não se esquece de si mesmo, aquele que sabe usar sua atenção conscientemente, seria incapaz de dar valor às palavras do insultador, de feri-lo ou de matá-lo.

Todos os erros que o ser humano comete na vida são devidos a que se esquece de si mesmo, se identifica, fascina-se e cai no sonho.

Melhor seria que para a juventude, para todos os estudantes, se os ensinássemos o despertar da consciência, ao invés de escravizá-los com tantas disciplinas absurdas."
(Samael Aun Weor, Educação Fundamental, cap.IV. "A DISCIPLINA")

É claro que o mestre está se referindo a uma disciplina equivocada, orientada para a repressão dos impulsos e não para a sua compreensão. A disciplina criticada acima é a disciplina para o cultivo da resistência. Mas mesmo a compreensão não surgirá se tentarmos obtê-la por meio de uma disciplina baseada no mero esforço irrefletido e na resistência aos impulsos. Melhor que resistir, é compreender e morrer de fato.

O que enfraquece o poder de um ego é a ação desinfectante da consciência (compreensão) e não o esforço para resistir. O que mata um defeito é o fogo da Mãe Divina e não as resistências. Acreditar que os bloqueios e resistências enfraquecem e matam defeitos é estar equivocado. A ato de resistir a um defeito não o enfraquece, apenas o represa e o faz irromper sob outras formas ou em outros momentos.

Os mestres são unânimes em orientar que não se deve dar passe livre aos desejos e nem permitir que atuem livremente. De fato, o poder da compreensão e observação conscientes, associados ao fogo interior da Mãe Divina, enfraquecem a ação do defeito e não lhe permitem atuar, embora lhe permitam aflorar para que sejam percebidos conscientemente.

A obsessão por virtudes nos lança no pólo contrário. Os obsecados por castidade são os mais fornicários, pois não vêem o sexo com naturalidade. Os obsecados por mansidão são os mais furiosos e iracundos, quando provocados.

Observem que os mestres não estão dizendo para ninguém dar corda ou estimular os defeitos, identificando-se com os mesmos. Tampouco estão recomendando que se fique "curtindo" a sensação de satisfazer o desejo (identificação). Estão unicamente orientando a não perder o tempo com resistências e repressões tolas, porque elas não matam e não eliminam nada.

Creio que essas citações sejam suficientes para convencer os gnósticos fanáticos que sempre acharam que temos que viver reprimindo nossas emoções, desejos e impulsos, ao invés de acompanhá-los conscientemente e sem identificação para compreendê-los em profundidade crescente.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tem alguma pergunta? Faça-a aqui.

Como este blog parece que ficou maluco, pois eu não consigo ativar os comentários em todos os posts, somente em alguns e não sei o motivo, resolvi deixar esta ala reservada somente para as dúvidas dos amigos praticantes.

Se você tiver qualquer dúvida e quiser me interrogar, pode fazê-lo aqui. Peço somente paciência, pois não tenho sempre tempo para entrar aqui e, além disso, não terei resposta para tudo...mas farei todo o possível para ajudar.


Gravar na consciência o cuidado com a mente

É comum que os aspirantes à verdadeira castidade foquem sua atenção no sexo e se esqueçam da mente, assim como é comum que não aceitem suas limitações e exijam de si mesmos a perfeição imediata.

Toda caída sexual, seja através da masturbação, da fornicação com a esposa, com a namorada, com uma amante ou de qualquer outra forma não mencionada aqui, tem como causa a mente. Após uma caída, se refletirmos, poderemos nos dar conta de como estava o funcionamento de nossa mente nos momentos, horas ou dias que a antecederam. Em que pensávamos, sobre o que falávamos e como agíamos? Descobriremos, então, que a caída foi o produto final, a síntese ou resultado de uma soma de atitudes luxuriosas que se somaram e conduziram a excitação até o nível máximo. E no fundo de todas essas atitudes luxuriosas estava a atividade mental.

Focar a atenção no sexo e esquecer da mente é cometer um erro estratégico. Temos que ir à causa, aos motivos, aos fundamentos das caídas e eles estão na mente. Os momentos em que caímos são os momentos em que a mente está obsessionada por imagens, cenas, recordações, fantasias e pensamentos luxuriosos.

Acreditar que se pode deter o sexo e ao mesmo tempo robustecer a atividade mental luxuriosa é ingenuidade, um erro que necessita ser corrigido. Temos que gravar firmemente na consciência que o nosso alvo se encontra na mente e não no sexo. Quando este conhecimento não fica fortemente gravado na consciência, não focamos a atenção onde devemos, a desviamos e não percebemos os processos de intensificação da luxúria até o resultado inevitável da caída. Logo, importa gravarmos firmemente na consciência que nosso alvo está na mente. Temos que priorizar a mente antes de tudo ou nada conseguiremos.

Sucede que, às vezes, acreditamos que estamos focados na mente e vigiando corretamente os pensamentos. Cremos, então, que estamos protegidos e seguros mas, com uma simples distração, perdemos a vigilância, nos abrimos para a luxúria e sofremos invasões.

Se quisermos o êxito, temos que esquecer a luxúria e isso se consegue disciplinando a mente e não tentando submeter o sexo, o qual é um reflexo do estado mental em que vivemos.

Sexo e emoção são coisas que não se submete e nem se reprime: se desenvolve. Se não os desenvolvemos voluntariamente para cima, se desenvolverão para baixo e nos arrastarão.

A luxúria é principalmente imaginativa. Quando pensamos em sexo, imaginamos cenas eróticas/pornográficas, tais pensamentos exercem um efeito sobre o entendimento, tornando-o enviesado, condicionado. Passamos, então, a ver a mulher e o sexo de uma forma específica, condicionada.

Nenhuma pessoa comum possui condições de contemplar cenas luxuriosas, mesmo que esteja avançando na Morte, devido aos efeitos da imaginação sobre o entendimento. O simples ato de ver já ativa a imaginação mecânica morbosa.

Dissolver a luxúria não é esforçar-se para se enquandrar em uma regra de comportamento "decente" ou moralista, é lutar para se tornar forte e independente das forças instintivas que nos levam à ruína e à submissão.

domingo, 13 de março de 2011

Os bloqueios ao Ego e a morte verdadeira

Há uma diferença entre bloquear e enfraquecer. Bloquear algo é barrá-lo, sem necessariamente retirar-lhe ou diminuir-lhe a força. Enfraquecer é retirar a força, despotenciar.

Quando retiramos gradativamente a força de algo, um ser vivo por exemplo, o tornamos cada vez mais inativo. Ao torná-lo inativo, não há necessidade de bloqueá-lo. Não é necessário bloquear aquilo que foi enfraquecido.

Bloquear é represar, como se faz com um rio: coloca-se um dique, mas não se diminui sua força. O dique deve ser cada vez mais reforçado e, à medida que o rio enche, sua força aumenta e a tensão também. Se o homem dispusesse de um meio para retirar a força com que um rio flui, represá-lo tornar-se-ia desnecessário: o rio deixaria de fluir a partir de um determinado ponto. A força que impele o rio é a força da gravidade, pois ele quer descer através do relevo, a água sempre procura as regiões mais baixas. Quando represamos um rio, aumentamos e força com que ele se opõe à barragem ao invés de diminuí-la, pois mais quantidade de água se acumula, pressionando mais. Em uma enchente violenta e anormal, a barragem se rompe, caso não se abram as comportas...

Com o ego, é algo igual. A maioria das pessoas represam desejos que consideram errôneos ou prejudiciais, aumentando sua força progressivamente, até que os mesmos rompam violentamente suas defesas. Esse foi um erro de muitos estudantes gnósticos: confundiram a verdadeira morte do ego com bloqueios de suas manifestações.

Quando enfraquecemos realmente um defeito, não necessitamos bloqueá-lo ou reprimi-lo, pois seus ataques são cada vez mais fracos. Aqueles que estão bloqueando seus desejos são justamente os que os possuem mais vivos e poderosos. Se esses estudantes querem a Morte verdadeira, devem corrigir o erro, aprendendo a enfraquecer o ego progressivamente.

Barrar ou bloquear o Eu é uma forma de auto-engano e de simulação da Morte verdadeira. Quem está barrando não está morrendo, está fingindo para si mesmo e para os demais.

Barrar, bloquear, reprimir, resistir e recalcar os impulsos são uma só coisa. Quem, dentro de nós, reprime os defeitos? Outros defeitos contrários. O bloqueio é um mecanismo do ego para continuar existindo.

Enfraquecer progressivamente os impulsos prejudiciais equivale a começar matá-los para transformá-los em impulsos favoráveis e beneficiantes. Quem, dentro de nós, enfraquece e mata os impulsos egóicos, que são irrefletidos e condicionados? A MÃE DIVINA! Não somos nós que os enfraquecemos e matamos e sim Ela. O indivíduo repressor de si mesmo despreza a Mãe Divina e tenta vencer o Mim Mesmo sozinho, sem recorrer à Força Superior. O resultado é o fracasso e a loucura.

Por que temos tendência de reprimir? Por que acreditamos que isso seja uma forma de enfraquecer e de matar o desejo e porque temos .medo de fortificá-lo caso removamos os bloqueios. Não nos damos conta de que, por tal mecanismo, o fortificamos, do mesmo modo que o fazemos quando nos entregamos ao desenfreio. Temos aprendido a resistir e a reprimir desde a infância, pela religião, pela cultura e pela moral, e agora nos condicionamos a isso.

Há então dois pólos, dois extremos: resistir e satisfazer. Temos que transcender esse par de opostos. Por um lado, identificar-se e satisfazer o Ego o nutre e o fortifica, por outro lado, reprimi-lo o represa até o ponto da explosão.

Remover a repressão não significa cair no desenfreio, na entrega à satisfação. Significa tão somente deixar de opor um desejo a outro desejo. Reprimir ou bloquear é tentar combater um ego com um ego contrário. É por isso que as repressões geram doenças emocionais, como vimos em muitos estudantes de Gnosis. E a culpa não é da Gnosis, mas sim da cultura repressora em que vivemos. Todas as culturas humanas adotam proibições, que não são mais que mecanismos repressores instituídos. A repressão não é algo restrito aos meios religiosos, a encontramos em qualquer grupo de seres humanos.

Quem imagina que remover os bloqueios é entregar-se ao desenfreio da satisfação está equivocado, pois são duas coisas completamente distintas. Não devemos alimentar nenhum dos dois lados, nenhum dos dois pólos. Em um dado momento, temos que eliminar tanto o Eu que resiste e reprime quanto o Eu que quer satisfazer-se. Não devemos tomar partido do Ego, de nenhum lado. Fiquemos fora da polaridade e nos guiemos unicamente pela compreensão.

Em em mecanismo qualquer de repressão, sempre estarão envolvidos dois egos, ou grupos de egos, opostos. Um eu reprime o eu contrário e gera uma tensão interior, que será tanto mais violenta quanto maior for a força empregada na repressão.

O eu que teme os resultados nefastos da fornicação e cobiça as benesses da castidade tenta reprimir o eu que deseja fornicar. Optar por um dos egos não irá resolver. Temos que observar e eliminar ambos. Se satisfazermos o eu repressor, o eu fornicário continuará existindo, ocultamente, e nos atormentando de múltiplas maneiras. Se satisfazermos o eu fornicário, por outro lado, nos tornaremos mais escravos de seus impulsos, ao mesmo tempo em que o eu repressor continuará nos atormentando com sua culpa. Não há felicidade em nenhum dos dois.

Como superar o vício condicionado da repressão? Observando e pedindo pela morte dos elementos psíquicos repressores, bem como dos seus contrários.

Como fazemos para eliminar ambos os pólos? Por meio da conhecida didática de observar e pedir, sem identificação.

Diante de um desejo qualquer, o indicado não é bloqueá-lo e sim nos dissociarmos. Dissociar-se do defeito é separar-se do mesmo, observá-lo de fora, como um elemento estranho. É romper com a identificação. Aí está o segredo.

Ao rompermos com a identificação, não reprimimos e nem tampouco alimentamos o inimigo interior. Como rompemos com a identificação? Primeiramente, nos recordamos de nós mesmos, saindo da fascinação. A fascinação é a forma pela qual os egos nos roubam a consciência. Romper com a fascinação é encontrar o caminho do meio. O caminho do meio, entre ambos os pólos prejudiciais, encontra-se na ruptura com a fascinação. Não fascinar-se é entrar por esta porta.

Entramos pela porta correta quando rompemos com a identificação e passamos a olhar os defeitos de fora, como algo alheio a nós, completamente distintos do Ser. É aí que se encontra a chave para não reprimirmos e nem tampouco fortificarmos.

Então, que se entenda corretamente:

1. Quando nos recordamos de nós mesmos (de nosso verdadeiro Ser, manifestado sob a forma de nossa essência), rompemos com a fascinação;

2. Quando rompemos com a fascinação, rompemos com a identificação;

3. Quando rompemos com a identificação, passamos a ver o defeito de fora, como algo alheio (do mesmo modo como o faríamos com o defeito de uma outra pessoa);

4. Quando vemos nosso defeito como algo alheio, podemos então observá-lo cada vez com mais clareza, compreendendo-o cada vez mais;

5. Ao observarmos os defeitos em ação, percebemos suas facetas, seus detalhes, suas múltiplas formas de agir e de se alimentar;

6. Ao percebermos as facetas, pedimos imediatamente por sua morte à Mãe Divina.

A Mãe Divina é que conclui a tarefa de eliminar um ego.

Um ego jamais eliminará outro. O eu da mansidão não eliminará o eu da ira, o eu da castidade não eliminará o eu da fornicão, os eus gnósticos não eliminarão o homem mundano e inferior que existe dentro de nós. Somente a Mãe Divina pode matar o Ego.

Temos que entender o que é "identificar-se". A palavra "identificar" significa encontrar. Identificar-se com algo é confundir-se com aquilo, é encontrar-se ali. Identificar-se com um ego é considerá-lo como parte de nosso Ser, o que é um erro, uma visão falsa e equivocada, pois o Ego e o Ser são opostos e incompatíveis.

O segredo para não cairmos na repressão e nem tampouco no desenfreio é não nos identificarmos com nenhum dos dois lados.

Se você quiser um alívio na sua alma, deve entrar por esta porta do meio. Não perca tempo fazendo esforços inúteis para reprimir, faça esforços corretos para não se identificar. Separe-se dos seus desejos, pensamentos, movimentos, emoções e instintos e passe a observá-los conscientemente. Contemplação é a verdadeira natureza do Ser. Não tente conter seus impulsos, apenas os observe conscientemente e peça pela Morte. Quanto mais se disciplinar nesse sentido, mais feliz ficará. Busque uma disciplina de ferro nesse sentido.

Em suma, disciplinar-se para resistir aos desejos é diminuir a compreensão dos mesmos. É muito melhor aprender a manter corretamente a atenção pura, livre de qualquer tensão ou preocupação.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Formas de nutrir a luxúria

Você estará nutrindo a luxúria quando:
  • ver películas pornográficas
  • contar piadas pornográficas
  • usar palavras de duplo sentido
  • ficar pensando em lindas mulheres nuas
  • dar asas às fantasias sexuais
  • imaginar-se realizando tudo o que deseja com as mulheres que mais deseja
  • buscar situações que promovam excitação sexual cada vez maior
  • imaginar como seria experimentar práticas sexuais que nunca experimentou
  • imaginar situações em que suas fantasias sexuais fossem satisfeitas
  • manter conversas mórbidas
  • ficar olhando para as bundas e peitos das mulheres
  • tentar ver a calcinha das mulheres por baixo das saias
  • tentar enxergar a silueta corporal delas através de vestidos transparentes
  • lançar cantadas
  • elogiá-las sem necessidade alguma
  • agradá-las sem necessidade alguma
  • contemplá-las
  • ficar lembrando da mulher desejada
  • buscar situações que te deixem sexualmente excitado
Esses são alguns detalhes e correspondem a apenas alguns exemplos de como damos energia ao complexo da luxúria. Há muitíssimos outros mais no cotidiano, que podemos capturar com a auto-observação.

Normalmente, são manifestações inconscientes, isto é, acontecem em baixo do nosso nariz mas não as vemos. Com a auto-observação passamos a vê-las e as descobrimos progressivamente.

Temos que aplicar a morte em marcha em tais manifestações, sem reprimi-las.

Identificá-las e reprimi-as não adiantará nada. Ao invés de reprimi-las, peça pela morte à Mãe Divina e observe os efeitos acontecerem. Você as verá enfraquecendo.

Postem outras formas aqui.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A necessidade de aceitarmos o que somos

A maioria dos aspirantes espiritualistas almejam atingir estados como o do Senhor Gautama, o Budha, ou do Senhor Jesus, o Cristo. Trata-se de uma meta maravilhosa mas que, curiosamente, pode tornar-se prejudicial se for tomada equivocadamente.

Ser alguém como Milarepa, Krishna, Cristo ou Budha é algo maravilhoso. Mas tornar-se obsecado por tal estado, estando ainda com a consciência adormecida e o Ego bem vivo, é criar graves problemas emocionais e psicológicos para si mesmo.

Nosso estado interior encontra-se muito distante dos elevados níveis dos turyas, santos, mahatmas e mestres. Somos mortais do lodo da Terra. Nossas metas devem ser realistas: pular apenas um ou dois degraus da escada, ao invés de ficarmos dolorosamente contemplando os últimos degraus. Após galgarmos nosso degrau imediatamente superior, teremos condições de galgar o próximo e assim por diante, continuamente e sem limite.

Os mestres não nascem do dia para noite, são o resultado de longos e lentos trabalhos de superação gradativa diária de si mesmo. normalmente ao longo de mais de uma existência. Esses estudantes que se torturam emocionalmente porque não conquistaram a maestria e nem mesmo o adeptado em 10 ou 20 anos, estão fora da realidade, alimentam perspectivas irrealistas. Analisemos mais de perto tal equívoco.

As perspectivas irrealistas escondem egos bons, que sentem urgência em avançar espiritualmente e nos torturam por não fazê-lo. Tais egos têm pressa no avanço espiritual, não por amor verdadeiro ao Ser e nem por um desejo intenso de unir-se a Ele, mas porque cobiçam as benesses da consciência desperta. Analisando tais defeitos, poderemos descobrir muito egoísmo disfarçado de impulso espiritual. Tais defeitos almejam uma libertação imediata da fornicação, da gula etc. Embora tais objetivos sejam nobres, legítimos e sublimes, podem se transformar em obstáculo ao crescimento interior, caso se tornam obsessões. Ao se tornarem obsessões, esses Egos rompem completamente com Egos contrários, que almejam a fornicação e a degeneração, e originam doenças emocionais de vários tipos.

Poderíamos denominar tais egos de "imediatistas". São eus de pressa, voltados especificamente à questões espirituais. Confundem-se facilmente com manifestações legítimas da essência e nos mostram que "entre o incenso da prece se esconde o delito" (V.M.S.). Realmente, o delitos se disfarçam de mártir e até se vestem com a túnica do Cristo, com o único propósito de nos fazer estancar espiritualmente.

Por incrível que pareça, há, dentro de nós, ao lado dos eus da luxúria, eus que rejeitam a fornicação e almejam a castidade e todas as demais virtudes. São egos moralistas que querem nos manter dentro dos preceitos do que aprendemos ser moralmente correto, de acordo com a lei do homem ou com a Lei de Deus.

Portanto, em nosso interior os egos formam polaridades: alguns querem nos arrastar para a direita e outros para a esquerda, alguns querem obedecer rigidamente à moral, enquanto outros querem subvertê-la completamente.

Aquele que principia o trabalho da morte pode tornar-se interiormente dividido, cindido, caso se ocupe em eliminar somente os eus imorais e tome partido dos eus moralistas/imediatistas. O imediatismo poderá criar sérios distúrbios emocionais ao estudante que se polarizar, uma vez que sua meta imediatista de tornar-se subitamente um budha jamais se realizará. O conflito entre as possibilidades reais de crescimento e a obsessiva intenção de crescer com urgência originará o distúrbio. Quando a realidade se choca com nossas obsessões, algo ruim sempre nos espera.

Tenho observado que muitos estudantes gnósticos desenvolveram distúrbios psiquiátricos com o passar dos anos e atribuo os mesmos principalmente ao obsessivo imediatismo, embora possam haver também outras causas. Depressão, ansiedade e outros transtornos, em um estudante gnóstico, podem estar relacionadas à uma cisão violenta entre os egos moralistas e os egos imorais. Como resolver? Dissolvendo os egos de ambos os lados.

Seria interessante informar também que o sentimento de culpa não é arrependimento. A culpa possui um referencial egoísta: o temor de sermos prejudicados pelos nossos próprios atos. O arrependimento vai além: quando nos arrependemos, não queremos mais realizar o ato prejudicial.

Entendo que a culpa é um defeito, um ego. Se me sinto culpado após realizar algo errado, isso se deve a crenças que carrego a respeito do caráter delituoso daquilo. Detalhando, esquadrinhando e explorando a culpa, descobrimos que sua natureza não é a mesma do arrependimento e nem do remorso.

Sentir-se culpado é sentir-se responsável por algo prejudicial ou errado. Esse sentimento, embora pareça sublime, é um sentimento inferior, composto por emoções inferiores. Os critérios a respeito do certo e do errado são construções culturais do Eu. Temos que eliminar a culpa, para que o arrependimento verdadeiro tome o seu lugar.

A culpa e o remorso podem se misturar, mas ainda assim são distintos. O remorso é o princípio do arrependimento, enquanto a culpa é algo assim como uma preocupação ou tristeza porque nos sentimos responsáveis por algo prejudicial a nós mesmos ou ao outro. A culpa não é exatamente a vontade de não realizar novamente o ato que reprovamos. Para diferenciar ambos, basta verificarmos o teor real do que sentimos após cometermos um erro: sentimos medo de suas consequências ou vontade de não realizá-lo mais?

Os egos imediatistas podem se vincular estreitamente aos eus de culpa, até mesmo se confundindo com eles. De todas as maneiras, correspondem àquela parte nossa que nos leva a ficar lamentando a perda de tempo e os fracassos, impedindo-nos de arregaçarmos as mangas e nos pormos à ação. Enquanto ficamos nos lamentando e pensando a respeito dos nossos fracassos, erros, perdas ou caídas, perdemos o tempo inutilmente na inércia e deixamos de agir.

O trabalho interior é realizado à base de pura ação, sem sentimentalismos lamentosos que nos estancam e nos atrasam.

Tomada pelo imediatismo, a pessoa não suporta seu estado atual. Ao invés de aceitá-lo em seu cru realismo, tenta desesperadamente evadir-se. Transforma isso em um grave problema emocional e sofre muito. Não aceita sua crua realidade interior, a rejeita por não compreender que a aceitação é o primeiro passo para a transformação. Se não aceitarmos o que realmente somos no atual estágio, se não admitirmos a realidade crua e desagradável do nosso estado interior, jamais podermos transformá-lo. Transformar-se é compreender e compreender é aceitar uma dada realidade que não se aceita e contra a qual erigiu-se muitos muros, defesas e resistências.

Na verdadeira Morte do Ego, retiramos tudo o que nos prejudica, sem piedade, mesmo que se trate de algo com aparência espiritual ou sublime. Não nos orientamos pela moral e nem pelo politicamente correto, nos orientamos unicamente pela compreensão. O trabalho consiste basicamente em vigiar e orar (observar e pedir à Mãe Divina), e não em cultivar sentimentos negativos de culpa, tristeza, derrotismo e fracasso. Se não formos capazes de realizar avanços fenomenais nesta existência, aceitemos os avanços que conseguirmos. O que importa é sempre estarmos melhorando mais, dia após dia. Se certos defeitos graves e reprováveis persistem, não importa. Melhoremos em outros aspectos, enquanto prosseguimos trabalhando sobre os renitentes, de forma disciplinada mas sem pressa. Há defeitos que levam vários anos e até uma vida inteira para serem dissolvidos.

O estudante que avança é aquele que sabe ser altamente disciplinado sem ter pressa alguma, que aceita sua crua realidade e opera sobre ela de forma realista, não fantasiando avanços absurdamente velozes. Aquele que procede assim, verificará que, quando menos espera, já realizou um grande avanço.

Não estou, de modo algum, desculpando os defeitos ou tratando de incentivar a negligência com relação ao mal que trazemos dentro. Estou unicamente chamando a atenção para a necessidade de sermos realistas, não pendendo para os extremos do otimismo e nem do pessimismo. Um otimista inconsciente, extremista, será negligente e fará muito pouco por si mesmo. Um pessimista extremista, será derrotista e igualmente fará muito pouco por si mesmo. Precisamos do equilíbrio, do caminho do meio, da síntese. E a síntese é uma postura realista.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sobre o desapego a este mundo

Temos que alcançar a aceitação das perdas, nos tornarmos dispostos a perder tudo. No final, tudo o que conhecemos deste mundo nos será tirado, não há saída, não há alternativa, além de aprendermos a conviver com essa fatalidade.
A aceitação da perda implica em morrer completamente em si mesmo. Mas não poderemos morrer para este mundo se não chegarmos a compreender que o mesmo é uma ilusão, que não é de modo algum como se nos apresenta.
Isso que chamamos de "meu mundo", meus amigos, minha família, meu emprego, minha amada, meus entes queridos, meus prazeres, minhas diversões enfim, minha vida (horizontal), não passa de um engano, uma ilusão, melhor dito: uma mentira. Mas não compreendemos isso e o tomamos por uma verdade, e é justamente aí que reside o nosso sofrimento. Sofremos porque damos importância ao que não existe, ao que é falso. E lhe damos tal importância porque cremos ser real.
Aquilo que entendemos como sendo nossa vida horizontal é um conjunto de imagens e significados e não coisas em si mesmas. Nossa consciência está aprisionada no mundo relativo das formas e não alcança penetrar na realidade maior. Não somos capazes de perfurar o véu da ilusão para penetrar no mundo verdadeiro. Como consequência, não conhecemos o mundo verdadeiro e, aos primeiros contatos com o mesmo, o tememos. Tememos o desconhecido e nos sentimos à vontade no mundo conhecido, o qual entreanto é falso. Em outras palavras: nos sentimos à vontade no mundo de mentira.
Eliminar os sentimentos de apego à vida e à matéria é importante, mas não é tudo. Há que se desenvolver conscientemente em outras dimensões, adquirir uma vida consciente paralela em outros mundos e ali estabelecer alicerces. Nós, adormecidos humanóides ignorantes do lodo da Terra, estabelecemos nossa base no mundo físico. Amamos a vida física, adoramos o corpo, os prazeres e as sensações. O mundo sensorial é aquele em que nos sentimos familiarizados.
Entretanto, cedo ou tarde seremos arrancados deste mundo sensorial. Então, necessitamos estabelecer bases mais sensatas, no interno.
Os inexperientes e desconhecedores imaginam que o mundo exterior, o sensorial, seja o mundo real e objetivo. Ignoram que não percebem os objetos em si (por ex. seus parentes e amigos), mas sim imagens fabricadas pelos seus cérebros, imagens que correspondem tão somente a uma parcela ínfima do que as coisas são em si mesmas. Em si mesmo, qualquer objeto existente é inacessível, pois seu aspecto absoluto é infinito.
Deste modo, compreender a nulidade deste sistema de coisas é parte fundamental para se adquirir a verdadeira felicidade. Somente o conseguiremos se morrermos muito em nós mesmos e nos desenvolvermos conscientemente na parte espiritual.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Aprendendo a observar-se melhor

Podemos analisar as facetas de um ego após sua manifestação ou podemos observá-lo durante sua manifestação. Ambos trabalhos podem ser complementados, apesar da análise ter sua profundidade em dependência da observação.
No início, a análise de um ego é algo meramente intelectual. Com o aprimoramento da capacidade de meditar, este trabalho ultrapassa as fronteiras do intelecto.
A observação de um defeito ao vivo, em plena manifestação, pode substituir completamente a análise a posteriori quando se aperfeiçoa. Então, não necessitamos, posteriormente, pensar a respeito do defeito, pois todas as suas facetas já foram detectadas.
Compreender um defeito é compreender suas facetas e suas facetas são seus detalhes. É por isso que aqueles que rechaçam a observação dos detalhes fracassam na compreensão. Os detalhes aqui referidos são detalhes do que fazemos, pensamos e sentimos. Se você se observar em pleno delito, verá que esses detalhes são inúmeros e te desconcertam.
Quanto mais o sentido de auto-observação se desenvolve, mais detalhes consegue capturar. A captura de quantidades crescentes de detalhes é o exercício do sentido de auto-observação.
Se, em um determinado ato errôneo (defeituoso, pecaminoso) percebemos conscientemente 15 detalhes ou facetas, por que esperar até a noite para suplicar pela morte dos mesmos? É muito mais efetivo pedir imediatamente. É assim que aprendemos a morrer no cotidiano, o tempo todo.
Resistir aos detalhes, sufocá-los, é uma tolice porque eles não morrem desta maneira. Identificar-se com eles, satisfazê-los, é outra tolice porque eles também não morrem assim. Se for assaltado por um defeito forte, não perca tempo resistindo: separe-se dele, observe-o e peça por sua morte. Você comprovará que ele se enfraquece. Não se sinta sendo aquele desejo, faça esforços apenas para separar-se e observá-lo cada vez com mais clareza. Não faça esforços para imobilizá-lo. Separe-se e deixe-o dançar dentro de você, enquanto você o observa em detalhes e pede por sua morte.
Os defeitos não morrem quando os satisfazemos e nem tampouco quando os sufocamos dentro de nós. Eles somente morrem com o fogo letal da Divina Mãe Kundalini. Peça e Ela agirá, você verá o monstro que se agita dentro de você perder força aos poucos.
Vou dar um exemplo de observação de um ego bem feio. Suponhamos que você goste de ficar espiando sua vizinha pela janela, à noite. Você fica desesperadamente invadido de paixão sexual por ela. Quais são os detalhes que sua observação provavelmente captaria?
Vejamos. Talvez você comprasse um binóculo, este seria um detalhe. Você ficaria acordade até tarde, esperando a hora H, o momento em que ela trocaria de roupa, este seria outro detalhe. Você apagaria as luzes da sua casa para ninguém vê-lo, este seria outro detalhe. Caminharia silenciosamente, para não ser notado, eis outro detalhe. Que outros detalhes haveriam? Talvez você abrisse a janela suavemente, para não chamar a atenção, seu coração batesse mais forte no momento em que ela começasse a tirar a roupa, você perdesse o fõlego, sua respiração poderia mudar o ritmo, tremesse de nervoso, se recordasse de outras mulheres parecidas que você já viu nuas, experimentasse uma emoção com um sabor característico e peculiar, procurasse o melhor ângulo de visão, ficasse bravo e decepcionado se ela não tirasse a roupa ou se suas formas não correspondessem ao que você imaginava...seu pênis ficaria ereto! Tudo isso seriam detalhes deste ego particular. Bem...eu citei alguns detalhes neste exemplo hipotético, mas na prática apareceriam centenas. Quando mais você os descobrisse e pedisse, mais fraco ficaria esse desejo infeliz de espiar sua vizinha.
O avanço na observação dos detalhes requer aprofundamento daquilo que se enxerga, quer dizer, que se enxergue cada vez mais. Quanto mais detalhes enxergarmos, mais clara será a visão que teremos do defeito e mais profunda será a compreensão. O que importa é isso: observar com clareza crescente. É isso o que buscamos com os detalhes: clareza.
Na observação dos detalhes, não há nada depreciável: cada mínimo impulso, movimento, pensamento, sentimento, intenção, recordação, alteração corporal etc. deve ser observado rigorosamente. Dar-se por satisfeito com o que se descobriu equivale a estancar. A compreensão e elástica, quem quiser avançar, deve sempre compreender mais e mais.
Bem...dei um exemplo radical, para melhor entendimento, mas não precisamos chegar a tanto, isso depende do estado em que cada um se encontra. Qualquer pessoa, por pior que seja, pode começar este trabalho e modificar-se totalmente. Não importa se você é um grande pecador ou algo assim, se você se decidir a realizar este trabalho, irá se transformar, virar outra pessoa.
Tenha isso como meta: procure sempre ver mais, mais e mais, procure o novo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Paralisia do sono: uma dica

Ontem, quando fui meditar, tive uma paralisia. Ao invés de tentar me mover, tentei relaxar mais, aquietar mais a minha mente e ficar mais consciente. Tomei a paralisia como um dos sinais de que a meditação estava se aprofundando e tentei aumentá-la. O resultado foi que ela sumiu imediatamente.

Lobsang Rampa afirma que a paralisia é provocada pelo desejo de reverter o processo do sono, o que faz com que a pessoa fique ansiosa e apressada para se movimentar, travando o processo: o sono não aprofunda e não reverte.

A paralisia resulta de um conflito entre o processo corporal do sono, que está avançando, e o desejo da pessoa, que é o de revertê-lo. Ou seja: a pessoa provoca o sono (porque se deita para dormir) e, quando o percebe, fica com medo e quer voltar. Há, portanto, uma contradição: sono X desejo de acordar. Logo, resolvendo esta contradição, resolvemos também o problema.

Pessoas experientes na prática da meditação e da viagem astral não sofrem com a paralisia, pois não desejam reverter o processo natural do sono assim que o percebem conscientemente, ao contrário dos iniciantes e novatos, que se assustam com o mesmo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Aprendendo a concentrar o pensamento

Muitas pessoas se confundem quando querem concentrar o pensamento, não sabem exatamente o que fazer. Outros confundem o ato de concentrar o pensamento com o ato de concentrar a atenção. Tentarei esclarecer esses pontos.

Usamos a voz interior para pensar porque usamos a voz exterior (física ou material) para significar o mundo. Entretanto, existem pensamentos também na ausência da voz (tagarelice) interior. Há pensamentos não tagarelantes e, não obstante, interiormente "sonoros" e interiormente "visuais", que são percebidos pela clariaudiência e clarividência residuais do ser humano. Podemos silenciar o aspecto "tagarelante" dos pensamentos e, ainda assim, continuarmos pensando por meio de representações visuais e auditivas, neste último caso correspondentes a sons distintos da fala humana. A imagem mental de um pássaro cantando, por exemplo, não apresenta tagarelice alguma e, mesmo assim, é um pensamento e contém representações sonoras e visuais.

O pensamento único desenvolvido na concentração não é, necessariamente, tagarelante. Em uma oração concentrada, pode haver uso da fala interior em estágios iniciais do desenvolvimento. Em estágios avançados, essa fala é abandonada.

O pensamento desenvolvido sobre um objeto, sem o recurso da fala interior mecânica, é a mesma imaginação consciente. Se estiver imaginando processos relacionados ao nascer e morrer de uma planta, não necessitaremos da fala, bastando-nos os sons da natureza e as visões dos processos.

Quando se diz que "imaginar é ver", está-se dizendo que, por meio da clarividência, podemos ver claramente e objetivamente as imagens interiores. Tais percepções se dão através dos sentidos internos.

Concentrar o pensamento é mantê-lo, sob a forma de uma corrente prolongada e duradoura, sobre um objeto. Quando nos concentramos, focamos primeiramente a atenção sobre o objeto. Em seguida, passamos a pensar nele e somente nele, não permitindo desvios do pensamento. A função do pensamento passa então a ser direcionada de forma consciente e voluntária.

O pensamento aleatório e disperso é o que se chama de "imaginação mecânica" ou "fantasia". Não nos interessa.

Quando nos concentramos em um objeto, fazemos passar por nossa mente tudo o que está contido nele (sua história, utilidade, constituição, seu futuro etc.). O fluxo contínuo e direcionado do pensamento subtrai a consciência do corpo físico e das exopercepções, desligando-a de tudo o que não seja o objeto e fixando-a em tudo o que seja aquele objeto. Então, conscientemente, pensamos somente naquilo.

Se somente concentrarmos a atenção em um objeto físico sensível e não fizermos mais nada, teremos iniciado o processo de concentração mas não o teremos concluído, pois ainda falta-nos direcionar e desenvolver o pensamento a respeito daquele objeto.

Uma vez que o pensamento esteja bem firme no objeto, podemos até ir mais longe e descartar esse pensamento único. Então cairemos no vazio.

O que é a concentração do pensamento

Concentrar o pensamento é pensar conscientemente em algo, em um tema, sem mesclar o pensamento com outros temas. Este é o pensamento único.

Pensar de forma concentrada é pensar conscientemente. Pensar conscientemente é pensar sabendo-se o que se está pensando e não pensar a esmo. O pensamento único é o pensamento dirigido, voluntariamente conduzido. Não é, necessariamente, o pensamento estático, mas é necessariamente único, dirigido, voluntário e consciente. É o pensamento voluntário que nos tira do corpo físico. Mas não o confundamentos com a simples teorização.

A prática da concentração apresenta dois aspectos distintos, que não foram muito diferenciados pelos V.V.M.M. por falta de perguntas dos discípulos. Um é o aspecto atencional e o outro é o aspecto pensamental ou imaginativo. A imaginação consciente, da qual nos falaram os mestres, corresponde ao segundo aspecto, sendo o próprio pensamento conscientemente dirigido.

O sono não se instala se os pensamentos simplesmente forem bloqueados, o que se instala sob tal condição é o conflito, o qual nos impede de adormecer. Quem quiser aprender a viajar conscientemente para os mundos paralelos, deve aprender a dormir sem permitir que seus pensamentos vaguem a esmo. O controle da função mental (pensamental ou imaginativa), é fundamental e corresponde ao primeiro degrau da escala da iniciação.

Uma coisa é concentrar o pensamento e outra é concentrar a atenção. São duas coisas distintas, apesar de relacionadas. Obviamente, a concentração do pensamento exige concentração da atenção, mas concentrar a atenção não implica, necessariamente, em concentrar o pensamento, visto que podemos concentrar a atenção nos movimentos, em processo externos etc. sem necessariamente pensar a respeito daquilo. Por outro lado, é impossível concentrar o pensamento sem concentrar sobre ele a atenção, pois uma tal tentativa resultaria em dispersão mental. Para que o pensamento seja conscientemente conduzido, necessita-se atenção plena sobre os seus rumos.

O pensamento conscientemente conduzido em torno de um objeto conduz ao sonho lúcido e do sonho lúcido podemos passar à viagem astral, tudo é questão de entrarmos nas regiões oníricas mantendo a consciência. E da viagem astral podemos passar à meditação.

Concentrar-se sem desejar

Concentrar é observar continuamente.

Observar não é esforçar-se. Observar é receber. A receptividade não é desespero, ansiedade, é entrega.

A observação pura, isenta de ansiedade e desejo de observar, tem um sabor, uma qualidade distinta da observação preocupada. Há que se aprender a observação pura, sem mescla alguma de ansiedade, preocupação, esforço ou desejo de observar. A observação pura, uma vez aprendida, pode ser prolongada.

O prolongamento (dharana = manter) da observação prescinde, igualmente, do esforço, da preocupação, do desespero, da ansiedade e do desejo de prolongamento. Na verdade, a observação pura prolongada e o desejo de conseguí-la são antagônicos.

Desejar concentrar-se é sabotar a prática.

Concentrar-se pelo esquecimento

Ao invés de fazer força para prender a atenção no objeto, empenhe-se em esquecer tudo o que não seja o objeto.

A atenção pura, sem interferência do esforço, é conseguida esquecendo-se tudo o que não seja o objeto. Ao esquecermos tudo o que não seja o objeto, somente ele restará no campo de consciência.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Não acreditar-se capaz de conjugar castidade com imaginações morbosas

As caídas (ejaculações) são sinais de que a luxúria invadiu e dominou a mente por algum aspecto.
Mais do que controlar a ejaculação, busquemos eliminar a luxúria. Eliminando a luxúria, as ejaculações desaparecem.
Quando estamos há muitos dias sem ejacular (e portanto cheios de energia) e permitimos que a mente seja invadida pela luxúria (pensamentos morbosos de infinitos tipos), nos esquecemos de tudo o que não seja o objeto sexual do desejo. A única meta passa a ser a satisfação do desejo.
Um importante segredo para não cairmos é este: limpar constantemente a mente de quaisquer traços de luxúria, mesmo após muito tempo (dias, meses ou anos) de castidade. Se, após um certo tempo, nos sentimos fortes e viris e nos acreditamos muito capazes de deter a ejaculação, pode dar-se o infeliz caso de acreditarmos que seremos capazes de "resistir" aos impulsos ejaculatórios da luxúria mesmo se dermos "asas à imaginação" sexual.
Um importante motivo pelo qual os neófitos e adeptos caem sexualmente é a crença de que poderão dar asas à imaginação luxuriosa (pensar em sexo) sem cair ne ejaculação. Trata-se de um erro ao qual são induzidos pelo Ego.
Se houvermos guardado a energia sexual por um certo tempo (horas, dias, meses ou anos, não importa!) e começarmos a dar asas à imaginação luxuriosa, inevitavelmente cairemos na ejaculação novamente, seja pela masturbação, seja pela fornicação.
Se os pensamentos morbosos desapareceram de sua mente, não seja ingênuo: eles poderão voltar a qualquer momento, ainda que tenham sumido há muito tempo. Continue vigiando sua mente.
Não se preocupe tanto com o número de ejaculações que tenha, preocupe-se em limpar a mente, a fala e as ações da luxúria. A castidade virá por acréscimo. De nada adianta tentar forçar a castidade se não se está limpando a mente, o verbo, a palavra, os gestos etc. Tal tentativa resultará em fracassos e neuroses, nada mais, além de muitas ejaculações deprimentes!
A mente é a guarida do desejo. É ali, na mente, que temos que combater o inimigo e vigiá-lo, mesmo que ele pareça já estar morto.
Não pense nas ejaculações que teve e nem se preocupe com elas. Apesar de nefastas, são meras consequências com as quais não vale a pena se ocupar. Esqueça-as. Concentre seu empenho em vigiar a mente. Lamentar-se pelas ejaculações é cultivar eus de sofrimento que mais tarde terão que ser eliminados. É também perder o tempo com o que não interessa: com os resultados indesejáveis. Mais sensato é ocupar-se com as causas do problema.

sábado, 9 de outubro de 2010

A miséria do apego à matéria densa

No evangelho de Maria Madalena está escrito:

"Por isso adoeceis e morreis[...]. Aquele que compreende minhas palavras, que as coloque em prática. A matéria produziu uma paixão sem igual, que se originou de algo contrário à Natureza Divina. A partir daí, todo o corpo se desequilibra."

Os desejos são paixões pela matéria, em suas distintas formas. Os desejos são voltados para aquilo que é exterior, material. Desejamos mulheres, dinheiro, luxo. Desejamos também saúde e bem estar. Tudo isso é paixão pela matéria. A matéria produz em nós uma paixão sem limites, somos apaixonados pelo corpo físico e pelo mundo físico. Acreditamos que a felicidade se encontra na sensorialidade.

Quando sofremos uma imensa dor física, nossa atenção é violentamente forçada a se focar sobre o local da dor. Ali, onde está a atenção, está também o pensamento. Pensamos mil coisas sobre o problema físico, sobre a doença, lesão ou enfermidade. Estamos plenamente focados no sofrimento e não somos capazes de nos dissociarmos dele. Há uma atração forçada da mente, dos pensamentos e da atenção sobre o órgão ou parte do corpo afetada. Quanto mais atenção voltamos ao sofrimento, mais o intensificamos. A intensificação ocorre por nossa identificação com a matéria. E nos identificamos com a matéria porque estamos apaixonados por ela. Os seres humanos amam o mundo material de forma desesperada.

Quando morre um ente querido, nos desesperamos porque conhecemos tão somente sua parte ilusória. Nos apegamos à seu aspecto temporal, perecedouro. Tememos a morte pela mesma razão. Se nos desenvolvêssemos conscientemente em outros mundos, nos universos paralelos, as coisas seriam diferentes. Mas estamos apaixonados por este mundo e não pelo outro. Somos feridos pela morte por causa do materialismo arraigado em nossas almas.

Se não estivéssemos distantes d'Aquilo que é imperecedouro, imutável e eterno em nós, teríamos acesso ao que é imperecedouro, imutável e eterno no outro. O amor transcenderia o espaço e o tempo, a morte seria entendida como reencontro, como retorno ao lar.

O apego ao mundo e o medo de viajar ao Além, durante a meditação e as viagens astrais, bem como o temor da desencarnação originam-se do apego a este mundo sensorial.

Desenvolver-se espiritualmente é, entre outras coisas, dissociar-se da matéria densa e do veículo físico.

A apego à matéria nos leva à identificação com o corpo. A identificação com o corpo nos impele a buscar ardentemente os prazeres sensoriais e a sofrer com a dor física. Quanto mais prazeres buscarmos, mais dores teremos que sofrer como compensação, para restabelecimento do equilíbrio.

O Ego é o anseio pela vida, pelos prazeres dos sentidos. Quando o Ego morre, morre o apego ao mundo.

Apaixonar-se pelo que é perecedouro e finito é prender-se ao sofrimento. Mas somente poderia apaixonar-se pelo aspecto eterno da vida quem realizou o Eterno em si mesmo. O Ser é o sempre, algo que os materialistas nunca entenderão.

O Ser, que é Eterno, poderia eternizar o corpo físico e protegê-lo de todo desequilíbrio, se o Ego, que é paixão pela matéria, não interferisse. Por uma estranha contradição, aqueles que adquirem a imortalidade física são justamente aqueles que se desvincularam emocionalmente da vida material de forma absoluta, por meio da morte do Ego.

Quando Pistis Sophia desce até este Eon, ela se apaixona e sofre terrivelmente. A matéria possui um poder hipnótico.

A matéria a qual este artigo se refere é a matéria física e não a matéria espiritual. A matéria física existe para ser vencida, viemos a este mundo para vencê-lo. Vencer este mundo é vencer as paixões, os inimigos interiores.